Imagem de leitura — Abraham Saakian

14 09 2015

 

Abraham Saakian, Hora da leitura, 2004, ost, 58 x 67cmHora da leitura, 2004

Abraham Saakian (Armênia, 1964)

óleo sobre tela,  58 x 67 cm





Imagem de leitura — Edward Thompson Davis

11 09 2015

 

 

A Quiet Moment, Edward Thompson Davis. English (1833-1867).Um momento de quietude

Edward Thompson Davis, (GB, 1833-1867)

óleo sobre madeira, 45 x 34 cm





Resenha: “O sentido de um fim”, Julian Barnes

6 09 2015

 

 

Anthony Morris (Grã-Bretanha, 1938) Retrato de Roger 1999Retrato de Roger

Anthony Morris, RP (Grã-Bretanha, 1938)

óleo sobre tela

 

 

 

Recentemente tive uma discussão acalorada com meu irmão sobre a lembrança de um evento da nossa infância. Cada um de nós, únicos protagonistas da aventura, se lembrava de coisas diferentes e em diferente ordem. Mais revelador ainda: cada qual só tinha a memória daquilo mais significativo para si mesmo. Guardamos para o futuro, para o nosso banco de memórias, para o perfil do nosso passado, só o momento de nosso próprio ato de bravura. Os dois haviam sido corajosos, individualmente, mas uma única lembrança, pessoal, individual, em que fomos heróis, se manteve.  Não chegando a um acordo, partimos frustrados, como se tivéssemos sido traídos pelo outro. Aí estava uma prova, para mim, historiadora, que de fato a reconstituição do passado é sempre ficcionalizada de acordo com o narrador. Faz parte do dia a dia, de quem se dedica à história, considerar que memórias são seletivas.  Julian Barnes adverte o leitor sobre esse fenômeno desde o início da narrativa, através de Adrian, um adolescente precoce em conversa com seu professor: “Esse é um dos principais problemas da história, não é senhor? A questão da interpretação subjetiva versus a interpretação objetiva, o fato de que nós precisamos conhecer a história do historiador, a fim de entender a versão que é colocada diante de nós.” [18]

O sentido de um fim, de Julian Barnes, trata diretamente da memória e da narrativa que damos às nossas vidas.  Trata da maneira sucinta e por vezes poética com que narramos nossas próprias lembranças; reeditando-as com a a passagem do tempo.  Julian Barnes também trata de maneira sucinta e poética o tema,  revelando a enorme dimensão do que pode existir por trás dos detalhes que escolhemos lembrar, dos fatos que obliteramos, e como a cada narrativa podemos encontrar uma nova interpretação.   Esta é uma obra magistral.  Pequena, enxuta, prova de que conteúdo não precisa ser copioso para ter impacto.

 

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Inicialmente O sentido de um fim parece estar contido nos preparativos a que, aos sessenta anos, Tony Webster, protagonista e narrador, se dedica ao colocar a vida em ordem para um futuro incerto.  Mas à medida que se recorda do passado e conclui que não realizara nada do que sonhara, é forçado a reconsiderar o que havia feito de sua própria vida, de seu casamento. Fora nada mais do que a vida de um homem comum. Tem vívidas recordações de sua adolescência e dos amigos de então. Lembra-se de sua primeira namorada e dos hábitos diferentes de relacionamentos  na época de sua juventude.  Esse início, a primeira parte da história, marca o tom de meditação que permeia a narrativa: uma longa ponderação sobre as expectativas que temos sobre o futuro, e sobre o comportamento humano.

As lembranças, cada qual acessada a partir de um gatilho diferente parecem sempre surpreendentes. Tudo é próximo da realidade e enigmático.  Revisto dezenas de vezes e sempre novo.  Como num processo de psicanálise ou inquérito policial, a cada recontagem, a cada rearrumação de fatos, uma lembrança resgatada, uma revelação, nem tão clara, nem tão nebulosa, mas presente.  A verdade?  Está em algum lugar e não chega a ser mencionada.

O título O sentido de um fim toma conotações inesperadas, imprevistas.   Muito mais do que estabelecer ordem em uma vida que se prepara para o fim, essa trama nos leva a questionar a veracidade das nossas certezas.  Somos, afinal, quem pensamos ser?

 

julian barnes, booker 2011Julian Barnes, ©AP Photo/Kathy Willens

 

De repente, a história singela, franca, desafetada, que prendeu nossa atenção até o final, levanta dúvidas. Sérias.  Não sobre si mesma. Mas ela interage conosco. Questiona.  No mesmo tom meditativo da narrativa, embarcamos numa ponderação a respeito do passado.  Rever a ficção das nossas vidas, não é fácil. Saberemos catar nos rincões da memória o que é verdade?  Separá-la, mesmo não conhecendo todos os fatos?  Sim, porque é isso o que somos, um conglomerado de ficções e alguns fatos aos quais damos a nossa identidade, não é mesmo?  Tony Webster, adolescente, não percebe a ficção do dia a dia. “Esse era outro de nossos temores: que a Vida não fosse igual à Literatura” [21]. Mas é.  A vida é igual à literatura.  Somos protagonistas da história que desenvolvemos, editamos, burilamos. Eliminamos fatos indesejados, colorimos a gosto. E em algum lugar, em algum ponto, essa fantasia toma uma vida própria, ambulante e acreditamos nela. Só mesmo um acontecimento inesperado, um evento de grandes proporções — como acontece em O sentido de um fim —  pode  desvendar a proporção de realidade que escolhemos esconder dos outros e de nós mesmos. Mas mesmo assim, não revelará tudo. Só o suficiente para o entendimento geral de uma determinada situação.

O sentido de um fim é uma joia, uma obra prima.

 

 

NOTA: Com este livro Julian Barnes ganhou o Booker Prize de 2011.





“Época de jambo”, texto de Fred Coelho

3 09 2015

 

 

Gino Bruno, Leitura, Óleo sobre tela, 65 alt X 50 larg (cm), acidLeitura

Gino Bruno (Itália/Brasil, 1899-1977)

óleo sobre tela, 65 x 50 cm

 

 

“O Jambeiro-vermelho é uma espécie originária da Malásia, país invadido pelos portugueses em 1511. Eles partiram de Goa e conquistaram a região de Malaca, transformando o estado em uma cidade importante para a história da navegação ibérica durante sua fenomenal expansão pelos mares. Ou seja, na mesma época em que pingavam desterrados pela costa de Pindorama, as frotas portuguesas construíam igrejas e fortalezas sob a sombra do Jambeiro-vermelho. Após governarem por mais de um século, foram derrotados pelos holandeses em 1641, período em que, supostamente, vigorava um tratado militar de não agressão entre as duas potências ultramarinas por conta dos embates em Pernambuco. Provavelmente o Jambo veio parar entre nós nesse momento de ligação transversal do Brasil com a Malásia, via portugueses e holandeses. Será daí, dessa origem transatlântica, seu cheiro leve de memória do tempo mordido?”

 

Em: O Globo,coluna Época de jambo, 2º caderno, quarta-feira, 02/09/2015, p. 2.

 

Link

 





Imagem de leitura — Pablo Picasso

31 08 2015

 

woman-reading-olga-1920.jpg!BlogOlga lendo, 1920

Pablo Picasso (Espanha, 1881-1973)

carvão sobre papel, 100 x 73 cm





Imagem de leitura — Jan Toorop

29 08 2015

 

 

Jan_Toorop_-_Portret_van_Marie_Jeanette_de_Lange_001Retrato de Marie Jeanette de Lange, 1900

Jan Toorop (Holanda, 1858-1928)

óleo sobre tela

Rijksmuseum, Amsterdam





Imagem de leitura — Jacek Malczewski

27 08 2015

Jacek Malczewski (1854–1929)A modelo, sd, ostA modelo, s.d.

Jacek Malczewski (Polônia, 1854-1929)

óleo sobre tela, 72 x 28 cm

Museu Nacional de Varsóvia






Imagem de leitura — J. Carlos

23 08 2015

 

 

J CARLOS. PARA TODOS. TÉCNICA MISTA SPAPEL. ASSINADO C.I.E. MEDINDO 22X22.Capa da Revista “Para Todos”

J. Carlos (Brasil, 1884-1950)

[José Carlos de Brito e Cunha]

Técnica mista sobre papel, 22 x 22 cm





Tradução literária desleixada: “Antes da festa” de Saša Stanišić

21 08 2015

 

 

Marie Louise Catherine Breslau, (Alemanha 1856-1927) Chá das cinco, 1883, Museu de Arte de BernaContra luz, 1888

Marie Louise Catherine Breslau (Alemanha, 1856-1927)

óleo sobre tela

Museu de Arte de Berna

 

 

 

A língua alemã não é uma língua exótica.  Noventa e cinco milhões de pessoas no mundo têm o alemão como língua materna. São pessoas letradas e escolarizadas. Além disso, o alemão é lido e compreendido por outras pessoas, muitas delas nas humanidades e nas ciências, que precisam usá-la profissionalmente como segunda língua.  É uma língua em que grandes escritores se revelaram: Goethe, Schiller, Hesse, Grimm, Günter Grass, Rilke, entre outros. Há centenas de dicionários em alemão, sobre o alemão, do alemão para outras línguas. Portanto, traduzir um romance ou um conto, um ensaio filosófico, deveria apresentar simplesmente, ou somente, os problemas normais de uma tradução: uma ou outra dificuldade de se achar equivalência de uma expressão típica, de algum conceito alheio ao leitor em português.  Isso não aconteceu com o romance que escolhi para leitura nesta semana.

Estou pasma com a má qualidade da leitura por causa de problemas  na tradução de Marcelo Backes do livro de Saša Stanišić Antes da Festa.  O tradutor cometeu erros crassos de português como a palavra acento usada no lugar de assento.

Agora faz exatamente um ano, no dia anterior à última Festa, que Ulli arrumou sua Garagem, botou um punhado de acentos, cinco mesas e um aquecedor, pendurou uma cortina de tule vermelho e amarelo diante da única janela, pregando na parede…” [p.18]

Note-se: mesmo que fossem assentos, não se pode usar a expressão um punhado.  Punhado é o que cabe em um punho.  [ “…botou, alguns assentos, cinco mesas…”] seria o mais correto.

“O povoado em cadeiras. A ordem dos acentos é um tema explosivo. Quem irá ficar com a mesa de bar na parte da frente, junto à figueira?” [p. 28]

Além dessas belezas acima, o tradutor optou por usar um texto em português quase ao pé da letra do que está em alemão. Ou seja subjugou o entendimento em português para preservar a fidelidade às expressões, à ordem de palavras, ou a modos de dizer que não fazem sentido em português. Temos, assim, frases como:

“Com o sistema de climatização de hoje em dia, até a lua seria possível.” [SIC][p. 37]

“O povoado reza diariamente por um mero mais ou menos.” [SIC] [p.31].

“Certa vez, os que estavam procurando cogumelos.” [SIC] [p.41]

 

Ou problemas com um parágrafo inteiro, notem que o itálico é meu:

“O tenente-coronel Schramm acompanhou os coletores de cogumelos até o parâmetro extremo.[SIC] [?] Numerosos eram os cogumelos ao lado do caminho. [SIC] [Porque não usar a forma direta?  “Eram numerosos os cogumelos ao longo do caminho?”] Mas aquelas pessoas não sabiam mais se podiam ou não colhê-los. De modo que Schramm tomou a iniciativa e botou um cogumelo bem suculento no cesto da menina. E depois foi obrigado a ver que nem era um boleto. [SIC] [?] A mãe voltou a tirá-lo do cesto sem dizer palavra.” [p.45]

Erros de grafia abundam:

“No verão, a morte anda não era uma ideia, no verão o senhor Schramm queria tentar a vida mais uma vez, talvez se apaixonar.” [p.110]

 

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Mais tarde somos agraciados com um português com grafia excepcional. A intenção é dar ao texto um cunho de antigo, de ter sido escrito no século XVI, pois o capítulo começa “No ano da graça de 1587…”. Mas o tiro saiu pela culatra e o maneirismo da letra ‘l’ dobrada, das palavras um começarem com ‘h’ , não surtiu o efeito desejado pois a essa altura já são tantos os problemas com a leitura, que esse detalhe se torna uma distração a mais.

“Os homens se junctaram em roda. Parecia até que tentavam esconder o leitão. O mandachuva dividiu o ar ao meio movendo as mãos à esquerda e à direita — e já os homens abriram hum buraco no centro.” [p. 70]

Enfim, chegada à página 110, desisti da leitura.  É muito pouco caso com o leitor. Deixei uma queixa no site da editora, mas eles não se dignaram a responder.  Não quero colocar a culpa exclusivamente no tradutor, ainda que 90% da responsabilidade seja dele.  Há duas pessoas mencionadas como responsáveis pela revisão: Rafael Alverne e Thais Carlo.  Não vejo sinais do trabalho deles.  Talvez estivessem de férias, ou pior, confiaram em programas de computação para a revisão. Esses programas não percebem erros entre assento e acento, ou seja não sabem as diferenças entre palavras homófonas.  Fato é que ninguém responsável por esta publicação leu o livro.  Uma vergonha.

A Editora Foz perde sua credibilidade porque publica um livro ilegível. O autor alemão não entenderá a razão de sua obra não ter sucesso no Brasil, quando é sucesso em outros cantos do mundo.  Os leitores que mantêm editora, autor, tradutor e revisores trabalhando, pois compram o livro, não podem fazer nada além de reclamar, ou será que deveríamos ir ao PROCON?  Dá vontade.