Ritual que se foi…

20 06 2025

Domingo passado estive numa festa de aniversário de duas amigas: mãe e filha. A mãe completava oitenta anos e a filha marcava os cinquenta. Foi uma bonita comemoração: família e amigos reunidos numa sessão dupla de felicidade. Na saída, os convidados receberam uma mini licoreira com o licor italiano à base de avelãs, Fra Angélico, favorito da aniversariante mais velha. A garrafinha veio protegida por um saquinho de organza com cartão marcando as datas das aniversariantes e a frase: A vida é um eterno recomeço. No dia seguinte à noitinha, me preparei para degustar o licor, rememorando aquele momento. A bebida me acompanhou na leitura de A vida secreta das árvores de Peter Wholleben. Essa noite tornou-se especial, fiz duas coisas deliciosas: ler e degustar o licor; Um momento em que me voltei para o passado sobre licores, seus usos e como, no presente, licores praticamente desapareceram de minha vida.

Memórias me levaram à casa de meus avós maternos. Naquele Rio de Janeiro era mais comum as pessoas receberem amigos em casa. Não necessariamente durante o final de semana, nem estou falando de grandes festas. Mas visitas durante a semana, à noite, depois do jantar, quando a mesa já havia sido retirada, e sobrava tempo para minha avó se sentar com o jornal da manhã, lápis em punho, para completar suas palavras cruzadas. Era o sinal para meu avô se esconder no escritório, uma sala não muito grande, coberta por estantes de livros, encapados com papel pardo, etiquetados e enfileirados em prateleiras protegidas por portas de vidro de correr. Minhas memórias desse escritório, ficaram para sempre marcadas pelo perfume de tabaco. Lá, era onde meu avô dava uma cachimbada noturna, impregnando o ar com o perfume doce, delicioso, do fumo, que era guardado solto em um pote de vidro hermético, difícil de abrir, mantido ao lado do umidor onde ele que guardava charutos para ocasiões especiais.

Eram noites comuns. Nada de especial: não eram aniversários, nem ocasiões extraordinárias. Mas de quando em quando, meus avós recebiam uma ou outra visita na semana. Os visitantes chegavam por volta das vinte horas, depois do jantar, vestidos no que hoje acharíamos trajes muito formais. Homens na maior parte do tempo sozinhos para conversar com vovô. Vinham de terno e gravata. Se trouxessem suas esposas, elas também vinham vestidas de modo igualmente formal, perfumadas, com bolsas dependuradas no antebraço. Essas eram as roupas que se usava para sair e visitar amigos. Mas ao contrário do que se possa imaginar, elas não faziam as conversas mais formais. Não. Eram conversas entre amigos, falavam de coisas comuns. Riam-se. Falavam de política, do governo, do trabalho. Brincavam entre si, e comigo, a neta mais velha da família e sabiam meu nome direitinho, ainda que eu não participasse dos encontros, sentada com um livrinho de colorir, ou até mesmo um gibi num canto caladinha, sem que me atrevesse a conversar sem ser chamada.

Natureza morta com licor Bénédictine, garrafas e taças, 1919

George Mosson (França-Alemanha, 1851-1933)

 óleo sobre tela, 55 x 63 cm 

 

 

Nessas ocasiões os amigos de meus avós eram direcionados ao jardim de inverno, uma grande varanda, fechada com janelas de vidro, repleta de plantas tropicais altas e mobiliário vindo de São Paulo de madeira teca, resquícios de sua longa estadia a trabalho naquele estado.  Na varanda, havia uma mesa pequena para duas pessoas em um canto onde os homens se sentavam, frente a frente, onde vovô, em outras ocasiões, também jogava damas comigo e vovó, para não ficar para trás, me ensinou a jogar Burro e Memória, com o baralho. As senhoras, quando vinham, se sentavam em poltronas também de madeira com almofadões de flores diversas.  Vovó trazia uma bandeja com copinhos para licor, que nada mais são do que taças de vinho liliputianos. Junto, vinham duas ou três garrafas de licores diversos, europeus. Servia cafezinho também, acompanhado de açucareiro e pequeninas colherinhas de prata. Não havia preocupação com açúcar, nem havia, que eu saiba, adoçantes industrializados. Essas bebidas eram o bastante para a conversa rolar por algum tempo.  Quando o som do relógio carrilhão da sala adjacente batia dez da noite, naquela longa melodia inglesa do Big Ben, as visitas ou já haviam saído ou estavam no final das despedidas, prometendo verem-se de novo em breve.

Vovô era de Mato Grosso, estado que ainda não havia sido dividido em dois. Aqui no Rio de Janeiro, existia uma verdadeira colônia de mato-grossenses alguns remanescentes da ditadura de Vargas, que havia recebido apoio de pessoas influentes daquele estado, principalmente na campanha de Getúlio para o desenvolvimento da região centro-oeste, conhecida como ‘Marcha para o Oeste’.  Outros, como meu avô, mandados pelas famílias para estudarem no Rio de Janeiro, que simplesmente permaneceram na capital do país, casados com cariocas, trabalhando por conta própria, na indústria ou empregados do governo. Desterrados, procuravam o consolo do sotaque típico da região e referências às famílias conhecidas que representavam. Quando vovô recebia amigos de lá, o esquema era o mesmo, mas os licores servidos eram diferentes: as frutas reinavam, ainda que eu me lembre de uma bebida de folha de figueira, mas serviam licor de pequi, banana e outro, cujo nome me causava acessos de riso desenfreado: furrundu.  Até hoje tenho um sorriso indomável quando me recordo dessa bebida.  O licor de pequi era meu grande conhecido, porque na prateleira mais baixa da cristaleira de vovó, onde ficavam as garrafas de licores, refletidas no espelho ao fundo do móvel, a garrafa de pequi brilhava como nenhuma outra com seu líquido dourado e a mágica da fruta inteira lá dentro.

 

 

Taça de licor, laranja, par de dados

Daniel Montoya Neiderbach (Espanha, contemporâneo)

óleo sobre placa, 31 x 23 cm

 

 

A bebida também foi consumida quando visitas chegavam na casa de meus pais.  Depois que meus avós morreram, lembro que não se precisava mais de visitas formais para os licores virem ajudar a comemorar a ocasião.  A formalidade na cidade já estava se dissipando.  Mamãe e minhas tias serviam licores às amigas, às irmãs, quando jogavam cartas à tarde ou se reuniam numa tarde de aniversário.  A bebida muitas vezes era acompanhada de algum bombom requintado, mais frequente, no entanto, de uma torta de chocolate, nozes ou bolo de amendoim. Durante o final dos anos setenta e a década de oitenta  passada era comum quem viesse de viagem internacional, trazer de presente uma garrafa de licor para um membro da família ou um amigo: Fra Angelico, Cointreau, Baileys entre outros. Não consigo precisar uma data quando na minha família perdeu-se esse hábito.  Talvez a idade da geração de meus pais,  talvez preocupações com saúde, ou até mesmo altos e baixos econômicos do país possam ter contribuído para isso.  Visitas à noite, no meio da semana também rarearam, aconteciam principalmente entre membros da família, meu pai visitando seu irmão, meus tios vindo para um abraço rápido de congratulações pelo aniversário de alguém. Aos poucos perdeu-se o ritual do licor como gesto de boas-vindas. 

Tudo mudou nos últimos quarenta anos. Às vezes precisamos de um gole de licor de amêndoas  para considerar as mudanças sociais por que passamos.  Devo à minha amiga Rose, e a comemoração de seus oitenta anos, essa pausa para reflexão e viagem pelas memórias de infância. 

©Ladyce West, Rio de Janeiro, junho 2025.





Um livro de impacto: J. D. Salinger

18 06 2025

Orgulho, 1977-78

Jack Beal (EUA, 1931-2013)

pastel on placa artística,101 x 81cm

 

 

“O que verdadeiramente tira o meu fôlego é um livro que, quando você termina de ler, deseja que o autor que o escreveu fosse seu grande amigo e que você pudesse chamá-lo ao telefone, a qualquer hora que desejasse.”

J. D. Salinger, O apanhador no campo de centeio

Tradução: Ladyce West




Dia a dia…

18 06 2025

 

Muitas vezes não sabemos o impacto que nossas ações podem exercer sobre outras pessoas.  Fui levada à Oficina de Escrita do escritor Luís Pimentel pelas mãos de uma amiga, Magali Lee Cotrim, que estava interessada em escrever memórias.  Fui, ainda sem saber bem como tudo isso funcionava.  Escrever havia sido sempre parte de minha vida, ainda que fosse segredo.  Manuscritos, tenho-os alguns.  Talvez, por haver feito resenhas de livros para jornais e no blog, há 17 anos, algumas centenas de resenhas, meu medo de meus textos não serem bons, sempre me impediu de aparecer como escritora.  

Fui aos primeiros encontros da turma de Pimentel com o coração nas mãos;  O que encontrei lá foram colegas respeitosos, críticos onde deveriam ser;  e Luís Pimentel, cujas palavras, gentis, mesmo quando sugeriam mudanças nos textos, guiaram e apoiaram meu trabalho.

A essa altura, meu marido já se achava adoentado.  Com a pandemia ele piorou.  Tive muito medo dele morrer sem que visse que eu havia levado minha escrita avante. Desde que o conheci, Harry havia me dado todo apoio à escrita.  Aos meus textos em inglês e aos em português. Não fosse por ele eu não teria me dedicado a dois romances engavetados, à tradução do português para o inglês, às críticas literárias.  Todo esse tempo, trabalhando como historiadora da arte e mais tarde galerista.  

No final de 2020 quando ainda dava tempo de meu marido ver a publicação de À meia voz, resolvi publicar.  Luís Pimentel me deu o presente de escrever a orelha do livro, introduzindo essa nova poeta.   Fica aqui mais uma vez meu agradecimento, meu apreço às suas orientações.  Fazer parte de seu círculo de escritores foi uma das mais importantes decisões que já tomei. Sem hesitar faria outra temporada sob seu olhar agudo e carinhoso.  Obrigada, Pimentel.





Pequenas mudanças…

24 05 2025
Caminhão de mudanças em Patópolis, ilustração de Walt Disney Co.

 

 

Junho está à porta. E este blog comemora então seu décimo sétimo ano de existência. Foi mudando ao longo do tempo.  Nos 17 anos que tenho postado praticamente todos os dias, a internet mudou. Ficou mais acessível, mais pessoas se dedicaram a postagens.  Muitas desistiram.  Sou uma blogueira antiga. 

No início eu me dediquei à educação visual e literária para todos, mas algumas escolas me deram preferência.  Naquela época, quase vinte anos atrás, havia pouco publicado que pudesse ser utilizado pelos professores do ensino fundamental e médio e tive muito apoio deles, principalmente do Rio Grande do Sul, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Paraná. Professores passaram algumas páginas como “dever de casa” e me comprometi a não ajudar as crianças dando respostas certas para suas perguntas, deixando que elas resolvessem por si só a moral da fábula, ou o que o poeta quis dizer.

Algumas postagens também foram colocadas pensando nesse público: assim vieram os Filhotes Fofos, O verde do meu bairro, Natureza maravilhosa, Palavras para lembrar [a respeito da leitura], Minutos de sabedoria [citações de conhecidos pensadores], Boas maneiras (um tantinho de etiqueta), Poesia infantil e outras pequenas, não tão resilientes postagens regulares do blog. Assim cheguei hoje aos quase 12 milhões de diferentes acessos ao blog, ou seja 12 milhões de pessoas diferentes acessaram o blog, se você voltou a acessar o blog, não conta, são 12 milhões de diferentes acessos.

Os anos passaram, muito coisa apareceu na internet, alunos e professores encontravam postagens mais relevantes para seu trabalho, e… fui rareando algumas dessas postagens.  Muito acontece em quase 20 anos.  De repente, a partir da segunda metade do 24 e agora. nesses cinco meses que passamos em 2025, comecei a receber por email, pedidos para algumas coisas que se referiam a esses tópicos que eu havia deixado de lado.  Acho que como celebração desses 17 anos de postagens, vou tentar voltar a postar alguns desses nichos mencionados acima, para alegria de quem pediu de volta.  

Comecei ontem.  Vamos ver…  Se você gostaria de ver mais alguma coisa neste blog, por favor entre em contato.  Não posso prometer que farei.  Nem sei se conseguirei manter todas essas postagens dos nichos antigos.  Hoje tenho menos tempo.  No passado, meu marido fazia as compras, eu tinha diarista, hoje não é bem assim… Mas farei um esforço.  Que venha o 18º, o 19º, o 20º anos.

Ah, sim, vou adicionar minha própria website por aqui.  Sempre fui meio tímida para isso.  Mas parece que se você não faz sua própria propaganda… está fadada ao esquecimento no mundo atual.  Vocês (notaram que meu blog não tem anúncios?  Pois é, eu pago a WordPress para não ter anúncios.  E não faço um único centavo com o blog.  Para mim é um hobby.  É assim que quero  manter. 

Os anúncios que coloco são das minhas aulas e do meu livro, futuramente de meu segundo livro e estou (aconselhada por uma pessoa de marketing) aumentando o número de postagens que me mostram como escritora, Dia a dia…, porque é uma mudança ‘profissional’ para mim, ou seja, de historiadora da arte estou também tenho que explicar que escrevo.

As resenhas de livros, acreditem há mais de 350 resenhas de livros no blog, e listas de livros, muito populares, continuarão.  Tudo continuará, só voltamos a ter mais dos temas antigos.

Obrigada a todos pela constância das visitas, num dia normal, quando todos os blogs já quase desapareceram, e que a maioria que tem visitantes é de política, religião e outros assuntos de interesse geral, continuo com meus visitantes, de 3.500 a 5.000 por dia.  Obrigada a todos.  Há alguns de vocês muito fieis e isso me deixa muito feliz. Adoro ver seus comentários, suas observações.  Fico feliz.  E… embarquemos juntos nesses novos-antigos parâmetros.





Dia a dia…

22 05 2025

Hoje tivemos um almoço gostosíssimo.  Marina, que é de São Paulo, está no Rio de Janeiro em brevíssima estadia. Mas seria aniversário de seu pai… que já se foi.  Reuniu então os tios e primos que em pouco tempo pudessem se encontrar, lembrar de seu pai e tudo, antes dela embarcar de volta para casa…. Foi coisa improvisada.  Mas o improviso às vezes sai melhor que o programado.  Foi um momento feliz, num restaurante em Botafogo…





Três anos e redescobertas!

7 04 2025
Frente à Prefeitura de Raleigh, NC, onde nos casamos no civil.  Foto de Polaroid.

 

 

Há três anos ele se foi.  E até hoje não gosto de tomar café da manhã sozinha, em casa.  Todos os dias, para surpresa de amigos, saio, vou à padaria, muitas vezes depois de andar na praia, e tomo meu café da manhã. Um de nossos ajustes iniciais, na vida em comum, foi justamente o ritual matutino: sou a que acorda com a cabeça pronta para conversar, enquanto ele, silencioso, não queria papear.  Nem tinha cabeça para isso.  Mesmo assim, a primeira refeição do dia era nossa.  Só nossa.  Depois, preparados para o dia, por volta das seis e meia da manhã, sentávamos para ler o jornal, comentar acontecimentos, trocar ideias sobre o trabalho. Um pouco antes das oito, esse primeiro afago, essa mostra da camaradagem, da troca de pontos de vista, da leitura em voz alta de uma notícia que achávamos interessante, dividindo um com o outro a observação sobre o mundo lá fora, esse ritual de cumplicidade chegava ao fim pelas demandas do dia.  

Todas as manhãs, observávamos os pássaros no comedouro dependurado na árvore dogwood,  mais próxima da bay-window que se abria para a mesa onde estávamos.  Era um canto do jardim protegido por cerca de madeira, com pátio de tijolos vermelhos, que mesmo no inverno, quando as temperaturas baixavam em todo o resto do terreno, e até mesmo quando nevava, ali, graças ao calor retido pelos tijolos, graças à cerca de privacidade,  só nesse cantinho do jardim que protegia o pátio dos ventos gélidos, algumas plantas com ar mais tropical haviam sido plantadas, seguindo o plano do paisagista que eu contratara para que houvesse alguma lembrança de um jardim tropical nesse grande terreno que nos cercava.

Os cafés da manhã ficaram como um ritual nosso.  Mesmo nos diversos países onde moramos, mesmo quando, depois de aposentado, Harry insistiu em virmos para o Rio de Janeiro, que ele amava.

 

 

Washington, NC. no rio Pamlico.

 

 

O luto é um processo muito estranho. É claro que já passei por lutos diversos: irmão, pai, mãe, tios, amigos. Ele nos faz dar muitas voltas nas nossas memórias e as décadas de vida compartilhada parecem sair de uma pasta zipada, e a gente não sabe mais o que aconteceu exatamente quando. 

Ainda estou passando minha vida em revista.  Dizem os psicólogos, os experts em luto, que será assim por muito tempo.  Aos poucos essas revisões se atenuam.  É como fazer análise.  Que fiz há muitos anos, não agora.  O número de vezes, as horas que passei revendo a adolescência, as primeiras amizades, paixonites, primeiro namorado sério e aquele casamento, e, depois, na minha vida com Harry dariam uma série de streaming de algumas centenas de capítulos.  E essas memórias, esses eventos, acontecimentos, questionamentos, não vêm em ordem.  Hoje de manhã. me lembro da pandemia, de tarde da colega de turma na escola, que se suicidou, à noite me lembro de meu enteado no hospital com indigestão, logo em seguida,  volto ao primeiro casamento, quando morávamos em São Paulo,  como é que aquilo aconteceu mesmo?  É movimento circular, que ajuda, não sei como, mas ajuda, nessa redefinição de uma nova era, de uma nova eu. 

Mas a falta, a falta que Harry me faz, é constante.  É uma presença invisível, que me acompanha e com quem ocasionalmente troco um olhar de cumplicidade na minha mente, porque não há como não o fazer. É impressionante o que a memória guarda e  as inúmeras perguntas que se faz nessa redefinição de quem somos, por que somos assim?  O que é que queremos ainda ser, fazer, ouvir, ler, aprender? Não é necessariamente penoso esse caminho, pelo menos não tem sido.  Mas é uma busca que aparece do nada, no meio do dia, no meio de um filme, quando faço chá à tardinha, que aparece um pouco antes de dormir, e me deixa acordada a noite toda. E como eu daria, como dizem os americanos,  an arm and a leg para poder voltar no tempo, de maneira Proustiana, procurar nos detalhes das minhas memórias, meu tempo perdido.  Não quero trocar nada do passado,  mas  gostaria  observar as cenas, como se pudesse ver em um filme, estreado por essa personagem que fui,  com o conhecimento que tenho hoje.

Não sei ainda para onde caminho nessa peregrinação. Mas vejo algumas mudanças.  Pequenos passos.  Imagino conversas com minha mãe, que ficou viúva aos cinquenta e seis anos.  Mas rapidamente me lembro que ela era muito fechada, não dividia experiências e tudo que expressava era através das tintas no papel, na madeira, na arte. Cada qual tem seu caminho no luto. É um processo individual. Essa  redescoberta que faço, não acontece para todos.  Esse tem sido o meu caminho. Só. É uma solidão no peito, um vazio imenso na alma. Mas a cada dia se transforma.  A volta ao passado ajuda, não sei como ou porque, mas ajuda.  Não tenho mágoas nessas lembranças.  Foi o que foi.  Todos que um dia fizeram parte da minha vida, do meu cenário, são lembrados, contribuíram para que eu chegasse aqui, sã e salva, inteira.  I have no regrets.

 

 

Sfizef, Argélia.
Rio de Janeiro
 
 
 
Rio de Janeiro.

©Ladyce West, 7 de abril de 2025, Rio de Janeiro





Poesia… e poesias…

3 04 2025
Ilustração, Théophile-Alexandre Steinlen (França, 1859-1923)

 

 

 

Recentemente me perguntaram como vejo a influência dos mais de trinta anos, passados fora do Brasil.  Influenciaram minha escrita?  Estávamos num podcast e eu não havia me preparado para essa pergunta.  Não soube responder de pronto, principalmente porque eu nunca havia considerado a questão. 

A poesia me acompanha desde criança.  Para mim, ler poesia é um prazer, mas não leio livros inteiros.  Leio um poema aqui,  outro acolá.  Sou leitora promíscua e constante.  Tenho poetas preferidos.  Nos Estados Unidos, depois que me casei com um professor universitário de literatura americana, fui me familiarizando com a poesia do país, e em paralelo com os poetas ingleses, para além dos grandes nomes.  Tive sorte de também conhecer dezenas  de poetas vivos, contemporâneos., com quem convivi em encontros de escritores.  Nos EUA, morei fora do eixo cultural centralizado em Nova York —  mas sempre na costa leste, que por sua própria história mantém mais elos culturais com a Grã-Bretanha do que o resto do país. E a vida cultural no RTP [Research Triangle Park] foi rica, graças às várias e respeitáveis universidades ali concentradas [N.C. State, North Carolina, Duke, Wake Forest, Shaw, Saint Augustine, William Peace, Campbell e outras].

 

 

 

A carta de amor, 1911

George Lawrence Bulleid (Inglaterra,1858-1933)

aquarela sobre papel

 

 

 

Nunca pensei que meu primeiro livro fosse de poemas.  O que me atrai nessa escrita?  Ser sucinta, expressar pensamentos, estados d’alma, ponderações. Aquilo que me intriga e fascina.  Isso é poesia para mim.  Seu valor está na brevidade, chamando o leitor ou o ouvinte para reflexão.  E tem que ter cadência, ritmo.  Rimas ocasionalmente bem-vindas, mas não necessárias.  

Desde que retornei ao Brasil, ampliei meu contato com os nossos poetas, com a poesia contemporânea. Desconhecia muitos.  O que herdei do meu contato com a poesia anglo-americana, talvez seja a preferência pela ordem direta, pela simplicidade da imagem. Guardo, sim, sinais das dezenas de anos de imersão total no inglês. Anos sem uma palavra em português: lendo e escrevendo nessa língua.  Publicando nos jornais.  Sinto falta às vezes da precisão da língua inglesa.  Mantenho a escrita intimista, típica de muitos dos meus poetas favoritos. No inglês são, de fato, os líricos, tanto antigos quanto os da segunda metade do século XX, que mais me tocam: Frost, St. Vincent Milay, Sexton, Lowell, T. Hughes, W.C. Williams, Wallace Stevens, Dunbar. No Brasil, ah, são muitos,  conhecidos e não tão conhecidos: Drummond, Bandeira, Quintana, Murilo Mendes, Meireles.

Somos o resultado das nossas preferências; esponjas absorvendo sempre aquilo que nos fascina, agrada, intriga.  Como não ter um influência estrangeira nessas circunstâncias?  Mas é de perspectiva.  A língua em uso é bem brasileira, culta, mas brasileira.

 

 

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2025

 

 

Para quem não conhece, acima meu primeiro livro À meia voz. em breve Casa Vazia estará nas livrarias, ainda sem data.  Mas À meia voz, o livro com que me lancei com poesias variadas, está na Amazon tanto em papel quanto em ebook.  Será um prazer conversar com você sobre a obra.





Manhãs de Coimbra

15 03 2025
Coimbra vista do Mondego.

 

 

Ontem a cerração na praia de Copacabana estava densa.  Pouco depois das seis da manhã, não se podia ver nem os sinais de trânsito no meio das pistas quase desertas de carros. Difícil atravessar o asfalto para chegar à calçada junto à areia. Não é muito comum esse tipo de neblina espessa adentrando o calçadão.  Muitas vezes vemos névoa deitada em alto-mar, embaçando o horizonte. Não fica por muito tempo. Logo o sol tropical parece expulsar toda umidade dessas nuvens baixinhas. Mas cobrindo parte da areia, antes do quebra-mar, é incomum. Minha caminhada foi acompanhada pelo som dos longos apitos de embarcações invisíveis, escondidas pelo ruço da manhã, ao saírem da baía de Guanabara em direção sul.  Justamente próximo ao Forte de Copacabana, onde começo minha caminhada diária, os navios aumentavam a frequência e a duração dos apitos.  Esse melancólico som que, para os que moram próximo à praia, é familiar, pareceu mais solitário. Ouvir tão perto o lamento de  naves fantasmas deu ao início da manhã um ar nostálgico.  E os atletas, que se exercitavam na areia ao sol nascer, tornaram-se seres ilusórios, fantasmas de si mesmos a menos de dez metros de distância.  Já não se sabia quem eram. Tudo parecia irreal nessa manhã.

Sou parcial a neblinas. Gosto dessas cortinas de nuvens que insistem em nos rodear em alguns lugares.  Hoje, quando voltei para casa lembrei-me de Coimbra, e dos dois anos em que lá morei. Uma das memórias encantadoras que tenho da cidade são suas manhãs nebulosas. Morávamos próximo à Praça da República, numa ladeira que desembocava na rua Almeida Garrett.  O que não é ladeira nessa cidade? Não fosse pelas casas à frente de nossa janela, de onde, empoleirados no lado mais alto da subida, víamos as telhas vermelhas de seus telhados e mais adiante os telhados de outras construções, talvez tivéssemos podido observar, ainda que de longe, a série de edifícios de dois e três andares que perfilam, unidos uns aos outros, em sentinela, um dos lados da praça.  Como se estivéssemos numa plataforma, numa vigia de viúva, essa peça arquitetônica das casas à beira-mar no nordeste dos Estados Unidos, podíamos ver à nossa frente um vasto horizonte, um mar de telhados, algumas copas de árvores em descida íngreme e ao fundo, elevando-se solitária, a colina central da cidade, em cujo topo, parcialmente descobertas, como se tímidas fossem, reinavam as construções centenárias dos prédios da universidade e a torre do relógio.

No entanto, essa vista esplendorosa de nossa janela só podia ser apreciada, na maioria dos dias do ano, depois das dez da manhã.  Porque antes disso, densa neblina se acomodava à noite,  aninhada por entre os altos e baixos da cidade, entrando pelos jardins, tomando as bordas urbanas, fazendo moradia nos ermos da cidade.  Não podíamos ver nada além de uma barreira branca acinzentada, algodão doce gigantesco, que insistia em se dissipar lentamente, sugado aos poucos pelos raios de sol matinais. Por causa dessa névoa espessa, cobertor orvalhado, que penetrava cada esquina, beco, ruela pitoresca, tínhamos a impressão de que os primeiros sons da manhã também se sobressaíam, assim como no meu passeio na praia de Copacabana ouvi, com mais atenção, o lamento dos apitos dos navios em alto mar.  Em Coimbra, na nossa rua, percebíamos da janela do quarto, com a cidade ainda em silêncio às oito horas da manhã, os passos de pedestres ressoando alto no asfalto; pareciam passar por dentro de nossa habitação. Os numerosos gatos de rua, miavam com mais sofrer, esperando pelo sol.  Queriam voltar a esquentar-se encarapitados nos lugares mais altos dos telhados. Alimentados por moradores atenciosos, esses bichanos quase selvagens, ocupavam também a esquina à nossa frente, passando horas e horas no calorzinho aconchegante das telhas de barro.  A vida em Coimbra, para nós, que vínhamos de cidade grande, era mais indolente, com inúmeros momentos a serem degustados lentamente. Sempre tive para mim, que a névoa da manhã ritmava o dia e deixava que acordássemos vagarosamente, para depois também juntarmos o som dos nossos passos no caminho, aos dos demais habitantes: nosso destino, no entanto, era um café na praça e a leitura do jornal matutino. Esses anos em que moramos lá, ainda têm para mim um quê de mágicos e as manhãs enevoadas vestem de encantamento nostálgico essa estadia.

 

©Ladyce West, Rio de Janeiro, março de 2025





Uma velha gramática e um bando de memórias

23 02 2025
Uma velha livraria, ilustração de Guido Borelli (Itália, 1952).

 

 

Meu pai me apresentou às delícias de explorar um sebo.  Lembrei-me disso, hoje, quando organizando novas prateleiras colocadas neste fim de semana, me encontrei com um livro muito antigo que ele comprou para mim, quando comecei a estudar francês aos dez anos de idade. Num final de tarde, vindo do trabalho, papai me entregou um pacotinho, não muito grande, bem embrulhado em papel pardo, com barbante de algodão de dois fios, verde e branco que se enroscavam um no outro.  Muito bem feito, com as rebarbas de papel dobradas em ângulos nas laterais e depois viradas para reforçar as aberturas, o pacote, embalado sem luxo, tinha um pequeno laço no centro, revelando o cuidado do vendedor com a compra. Era um livro. Um livro muito diferente de todos que eu conhecera até então.  Antigo.  A capa dura, com dorso em tecido vermelho, tinha ao centro a gravura de uma mulher sentada, tal qual deusa da antiguidade, talvez Minerva, ladeada por duas crianças: um menino e uma menina.  Em típica estética do início do século XX, a capa também descreve, de uma só vez, em palavras, todo o conteúdo do livro: Curso seguido pela Escola de Paris, inscrito nas listas dos departamentos (estados na França), adotado em todos os países de língua francesa. 800 exercícios 380 ditados e redações, 240 gravuras, publicado pela Librairie Larousse, Paris [1911]. Há outra frase descritiva, mas o tempo já apagou muitos dos caracteres.  Era a Grammaire de Claude Augé, volume relativo ao curso mediano.  Em seu interior havia, pontuando os exercícios de leitura, gramática e demais pontos de ensino, deliciosas gravuras, quadradinhas, não passando de dois centímetros e meio cada, que ilustravam a lição e me deram muitas vezes asas para imaginação.  Fui uma criança e adolescente sonhadora e, sentada à mesa da sala de jantar, fazia os meus exercícios, vagarosamente, sempre com auxílio de um de meus pais.  Mas era comum eles, de repente, pararem as explicações, chamando minha atenção para o texto, para o presente, para o que fazíamos, porque aquelas gravurinhas nos cantos, nas bordas das páginas me levavam a outros mundos. Provavelmente, frustrados com meu progresso em casa, aos doze anos entrei para a Aliança Francesa, e por anos seguidos estudei lá, até mesmo depois de casada, quando morei em São Paulo.  Porque comecei muito cedo no aprendizado do francês acredito que a familiaridade com a língua tenha me ajudado bastante, de maneira totalmente inesperada, em ocasiões que ficam para serem contadas de outra vez.

 

 

Na minha família, naquela época, a língua francesa era a língua estrangeira a se conhecer.  Não é que não dessem valor ao inglês.  Fui aluna, por poucos anos, da Cultura Inglesa, porque meus pais achavam importante eu ter um mínimo de conhecimento de inglês. Mas eu já era adolescente cheia de rebeldia, largando o inglês assim que pude.  A ironia do destino foi que justamente na Cultura Inglesa, do Jardim Botânico, vim a conversar pela primeira vez com o adolescente, que eu já conhecia de vista, porque voltávamos da escola no mesmo transporte público, que mais tarde, poucos anos depois, se tornou meu marido. Nessa época eu ainda não sabia que o destino iria me trazer a obrigação do inglês.  O francês continuou como a língua estrangeira mais importante. Quem poderia imaginar que casada, eu iria morar nos Estados Unidos e voltar de lá mais de três décadas depois?  Esses certamente não eram os planos quando comecei a aprender francês com minha mãe, em casa.  Meu avô materno havia passado algum longo tempo, na Suíça, a trabalho, voltando algumas vezes mais tarde na década de 1950.  Sua primeira e longa estadia foi após a Segunda Guerra Mundial. Vovô era um intelectual, advogado, professor e mais tarde, na década de cinquenta tornou-se escritor com uma coluna sindicalizada nos jornais, que aparecia em diversas publicações por todo Brasil. Ele era fluente em francês.  Seu diário, de que sou a guardiã, tem observações interessantes sobre diversas épocas de sua vida.  Alguma coisa que ele preferia deixar velada, escrevia em francês.  Francês era sua língua de escape, ainda que eu não saiba exatamente quando a aprendeu. Por causa de sua estadia na Suíça, tínhamos lá em casa muitos livros com belas fotos daquele país, e eu, uma coleção de bonecas dos diversos cantões suíços.

Esse não foi o único livro de sebo que papai me trouxe de presente. Muitos outros fizeram parte da minha vida de estudante e certamente da minha vida de leitora.  A Grammaire de Augé, foi o início de um relacionamento feliz com livros antigos.  Um de meus primos, que era afilhado de papai, uma vez me disse que papai sempre lhe dava presentes de aniversário para crianças um pouquinho mais velhas.  Ele gostava, mas tinha que se esforçar para apreciá-los. O mesmo acontecia comigo.  Tenho certeza de que meu francês aos dez anos não deveria ser do nível para essa gramática, segundo volume de uma série de quatro, do ensino para nativos da França.  Mas nem papai, nem mamãe se preocuparam com isso.  Aulas particulares de mamãe começaram quase imediatamente após o livro de Claude Augé chegar lá em casa. Foram aulas pequenas, sem grandes exigências, mas hoje, abrindo aqui e ali, vendo minhas anotações, em pedacinhos de papel marcando lugares específicos no livro, me surpreendi com o material que cobrimos. 

Procurei por essa gramática na Estante Virtual, site de venda de livros de segunda mão.  A gramática ainda existe à venda e há também outros livros novos e antigos esperando por compradores.  Depois de uma hora vagando virtualmente pelos sebos do país, comprei alguns livros que irão alegrar minhas leituras este ano.  Mesmo assim, ainda prefiro entrar nas poucas lojas de livros usados que conheço aqui na cidade, respirar o ar dos livros antigos, um misto de tabaco, mofo, papel velho e poeira que certamente não são bons para alergias, mas a gente dá um jeito. E gosto de desfrutar do silêncio. Adoro o silêncio que livros trazem a qualquer lugar. Gosto também de sair, depois de ter manuseado uma centena de volumes, com uma sacola com dois, três, cinco livros que eu não sabia, ao entrar, que precisava ler; que só de abri-los se tornam indispensáveis para mim.  Hoje, eles vêm para casa em sacos plásticos, quando não em sacola do supermercado reutilizada. Perdemos o encanto de um pacote bem feito, de papel pardo, provavelmente puxado de um rolo grosso preso no tampo do balcão.  Papel milimetricamente dobrado e redobrado; pacote finalizado com barbante de algodão, cujo fio desce de um rolo colocado no teto.  Aqueles eram livros garbosamente vestidos e respeitados pela importância que poderiam ter em nossas vidas.

 

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2025





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2 01 2025

O canal do YouTube Leitura com Chocolate, elegeu À meia voz como o melhor livro de poesias lido em 2024.  Muitíssimo obrigada!