Dos medos de conhecer o escritor, texto de Olga Tokarczuk

16 02 2023

Jovem lendo

Ann Brockman (EUA, 1899-1943)

óleo sobre tela

 

 

“A escritora costumava vir em maio,num carro carregado até o teto de livros e comida exótica. […] Se eu a conhecesse um  pouco menos, certamente leria seus livros.  Mas por conhecê-la, tinha medo de os ler. Era possível que eu me achasse neles, de uma forma que não conseguiria entender? Ou os lugares que amo seriam completamente diferentes do que são para mim? De alguma forma as pessoas como ela, que dominam a escrita, costumam ser perigosas.  Logo levantam suspeitas de falsidade — que não são elas mesmas, mas um olho que está sempre observando, e transformando em frases tudo o que observa; assim retira da realidade a sua qualidade mais importante — sua inexpressividade.”

 

Em: Sobre os ossos dos mortos, Olga Tokarczuk, tradução de Olga Baginska-Shinzato,  São Paulo, Todavia: 2020, p.54





Curiosidade literária

13 02 2023

Última página

Mate Ferge (Hungria, radicado na Áustria,  1979)

óleo sobre tela

 

 

 

O escritor inglês, da época da rainha Vitória, Thomas Carlyle (1795-1881) emprestou, em 1835, a primeira versão do livro que escrevera, A revolução  francesa, para seu conterrâneo, amigo e filósofo John Stuart Mill (1806 -1873).  Quando Carlyle voltou a Londres para pegar o manuscrito com o amigo, soube que o documento havia sido queimado acidentalmente.  Por incrível que  possa parecer, Carlyle voltou para casa e imediatamente de pôs a escrever todas as 800 páginas de novo e publicou o livro, de grande sucesso, em 1837.

 





Palavras para lembrar: Hermann Hess

7 02 2023

Leitura

Anônimo, Brasileiro

óleo sobre cartão, 45 x 55 cm

 

 

 

“Nunca releio meus livros, porque tenho medo.”

 

Hermann Hess

 

 





Imagem de leitura: Alexander Nikonorovich Novoskoltsev

23 01 2023

Crônicas, 1887

Alexander Nikonorovich Novoskoltsev, (Rússia, 1853−1919)

óleo sobre tela, 115×89 cm





Arrumando livros, texto de Ian McEwan

19 01 2023

O vestido vermelho

Henry McGrane (Irlanda, 1969)

óleo sobre tela, 30x 40 cm

 

 

Era complicado arrumar livros, era difícil jogá-los fora. Eles resistiam. Arrumou uma caixa de papelão para os rejeitados que iriam para a doação. Depois de uma hora, ali estavam dois guias de viagem ultrapassados em edições de bolso. Alguns exemplares guardavam pedaços de papel ou cartas que precisavam ser lidas antes de devolver os livros à estante. Outros continham dedicatórias carinhosas. Muitos eram familiares demais para evitar que fossem abertos e desfrutados de novo — ter a primeira página ou alguma ao acaso relida. Um punhado era de primeiras edições modernas que pediam para ser abertas e admiradas. 

Ele não era um colecionador — tratava-se de presentes ou compras acidentais. Fez algum progresso enquanto Lawrence dava uma cochilada no fim da manhã. À noite, recomeçou após jantar. O segundo livro que pegou de uma pilha recém-montada pertencia à biblioteca de uma escola. Tinha dentro as velhas marcas do Conselho do Condado de Londres e o carimbo da bibliotecária: 2 de junho de 1963. Não fora aberto desde então, sobrevivera a várias mudanças de casa e a um ano num depósito. Joseph Conrad, Juventude e duas outras narrativas. Edição mais barata, J. M. Dent & Sons Ltd, reimpressão em 1933, sete xelins e seis pênis. O corte das páginas tinha sido feito de forma grosseira. Ainda possuía a capa macia, nas cores creme, verde-escuro e vermelho, uma xilogravura mostrando palmeiras e uma embarcação com as velas enfunadas passando por um promontório rochoso e montanhas distantes. Uma evocação do Oriente tropical cuja perspectiva excitara o jovem protagonista do conto. Roland ficou feliz por reencontrar o livro. Viajara clandestinamente com ele sem ser notado. Ele adorou “Juventude” aos catorze anos, idade em que raramente se interessava pela leitura. Não lembrava da história. Segurando o livro com as duas mãos, como numa prece, aberto na primeira página, ele se acomodou na cadeira mais próxima e não se mexeu por uma hora.”

 

Em: Lições, Ian McEwan, tradução de Jorio Dauster, São Paulo, Companhia das Letras: 2022, pp 142-143

 





Imagem de leitura: Bernd Steinert

17 01 2023

Sem título

Bernd Steinert (Alemanha, 1964)

técnica mista





Súplica, poesia de Miguel Torga

16 01 2023

Uma xícara de café, 2020

Alexei Ravski (Bielorússia, 1961, radicado na França)

óleo sobre tela, 38 x 46 cm

 

Súplica

 

Miguel Torga

 

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,

E que nele posso navegar sem rumo,

Não respondas

Às urgentes perguntas

Que te fiz.

Deixa-me ser feliz

Assim,

Já tão longe de ti como de mim.

 

Perde-se a vida a desejá-la tanto.

Só soubemos sofrer, enquanto

O nosso amor

Durou.

Mas o tempo passou,

Há calmaria…

Não perturbes a paz que me foi dada.

Ouvir de novo a tua voz seria

Matar a sede com água salgada.





Imagem de leitura: Gallo Manuela

12 01 2023

Sala de espera da biblioteca, 2022

Gallo Manuela (Itália, contemporânea)

acrílica sobre tela, 80 x 80 cm





Mangueiras de Belém, Sílvia Helena Tocantins

10 01 2023

 

 

joao-baptista-da-costa-no-banco-do-jardim-oleo-sobre-madeira, 25 x 19No banco do jardim

João Baptista da Costa (Brasil, 1865 – 1926)

óleo sobre madeira, 25 x 19 cm

 

Mangueiras  de Belém

 

Sílvia Helena Tocantins

 

Gentil mangueira que me dá abrigo

no aconchego morno do teu braço,

na tua ramagem encontro o ninho amigo

que há de embalar sempre o meu cansaço.

 

És tu mangueira de real grandeza,

só espalhando o Bem em tua missão,

além de embelezares a natureza,

és teto, és fruto, és sombra, és proteção.

 

E nunca negas à mão que te apedreja,

terno repouso contra a chuva e o mormaço,

em troca dá-lhes fruto, seja a quem seja

e ainda embalas, maternal, num abraço.

 

Bendita seja a mão que te plantou

o sol que fecundou a terra, o orvalho,

onde a tua semente fértil, germinou,

para medares sombra doce e agasalho.

 

E no teu colo verde de folhagem,

quero sonhar meus ideais acalentados,

esconder meus segredos em tua ramagem

como se eu fosse altivo pássaro encantado.

 

Em: A lira na minha terra: poetas antigos e contemporâneos no Pará, Clóvis Meira, Belém: 1993, p. 381

 





Imagem de leitura: Aliza Nisenbaum

9 01 2023

Jenna, sexta à noite no Brooklyn, 2019

Aliza Nisenbaum (México, 1977)

óleo sobre tela, 162 x 144 cm