O livro de Kells, c. ano 800
Autoria: Monges celtas. Provavelmente na ilha de Iona (Escócia) e finalizado na Abadia de Kells, Irlanda.
340 fólios de pergaminho de vitela com desenhos complexos, letras decoradas, animais mitológicos e cenas bíblicas.
Biblioteca Trinity College, Dublin, Irlanda
“Eu suspeito que a humanidade tenha entrado frequentemente em períodos como o nosso, em que a disciplina do julgamento e a procura do valor intrínseco diminuíram ou desapareceram. Quando isso aconteceu no passado, não ficou, todavia, nenhum registro, pois uma sociedade sem cultura perde a memória e perde também o desejo de se imortalizar em monumentos duradouros. Muito em breve, a barbárie assume o controle e a sociedade é varrida da face da terra. O que é interessante na nossa situação é que temos os meios tecnológicos para sustentar a nossa sociedade para além do momento em que ela poderá perder todo o sentido interno do seu valor e, portanto, perder a capacidade de se sustentar a partir do seu próprio reservatório inerente de fé. Essa é uma situação nova, e nós deveríamos nos perguntar o que poderíamos fazer, em circunstâncias como essas, para garantir a sobrevivência da cultura. Aqueles monges irlandeses que mantiveram acesa a lâmpada do aprendizado durante a Idade das Trevas de nossa civilização tinham uma grande vantagem sobre nós – a saber, que não havia competição de idiotices barulhentas e amplificadas, que tudo ao seu redor era perigo e destruição, e que tão logo eles encontraram refúgio, a paz tranquilamente se apresentou a fim de guiar seus pensamentos, seus sentimentos e suas penas.”
Em: A cultura importa: fé e sentimento em um mundo sitiado, Roger Scruton, tradução de Sérgio Kalle, LVM Editora: 2024





