A volta, texto de Pedro Nava

22 07 2015

 

 

MANOEL SANTIAGO Paisagem com ferrovia Teresópolis O.S.T. 53 x 69 cm 1945 a.c.i.e.Paisagem com ferrovia, Teresópolis, 1945

Manoel Santiago (Brasil, 1897-1987)

óleo sobre tela, 53 x 69 cm

 

 

“COMO NO DIA DA MINHA CHEGADA, cinco anos antes, no meu embarque para Belo Horizonte, tive a assistência do Modesto. Levou-me à estação. Eu ia galgar o nosso Caminho Novo de noturno. Vi desfilarem os subúrbios, depois a baixada com seu ar de fogo, comecei a subir a Serra do Mar. Eu estava num momento de grande euforia. Vencera uma página da vida, flutuava dentro dum ar azul entre duas etapas. Pensava que tudo continuaria em Belo Horizonte e na Faculdade, fácil e doce como tinha sido naqueles anos de Pedro II entrecortados de férias paradisíacas.  Mal sabia eu o que ia sofrer na Rua da Bahia, no Bar-do-Ponto, na Praça da Liberdade, na Rua Guaicurus, na Rua Niquelina, na Lagoinha, Quartel e Serra: o martírio, paixão, morte e ressurreição do moço mineiro Pedro da Silva Nava ainda descuidado das lambadas, dos escárnios, das quedas e das sete chagas de sua Via Dolorosa. Eu ia aprender aos poucos, à minha custa, os búfalos nadantes e os crocodilos; as panteras e toda a casta de bestas-feras. O noturno subia para Minas Gerais. Passou estações. Parou muito tempo em Juiz de Fora e fiquei na janela do carro apreciando o Cristo Redentor todo iluminado. Foi quando dormi na madrugada mineira. Vi amanhecer no meu Estado cortado instante a instante pelas curvas do Paraopeba. A máquina puxava cada vez mais. De repente Brumadinho surgiu dentro de moitas cheias de gotas d’água dum sereno que o sol ainda não secara. Se o futuro iluminasse eu compreenderia que estava chegando ao campo de concentração e aos fornos crematórios dos meus sonhos de adolescente. As estações se sucediam. Fecho do Funil. Treblinka. Birkenau. Sarzedo. Ibirité. Ibirité. Bergen-Belsen. Auschwitz. Barreiros. Gameleira, Calafate, Belsen-Belo, Belo Belo Belo Belo. A máquina agora ia devagar, batendo sino, atravessando a cidade sob um céu rival do céu da Úmbria. Belo Horizonte, Belorizonte, Belorizonte. Desci na estação. Minha Mãe. Fomos juntos para a Serra. Pisei novamente minha Serra. Sua terra de ricos pardos começou a me penetrar. Dela respirei. Dela sujei meus sapatos. Seu colorido era tão polpa que enganava não parecia mineral, antes vegetal. Variava de cores. Tinha do castanheiro, do tojo, do ulmo, da nogueira, da tília clara e da tuia escura. Entretanto era ferro. Chão de Ferro.”

 

 

 

Em: Chão de Ferro: memórias 3, Pedro Nava, Rio de Janeiro, José Olympio:1976, 2ª edição, p. 273-4





Berço, poesia de Stella Leonardos

7 07 2015

 

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Berço

 

Stella Leonardos

 

 

Foi vime que nasce à toa

Debruçado na lagoa,

Colhido de manhã cedo.

Já viu garça azul que voa,

Já viu rastro de canoa,

Já escutou vento e arvoredo.

Por isso a fragrância boa,

Esse cheiro de segredo.

 

 

Em: Pedaço de Madrugada, Stella Leonardos, Rio de Janeiro, Livraria São José:1956, p.11





Nápoles, texto de Sra. Leandro Dupré

1 07 2015

 

 

(c) Compton Verney; Supplied by The Public Catalogue FoundationBaía de Napoles do Posilipo, c.1770

Pietro Fabris (Itália, ativo 1740-1792)

óleo sobre tela, 75 x 128 cm

Compton Verney, GB

 

 

“Às onze horas, o trem entrava na estação de Nápoles. O frio continua forte, mas há sol em Nápoles.

Vedere Napoli, poi morire“.  Essa frase sugestiva inventada por um sentimental num belo por do sol de uma tarde de primavera, não está adequada para um frio dia de inverno como hoje.  Nápoles é uma bela cidade, alegre, movimentada, cheia de vida. Tomei um automóvel e passei pelos lugares principais. As praias são bonitas, o Mediterrâneo é de um azul intenso, o porto cheio de chaminés de grandes e pequenos navios, as montanhas ao longe se confundem com o azul do céu; e de um lado, numa elevação, o Vesúvio lançava, para o ar, rolos de fumaça negra, vagaroso e concentrado, como um velho marinheiro sentado na porta de casa e cachimbando, enquanto o pensamento procura seguir o rasto da fumaça para países distantes, percorridos na mocidade. Tomei apartamentos no hotel Isotta-Genève, no quinto andar.  Através da janela, vejo o Vesúvio sempre fumegando. Passei a tarde dando um passeio pelo centro da cidade e, à noite não saí. A baía é encantadora, mas quem vem do Rio de Janeiro não pode achar encantos em outras baías.”

 

 

Em: O romance de Teresa Bernard, Sra. Leandro Dupré [Maria José Dupré], São Paulo, Ed. Brasiliense Ltda: 1945, 4ª edição, pp. 311-12





Cacto, poesia de Mauro Mota

15 06 2015

 

cactus 8

 

Cacto

 

Mauro Mota

 

 

Insólito, agressivo,

de pudor botânico:

cacto.

 

Espantalho

da chuva,

bandido xerófilo,

muitiapunhalante.

 

A língua

dura e espinhenta

lambe e fere

o ígneo vento.

 

Cacto de aço

verde árido.

Mas

com o pranto nas raízes

e o impacto cromático

da flor cactácea

que se

abre neste mormaço.

 

 

Em:  Antologia Poética, Mauro Mota, Rio de Janeiro, Editora Leitura:1968, p. 79





Ele queria ser escritor! – texto de David Antunes

9 06 2015

 

 

Kulikov_Writer_E.N.Chirikov_1904Escritor russo Eugênio Kulikov, 1904

Ivan Kulikov (Rússia, 1875-1941)

óleo sobre tela

 

 

“Por esse tempo começaram a cintilar os primeiros alvores de minha vocação literária. Estava eu certo de que meu pai se afogaria em júbilos, acaso me lesse um artigo de campanha contra a espada aventureira, que rasgou o ventre da Bahia e ameaçou decapitar São Paulo. Mas, tanto que me surpreendeu os intuitos, concentrou nas sobrancelhas todas as forças de sua energia e, chamando-me a um ajuste, ordenou, com dedo autoritário, que me fosse ocupar de ofício limpo. E não era limpo o da imprensa? Meu pai entendia que o tal mister calha ao patetas, aos inúteis, aos irresponsáveis. Tais os epitetos com que fulminava os jornalistas — por amor de meu futuro!  Mas é bem notar, ele não detestava letrados. Ao contrário, acolhia-os, com regozijo, na usa consideração de boêmio tardiamente regenerado. E a prova está em que nunca deixou esmorecer a velha camaradagem, travada aos tempos da Academia, de alguns poetas de classe, notadamente de um tal José de Freitas, vivo ainda, parece-me que em Minas, o qual sempre escrevia para solicitar-lhe notícias e dinheiro. Meu pai, regra geral, só atendia à primeira parte das cartas do amigo, porém não se enfastiava a no-lo citar, à hora da mesa, amiudando-lhe gabos aos mérito de estilista e versejador.

O pobre José Freitas voltava, de novo, com os queixumes e soluços, estes simbolizados por um desperdício de reticências. Dizia-se na miséria, encravado com promissórias e oito filhos raquíticos. Para contê-lo, meu pai mandava-lhe duas ou três laudas de conselhos. O homem sossegava durante quinze dias, mas tornava, depois, lamuriante ainda, reclamando o vale-postal. Talvez mal compare, mas esse desgraçado José de Freitas me fazia lembrar alma penada, que suplicasse, do outro mundo, preces de alívio aos seus tormentos. Tenho por certo que o velho o tomou por exemplo do infortúnio, que me esperava, se me abandonasse aos impulsos da idade. Excelente pai!

Ora, não sei se erro, afirmando qua as paixões trazem a vantagem de nivelar índoles. Não me rebelei contra meu pai. Curvei-me resignado, às objurgatórias, como a receber a coroa de mártir que, no caso, me ficava a talho. Bem a contragosto, em casa dava de mão às consolações da pena. À noitinha, então sim, escapulia-me às vistas paternas e corria ao meu protetor, o Ferreira, que me oferecia lenitivo pronto às aflições: o conhaque, papel e tinta. Bom sujeito! Daqui ainda o vejo, alto, grosso, gordura consistente e pesada, ilhargas tão amplas como as espáduas, enormes bigodes retorcidos a modos de chifres, uma cicatriz angular na região frontal esquerda, sempre alegre, sempre loquaz, sempre desbocado… Bom sujeito. Tinha a mania de esmurrar o próximo por dê cá aquela palha, mas, afinal, isto é sestro de homem musculoso,e ninguém o recriminava por isto, afora os hermistas que lhe temiam o contato, como se evitassem pisar numa casca de banana.

Ferreira arrumava-me nos fundos da taverna, entre dois tabiques discretos, que ficavam por detrás das teias de aranha e das quartolas de azeite doce e de vinagre. Eu, meio desalentado, sentava-me defronte de um traste coxo e trêmulo e aguardava a inspiração… Ferreira trazia-me o conhaque… dois, três… a lambujem do trato, e as ideias, pouco a pouco destilavam no papel, seguindo a vertiginosa abalada de minha cólera contra o mundo e os adversários de Rui Barbosa.”

 

Em: Gente Moça, novela, (a primeira publicação em 1920), aqui, publicada junto ao romance Bagunça, David Antunes, São Paulo, Saraiva:1968, p. 115-117.

 

David Antunes, usou também o cognome Iago Joé,  escritor brasileiro. Nasceu em Santa Branca, São Paulo em 1891 e faleceu em Campinas, SP, em 1969).

Obras:

Gente Moça, novela, 1920

Bagunça, romance, 1932

Incenso e pólvora, romance, 1937

Caminhos perdidos, romance, 1940

Briguela, romance, 1945

Lagoa Verde, romance, 1947

A face trágica da arte, ensaio, 1952

Obsessão, romance, 1956

Piracicaba, romance histórico, 1956

O pastor e as cabras, romance, 1968

 

 





25 anos, soneto de Menotti del Picchia

8 06 2015

 

75e570ac2d6c8ac4e71bc03d71d14182Menino com cesto e cão, 1861

Édouard Manet (França,1832-1883)

Óleo sobe tela, 92 x 72 cm

Coleção Particular, Paris

 

25 anos

 

Menotti del Picchia

 

Quase me desconheço. Onde anda o imbele

menino alegre, de calcinha curta,

cantando, sempre aos saltos entre a murta,

entre os cafeeiros tão amigos dele?

 

Cresceu: ei-lo descrente… Eu sou aquele menino alegre.

A vida logo encurta as ilusões, a idade os risos furta…

E quem diria agora que eu sou ele?

Hoje me desconheço.

 

O outro, a criança lembro,

toda risonha, ao sol ardente

pelos campos em flor vagando a esmo…

 

Mas, sempre que me vem isto à lembrança,

sinto-me tão mudado e diferente

que chego a ter saudades de mim mesmo.

 

 

Em: Entardecer, Menotti del Picchia, São Paulo, MPM propaganda: 1978, p. 57.





A missa da Capela Imperial, texto de Paulo Setúbal

4 06 2015

 

 

BRENNO TREIDLER - Rua Primeiro de Março, RJ, 1895 - aquarela - 23,3 x 35Rua Primeiro de Março, RJ, 1895

[Capela Imperial, antiga Sé, à direita]

Benno Treidler (Alemanha/Brasil, 1857-1931)

Aquarela sobre papel, 23 x 35 cm

PESP [Pinacoteca do Estado de São Paulo]

 

 

“A Capela Imperial… Ah! a mais bela coisa do Rio de Janeiro, nos começos do século passado, foram, sem dúvida alguma, as solenidades da famosa Capela. D. João VI, curiosa mistura de Rei e de frade, mandou decorá-la suntuosamente. Vieram trabalhar nela os nomes mais brilhantes da época. José de Oliveira pintou as paredes. Manuel da Cunha, o teto. Raimundo da Costa e Silva, a “Ceia”. E José Leandro, o célebre José Leandro, figura culminante do tempo, a grande tela do Altar-Mor. D. João VI, como todos os Braganças, adorava as pompas religiosas. Com generosidade de nababo, gastando às mãos cheias, el-Rei mandava buscar na Europa artistas reputadíssimos, compositores e músicos, castrati de larga fama, a fim de abrilhantar com eles as festas de sua Capela. Naquele recinto, com efeito, nos dias de gala, fremiu muita vez o gênio do padre José Maurício. Flamejou o talento magnífico de Neukomm. Ecoou a larga inspiração de Marcos Portugal. Ali, nas grandes cerimônias da religião, retumbou muita vez a voz de Mazziotti e de Tanners, os dois famosos contraltos italianos. Ali foram admirados e louvados, com grande entusiasmo para o bairrismo dos brasileiros, o tenor Cândido Inácio, que era a mais doce e a mais sonora garganta de Minas, assim como o baixo João dos Reis, cuja voz poderosa, da mais larga ressonância, fazia tremer nos caixilhos as vidraças da Capela.

Havia, portanto, razões de monta, e de sobejo, para que D. Domitila de Castro ansiasse por assistir à missa de domingo. O que mais a seduzia, porém não era, seguramente, o ir ver, entre os entalhes dourados da Capela, os painéis de José Leandro; nem escutar a música do padre mulato que enchia a Corte com a fama de seu gênio; nem tampouco ouvir a flamância de Mont’Alverne,o apregoado orador franciscano, cuja glória, que subira tão alto, começava então a crescer. O que a seduzia, o que a espicaçava mais agudamente, tornando-a tão alvoroçada por assistir àquela missa era poder — enfim um dia! — contempla a Corte bem de perto, misturar-se com orgulho às Damas do Paço, roçar por entre aquelas fidalgas emproadas, e mostrar, do alto de uma tribuna, acintosamente, as graças e os feitiços de sua mocidade e do seu fascínio.

Ah! Os requintes que pôs a perturbante senhora em se alindar para tão suspirado triunfo! As águas de cheiro! Os pós de França! As luvas de doze botões! O leque de marfim e ouro! Madame de Saissait, a modista francesa da rua do Ouvidor, preparou-lhe um vestido ousadamente bizarro, à Zamperini, moderníssimo, cor de cenoura, de corpete muito teso, com imensa e donairosa sobre-saia, caindo em ondas largas, bordado a fio de prata. E que apuro de detalhes… Desde o penteado alto, com o trepa-moleque de safiras, até o escarpim pequenino, de fivela dourada, tudo nela era encantador. E quando, diante do toucador, depois de empoada e perfumada, a cintilar de joias, D. Domitila se remirou no seu espelho de Veneza, correu-lhe a epiderme um arrepio voluptuoso, seus lábios sorriram o sorriso da vaidade. Estava magnífica! Olhos úmidos e negros, boca sangrenta, talhe ondeante, todo pluma, aqueles vinte e quatro anos, quentes, sazonados, irradiavam frescura e trescalavam juventude. “

 

Em: A Marquesa de Santos, romance histórico, Paulo Setúbal, Rio de Janeiro, Cia Editora Nacional: 1984, 12ª edição, pp, 76,77. Originalmente publicado em 1925.





Pescaria, história para crianças de Wilson W. Rodrigues

2 06 2015

 

menina na rede, willcox smithMenina na rede, ilustração de Jessie Willcox Smith.

 

 

Pescaria

Wilson W. Rodrigues

 

 

— Sai daí moleque, deixa eu arrumar a rede para Sinhazinha.

Pai João menino afastou-se da mucama e veio para a escada da varanda onde, sentado num dos degraus, Coco Velho preparava o cigarro de palha.

O moleque indagou:

— Por que Sinhazinha gosta tanto de ficar deitada na rede?

Coco Velho sorriu, deu uma baforada e explicou:

— Óia, menino, a vida tem duas redes. Uma pra pescar peixe…

— E a outra para dormir, não é Coco Velho?

— Não, moleque. A outra é pra pescar sonho.

 

 

Em: Pai João menino, Wilson W. Rodrigues, Coleção Mãe Maria, vol. 2, Rio de Janeiro, Editora Publicitan: 1949, p.71





Nova York, texto de Sra. Leandro Dupré

1 06 2015

 

 

Reginald Marsh (March 14, 1898 – July 3, 1954) czecks500.000 checos na fronteira nazista, 1938

Reginald Marsh (EUA, 1898-1954)

Têmpera sobre eucatex, 61 x 45 cm

Coleção Particular

 

 

“Depois de termos visto os principais teatros e dancings de New York, começamos a levar uma vida mais estável e sossegada. Artur começou a estudar mais e a escrever o livro com vontade. Eu lia muito também. Andava pelas livrarias catando novidades e lia em inglês tudo o que podia. De vez em quando recebia carta de Elisabeth e Simone, com presságios tristes sobre a situação europeia. Não tinham mais esperanças de paz e se preparavam para enfrentar “uma época Terrível”, como escreveu Elisabeth com T grande.

À noite, gostávamos de andar a pé na Broadway observando os hábitos dos americanos, admirando os inumeráveis anúncios luminosos e o movimento surpreendente.  Mais de uma vez jantamos nos automáticos. Eu gostava de por o níquel para ver o pratinho cair em baixo com uma torta de frango e salada; mais adiante um pouco de morangos e creme. Colocávamos tudo na bandeja e escolhíamos uma mesa de canto, onde saboreávamos nosso jantar improvisado, acompanhado de grandes copos de chope espumando e e escorrendo pela mesa de mármore.

Ríamos das nossas travessuras, como se fôssemos crianças sem juízo.

Eu notava como as moças e senhoras eram respeitadas em New York; muitas vezes à meia noite encontrávamos em plena Broadway um grupo de três ou quatro moças que vinham do teatro ou do cinema, tomavam qualquer coisa numa confeitaria e iam tranquilamente para suas casas, falando e rindo alegremente, quase sem serem notadas pela multidão.  Outras vezes víamos duas ou mais senhoras, já matronas, algumas de  óculos, jantando juntas num restaurante em trajes de baile, rindo e fumando, depois iam ao teatro e atravessavam as ruas movimentadas, sem ninguém olhar sequer para elas. E, às vezes, já era tarde, fora de horas.

Eu dizia a Artur:

— Eu gostaria de viver aqui, mulher nesse país tem personalidade, não precisa viver acompanhada por homens para ser alguém.

Artur confirmava e admirava-se também da independência absoluta das mulheres nos Estados Unidos.”

 

 

Em: O romance de Teresa Bernard, Sra. Leandro Dupré [Maria José Dupré], São Paulo, Ed. Brasiliense Ltda: 1945, 4ª edição, pp. 371-2  [Primeira edição:1941]





Fantasias, conto infantil de Wilson W. Rodrigues

12 05 2015

 

 

ursinho equilibrista

 

Fantasias

 

Os dois Ursos haviam se convertido na atração máxima do grande baile de Carnaval do Teatro Municipal.

Um deles, entre risos dos foliões, acabara, havia pouco, com todas as frutas que ornamentavam as mesas, devorara um enorme peixe e a mais volumosa bandeja de salada russa. Nem por isso parecia saciado, pois se atirara à geleia e ao creme com a volúpia de um menino. Bebeu dúzias e dúzias de cervejas geladinhas; comeu dezenas de camarões recheados, coxinhas de galinha, ovos, uma quantidade assombrosa de comida e doces sem conta.

Perto da meia-noite, os alto-falantes convocaram os foliões para o famoso desfile do Concurso de Fantasias.

Todos aplaudiram:

— Os Ursos! Os Ursos!

O primeiro deles levantou-se e apontou a passarela:

— Vamos, seremos os Reis do Baile.

— Eu não, resmungou o outro.

— Não vai participar do desfile?

— Não.

— Sem você … que será de mim?

E numa confissão melancólica:

— Um casal de Ursos não é a mesma coisa que um Urso solitário. Perderei o prêmio.

— Não vou, nem devo ir… já é muito tarde.

— Mas a festa mal começou!

— Por isso mesmo, não quero estragar a alegria de ninguém. À meia noite, todos terão de arrancar as máscaras.

— E que tem isso?

— Acontece que eu não uso máscara. Eu sou um Urso mesmo.

 

***

Em:Contos dos caminhos, Wilson W. Rodrigues, Torre Editora, Estado da Guanabara, s/d, pp: 31-34