Livro da paixão, 2021
Shena Ajuelos (França, 1951)
óleo sobre tela, 73 x 60 cm
Banca de livros usados, 2010
Ciro d’Alessio (Itália, 1977)
óleo sobre tela
“O que eu faço nos anos de gestação literária? Reúno documentos; visito lugares e traço mapas; tomo nota da planta de prédios, ou talvez de um navio, como no caso de A ilha do dia anterior; e faço esboço dos rostos dos personagens. Para O nome da rosa, fiz retratos de todos os monges sobre os quais escrevia. Passo esses anos preparatórios numa espécie de castelo encantado — ou, se preferirem, num estado de recolhimento artístico. Ninguém sabe o que estou fazendo, nem os membros da minha família. Dou a impressão de estar fazendo muitas coisas diferentes, mas estou sempre focado em capturar ideias,imagens e palavras para minha história. Escrevendo sobre a Idade Média, se vejo um carro passando na rua e fico talvez impressionado com sua cor, registro a experiência no meu caderno de anotações ou simplesmente na mente, e essa cor, mais tarde, desempenhará um papel na descrição, por exemplo, de uma miniatura.”
Em: Confissões de um jovem romancista, Umberto Eco, tradução de Clóvis Marques, Rio de Janeiro, Record: 2018, p. 14
Folheando um livro, 1977
Benjamín Palencia, (Espanha, 1894-1980)
óleo sobre tela
O escritor José de Alencar, conhecido na família por Cazuza, teve sete irmãos. Era o primogênito. Seus pais, responsáveis pela fértil família, tiveram um romance proibido. O pai, José Martiniano de Alencar, padre, havia mantido uma relação ilícita com sua prima-irmã, Ana Josefina de Alencar. Deixando a batina, eventualmente torna-se senador do Segundo Império e mais tarde governador do estado do Ceará.
Esbjörn lendo na varanda, 1918
Carl Larsson (Suécia, 1853-1919)
Aquarela sobre papel
Bertrand Russell
(Marriage and Morals, 1929)

Menina lendo
Carmen Gomez Junyent (Espanha, 1954)
Pastel, 45 x 38 cm
Há tempos acompanho Rosa Montero. Das obras publicadas no Brasil li: A louca da casa, A história do rei transparente, Te tratarei como uma rainha, Muitas coisas que perguntei e algumas que disse, Histórias de mulheres, O coração do tártaro, Instruções para salvar o mundo, e agora, A boa sorte, este com tradução de Fábio Weintraub. Poderíamos dizer que aprecio sua habilidade narrativa e imaginação. Tenho leituras favoritas entre estes livros mas até hoje nunca me arrependi de dedicar muitas horas às suas criações. Mas A boa sorte não irá para a lista dos meus favoritos da escritora.
Assuntos na pauta de Rosa Montero, e aqui não é exceção, têm a ver com a jornada do autoconhecimento. Também encontramos histórias com diversa variantes narradas pelo mesmo personagem de acordo com as necessidades que não são necessariamente mentiras, mas que poderiam ser plausíveis. Rosa Montero sempre nos regala com testemunho das diferentes versões que damos à nossa trajetória, de acordo com a audiência ou o momento em que vivemos. E ainda uma vez mais, Rosa Montero mostra ser a maga das imagens, aquela que seduz leitores como se hipnotizados. É certamente capaz de descrever situações, atmosferas, ambientes, absolutamente degradantes de maneira que não choque ou faça o leitor se aborrecer. Há muita arte nisso. A condição humana a preocupa, também merece atenção soluções variadas que seus personagens encontram para sobreviver.
Em geral, seus personagens têm muitas falhas: heróis ou heroínas, bandidos e afins, não importa. Os mundos que cria na ficção são sempre o bas-fond, os bairros pobres, as vidas de esperanças quebradas, de poucos horizontes. Rosa Montero despe seus personagens, desnuda seus motivos, por mais torpes que possam ser; ela nos ajuda a entender que tanto o mais bem aquinhoado quanto os menos dotados trilham caminhos semelhantes. O resultado, positivo ou não, depende exclusivamente de seus esforços. Ela não protege nem a eles, nem a nós, leitores. Passa ao leitor uma realidade frequentemente sombria, povoada por pessoas com propósitos obscuros, ambientes sujos, razões de vida torpes e muitos inocentes enrascados no aguardo de vida melhor. Mas ela é consistente, pois há sempre o lastro de fé, de possibilidades vindouras em sua narrativa. Há aquele que sobrevive que se amolda, que consegue passar a perna na crueldade humana.
A boa sorte tem todas esses traços comuns à obra de Rosa Montero. Temos um homem bem sucedido amargando culpa, uma mulher bonita e maltratada à beira de imaginar-se sem possibilidades de amor e de formar uma família. Bandidos de todos os jeitos, sempre pensando em querer algo mais, inconformados com a vida. E no entanto, este livro não me satisfez.
Deixe-me ser clara. Continuo a apreciar a imensa criatividade de Rosa Montero. Ela consegue surpreender sempre; criar personagens fortes, inesquecíveis, cujas lutas e dores acompanhamos com o coração nas mãos. Nos oito livros dela que li, não pareceu haver limite na engenhosidade de suas tramas, nem nos mundos que criou. Na verdade, sempre tenho a impressão de que estou a ver, sentir e observar um mundo paralelo com clara semelhança àquele em que vivo. Isto é uma arte. Mas o que não me agradou em A boa sorte, foi a sensação no final de que havia necessidade de um fechamento específico, quando personagens precisam ser contabilizados; a vida, inóspita detalhada na narrativa necessita realmente de um ponto final para cada personagem? Com um fechamento um tanto hollywoodiano onde tudo se resolve, ficou um gosto de agrado ao mundo editorial. Além disso, a narrativa, no último terço do livro, veio recheada com frases de edificação ou conselhos aquém da imaginação da autora: “para encontrar um sentido para a morte, é preciso antes encontrar um sentido para a vida“; “o inferno está aqui, somos nós“; “muitas vezes a vida consiste em escolher o mal menor”; “a alegria é um hábito“. Deixou em mim a sensação de manual de vida, que me desagrada bastante. Continuo, no entanto, a achar que Rosa Montero é uma escritora que deve ser lida. Até hoje ela dá muito mais a nós leitores, do que muitos outros contadores de histórias. Três estrelas, de cinco no máximo.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.
Leitura
Washington Magueta (Brasil, 1942)
óleo sobre tela, 23 x 27 cm
“Anos mais tarde, tentando cumprir o sonho de poeta, escrevi Terraplanagem, um poema incompleto como os outros. Levei uma vida até descobrir que a incompletude terá sido o meu único dom poético.”
Em: Eliete: a vida normal, Dulce Maria Cardoso, Kindle Edition: 2022
Mulher lendo, 2007
Tina Spratt (Irlanda, contemporânea)
óleo sobre tela
Dan Brown, o escritor do best-seller O código da Vinci e de outros livros que também alcançaram um grande número de leitores no mundo inteiro, tem um sistema extravagante de exercícios físicos para se manter em forma. Começa a manhã por volta das quatro horas quando se exercita por uma hora. Às cinco da manhã começa a escrever. Para de escrever de hora em hora quando então, dedica-se a algumas séries de exercícios abdominais e alongamentos. Acredita que isso faça o sangue correr mais potente pelo corpo e pelo cérebro, ajudando-o na tarefa criativa.
Jovem lendo
Vera Alabaster (GB, 1889–1964)
Harbour Cottage Gallery
“O convívio social tem o grande mérito de abrandar a idiotice do casal que não conversa, jamais descobre que não tem muitas afinidades. A companhia do outro tem o mesmo efeito da aposentadoria para as pessoas da classe média, ou seja, causa divórcio.”
Em: Esnobes, Julian Fellowes, tradução de Beatriz Horta, Rio de Janeiro, Fabrica 231: 2016, p.164.
Sem título
Daniela Astone (Itália, 1980)
óleo sobre tela
“… um romance não é apenas um fenômeno linguístico. Na poesia, é difícil traduzir as palavras porque o que importa é o seu som, assim como seus significados deliberadamente múltiplos, e é a escolha das palavras que determina o conteúdo. Numa narrativa, temos a situação contrária: o universo que o autor construiu, os acontecimentos que neles ocorrem é que ditam o ritmo,, o estilo e até a escolha das palavras. A narrativa é governada pela regra latina, “Rem tene, verba sequentor” — “Prenda-se ao tema e as palavras virão” — ao passo que na poesia a formulação deve ser mudada para: “Prenda-se às palavras e o tema virá.”
Em: Confissões de um jovem romancista, Umberto Eco, tradução de Clóvis Marques, Rio de Janeiro, Record: 2018, p. 15