Abraham Saakian (Armênia, 1964)
óleo sobre tela, 58 x 67 cm
Gino Bruno (Itália/Brasil, 1899-1977)
óleo sobre tela, 65 x 50 cm
“O Jambeiro-vermelho é uma espécie originária da Malásia, país invadido pelos portugueses em 1511. Eles partiram de Goa e conquistaram a região de Malaca, transformando o estado em uma cidade importante para a história da navegação ibérica durante sua fenomenal expansão pelos mares. Ou seja, na mesma época em que pingavam desterrados pela costa de Pindorama, as frotas portuguesas construíam igrejas e fortalezas sob a sombra do Jambeiro-vermelho. Após governarem por mais de um século, foram derrotados pelos holandeses em 1641, período em que, supostamente, vigorava um tratado militar de não agressão entre as duas potências ultramarinas por conta dos embates em Pernambuco. Provavelmente o Jambo veio parar entre nós nesse momento de ligação transversal do Brasil com a Malásia, via portugueses e holandeses. Será daí, dessa origem transatlântica, seu cheiro leve de memória do tempo mordido?”
Em: O Globo,coluna Época de jambo, 2º caderno, quarta-feira, 02/09/2015, p. 2.
Retrato de Marie Jeanette de Lange, 1900
Jan Toorop (Holanda, 1858-1928)
óleo sobre tela
Rijksmuseum, Amsterdam
Jacek Malczewski (Polônia, 1854-1929)
óleo sobre tela, 72 x 28 cm
Museu Nacional de Varsóvia
Aristarkh Lentulov (Rússia, 1882-1943)
óleo sobre tela, 87 x 96 cm
“A sorte se faz com horas de previsão. Para os prevenidos não há circunstâncias ruins e para os preparados não há apertos. O raciocínio não deve retornar até a ocasião crítica, mas deve se antecipar a ela. Com o pensamento cuidadoso, pode-se prevenir os tempos mais difíceis. É melhor dormir sobre as preocupações do que ficar acordado por causa delas. Alguns fazem e depois pensam; procuram mais desculpas do que consequências. Outros não pensam nem antes, nem depois. Toda a vida deve consistir em pensar para acertar o rumo. A prevenção e o pensamento cuidadoso são um bom recurso para viver antecipadamente.”
Em: A arte da prudência: aforismos selecionados, Baltasar Gracián, Rio de Janeiro, Sextante: 2003, 2ª edição, p. 111
J. Carlos (Brasil, 1884-1950)
[José Carlos de Brito e Cunha]
Técnica mista sobre papel, 22 x 22 cm
Marie Louise Catherine Breslau (Alemanha, 1856-1927)
óleo sobre tela
Museu de Arte de Berna
A língua alemã não é uma língua exótica. Noventa e cinco milhões de pessoas no mundo têm o alemão como língua materna. São pessoas letradas e escolarizadas. Além disso, o alemão é lido e compreendido por outras pessoas, muitas delas nas humanidades e nas ciências, que precisam usá-la profissionalmente como segunda língua. É uma língua em que grandes escritores se revelaram: Goethe, Schiller, Hesse, Grimm, Günter Grass, Rilke, entre outros. Há centenas de dicionários em alemão, sobre o alemão, do alemão para outras línguas. Portanto, traduzir um romance ou um conto, um ensaio filosófico, deveria apresentar simplesmente, ou somente, os problemas normais de uma tradução: uma ou outra dificuldade de se achar equivalência de uma expressão típica, de algum conceito alheio ao leitor em português. Isso não aconteceu com o romance que escolhi para leitura nesta semana.
Estou pasma com a má qualidade da leitura por causa de problemas na tradução de Marcelo Backes do livro de Saša Stanišić Antes da Festa. O tradutor cometeu erros crassos de português como a palavra acento usada no lugar de assento.
“Agora faz exatamente um ano, no dia anterior à última Festa, que Ulli arrumou sua Garagem, botou um punhado de acentos, cinco mesas e um aquecedor, pendurou uma cortina de tule vermelho e amarelo diante da única janela, pregando na parede…” [p.18]
Note-se: mesmo que fossem assentos, não se pode usar a expressão um punhado. Punhado é o que cabe em um punho. [ “…botou, alguns assentos, cinco mesas…”] seria o mais correto.
“O povoado em cadeiras. A ordem dos acentos é um tema explosivo. Quem irá ficar com a mesa de bar na parte da frente, junto à figueira?” [p. 28]
Além dessas belezas acima, o tradutor optou por usar um texto em português quase ao pé da letra do que está em alemão. Ou seja subjugou o entendimento em português para preservar a fidelidade às expressões, à ordem de palavras, ou a modos de dizer que não fazem sentido em português. Temos, assim, frases como:
“Com o sistema de climatização de hoje em dia, até a lua seria possível.” [SIC][p. 37]
“O povoado reza diariamente por um mero mais ou menos.” [SIC] [p.31].
“Certa vez, os que estavam procurando cogumelos.” [SIC] [p.41]
Ou problemas com um parágrafo inteiro, notem que o itálico é meu:
“O tenente-coronel Schramm acompanhou os coletores de cogumelos até o parâmetro extremo.[SIC] [?] Numerosos eram os cogumelos ao lado do caminho. [SIC] [Porque não usar a forma direta? “Eram numerosos os cogumelos ao longo do caminho?”] Mas aquelas pessoas não sabiam mais se podiam ou não colhê-los. De modo que Schramm tomou a iniciativa e botou um cogumelo bem suculento no cesto da menina. E depois foi obrigado a ver que nem era um boleto. [SIC] [?] A mãe voltou a tirá-lo do cesto sem dizer palavra.” [p.45]
Erros de grafia abundam:
“No verão, a morte anda não era uma ideia, no verão o senhor Schramm queria tentar a vida mais uma vez, talvez se apaixonar.” [p.110]
Mais tarde somos agraciados com um português com grafia excepcional. A intenção é dar ao texto um cunho de antigo, de ter sido escrito no século XVI, pois o capítulo começa “No ano da graça de 1587…”. Mas o tiro saiu pela culatra e o maneirismo da letra ‘l’ dobrada, das palavras um começarem com ‘h’ , não surtiu o efeito desejado pois a essa altura já são tantos os problemas com a leitura, que esse detalhe se torna uma distração a mais.
“Os homens se junctaram em roda. Parecia até que tentavam esconder o leitão. O mandachuva dividiu o ar ao meio movendo as mãos à esquerda e à direita — e já os homens abriram hum buraco no centro.” [p. 70]
Enfim, chegada à página 110, desisti da leitura. É muito pouco caso com o leitor. Deixei uma queixa no site da editora, mas eles não se dignaram a responder. Não quero colocar a culpa exclusivamente no tradutor, ainda que 90% da responsabilidade seja dele. Há duas pessoas mencionadas como responsáveis pela revisão: Rafael Alverne e Thais Carlo. Não vejo sinais do trabalho deles. Talvez estivessem de férias, ou pior, confiaram em programas de computação para a revisão. Esses programas não percebem erros entre assento e acento, ou seja não sabem as diferenças entre palavras homófonas. Fato é que ninguém responsável por esta publicação leu o livro. Uma vergonha.
A Editora Foz perde sua credibilidade porque publica um livro ilegível. O autor alemão não entenderá a razão de sua obra não ter sucesso no Brasil, quando é sucesso em outros cantos do mundo. Os leitores que mantêm editora, autor, tradutor e revisores trabalhando, pois compram o livro, não podem fazer nada além de reclamar, ou será que deveríamos ir ao PROCON? Dá vontade.