Uma biblioteca sem livros

15 09 2013

interior-2_wide-a0198747ec52a55b2e37f2207b4a50fa3a3e9829-s40-c85Ilustração da página da NPR.

Uma biblioteca pública totalmente digital abriu nesta semana no Texas. A unidade oferece cerca de 10 mil e-livros gratuitamente para os 1.700.000 moradores do município, que inclui a cidade de  San Antonio. Os  clientes podem acessar eBooks gratuitos e livros de áudio. Para ler um e-book em seu próprio dispositivo, os usuários devem ter o aplicativo 3M Biblioteca-nuvem,  para se conectar com a biblioteca.  O aplicativo inclui uma contagem regressiva de dias que o leitor tem  para terminar um livro — são 14 dias no total.

A biblioteca tem uma presença física, com 600 e-readers e 48 estações de computadores, além de laptops e tablets. As pessoas também podem vir para a hora de contação de histórias para crianças ou para aulas de informática.

O projeto de uma biblioteca sem livros já foi tentado antes.  Talvez, 2002 tenha sido cedo demais, quando a Biblioteca Santa Rosa do Arizona abriu uma filial também só digital.  Mas,  anos mais tarde, os moradores – fatigados pela eletrônica – pediram que livros reais fossem adicionados à coleção, e hoje, desfrutam de uma biblioteca de acesso completo com computadores.

NPR





Ilustrando os entraves para uma boa educação

12 09 2013

amorepsicheEros e Psiquê, 1787-1793

Antonio Canova (Itália, 1757-1822)

Mármore

155 x 168 cm

Museu do Louvre, Paris

A lenda grega de Eros e Psiquê está entre as mais conhecidas por todos aqueles que se dedicam aos estudos humanistas,  das  artes visuais à psicologia. É uma história deliciosa, constantemente  referenciada na pintura, na escultura.  Também serve de pano de fundo ou de base de estudo para a psicologia – Freud, Carl Jung, James Hillman entre outros fizeram uso extensivo do mito para o entendimento do ser humano.

A versão mais difundida dessa lenda é de autoria de Apuleio, autor latino do século II  que escreveu o romance picaresco Metamorfose, ou como é mais popularmente conhecido O asno de ouro. Psiquê e Eros é na verdade uma das histórias contadas no livro de Apuleio, em que um homem, transformado em burro, precisa passar por diversos obstáculos a ele impostos para receber a graça de voltar à forma humana.  Mas sabemos que a lenda de Eros e Psiquê data dos tempos áureos da Grécia antiga.  Há representações desse romance por volta de 400 a.C.  Platão e Plotino entre outros pensadores de longa data também fazem referências à essa história.  Em suma, trata-se de um clássico da cultura ocidental, texto essencial para melhor conhecimento dos princípios humanísticos.

ZEUGMA MOSAICS (1st to 2nd century C.E.) in Gaziantep Museum, Gaziantep, Turkey The winged god Eros (Love) sits on a throne beside his wife Psykhe (Soul), or mother Aphrodite

Eros sentado ao lado de sua esposa Psyquê, séc. I-II d.C.

Mosaicos Zeugma

Museu de Gaziantep, Turquia

De todos os clássicos que li na minha formação como historiadora da arte O asno de ouro foi um dos pude ler sem quaisquer dificuldades de entendimento graças à belíssima tradução de E.F. Kennedy.  Sim, como estudei fora do país, fiz a leitura desse clássico, em inglês, The Golden Ass, na edição Penguin de bolso.  O meu volume, com anotações a lápis, com marcas em tinta amarela para ressaltar partes do texto, está caindo aos pedaços e subsiste preso com um forte elástico que mantém capas e recheio juntos.  Desfazer-me dele?  Nunca.  Este volume tem a história das minhas leituras.  Sendo uma edição de bolso, de custo mínimo, nunca pensei que poderia estar tratando casualmente demais uma obra que pudesse ser um dia tratada como rara. Era e é uma ferramenta de trabalho.

Fiquei escandalizada quando ao preparar minhas notas para a discussão em aula do quadro Primavera, 1478-82, de Sandro Botticelli [acervo da Galleria degli Uffizi, Florença] e procurei nas livrarias cariocas O asno de ouro de Apuleio.  Não existe.  Há no momento duas edições em português que, se interessada, eu poderia encomendar em Portugal.  Há a edição simplificada do romance original titulada: Conto de Amor e Psiquê, que reduz o livro de Apuleio justamente à história que dá nome à esta edição, publicada pela Biblioteca dos Editores Independentes, 128 páginas.  Para essa compra teria que esperar 70 dias para a entrega.  Esta beleza, sem custo de transporte, me custaria R$23,90.  Não gosto de clássicos reduzidos.  Perde-se a beleza do texto, ainda mais quando o texto já é traduzido [nesse caso traduzido do latim]. É como ler as notas chamadas BURRO, notas de resumos de obras clássicas para se dar a impressão se ser mais erudito do que se é.  Essas edições me lembram os anos em que eu estudava piano e no afã de mostrar que fazia progresso, muitas vezes tentei  as  “peças facilitadas” que nunca soaram bem: uma idiotice que não engana ninguém.

goldenassbO asno de ouro, c. 1530

Anônimo

afresco

Salle delle Gesta Rossiane

Rocca dei Rossi,  San Secondo, Itália

Há também a possibilidade de comprar O Burro de Ouro [sic] [Por que trocar o nome de um clássico?  No mundo inteiro a palavra usada é ASNO.]  da editora portuguesa Cotovia, 250 páginas, também levando 70 dias no mínimo para entrega.  Esta beleza leva o preço de R$113,90.  Ou seja, não é só o burro que é de ouro, as letras impressas também devem ser.  R$113,90 equivalem a 17% do salário mínimo brasileiro, sem o custo de transporte de Portugal para o Brasil.

ga30O asno de ouro, 1905

Henry Justice Ford (1860-1941)

Agora vamos a algumas considerações.  Portugal tem 10.000.000 – dez milhões de habitantes, o Brasil tem 198.000.000 – cento e noventa e oito milhões. Portugal tem duas edições do romance de Apuleio. O Brasil tem ZERO. Há algo de errado.  O Brasil tem 19 vezes mais habitantes do que Portugal.  Mesmo que tenhamos uma percentagem pequena que letrados, não se justifica que não tenhamos a possibilidade de acesso a um clássico de importância em diversos campos de estudos universitários, em português.  É inadmissível  que não se possa comprar por um preço razoável esse texto; que não haja uma única editora dedicada ao nicho dos clássicos; é bom lembrar que se trata de uma publicação do século IV, ou seja, em domínio público.  A tradução pode não estar em domínio público, mas quanto custa re-editar, quanto custa o pagamento de uma revisão da tradução já feita?

AWB1895

O rapto de Psiquê, 1883

Adolphe-William Bouguereau (França, 1825-1905)

óleo sobre tela, 209 x 120 cm

Coleção Particular

Porque eu  só tinha acesso ao meu texto em inglês, continuei querendo uma edição em que pudesse colocar as mãos sem ter que ir à Biblioteca Nacional.  Eu queria poder fazer uma citação em português para meus alunos e vendo-me exasperada com os 70 dias de espera e com o preço exorbitante, fui ao portal da Estante Virtual,  e as surpresas continuaram: há muitas publicações na seção infanto-juvenil – as tais facilitadas.  Há uma até na seção de Genealogia (essa eu também não entendi). Mas  só uma única publicação do texto integral à venda nesse consórcio de sebos brasileiros.  É de 1963, da editora Cultrix.  E pasmem: está classificada como LIVRO RARO, e custa a bagatela de R$99,90 + R$4,63 de frete de São Paulo para o Rio de Janeiro. E tem mais, não está lá em boas condições, segue a descrição no portal: Livro com sinais de uso, fitas adesiva na lombada devido a rasgos, manchas no miolo, lombada levemente descolando, manchas no verso da capa e da contracapa, sinais de desgastes, sinal de dobra na lombada, 235p. O livro Asno de Ouro é o único romance a ter sobrevivido inteiro da época do Império Romano, foi escrito em no século II d. C e conta a história de um rapaz chamado Lucius que foi transformado em asno por uma feiticeira. Esse livro serviu como inspiração para muitos autores clássicos como Boccaccio, Cervantes e Shakespeare.[o negrito é meu] Ah, eles também tem uma edição em italiano…

Para ter certeza de que não estava me revoltando sem razão fui a Amazon, onde encontrei um clássico de bolso, edição integral, igual ao meu volume, tradução de E.F. Kennedy,  por USD$ 10.89 [no câmbio de hoje, R$26,00]; encontrei também outras edições, um mundo de opções a preços muito tentadores: uma com a tradução de Sarah Ruden, a USD$ 12.60 [R$30,00], pela Yale University Press; uma edição com tradução do grande Robert Graves, da editora Farrar, Straus and Giroux, a USD $ 11.08 [R$ 26,00]; uma edição da Oxford University Press, tradução de P. G. Walsh ao custo de USD$ 10.45 [R$25,00]; Jack Lindsay é o tradutor na edição da Indiana University Press USD$ 14.40 [35,00];  a edição da Hackett Pub Co, com tradução Joel C. Relihan tem o preço de USD$ 13,30 [R$32,00], isso sem me ater ao livros que eu poderia baixar da internet, para leitura digital.

Cupid and Psyche (1st century, painting, Pompeii)Eros e Psiquê, século I

afresco

Pompéia

São muitas as edições a preços populares encontradas nos Estados Unidos.  Não devemos portanto nos surpreender da preferência que nossos alunos têm pelo uso constante do inglês; nem nos surpreender pelo desenvolvimento na maior parte das áreas de humanas e das ciências do nosso vizinho no norte.  Porque é de detalhes como esse, é da facilidade de se poder acessar informação que se faz uma cultura, que se distribui conhecimento.

Essa experiência demonstra uma das muitas dificuldades encontradas na educação brasileira. É lamentável.  É um exemplo pequenino que ilustra eloqüentemente as razões do nosso constante subdesenvolvimento intelectual.  Se esses volumes de obras clássicas não trazem lucro para as editoras, seria o caso de se abrir uma ONG com o intuito de publicar e distribuir clássicos no Brasil?  De cuidar que eles estivessem sempre nas prateleiras das nossas livrarias para venda?   Não tenho a solução. Tampouco acredito em soluções governamentais porque no Brasil elas não parecem ter continuidade.  Nossa salvação será a Penguin brasileira, talvez.  Mas deixaremos as decisões do que faz a cultura brasileira nas mãos de estrangeiros, mais uma vez. Pena.





Você lê ficção brasileira?

10 09 2013

benoît van innisIlustração de Benoît van Innis.

Na semana passada foi divulgado na imprensa carioca, durante a Bienal do Livro no Rio de Janeiro, que a literatura estrangeira foi o segmento editorial que mais cresceu em vendas no Brasil. 33% de livros vendidos no primeiro semestre deste ano  foram livros de ficção estrangeira.   Isso reflete um crescimento de 42%, sobre o ano passado, enquanto o mercado de vendas de livros de um ano para o outro cresceu muito menos, só 11%.

Os 30 livros de ficção mais vendidos no Brasil representam 36% das vendas. O poder de um best-seller internacional é bem forte, na pesquisa, feita pela companhia multinacional alemã GFK, ficou claro que sem as vendas do livro Cinquenta tons de cinza, da editora Intrínseca, a venda de ficção estrangeira teria vendido muito menos só 23% em vez de 42%.  Não há falta de leitores no país.  Não é uma questão de preço, porque os livros estrangeiros em geral são mais caros porque custam mais (considere-se direitos autorais e de publicação pagos em outra moeda e despesas com tradução).  O problema não é nem falta de leitores, nem falta de dinheiro.  Então, há uma pergunta que se faz necessária:

Por que os autores brasileiros de ficção não conseguem vender tão bem quanto os estrangeiros?

Fonte: Jornal O Globo, 27 de agosto de 2013.





Brasil que lê: fotografia tirada em lugar publico

8 09 2013

???????????????????????????????Na refrescante sombra do Jardim Botânico no Rio de Janeiro, esta senhora lê “Ayuverdic Healing”, na manhã deste domingo.




Imagem de leitura — Iszák Perlmutter

8 09 2013

Iszák Perlmutter, In the Parlour (1907-1910)Na sala, 1907-1910

Iszák Perlmutter (Hungria, 1866-1932)

óleo sobre tela, 115 x 85 cm

Coleção Particular

Iszák Perlmutter nasceu em Budapeste, na Hungria em 1866, de família judia.  Estudou na Gusztáv Magyar Mannheimer e com Bertalan Karlovszky. Foi para Paris, onde por alguns meses estudou na Academia Julian em 1891.  Voltando a Hungria, tornou-se aluno de Sándor Bihari.  Voltou a viajar em 1894.  Depois de retornar a Paris, deslocou-se para a Holanda, onde morou de 1898 a 1904, época em que pintou muitas das paisagens que conhecemos, e também se dedicou à pintura de gênero.  Estabeleceu residência em Szolnok  e mais tarde em Besztercebánya no seu retorno à Hungria. Participou em 1905 da Bienal de Veneza [Esposizione Internazionale d’Arte della Città di Venezia] e de novo da Bienal de Veneza em 1909, 1910, 1914 e 1922. Seus quadros refletem a influência do Impressionismo francês e do surrealismo. Seu auto-retrato encontra-se na Galeria degli Uffizi em Florença. Faleceu em Budapeste em 1932.





Palavras para lembrar — Provérbio árabe

2 09 2013

Olga Lysenko, reading-in-outdoor-cafe, ost, 20x20cmLendo em um café em Paris

Olga Lysenko (Rússia, radicada na Inglaterra)

“Livros, caminhos e dias dão ao homem sabedoria”.

Provérbio árabe





Imagem de leitura — Lucile Blanch

1 09 2013

Lucile BlanchGittel, c, 1940

Lucile Blanch (EUA, 1895-1981)

Lucile Blanch nasceu em Minnesota em 1895, filha da pintora e litógrafa Lucille Linquist. Durante a Primeira Guerra Mundial ela estudou no Minneapolis School of Art com quem seria mais tarde seu marido,  Arnold Blanch. Lá conheceu outros artistas de maior renome tais como Harry Gottlieb e Adolf Dehn. Depois foi para Nova York onde se casou  com Arnold Blanch. Juntos ajudaram a construir a Colônia de Arte em Woodstock, no estado de Nova York. Divorciaram -se em 1935. Lucile Blanch faleceu em 1981.





Imagem de leitura — Nikolai Petrovich Bogdanov-Belsky

19 08 2013

Nikolai Petrovich Bogdanov-Belsky (Russia 1868-Alemanha 1945) mulher lendo no jardim, 1915Mulher lendo no jardim, 1915

Nikolai Petrovich Bogdanov-Belsky (Rússia, 1868-1945)

óleo sobre tela

Nikolai Petrovich Bogdanov-Belsky nasceu em Smolensk Governorate em 1868. Estudou na Academia de Arte Semyon Rachinsky; aprendeu a pintar ícones na Troitse-Sergiyeva Lavra em 1883 e pintura moderna na Escola de Pintura Escultura e Arquitetura de Moscou de 1884 a 1889, indo depois aprimorar sua tecnica em São Petersburgo na Academia Imperial das Artes nos anos de 1894 e 1895. Na década de 1890 foi para a França onde estudou e ateliês particulares.  Especializou-se em pintura de gênero, concentrando-se no retrato de camponeses, retratos e na paisagem no estilo impressionista. Faleceu em Berlim em 1945.





Palavras para lembrar — Thomas Carlyle

17 08 2013

Nello Iovene, (Itália, 1935) O estudante, 1970,50 x 60O estudante, 1970

Nello Iovene (Itália, 1935)

óleo sobre tela, 50 x 60 cm

“A melhor universidade é uma boa coleção de livros”.

Thomas Carlyle





Belos livros em miniatura

15 08 2013

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Bíblia da Infância, miniatura e versão resumida da Bíblia eram uma maneira popular de apresentar os ensinos cristãos às crianças. Este exemplo é de 1815 em francês e contém 48 gravuras coloridas a mão.

Para mais informações, visite www.mbs.org

Ontem como era dia de aula, e a primeira deste semestre, achei que iria fazer uma postagem rápida, (uma coisa assim bonita e interessante, mas que não precisasse de muito pensar).  E me lembrei dessas miniaturas que havia visto no jornal inglês The Telegraph.  Mas mesmo essa postagem “fácil” levou mais tempo do que eu imaginava,  Assim volto hoje com essa pequena coleção.  As legendas são a tradução das legendas no jornal inglês.  Divirtam-se são lindas.

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Meu pequeno alfabeto, quando este ABC foi publicado no século XIX foi o menor  livro até então publicado a cores.  Dividido em duas partes “O pequeno alfabeto de animais” e “O pequeno alfabeto de Pássaros”.

Foto: Steve Adams Studio/Julian Edison

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Preces ouvidas, o menor manuscrito renascentista em existência é um livro de preces em latim que inclui 17 pinturas de santos, evangelistas e apóstolos, inclusive uma pintura bem delicada da Virgem Maria.

Foto: Steve Adams Studio/Julian Edison

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O almanaque de Londres: este almanaque de 1736 era um de uma série impressa de meados do século XVII ao século XX. Almanaques vinham cheios de boas informações: datas, estatísticas e mapas. Você pode considerá-los Proto-IPhones…

Foto: Steve Adams Studio/Julian Edison

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O livro de ouro de Ana Bolena, tudo indica que Ana Bolena usou esse livro de salmos em miniatura, que mostra um retrato de Henrique VIII,  dedicado a uma de suas damas da corte, quando em 1536 ela se encontrava no cadafalso. Este livro pertence à Biblioteca Britânica.

Picture: Steve Adams Studio/Julian Edison

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Atlas do Império Britânico, publicado por volta de 1928, é cópia do original encontrado na Biblioteca da Casa de Bonecas da Rainha Mary no Castelo de Windsor.

Foto: Steve Adams Studio/Julian Edison

Para mais fotos de livros em miniatura ver: The Telegraph