Descobrindo a esposa através dos livros — um trecho de Os Diários de Pedra, de Carol Shields

3 08 2010

Homem lendo, 1881

Vincent van Gogh ( Holanda 1853-1890)

técnica mista: aquarela e carvão

Museu Kröller-Müller, Otterlo, Holanda

Uma passagem das mais interessantes do livro Os diários de pedra de Carol Shields, cuja resenha publiquei recentemente aqui mesmo no blog, mostra a descoberta que um homem faz da mulher que o abandonou, subitamente, sem nada dizer.  A cena se passa no Canadá nos anos 20 do século XX.  É simultaneamente delicada, enternecedora, engraçada.  E fala da solidão, da inabilidade de se demonstrar o amor.  Realmente fascinante.

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Fazia um ano que ela tinha ido embora quando ele resolveu fazer uma faxina na sala – tapete, cadeiras, tirar o pó e botar tudo para arejar, e no fundo da caixa de costura dela ele encontrou quatro livros pequenos.  Livros românticos, ele achava que se chamava esse tipo, livros femininos, com capa de papel macio.  Nove centavos cada um, o preço estava carimbado nas costas: Livraria dos Nove Centavos.  Não sabia ao certo como ela arranjara aqueles livros, mas imaginava que os tinha comprado do caixeiro-viajante judeu, comprado e lido em segredo, como se ele algum dia fosse negar-lhe esse prazer tão insignificante.

Ele mesmo começou a ler aqueles livros nas noites de inverno.  Era melhor do que ficar olhando o relógio, ouvindo o seu tique-taque, ou escutando o gelo caindo dos ramos sobre o telhado.  A essa altura ele tinha instalado um pequeno e potente aquecedor a lenha na sala, para esquentar o ambiente, coisa que a esposa vivia pedindo.  Lia, devagar, pois, verdade seja dita, ele nunca em sua vida tinha lido um livro inteiro, da capa à contracapa.  Achava agradável pensar que conseguia decifrar a maioria das palavras, virando as páginas uma por uma, prestando atenção: Lutar por um coração, de Laura Jean Libby, O que o ouro não compra, por uma tal de Sra. Alexander, À mercê do mundo, por Florence Warden e Jane Eyre, de Charlotte Brontë.  Esse último era o seu predileto; havia episódios na história que lhe traziam à garganta uma sensação doce e dolorosa, e nesses momentos ele sentia a esposa perto, separada por algumas batidas do coração, tão perto que ele quase podia estender a mão e acariciar a carne do interior de suas coxas.  Ficava pasmo com a quantidade de pessoas que recheavam aqueles livros.  Cada um era um mundinho, povoado e mobiliado.  E como falava aquela gente dos livros!  Falar, falar, viviam pela língua.  Muito do que diziam era tolice, mas também razoável.  Falar afastava a raiva.  As palavras eram trocadas como se troca dinheiro por mercadoria.  Algumas das frases pareciam poemas, nada do jeito como as pessoas falam na realidade, mas mesmo assim ele as pronunciava em voz alta e as decorava, de modo que, se por algum acaso a esposa resolvesse voltar para casa e retomar o seu lugar, ele estaria pronto.  Se essa bobagem de falar difícil era a maior necessidade dela, ele estaria preparado para satisfazê-la – um vulcão de palavras cheias de doçura e sentimento.  Ó lindos olhos, Ó rosto precioso, Ó pele mais bela.  Ou frases que falavam de coração transbordante, desejo crescendo no peito, súbitas centelhas de um corpo acolhendo outro, ou mesmo a simples declaração de amor: Eu te amo, sussurrou ao ouvido expectante dela.  Adoro-te por inteiro.

Ou, se essas declarações lhe fossem demasiado difíceis, como suspeitava que seriam, iria simplesmente olhá-la nos olhos e pronunciar o nome dela: Clarentine.  Falando a princípio com delicadeza, como se faz para acalmar uma criança arisca, forçando a voz a permanecer suave, falando diretamente para aquele rosto que pertencia para sempre ao Clube Feminino de Ritmo e Movimento mas não a ele, aquele rosto querido e imóvel.  Clarentine.  Clarentine.

Em:  Os diários de pedra, Carol Shields,  tradução de Eliana Sabino, Rio de Janeiro, Editora Record: 1996, páginas 111 e 112.

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NOTA:  Todas as autoras mencionadas nesse texto existiram de verdade.





Imagem de leitura — Julius Rolshoven

1 08 2010

Modelo nu, lendo um livro, 1900

Julius Rolshoven ( EUA  1858-1930)

Óleo sobre tela

Museu de Arte de El Paso, Texas

Julius Rolshoven nasceu em Detroit em 1858.  estudou arte em Nova York, indo mais tarde, como aluno,  para a Academia de Arte de  Düsseldorf na Alemanha.  Depois de uma estadia em Munique, viajou para a Itália.  Lá,  tornou-se aluno do também americano Frank Duveneck, que mantinha um atelier em Florença e Veneza.   Retornou aos EUA no início da primeira guerra mundial.  Em 1916 se estabeleceu no sudoeste americano onde permaneceu para o resto de sua vida, mas sempre visitando suas 3 residências em Santa Fé, Detroit e Florença.  Dedicou-se exclusivamente  à pintura acadêmica e foi membro do grupo chamado Sociedade de Arte de Taos.  Morreu em  1930 a bordo de um navio no Atlântico.





Imagem de leitura — Adolf Eberle

29 07 2010

Histórias para antes de dormir, 1872

Adolf Eberle ( Alemanha 1843-1914)

óleo sobre tela

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Adolf Eberle nasceu em Munique, na Alemanha em 1843.    Filho do pintor alemão Robert Eberle.  Entrou para a Academia em 1860 onde estudou com  Karl Theodor van Piloty.    Sua pintura foi muito bem recebida na exposição internacional de Munique em 1879, onde recebeu menção honrosa por seus trabalhos. Pintor realista.  Faleceu na sua cidade natal em 1914.





Imagem de leitura — Asta Nörregaard

18 07 2010

Jovem lendo, 1889

Asta  Nörregaard (Noruega 1853-1933)

Óleo sobre tela   50 x 25 cm

Coleção Particular

Asta  Eline Jakobine Nörregaard nasceu na Noruega em 1853.  Pintora de gênero e retratista.  Foi aluna de Knud Bergslien em Christiania de 1872 a 1875, mais tarde estudou com Eilif Peterssen em Munique.  Foi para Paris em 1879 onde permaneceu até 1885.  Lá estudou com Léon Bonnat, Jean-Léon Gerome e Jules-Bastien Lepaje.   Começou a pintar retratos em 1870.  Tema pelo qual se tornou mais conhecida.  Está incluída entre as pintoras mulheres de maior importância naquele país ao lado de Harriet Backer, Kitty Kielland, Ida Lorentzen, Signe  Scheel, Hanneline Røgeberg e Marianne Heske. Foi a pintora [mulher] que primeiro recebeu uma grande comissão oficial: a execução do altar para a Igreja de Gjövik em 1882.   Faleceu em 1933.





Imagem de leitura — Simon Glücklich

10 07 2010

Aprendendo a ler, 1889

Simon Glücklich ( Alemanha, 1863-1943)

óleo sobre tela, 79 x 97 cm

Coleção Particular

Simon Glücklich nasceu em 1863, na Alemanha.  Estudou pintura de gênero e paisagem com Leopold Karl Müller na Academia de Viena, entre os anos de 1880-90.  Logo depois partiu para a Itália, numa viagem de estudos.   Em 1890, de voltou à Alemanha, estabelecendo seu ateliê de pintura em Munique.  Sua produção artística foi dedicada principalmente à pintura de gênero, paisagem e retratos. Morreu em 1943.





Imagem de leitura — Jacques-Emile Blanche

30 06 2010

Mulher que lê, c. 1890

Jacques-Émile Blanche ( França 1861-1942)

Óleo sobre tela

Jacques-Émile Blanche nasceu em Paris em 1861 numa família abastada, seu pai era um famoso patologista.  Estudou com o pintor Henri Gervex e Jacques-Fernand Humbert  mas por pouco tempo.  A partir de 1884 o jovem pintor faz várias viagens a Londres absorvendo com gosto a arte de Whistler e Sickert.  A partir de 1887 ele começa a expor regularmente no New English Art Club.  Desenvolveu um estilo próprio e pode ser considerado um pintor autodidata.   Ficou famoso por seus retratos.  Influenciado por ambas escolas francesa e inglesa, e por ter acesso ao meio artístico nos dois  países, tornou-se um dos retratistas favoritos das celebridades de um lado e do outro do Canal da Mancha, reconhecido por ser dono de um estilo bem refinado, elegante e muito próprio.  Morreu em Offranville, nos Alpes Marítimos, em 1942.





Imagem de leitura — Andrey Meschanov

25 06 2010

Sobre o amor, 1999

Andrey Meschanov (Rússia, 1963)

óleo sobre tela, 120 x 65 cm

Andrey Vicktorovich Meschanov nasceu em Kolomna, na Rússia em 1963.





Imagem de leitura — Osman Hamdi Bey

19 06 2010

O teólogo, 1907

Osman Hamdi Bey (Turquia, 1842 — 1910)

Óleo sobre tela, 90 x 113 cm

Coleção Feyyaz Berker, Turquia

Osman Hamdi Bey (Istambul, 1842 — Istambul, 24 de fevereiro de 1910) foi  um estadista intelectual, connoisseur das artes e um importante pintor realista turco do século XIX.  Foi também um grande arqueólogo e é considerado um dos pioneiros na profissão de curador de museus na Turquia.   Fundador do Museu Arqueológico de Istambul e da Academia de Belas Artes (Sanayi-i Nefise Mektebi )de Istambul,conhecida hoje como Universidasde Mimar Sinan de Belas Artes.  Osman Hamdi Bey foi um dos mais famosos artistas árabes oitocentistas.  Três de seus trabalhos – O repouso das ciganas, Soldado do Mar Negro à espera, e Morte de um soldado — foram expostos na Exposição Universal de Paris em 1881.   Como diretor do Museum Imperial, em 1882 ele conseguiu desenvolver e redigir novas leis para proteção do patrimônio arqueológico da Turquia.





Imagem de leitura — Yuri Bogatyrenko

16 06 2010

Estudo da esposa do artista lendo, 1959

Yuri Bogatyrenko ( Ucrânia, 1932)

Aquarela sobre papel, 21 x 29 cm

Yuri Kirilovich Bogatyrenko ( Ylovaisk, Ucrânia, 1932),  Acabou seus estudos em filme em 1957, formando-se pela Instituto de Cinema de Moscou onde foi aluno de F. Bogorodski e de Y. Pimenov.  Trabalhou como designer de produção em filmes no Studio de Cinema Odessa onde participou de muitos produções cinematográficas de sucesso na antiga União Soviética.





Imagem de leitura — Paul-Michel Dupuy

10 06 2010

Maré baixa, praia de Villeria, s/d

Paul-Michel Dupuy ( França 1864-1949)

Óleo sobre tela, 58 x 79 cm

Coleção Particular

Paul-Michel Dupuy nasceu em Pau (Basses-Pyrenées) em 1869.  Foi um pintor frances dedicado às paisagens, à pintura de gênero e ao retrato de belas mulheres e crianças em cenas ensolaradas.  Estudou com Bonnat e Maignan e tornou-se membro da Sociedade de Artes Francesas em 1899.  Participou do Salon des Artistes Français, ganhando a medalha de ouro em 1901 e 1902.  Ainda ganhou muitas outras honrarias através de sua longa carreira, culminando com o Cavaleiro da Legião de Honra em 1833.   Muitos de seus trabalhos estão no Museu de Rheims, na França.