Palavras para lembrar — Fénelon

23 10 2011

Periquito, s/d

John Michael Carter (EUA, contemporâneo)

óleo sobre tela, 75 x 75cm

“A leitura deve ser para o espírito, como o alimento para o corpo, moderada, saudável e digerível.”

Fénelon





O mutável mundo da literatura

23 10 2011

Em um barco, 1888

[Retrato da artista Maria Yakunchikova  e auto-retrato]

Konstantin Korovin (Rússia, 1861 —  França, 1939)

óleo sobre tela

Galeria Tretyakov, Moscou.

Muito assunto interessante foi ventilado no excelente artigo sobre a indústria do livro, no blog Roundtable, da revista literária Lapham’s Quarterly. Curtis White pondera sobre o que frequentemente esquecemos: a literatura é mutável.  Ela é tão viva quanto são vivas as indústrias de que depende.  Livrarias, editoras, críticos e mais recentemente as publicações de massa são todas entidades em constante mutação.  E no centro dessas forças mutantes está a disputa pelo poder de determinar o que se considera literatura.  O resultado depende de quem é a autoridade do momento.   Há algum tempo atrás eram os donos das editoras e de livrarias que definiam o que era literatura.   Hoje, estamos vendo a luta entre grandes grupos de leitores, clubes de leitura na televisão, por exemplo, que discutem livros através da mídia e as equipes de marketing das casas editoriais.

No passado podia até ser diferente.  Curtis White lembra que no século XIX havia pouca diferença entre o editor e a livraria.  Muitas vezes os editores arriscavam seus próprios pescoços – o perigo de processo e prisão podia rondar as casas editoriais.  Mas era comum que livrarias vendessem os livros que elas mesmas publicassem o que tornava a casa editorial um negócio que vivia do marketing direto.   Precedendo as “noites de autógrafos”, hoje populares em qualquer canto do mundo, o famoso editor John Murray, que correu sérios riscos ao publicar a poesia de Lord Byron, estabeleceu em sua livraria/casa editorial,  o programa Às quatro com amigos quando leitores poderiam ir tomar chá com o autor.

Terraço, 2007

Evert Thielen (Holanda, 1954)

têmpera sobre madeira, 40 x 50 cm

www.evertthielen.com

Essa conexão de livrarias com seus leitores continuou, apesar de estar morrendo, até os dias de hoje – mas só com as pequenas livrarias.   Nos anos 50 a 70 ainda havia nos Estados Unidos muitas livrarias que se orgulhavam do serviço que prestavam aos seus clientes.   Apesar da fácil acessibilidade a títulos de qualquer editora — realmente o sistema de distribuição nos Estados Unidos é extraordinário – as livrarias pequenas, independentes americanas passaram a oferecer exatamente o que as grandes livrarias em cadeia ofereciam, com pouquíssimas exceções.  No final dos anos 90 praticamente só as grandes cadeias de livrarias compravam títulos de editoras de pequeno ou médio porte.

Para Curtis White a desmoralização do serviço que livrarias prestavam aos seus clientes vem de ter-se mantido, nos EUA, um modelo baseado na década de 1930, que não funciona mais nos dias de hoje:  a consignação.  Esse modelo se baseava em representantes das editoras – pessoas que não liam e que não entendiam nada sobre os livros que vendiam –  que iam de livraria em livraria colocando livros em consignação, como se livros fossem mercadoria que estivesse enchendo armazéns e de quem alguém precisasse se desfazer colocando à venda em qualquer lugar.  As livrarias, por sua vez, aceitavam esses livros como se estivessem adquirindo decoração para suas lojas, para que afinal se parecessem livrarias.   Pois o que interessava mesmo eram os livros que tinham vendas garantidas tais como memórias de celebridades, confissões de políticos que estavam no ocaso de uma carreira política, livros óbvios de auto-ajuda,  que eram colocados nas mesas de maior evidência na entrada desses estabelecimentos.

Meninas lendo, 1965

Norman Neasom (Inglaterra, 1915-2010)

aquarela

O grande problema do sistema de consignação como foi instituído é que permite que as livrarias,  sem gastar um centavo, tenham acesso a novos livros, novos títulos e retornem todos os livros que a editora mandou meses atrás, sem que haja ou que tenham tido qualquer interesse, ou feito qualquer esforço para que a venda desses livros se concretizasse.   Essas livrarias não conseguem vender os livros porque ninguém trabalhando nelas lê ou se dá ao trabalho de ler esses livros.  Tornou-se consequentemente um círculo vicioso.

Mas agora, as coisas ainda estão piores, como escritores e poetas independentes descobriram.  Nos últimos dez anos, para todos nós que nos acostumamos com o auxílio do computador, o ato de comprar um livro está cada vez mais dependente da oferta eletrônica da Amazon, do Google e talvez da Barnes & Noble.

Especialistas – no caso John O’Brien , editor  – consideram que o maior perigo para a indústria editorial nos EUA está na Amazon.  A companhia virtual está agora tomando o lugar de distribuidora e editora e não há casa editorial que possa competir com isso.   John O´Brien esá convencido que a Amazon procura o controle da publicação e da distribuição, o que para ele seria uma horrenda perspectiva já que a companhia teria o poder de determinar o que pode ser publicado e em que termos.   Quando isso acontecer eles poderão estipular o preço dos livros e estabelecer aqueles que se tornarão best-sellers.   Ao que tudo indica, eles poderão fazer isso porque parece que serão – no futuro, talvez até no futuro próximo — a única companhia no mercado.  As grandes casas editoriais dos Estados Unidos  estão por sua vez acreditando que o futuro está incerto já que tudo leva a crer que só duas companhias estarão no mercado editorial: Amazon e Google.   A possibilidade de falência para todas as outras é real.

Sob os eucaliptos, s/d

Claude Fossoux (França, 1946)

óleo sobre tela, 60 x 73 cm

A maior nota de precaução fica com a seleção que a Amazon e até a Google venham a fazer sobre o que publicar.  Apesar de Curtis White prever um futuro desastroso para as publicações literárias – de literatura como a conhecemos, sem necessariamente ser um sucesso financeiro – eu acredito que alguma solução que ainda não conhecemos virá ao nosso encontro, uma outra maneira de se publicar aquilo que pode não ser lucrativo.  Basta haver um problema para podermos pensar num caminho para a solução.  Os seres humanos continuarão a escrever.  A escrever tanto a prosa ou poesia comerciais quanto aquelas que podem até ter maior significado mas que não teriam apelo financeiro para o grande público.  Isso não vai mudar.  Os seres humanos continuarão a ser criativos.  Tanto os escritores quanto os homens de negócios. E alguma solução, alguma nova maneira de conduzirmos o comércio da literatura virá a aparecer.  Afinal como Curtis White mencionou no início, muitas foram as mutações da literatura.

©Ladyce West, 2011





Imagem de leitura — José Villegas Cordero

22 10 2011

Retrato de Miss Elliott, 1892

José Villegas Cordero (Espanha, 1844-1921)

Óleo sobre tela, 101 x 127cm

Coleção Particular

 –

José Villegas Cordero nasceu em Sevilha em 1844.  Começou a aprender pintura bem cedo com o pintor José Maria Romero.  Estudou com ele até ingressar na Escola de Belas Artes de onde se forma. Em 1867 começaram diversos períodos de viagens: Madri, Marrocos, Roma, retornando à Espanha, voltando ao norte da África, à Itália até 1877, quando passou a residir por longos períodos em Veneza.  Em 1898 tornou-se diretor da Academia Espanhola de Belas Artes em Roma e em 1901 diretor do Museu do Prado em Madri, onde viveu até falecer em 1921.





Palavras para lembrar — Cervantes

22 10 2011

Esperando pela praia, s/d

Suzanne Clements (EUA, contemporânea)

acrílica sobre tela 35 x 45 cm

www.suzanneclements.com

“Ver muito e ler muito aviva o engenho do homem.”

Cervantes





Quadrinha infantil de um bom livro

22 10 2011

Chico Bento lê à noite.  Ilustração Maurício de Sousa.

Nas páginas de um bom livro,

Há mais luz e ensinamento

Do que em todas as estrelas

Que brilham no firmamento.

(Walter Nieble de Freitas)





Imagem de leitura — Rita Valnere

21 10 2011

No trem, 1959

Rita Valnere ( Letônia, 1929)

óleo sobre tela, 100 x 120cm

Rita Valnere nasceu na Letônia em 1929.  Estudou arte na Escola de Arte Janis Rozental em Riga, formando-se em 1949.  Depois extendeu seus estudos  no Departamento de Pintura da Academia de Artes da Letônia sob os cuidados do pintor E. Kalnins.  Tem tido uma carreira auspiciosa desde então com numeorsas exposições dentro e fora do país assim como prêmios.





Imagem de leitura — Eugen Spiro

20 10 2011

Susie, Kate e Lotte, 1910

Eugen Spiro ( Alemanha, 1874- EUA 1972)

óleo

Museu de Arte de Tel Avive

Eugen Spiro nasceu em Breslau na Alemanha  em 1874.  Estudou em Breslau com Albrecht Bräuer e mais tarde foi a Munique para estudar com Franz von Stuck. Como pintor ficou famoso por seus retratos de personalidades  importantes na Europa.  Depois de 1906 vai para Paris onde se torna membro do grupo de artistas do Café Parisiense do Dôme.  Em 1914 volta para Berlim, onde fica até 1933. Proibido de trabalhar na Alemanha de Hitler por sua ascendência judia, Eugen Spiro emigra para Paris em 1935.   Fugindo mais uma vez do avanço das forças de Hitler, Spiro mais uma vez emigra, dessa feita para os EUA, onde permanece até sua morte em 1972.

 





Não à censura de Monteiro Lobato nas escolas — parte VI e última de textos de Gilberto Freyre

18 10 2011

Cascão coleciona revistas em quadrinhos, ilustração Maurício de Sousa.

Reproduzo aqui, a sexta parte de  uma coletânea de seis textos de Gilberto Freyre, escritos entre 1948 e 1951  para a revista O Cruzeiro, em que o sociólogo esclarece alguns pontos sobre a censura.

Nacionalismo e internacionalismo nas histórias em quadrinhos

(parte VI)   –    Gilberto Freyre

Deste mesmo recanto modesto de página 10 de O Cruzeiro já tive ocasião de referir-me à chamada “história em quadrinhos” como forma moderna de literatura ou arte: uma literatura ou arte cujo mal – o de conteúdo ou substância – não deve ser confundido levianamente com a forma.

A forma tanto pode se prestar a fins educativos como deseducativos.   Correspondendo a um gosto moderno de síntese, tanto da parte de um público infantil como do adulto, deve ser aproveitada pelos educadores e moralistas e não apenas abandonada aos exploradores da vulgaridade ou da sensação.

Em vez de assim procederem, que fazem alguns educadores e moralistas?  Investem contra a história de quadrinhos como os caturras de outrora investiram contra os principais  cinemas, os primeiros rádios.  Até que ficou evidente que jornal, cinema, rádio, tanto se podiam prestar a fins educativos como deseducativos.  Que os próprios padres ou sacerdotes podiam utilizar-se do jornal, do cinema, do rádio para a propaganda da fé e da moral cristã.  Que jornal ou imprensa não queria necessariamente dizer perigo para a ordem estabelecida ou a ortodoxia dominante, mas, ao contrário, podia ser posta a seu serviço.  Que cinema não queria necessariamente dizer a moça quase nua fazendo pecar os adolescentes, homem beijando  escandalosamente mulher, ladrão arrombando cofre, mas, ao contrário, podia ser posto ao serviço da ciência, da história clássica e da própria religião.   Que o rádio não queria necessariamente dizer maior divulgação de samba, de anedota picante, de canção obscena, mas também de música clássica e da própria música de igreja.

Ilustração Walt Disney.

A “história em quadrinhos” está na mesma situação. Também ela pode tornar-se instrumento de divulgação de vidas de heróis, de santos, de sábios, de façanhas de vaqueiros do Nordeste e de gaúchos do Rio Grande do Sul e não apenas as aventuras de gangsters e de cowboys.

Também ela pode tornar-se, para os brasileiros, fonte de conservação de tradições nacionais, em vez de superação dessas tradições por mitos de povos imperiais sem que, entretanto, o justo zelo degenere em “nossismo” intolerante.  “Nossismo” doentio que não admita história com Papai Noel, mas só com Vovô Índio; nem biografia que exalte  Marconi, mas que só glorifique Santos Dumont; nem canto onde apareça lobo ou olmo, mas só onde brilhe a ramagem do cajueiro ou arreganhe a dentuça da suçuarana.

Compreende-se a campanha de nacionalização da história de quadrinhos inciada vigorosamente pelo jornalista Homero Homem.  Mas seria uma lástima que a mística da nacionalização nos levasse aqueles exageros.  E nos fechasse, nas nossas revistas e jornais, às histórias de quadrinhos que não falassem em índio, cajueiro, vaqueiro do Nordeste, suçuarana, pitanga, Caxias, Santos Dumont.

Atualmente, o extremo que domina nas histórias de quadrinhos publicadas nos nossos jornais é o de quase exclusiva americanidade  de motivos, símbolos e personagens.  Devemos reagir contra essa exclusividade lamentável.  Mas não ao ponto de nos fecharmos dentro de motivos, símbolos e personagens exclusivamente brasileiros.  Apenas escolhendo para publicação, histórias, tanto brasileiras quanto estrangeiras, mais capazes de deleitar o público, sem corromper-lhe o gosto.  Pois não nos esqueçamos de que vivemos num mundo que é, cada dia mais, um mundo só, dentro do qual o Brasil deve ser o Brasil sem deixar de ser fraternalmente humano e cordialmente americano.

Em: Pessoas, coisas e animais, de Gilberto Freyre, — ensaios e artigos reunidos e apresentados por Edson Nery da Fonseca,  São Paulo, edição especial MPM Casablanca-Propaganda: 1979.





Não à censura de Monteiro Lobato nas escolas — parte V de textos de Gilberto Freyre

17 10 2011

Reproduzo aqui, a quinta parte de  uma coletânea de seis textos de Gilberto Freyre, escritos entre 1948 e 1951  para a revista O Cruzeiro, em que o sociólogo esclarece alguns pontos sobre a censura.

Nacionalismo e internacionalismo nas histórias em quadrinhos

(parte V)   –    Gilberto Freyre

Ainda as histórias em quadrinhos.  Também na Inglaterra houve quem se levantasse contra elas considerando-as ianquismo ou americanismo da pior espécie.  Engano.  É apenas um modernismo que corresponde à época que atravessamos.  E que tanto pode ser utilizado no bom como no mau sentido.

O Reverendo Morris – segundo a revista brasileira que acaba de divulgar suas opiniões publicadas em “The Manchester Guardian”  — é o que inteligentemente acentua: “Os pais deveriam deixar de insistir numa censura negativa; ao invés disso, deveriam demonstrar um interesse positivo pelo que lêem seus filhos.  Deveriam escolher histórias em quadrinhos, nas quais os temas das narrativas são elevados, além disso, onde nem todos os vilões são estrangeiros…”

Exatamente o critério que defendi há três ou quatro anos na Comissão de Educação e Cultura da Câmara e neste meu recanto de “O Cruzeiro”.  Recebi, então, cartas terríveis.  Uma delas insinuava que eu estaria a serviço de alguma empresa ianque de histórias em quadrinhos.  Serviço encapuçado, mas serviço.

Outra coincidência de opinião do Rev. Morris com as idéias que esbocei em 1949: “A violência e a aventura existem na Bíblia. Em Shakespeare, em Sir Walter Scott e em Stevenson, em não menor grau do que nas histórias em quadrinhos americanas e nas historias Vitorianas de demônios e vampiros”.  O que é fácil, facílimo verificar.

Também a revista brasileira, que divulga as palavras sensatamente britânicas do Rev. Morris, reproduz sobre o assunto a opinião de uma Professora de Psiquiatria de Universidade norte-americana: a Dra. Bender. “Do ponto de vista psicológico” – diz ela – “as histórias em quadrinhos constituem uma grande experiência de atividade.  Seus heróis vencem o espaço e o tempo, o que dá às crianças senso de libertação, ao contrário de angústia e de medo”.  E ainda: “o uso de símbolos utilizados nas histórias em quadrinhos ajuda até mesmo os adultos a ajustar sua personalidade às duras provas do mundo contemporâneo”.

O que é preciso é que não se abandone um modernismo das possibilidades da história em quadrinhos aos maus exploradores desse e de outros modernismos.  E no Brasil, felizmente, começa a haver uma boa, não sei se diga, literatura, desse gênero.

Em: Pessoas, coisas e animais, de Gilberto Freyre, — ensaios e artigos reunidos e apresentados por Edson Nery da Fonseca,  São Paulo, edição especial MPM Casablanca-Propaganda: 1979.





Imagem de leitura — Emma Irlam Briggs

16 10 2011


Um livro na hora de dormir, s/d

Emma Irlam Briggs (Inglaterra,1890-1951)

òleo sobre tela,  60 x 90cm

Nenhuma informação biográfica sobre a pintora, além do postado aqui.