Ilustração Rudolf Koivu
Vencendo o tempo e a distância
num clima de eternidade,
os natais de minha infância
permanecem na saudade.
(Ivo dos Santos Castro)
Ilustração Rudolf Koivu
Vencendo o tempo e a distância
num clima de eternidade,
os natais de minha infância
permanecem na saudade.
(Ivo dos Santos Castro)
Antonieta Dias de Moraes
Lápis, papel, num minuto
ele faz seu avião,
fez um navio minúsculo,
fez também um caminhão.
O navio foi ao fundo,
caiu longe do avião.
O menino deu um pulo,
entrou no seu caminhão.
Quem tem um lápis tem tudo,
alegrias da invenção,
tem à frente o vasto mundo,
estradas pro caminhão.
O menino já tem rumo,
tem caminhos, condução;
agora, vai num segundo
dar partida ao caminhão.
A florista
Clodoaldo Martins (Brasil, 1985)
óleo sobre tela, 64 x 76 cm
Casimiro de Abreu
Moreninha, Moreninha,
Tu és do campo a rainha,
Tu és senhora de mim;
Tu matas todos d’amores,
Faceira, vendendo as flores
Que colhes no teu jardim.
Quando tu passas n’aldeia
Diz o povo à boca cheia:
– “Mulher mais linda não há
“Ai! vejam como é bonita
“Co’as tranças presas na fita,
“Co’as flores no samburá! –
Tu és meiga, és inocente
Como a rola que contente
Voa e folga no rosal;
Envolta nas simples galas,
Na voz, no riso, nas falas,
Morena – não tens rival!
Tu, ontem, vinhas do monte
E paraste ao pé da fonte
À fresca sombra do til;
Regando as flores, sozinha,
Nem tu sabes, Moreninha,
O quanto achei-te gentil!
Depois segui-te calado
Como o pássaro esfaimado
Vai seguindo a juriti;
Mas tão pura ias brincando,
Pelas pedrinhas saltando,
Que eu tive pena de ti!
E disse então: – Moreninha,
Se um dia tu fores minha,
Que amor, que amor não terás!
Eu dou-te noites de rosas
Cantando canções formosas
Ao som dos meus ternos ais.
Morena, minha sereia,
Tu és a rosa da aldeia,
Mulher mais linda não há;
Ninguém t’iguala ou t’imita
Co’as tranças presas na fita,
Co’as flores no samburá!
Tu és a deusa da praça,
E todo o homem que passa
Apenas viu-te… parou!
Segue depois seu caminho
Mas vai calado e sozinho
Porque sua alma ficou!
Tu és bela, Moreninha,
Sentada em tua banquinha
Cercada de todos nós;
Rufando alegre o pandeiro,
Como a ave no espinheiro
Tu soltas também a voz:
– “Oh quem me compra estas flores?
“São lindas como os amores,
“Tão belas não há assim;
“Foram banhadas de orvalho,
“São flores do meu serralho,
“Colhi-as no meu jardim.” –
Morena, minha Morena,
És bela, mas não tens pena
De quem morre de paixão!
– Tu vendes flores singelas
E guardas as flores belas,
As rosas do coração?!…
Moreninha, Moreninha,
Tu és das belas rainha,
Mas nos amores és má
– Como tu ficas bonita
Co’as tranças presas na fita,
Co’as flores no samburá!
Eu disse então: – “Meus amores,
“Deixa mirar tuas flores,
“Deixa perfumes sentir!”
Mas naquele doce enleio,
Em vez das flores, no seio,
No seio te fui bulir!
Como nuvem desmaiada
Se tinge de madrugada
Ao doce albor da manhã
Assim ficaste, querida,
A face em pejo acendida,
Vermelha como a romã!
Tu fugiste, feiticeira,
E decerto mais ligeira
Qualquer gazela não é;
Tu ias de saia curta…
Saltando a moita de murta
Mostraste, mostraste o pé!
Ai! Morena, ai! meus amores,
Eu quero comprar-te as flores,
Mas dá-me um beijo também;
Que importam rosas do prado
Sem o sorriso engraçado
Que a tua boquinha tem?…
Apenas vi-te, sereia,
Chamei-te – rosa da aldeia –
Como mais linda não há.
– Jesus! Como eras bonita
Co’as tranças presas na fita,
Co’as flores no samburá!
Indaiassú – 1857
Olavo Nunes (1871-1942)
Quando ela passa, risonha e pura,
De arzinho honesto, cheia de graça…
Todos murmuram: Que formosura!…
Quando ela passa…
Flores rebentam pelo caminho
Sob os pezinhos que a bota enlaça;
Beijos se escutam de ninho a ninho,
Quando ela passa…
Seguem-na olhares cheios de gula
Como os da fera fitando a caça,
Olhares meigos que amor açula,
Quando ela passa…
Boca vermelha que o riso enflora
Cintura fina que um dedo abraça,
Parece ver-se Nossa Senhora,
Quando ela passa…
À luz dos olhos dessa menina
Deserta o pranto, foge a desgraça;
Com grande afeto tudo se inclina,
Quando ela passa…
Sombrero alegre, cheio de fita,
Vestido leve de fina cassa,
Gosto de vê-la assim tão bonita,
Quando ela passa…
Trinulam aves pelas umbrosas
Ramas que o vento no alto entrelaça,
E abelhas d’oiro desfolham rosas,
Quando ela passa…
Quando ela passa, risonha e pura,
De arzinho honesto, cheia de graça…
Todos murmuram: Que formosura!…
Quando ela passa…
Em: Coelho Netto e a Mina Literária, Imprensa de Alfredo Silva, Pará: 1899, pp 34-36
Feira, 1988
Hector Carybe (Argentina-Brasil, 1911-1947)
gravura, 35 x 50 cm
Tasso da Silveira
Nos tabuleiros retangulares
as hortaliças úmidas
acabaram de nascer neste instante:
ainda palpitam do milagre da criação.
E ao seu mágico influxo
a multidão, em torno,
vibra numa alegria iluminada.
Vibra numa alegria
radiosa e plena,
como devem ter sido
as alegrias inaugurais
das primeiras manhãs do mundo.
Em: As imagens acesas: poemas 1924- 27, Tasso da Silveira, Rio de Janeiro, Annuario do Brasil:1928
“No ônibus, Satoshi tentava esvaziar a mente para buscar o sono. Quando percebeu que não conseguiria dormir, retornou a poltrona para uma posição com menor inclinação, abriu uma fresta da cortina e passou quase todo o trajeto , de pouco mais de nove horas, observando o que era possível na madrugada de quase lua cheia. Com a cabeça reclinada no encosto da poltrona, via a paisagem noturna obliquamente. Os morros distantes eram manchas escuras, e deles se viam apenas os contornos delineados em função do firmamento clareado pela lua. As árvores mais próximas surgiam e desapareciam na velocidade controlada pelo pé do motorista. As imagens imediatas eram mais visíveis, mas a cada instante eram consumidas pelo movimento do ônibus e do tempo, enquanto a paisagem distante, teimava em suas retinas insistindo em ficar.” […]
Em: Ojiichan, Oscar Nakasato, São Paulo: Fósforo, 2024.
“Uma manhã lá no Cajapió (Joca lembrava-se como se fora na véspera), acordara depois duma grande tormenta no fim do verão. A madrugada estava orvalhada, mas serena, e ele se erguera da sua rede para ver o tempo. Um grande tapete de verdura fresca e úmida parecia ter descido do céu e coberto como um manto misterioso o campo… Os olhos perdiam-se na campina alegre; o gado festejava o rebentar da vida na terra e comia a erva tenra; um bando de marrecas passava grasnando, pousava aqui , levantava o voo acolá, buscava mais longe a região dos eternos lagos… Dias inteiros de chuvas; o pasto agora era farto, a água porfiava em vencê-lo, e quando mais tarde o dilúvio se interrompia, viam-se na vasta savana verdes pontos claros que eram o refrigério dos olhos. Eram os primeiros lagos. Em volta deles uma multidão de aves aquáticas brincavam descuidosas e ostentavam as penas de cores vivas e quentes. Vinham pássaros de toda a parte; pernaltas com o seu bico de colher, marrecas em algazarra, jaçanãs leves e tímidas; e à tarde, quando o céu se vestia de nuvens cinzentas, notava-se desfilar, ora o bando marcial e rubro dos guarás, pra a ala virgínia e branca das garças… No fundo dos lagos multidão de peixes borbulhavam por encanto. E em tudo o mesmo milagre de ressurreição, de rejuvenescimento, de expansão e de vida.”
Em: Canaã, Graça Aranha, 1902, em domínio público.
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Esta é uma das mais belas descrições de uma multitude de ações, de dezenas de animais, tudo acontecendo num momento, em um único parágrafo.
A modelo, 2023
Jean-Claude Götting (França, 1963)
acrílica sobre tela, 100 x 100 cm
Crônicas minhas de Nancy de Souza é para ser lido e degustado aos pouquinhos. Porque depois de cada crônica a tendência do leitor é refletir sobre a vida, as mudanças que testemunhamos no do dia a dia; as emoções que algumas memórias nos trazem. Essas crônicas são pequenas, mas acordam uma infinidade de considerações sobre o que é viver, como se transformar, e as consequências dessas transformações.
Houve momentos em que parei emocionada, como em “Carta ao meu tataraneto”, de onde trago o seguinte parágrafo:
Tente, meu tataraneto, me descobrir registrada no seu código genético e, falando com a sua voz, te dizer segredos de família que não conseguirá ouvir. Sinto, aqui e agora, uma tristeza enorme de me perder assim sem te ver, dentro de você, presa num emaranhado, dito DNA. Liberte-me sendo você mesmo, sorrindo alto como sorriam os meus e com sonhos ousados como foram os meus. Encontre-se comigo num mundo melhor, desvenda-me, desvendando-se a si próprio. [103]
E outras em que cheguei a dar um risinho divertido, como em “O sofá, os urubus e as termais”:
Depois de um ano fora, fazendo intercâmbio pela faculdade, minha filha responde ao meu questionamento: ‘Do que você sentiu mais falta aqui do Brasil?’. Sua resposta saltou ligeira, sem dificuldades, como que descoberta antiga e fascinante: ‘Do sofá.’ [41]
Todas essas crônicas, sem exceção, nos levam a ponderar sobre nossas experiências e trazem à tona memórias, algumas bem escondidas na sobreposição de eventos mais recentes. Mas ter alguém narrando e comentando sobre a vida, ocorrências diárias, quase sempre começadas por gesto ou objeto banal, é muito prazeroso. Porque Nancy de Souza tem e teve uma vida, igual a de todos nós, repleta de pequenos incidentes, de decisões acertadas e outras não tão bem-sucedidas, de momentos que sabia serem importantes. O que a difere do resto de nós todos? Excelente memória emotiva e factual, bom senso de humor, vários aprendizados adquiridos do mar ao piano, da artista plástica à escritora. Experiências, que transformou em pepitas de ouro para reflexão, como na emotiva despedida, no se desprender das cinzas de seu cão e companheiro, Benjamin James, em “Pó de estrela”.
A cada passo, me dava conta de que todo nosso corpo, ideias e lembranças, podem caber num pequenino saquinho plástico, pois somos pó, pó de estrela. Em explosões cósmicas colocamos os pés no mundo, caminhamos para cá e para lá, estudamos, aprendemos, lemos, nos esforçamos, com a ilusão de que seremos “sempre”. No entanto, aquele saquinho plástico balouçante em minhas mãos me dizia, sem dizer nada, que somos pó, pó de estrelas. [86]
Há ainda uma característica dessas crônicas que gostaria de ressaltar. Há tempos sinto falta na literatura brasileira contemporânea das histórias das pessoas comuns, de uma classe média que trabalha, estuda, quer avançar, quer se melhorar e melhorar o mundo à sua volta. Tanto da nossa escrita se detém naquilo que é diferente, que é cruel, absurdo, no comportamento limítrofe, nas diferenças, no ódio! Tanta ênfase tem sido dada a extremos que a pessoa comum, que é assolada por dúvidas e decisões que a afetam e a outros também, parece ter desaparecido do nosso horizonte literário. Nancy de Souza traz a ‘normalidade’ de volta ao palco e nos convida a esquadrinhar o que estamos fazendo com nossos hábitos cotidianos.
Crônicas minhas terá, por algum tempo ainda, um lugar na minha mesa de cabeceira, porque quero voltar a ler, ali e acolá, e ponderar. Recomendo sem restrições.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.
Árvores
Aloísio Silveira de Souza (Brasil, 1936)
óleo sobre tela, 80 x 100 cm
Carlos Pena Filho
Neste papel levanta-se um soneto,
de lembranças antigas sustentado,
pássaro de museu, bicho empalhado,
madeira apodrecida de coreto.
De tempo e tempo e tempo alimentado,
sendo em fraco metal, agora é preto.
E talvez seja apenas um soneto
de si mesmo nascido e organizado.
Mas ninguém o verá? Ninguém. Nem eu,
pois não sei como foi arquitetado
e nem me lembro quando apareceu.
Lembranças são lembranças, mesmo pobres,
olha pois este jogo de exilado
e vê se entre as lembranças te descobres.
Menina lendo livro, 1937
Winifred Pattison (Inglaterra, 1920)
[née Winifred Wheeler]
óleo sobre tela
É gratificante quando sou apresentada a uma nova escritora, em seu primeiro romance, e saio da leitura entusiasmada, imaginando como será bom me encontrar no futuro, com a autora em outra obra de ficção. Tana Moreano presenteia o leitor com prosa direta, sem grandes rebuscados, contando uma história eletrizante, perfeitamente ritmada, sem cenas repetitivas, sem causar um único um momento de tédio. Sua escrita me pegou logo no primeiro capítulo de Cora do Cerrado, [Maringá, Editora: A. R. Publisher Editora: 2024]. Eu já vinha seguindo a escritora no Instagram, em razão dos vídeos em que explicava palavras encontradas no português falado no interior do país, que muitas vezes eu desconhecia. Foi assim que me familiarizei com a escritora e quando o livro apareceu em pré-venda, decidi imediatamente comprá-lo. De fato, o livro será lançado neste fim de semana, no sábado, dia 6 de julho no Centro de Ação Cultural, à Avenida XV de Novembro, Zona 01 em Maringá-PR às 19h. Se puder, vá lá prestigiar o nascimento de uma boa escritora. Porque Tana Moreano é uma engenheira agrônoma, carioca de nascimento e mineira de coração, que por seu trabalho acabou “assimilando vivências e costumes” de diversos locais do Brasil. Esse conhecimento adquirido in loco, essa vivência íntima com a vida recôndita do país, aparece na firmeza da prosa com que relata as aventuras de Cora.
Fui puxada para a história da personagem principal desse pequeno romance, pelo relato da primeira cena do livro, quando somos apresentados ao que irá acontecer em algum ponto da narrativa. Sabemos de antemão que presenciamos as consequências de algo com sintomas de catástrofe acontecida a essa personagem à qual ainda não fomos formalmente apresentados. Contudo, por isso mesmo, desde as primeiras vinte linhas, começamos a torcer por ela. Sabemos que está correndo perigo. Nossa simpatia é imediatamente seduzida por suas ações e a tensão é tanta, que não dá vontade de parar de ler até sabermos como foi que chegamos àquele ponto. Fui fisgada como um peixe com a boca presa no anzol e não resisti.
Ainda que ao descrever esse início eu possa ter passado a ideia de se tratar de um suspense, isso está longe da verdade, pelo menos pelos parâmetros mais comuns dos contos de suspense. Há sim, uma busca tenaz do leitor por resolver o mistério que justificará a cena inicial. Porém, esta é a história de uma mulher que, tendo nascido na cidade grande, conhece um homem do interior e acaba indo morar na fazenda da família dele no cerrado. Jovem, com um filho pequeno de um relacionamento anterior, cujo namorado desapareceu, ela se encontra no início de uma gravidez, desta vez do rapaz que a leva à vida no campo. Sua adaptação a esse novo mundo é repleta de desafios. Mas ela precisa, também, superar limitações interiores para ser bem sucedida na empreitada do viver. Não há como não torcer por Cora.
Além de se tratar de uma trama irresistível, Cora do Cerrado cumpre um papel importante, ao mostrar aos leitores, um exemplo de perseverança e de rigoroso desejo de sobrevivência. Com olhos ‘estrangeiros’, de alguém que não pertence ao local onde vive, ela observa o comportamento daqueles à sua volta. Aprende com as mulheres com quem se relaciona a prática do próprio sustento em ambiente inóspito. Ela se familiariza com o mínimo para superar os obstáculos que lhe são impostos tanto pela natureza, quanto pelos costumes locais e ganha, graças à imensa vontade de se ajustar a esse novo mundo, coragem para superar limitações físicas e emocionais. Cora é uma heroína exemplar.
Ao final do livro me peguei recordando que na minha juventude e até mesmo nas leituras que fiz como jovem adulta, raramente encontrei, na literatura brasileira, exemplos tão atraentes de mulheres vencedoras como Cora. Encontrei sim, sacrifícios semelhantes, mas no geral, lembro-me mais de mulheres que se submetiam com ou sem resignação aos modelos impostos pelos tempos. E considerei quanto ocasionalmente teria sido importante para mim, poder recorrer em hora de dúvida, a um personagem como Cora. Ainda bem que esta veio ´para preencher esse vazio no nosso mundo.
Recomendo sem restrições. Violência atenuada por exemplar discrição. E não é gratuita. Vale a leitura, espero que se transforme em livro de grande sucesso.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.