Memória, texto de Francisco Azevedo

23 03 2019

 

 

 

Joel Oliveira - quadro óleo sobre tela 20x30cm LeituraLeitura

Joel Oliveira (Brasil, contemporâneo)

óleo sobre tela, 20 x 30 cm

 

 

 

“Se me perguntarem, não sei dizer o que comi ontem no almoço. Mas sou capaz de reproduzir diálogos inteiros da minha juventude. Gozado, isso. Vai entender. Memórias antigas? Nítidas, perfeitas, cheias de mínimos detalhes, cheiros e sons até. Fatos recentes? Coitados. Vão se segurando em mim, como podem. Parecem aqueles personagens de cinema, caras de terror, agarrados no alto do edifício só pelas pontinhas dos dedos. Quase todos despencam. E pior: diante do olhar de alguém que os vê de cima sem um pingo de misericórdia. Uma coisa ou outra fica, é verdade. Meio desbotada, imprecisa, extremamente grata à mão do cérebro que a resgata. Nenhum critério de seleção. A bobagem, o cérebro retém. O notável, ele descarta. O recado é direto: chega de colecionar lembrancinhas da viagem terrena. Fazer o que com toda tralha? Além do mais, com o correr ou o arrastar dos anos, não há fortuna que pague tal excesso de bagagem. Entendo perfeitamente os argumentos. Aceito sem queixumes. Só levo comigo o que a alfândega da mente deixa passar.”

 

Em: Eusoueles [fragmentos], Francisco Azevedo, Rio de Janeiro, Editora Record: 2018, p. 127.





Indiferença, poesia de Guilherme de Almeida

21 02 2019

 

 

 

95ebef1a8428ae23f80bdbcb6b241453Ilustração de Coby Whitmore

 

 

Indiferença

 

Guilherme de Almeida

 

Hoje, voltas-me o rosto, se ao teu lado
passo. E eu, baixo os meus olhos se te avisto.
E assim fazemos, como se com isto,
pudéssemos varrer nosso passado.

Passo esquecido de te olhar, coitado!
Vais, coitada, esquecida de que existo.
Como se nunca me tivesses visto,
como se eu sempre não te houvesse amado

Mas, se às vezes, sem querer nos entrevemos,
se quando passo, teu olhar me alcança
se meus olhos te alcançam quando vais.

Ah! Só Deus sabe! Só nós dois sabemos.
Volta-nos sempre a pálida lembrança.
Daqueles tempos que não voltam mais!





Peço um conto e levo todos!

16 12 2018

 

 

 

Vladimir Volegov Finished pantingFrench swing, 92x73 cm, oil on canvas, 2014Balanço francês, 2014

Vladimir Volegov (Rússia, 1957)

óleo sobre tela, 92 x 73 cm

 

Quando vi que foi lançada uma antologia de contos de autores brasileiros contemporâneos e que um dos meu escritores favoritos, Ronaldo Wrobel, havia sido incluído neste volume, corri a procurar o conto.

Descobri que podemos adquirir os contos individualmente ou comprar o volume com 30 contos na Amazon.  O livro é digital e publicado pela Amazon.  Não tive dúvidas e comprei o conto “A história de Joseph Koppel” de Wrobel.

A história tem dois locais Brasil e Alemanha da Segunda Guerra Mundial.  Lá ela se desenvolve entre esconderijos e fugas do judeu Joseph Koppel, que se torna um faz-tudo com diversas profissões. Fugindo dos nazista, ele encontra abrigos variados.  Em uma fuga é resgatado por uma mulher por quem se apaixona. Chama-se Louise.  E ela lhe dá abrigo na casa em que mora numa pequena aldeia povoada só por mulheres: os homens, quatro deles, eram velhos ou crianças.  Isso torna difícil convencer o militar alemão que a cortejava a aceitar a eventual gravidez de Louise.  Como?  De quem?  A paixão entre Louise e Joseph deixara provas concretas na barriga de três meses que ela tentava esconder.  A partir daí a narrativa se acelera.  E em típica criação de Wrobel, quando a gente pensa que vai indo para um lado… somos enganados e levados para outro.  Como pode alguém com tão poucas palavras nos iludir tão bem? É mágica!  O final desta história, contada por Joseph,  que emigrou para o Brasil e se estabeleceu no bairro do Catumbi, no Rio de Janeiro, tinha que ser surpreendente. E é.

Gostei tanto deste conto que, depois de terminá-lo, verifiquei os autores presentes na coletânea.  E como alguns também me agradam, vou comprar a Coleção Identidades.  Está valendo a pena!





Palavras para lembrar — Aluísio de Azevedo

6 12 2018

 

 

István Nagy (Hungria, 1873-1937), O leitorO leitor

István Nagy (Hungria, 1873 – 1937)

óleo sobre tela

 

“Tudo mais, que aprendemos de ouvido ou que aprendemos nos livros, se evapora com o tempo e desaparece; só essas lições, que nos entraram pelos olhos e nos espalharam n’alma as suas raízes, só essas conservaremos por toda a vida e levaremos conosco para a sepultura.”

 

Aluísio de Azevedo





Desejos, Mário Quintana

4 12 2018

 

 

astros, blanche wrightAstros, ilustração de Blanche Wright.

 

 

“Se as coisas são inatingíveis… ora!

Não é motivo para não querê-las…

Que tristes os caminhos, se não fora

A presença distante das estrelas!”

 

Mário Quintana.





Minutos de sabedoria: Aluísio de Azevedo

22 11 2018

 

 

Daniela Astone (Itália, 1980) Forma e luzForma e luz, 2013

 

Daniela Astone (Itália, 1980)

óleo sobre tela, 70 x 60 cm

“E que mais é o nosso viver nesta espécie de mundo, senão uma ilusão entre dois nadas: o presente e o futuro? Dois nadas insondáveis e obscuros que fecham uma hipótese, chamada presente. Ontem saudades nebulosas; hoje mentiras e esterilidades; amanhã sonhos mal contornados. Eis a vida!”

 

Aluísio de Azevedo

 

aluisio-azevedo.detailAluísio de Azevedo (1857-1913)




Palavras para lembrar: Aluísio de Azevedo

8 11 2018

 

 

Elena Samokysh-Sudovskaya.Elena Petrovna Samokish-Sudkovskaya (1863-1924) RussieLeitura

Elena Petrovna Samokish-Sudkovskaya (Rússia, 1863-1924)

Aquarela

 

“É que seu gênio retraído e seco dava-se maravilhosamente com esses amigos submissos e generosos – os livros; esses faladores discretos, que podemos interromper à vontade e com os quais nos é permitido conversar dias inteiros, sem termos aliás obrigação de dar uma palavra.”

 

Aluísio de Azevedo





“Coração”, poesia de Guilherme de Almeida

11 09 2018

 

 

castelo de cartas, jb longCastelo de cartas, ilustração de H. B. Long.

 

 

 

Coração

 

Guilherme de Almeida

 

 

Lembrança, quanta lembrança
Dos tempos que já lá vão!
Minha vida de criança,
Minha bolha de sabão!

Infância, que sorte cega,
Que ventania cruel,
Que enxurrada te carrega,
Meu barquinho de papel?

Como vais, como te apartas,
E que sozinho que estou!
Ó meu castelo de cartas,
Quem foi que te derrubou?

Tudo muda, tudo passa
Neste mundo de ilusão;
Vai para o céu a fumaça,
Fica na terra o carvão.

Mas sempre, sem que te iludas,
Cantando num mesmo tom,
Só tu, coração, não mudas,
Porque és puro e porque és bom!





“Guardar”, poema de Antonio Cícero

12 07 2018

 

 

Illustration by Pierre BrissaudIlustração de Pierre Brissaud.

 

 

 

Guardar

 

Antonio Cícero

 

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.

Em cofre não se guarda coisa alguma.

Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por

admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por

ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,

isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro

Do que um pássaro sem voos.

por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,

Por isso se declara e declama um poema:

Para guardá-lo:

Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:

Guarde o que quer que guarda um poema:

Por isso o lance do poema:

Por guardar-se o que se quer guardar.

 

 

Em: Guardar: poemas escolhidos. Rio de Janeiro: Record, 2008, página 11

 





Convite, poema de Alfredo de Souza

12 05 2018

 

 

 

joseph_caraud_a2889_the_love_birdsDois pombinhos, 1897

Joseph Caraud (França, 1821-1905)

óleo sobre tela, 60 x 45 cm

 

 

 

Convite

 

Alfredo de Souza

 

Vem, sem demora, ver estes pombinhos

Que se beijam tão ternos, venturosos,

Deixando muito tempo os seus biquinhos

Colados em transportes amorosos;

 

Vem — mirar como fazem seus carinhos;

Ora arrulando em cantos maviosos,

Ora as asas batendo para os ninhos

— Ninhos plenos de odor, ninhos ditosos.

 

E já que tu sentiste quanto é bela

Essa cena que vimos, dando ensejo

De imitá-la por dentro da janela…

 

Resta apenas dizer-te, ó minha flor,

Que colemos os lábios, num só beijo,

Fingindo de pombinhos, meu amor!

 

 

Em: Poetas cariocas em 400 anos, ed. Frederico Trotta, Rio de Janeiro, Editora Vecchi: 1965, p. 232.

 

Alfredo de Souza  (Rio de Janeiro, 1880 — ??) — Foi jornalista e funcionário público.

Bibliografia

Aurora, sem data