Palavras para lembrar: Provérbio hindu

25 02 2026

Leitora, c. 1900

Irving Ramsay Wiles (EUA, 1861-1948)

óleo sobre tela, 26 X 18 cm

 

 

“Um livro aberto é um cérebro que fala; fechado, um amigo que espera; esquecido, uma alma que perdoa, destruído, um coração que chora.”

 

Provérbio hindu 

 





A influência da literatura, trecho de Madame Bovary, Flaubert

21 02 2026

Regina, esposa do pintor lendo

Henry Bouvet (França 1859-1945)

óleo sobre tela

Coleção Particular

 

 

 

As leituras de Ema Bovary:

 

“Com Walter Scott, mais tarde, apaixonou-se pelas coisas históricas, sonhou com baús, sala de guardas e menestréis. Teria gostado de viver em alguma velha mansão, como aquelas castelãs de longo corpete, que, sob o trevo das ogivas, passavam os seus dias, com o cotovelo sobre a pedra e o queixo na mão, a olhar vir do fundo da campanha um cavaleiro de pluma branca que galopa num cavalo negro. Teve, naquele tempo, um culto por Maria Stuart, e venerações entusiastas em relação a mulheres ilustres ou infortunadas. Joana d’Arc, Heloísa, Agnès Sorel,15 a bela Ferronnière e Clémence Isaure, para ela, destacavam-se como cometas na imensidão tenebrosa da história, onde se sobressaíam ainda, aqui ou acolá, porém mais perdidos na sombra e sem nenhuma relação entre eles, são Luís e o seu carvalho, Bayard moribundo, algumas ferocidades de Luís XI, um pouco de São Bartolomeu, o penacho do Béarnais, e sempre a lembrança dos pratos pintados em que Luís XIV era louvado.”

 

Madame Bovary, Gustave Flaubert, Tradução de Mário Laranjeira: Penguin Classicos





Imagem de leitura: Felipe Diniz Sanguin

9 02 2026

Veraneio, 2023

Felipe Diniz Sanguin (Brasil, 1986)

acrílica sobre tela, 100 x 80 cm





O tempo para uns e outros, Javier Marías

3 02 2026

Memórias

Nesimi Pınarbaşı (Turquia, contemporâneo)

óleo sobre tela,  50 x 70 cm

 

 

“Claro que há aqueles que decidem pôr fim à sua vida, e o fazem, mas são minoria e por isso impressionam tanto, porque contradizem a ânsia de duração que domina a grande maioria, a ânsia que nos faz crer que sempre há tempo e que nos leva a pedir um pouco mais, um pouco mais, quando este se acaba.”

 

Javier Marías, Os enamoramentos





Imagem de leitura: Lasar Segall

2 02 2026

Leitura, c. 1913

Lasar Segall (Lituânia-Brasil, 1889-1957)

óleo sobre papelão, 66 x 56 cm

Museu Lasar Segall, SP





Carnaval chegando, quer uma leitura agradável e inconsequente?

1 02 2026

Leitora, 1960

Gerhard Richter, (Alemanha, 1932)

óleo sobre madeira, 102 x 70 cm

 

 

Nem todas as leituras precisam ser sérias.  Há horas para diversão. Recentemente meu grupo de leitura escolheu esse  tipo de livro: As pessoas na plataforma 5, da autora inglesa Clare Pooley, tradução de Cecília Camargo Bartalotti, Verus: 2024. Trata-se de um grupo de desconhecidos que tomam o mesmo trem Hampton Court-Waterloo Station -Londres, todas as manhãs. Não se conhecem até que uma emergência, um dia, serve de motivo para que comecem a interagir.    

A figura principal é uma escritora com coluna em jornal aconselhando leitores. Iona Iverson, de 57 anos,  não consegue passar despercebida.  Tem uma personalidade expansiva, roupas coloridas, uma bolsa gigante, onde carrega chá,  garrafa térmica, xícara e pires. Havia sido uma jovem atraente, a verdadeira IT-GIRL, na década de 60-70.  Mas no momento sente-se desprezada por seus empregadores e acredita ser discriminada por sua idade. 

Outros passageiros, que eventualmente se “confessam” com Iona, são Sanjay, um enfermeiro oncologista que sofre de ataques de pânico e anda encantado com outra passageira: Ema.  Piers é o engravatado homem do mundo financeiro, infeliz com sua profissão. Emmie, leitora obstinada, é a jovem que trabalha em marketing e tem um namorado controlador, que a obriga a dizer a toda hora onde se encontra e o que faz. Há também a adolescente Marta que sofre bullying na escola e David, o esquecível advogado perto de se divorciar. 

 

Já podemos ver, pelos problemas de cada passageiro, que Clare Pooley dedica-se a passar os olhos sobre alguns problemas que afligem a sociedade atual: Alzheimer’s, Bullying, Etarismo, Stalking, síndrome do pânico e muitos outros.  No entanto, o tom desse livro é leve, há momentos verdadeiramente engraçados e outros um tanto sentimentais. No todo, essa obra é inconsequente, alegre, e acaba da melhor maneira possível.  É um pouco longa.  Poderia ter sido cortada por um terço mais ou menos, retirando as passagens que se prolongam sem adicionar nada de valioso.  A média dos pontos das leitoras desse grupo foi três estrelas de cinco.  Quase o que eu daria, também. Se esse tipo de história, que parece uma mini série televisiva é do seu agrado para diversão, leia.  Foi assim que vi: a escritora pensou em construir um conjunto de personagens, trabalhando assuntos da moda, com esperança de servir eventualmente como inspiração para algum serviço de stream. 





Palavras para lembrar: Eugène Delacroix

26 01 2026

Moça lendo, 1911

William Chadwick (EUA, 1879-1952)

óleo sobre tela

 

 

“É preciso ser um escritor profissional para escrever sobre o de que não se conhece a metade, ou sobre aquilo de que nada se sabe.”

 

Eugène Delacroix

 





Imagem de leitura: Rupert Charles Wulsten Bunny

22 01 2026

Na varanda

Rupert Bunny (Austrália, 1864-1947)

óleo sobre tela, 80 x 64 cm





Imagem de leitura: David Woodlock

19 01 2026

Jovem lendo em frente a casas em rua residencial

David Woodlock (Inglaterra, 1842-1929)

aquarela, 28 x 22 cm





Jardim de inverno, uma memória…

18 01 2026

O jardim de inverno, 1883

Frances Jones Bannerman (Canadá, 1855-1944)

óleo sobre tela, 63 x 80 cm

Coleção Particular

 

 

Meus avós moravam na Tijuca, no Rio de Janeiro.  Sou a mais velha da família de minha mãe, que era a mais velha das filhas. Passei muito tempo com meus avós.  Nós nos víamos regularmente, mas depois de meu primeiro irmão nascer, com mais assiduidade, quando meus pais saíam à noite ou quando meus avós queriam viajar.  Aos seis anos, comecei a viajar com eles, que também eram meus padrinhos. Fomos a cidades turísticas, cidades das águas em Minas Gerais, às cidades serranas fluminenses e até São Paulo, onde mais tarde uma de minhas tias morou.  Era sempre um prazer estar com eles, desfrutar dos quitutes de vovó, e das  brincadeiras de meu avô, que exercitavam meu vocabulário. 

Tenho memórias detalhadas da casa deles, onde eu dormia no quarto cor de rosa.  Estive lá frequentemente, porque ainda criança, acompanhei os namoros e noivados de minhas tias, irmãs mais novas de mamãe.  Fui dama de honra de ambas em seus casamentos: aos quatro e aos seis anos respectivamente. Justo trabalho para quem havia sido companhia perpétua do casal de namorados, garantindo que nada de estranho acontecesse enquanto passeavam juntos.  Digo isso em tom divertido, porque ganhei incríveis presentes nessa época segurando vela.  Eram balas, passas em caixinha, que eu adorava, passeios de carrinho de bode, na Praça Afonso Pena, uma atividade atrás da outra, um agrado a cada saída.  Fui comprada, sim eu tinha preço!

Frequentar a casa de meus avós maternos trouxe benefícios décadas mais tarde. Adulta, me encontrei encantada por móveis antigos, seduzida pelo cheiro de madeira e pelo perfume de óleo de peroba.  Quando abri minha galeria de arte moderna e móveis de fazenda, dos séculos XVIII e XIX, nos EUA, combinação que deu certo, nem sei bem as razões, entrei num período de vida gratificante.

Meus avós tinham um mobiliário do estilo manuelino, pesado, em jacarandá escuro com colunas nas beiradas, serpentinadas e ornamentos nos almofadões das portas. Tudo finalizado por pés de bolacha, enquanto as cadeiras tinham costas e assentos de couro escuro trabalhado com desenhos abstratos e uma carreira de tachas de latão a toda volta dos assentos e espaldares.  Toda a sala de jantar era nesses móveis favoritos no país desde o tempo colonial, mas os de meus avós provavelmente datavam de seu casamento nos anos  20.  Na sala de jantar, um grande bufê, uma cristaleira, um pequeno bufê e a mesa gigantesca para doze pessoas, as cadeiras enchiam o espaço.  Havia também um móvel só de gavetas pequenas, no mesmo estilo, que mais tarde soube chamar-se um contador. Ficava no hall entre a sala de jantar e o escritório de vovô.   Um móvel bar, espelhado por dentro, detalhe que me fascinava, guardava garrafas de todo tipo de bebida e alguns copos de cristal.  Outros cristais encontravam-se na cristaleira. 

Móvel contador em estilo Manuelino.

 

A sala de estar tinha móveis que hoje chamaríamos Art Déco dos anos 30-40,  com linhas retas, poltronas cujos braços de madeira formavam arcos do pé da frente da cadeira até o chão do pé detrás e estofamento de couro verde escuro. Havia cinzeiros de pé para os homens que fumavam – só eles fumavam – e abajures de pé para o conforto da leitura quer na poltrona, quer no sofá no mesmo estilo.  Havia ali, também um rádio vitrola que embalava em momentos familiares uma dança improvisada de meus pais e tios em momentos descontraídos durante domingos em família.  

O móvel bar ficava em uma das salas de estar, a mais próxima do jardim de inverno, que nada mais era do que uma espaçosa varanda completamente fechada com vidro.  Lá estavam plantas exuberantes, como manda a flora tropical, vasos de parede com plantas ‘choradeiras’. Num canto a figura de Ceres, com uma braçada de trigo, toda em cerâmica branca, imitando mármore, que dominava um dos lados da varanda, instalada num pedestal de ferro. No outro lado, na mesma cerâmica branca, vitrificada, estava seu par, a deusa Fortuna, com pedestal gêmeo. Essa tinha olhos vendados e uma cornucópia nos braços, transbordando frutas.  Foram as primeiras deusas clássicas com que me familiarizei: agricultura e sorte.  O jardim de inverno era meu lugar favorito da casa de meus avós, parecia uma pequena amostra das florestas tropicais que cobriam os morros da antiga Tijuca, ainda não tomados por comunidades. Meu outro lugar de fascínio era o escritório de vovô, com perfume do cachimbo a que ele se dedicava após o jantar e que era coberto de livros nas estantes com portas de vidro de correr. 

O jardim de inverno tinha móveis bem mais modernos, de madeira cor de mel, com acabamento de fibras naturais, feitos rechonchudos e acolhedores pelas almofadas estampadas com folhagens e pássaros nas costas e assentos.  O jardim de inverno trazia para dentro de casa, o convívio com a natureza sem os perrengues dos mosquitos ou insetos indesejáveis.  Havia duas mesas pequenas.  A de ferro com tampo de vidro e a de madeira. Lembro-me de jogar cartas com vovó nessas mesas: jogo da memória.  Apesar de meus avós terem duas salas de estar, era no jardim de inverno que vovô recebia seus amigos.  Hoje percebo que havia algo do período vitoriano nesse local, algo que de vez em quando vejo retratado em quadros ingleses do século XIX. 

Na casa deles não havia o luxo dos tapetes no jardim de inverno que vemos em cenas europeias, mas a própria exuberância das samambaias choronas, descendo parede abaixo de vasos pendurados de encontro às paredes, era experiência única.  Cuidadas por vovó, em grandes vasos de faiança colorida, com relevos, havia até mesmo pequenas árvores de uns dois metros de altura que faziam o ambiente íntimo e úmido, com um leve cheiro de mato.  No jardim, havia algumas plantas que mais ou menos desapareceram dos jardins atuais: manacás, jasmins, bambu da sorte, pacová. 

Hoje, procurando algumas ilustrações para postagens no blog me deparei com a representação do Jardim de Inverno de Frances Jones Bannerman, que coloquei acima. E uma onda de flashes, cenas de um passado muito longínquo me entreteve por umas horas.  Acho que lidar com as fotos de antepassados que vou passar para meus sobrinhos está abrindo os portões das lembranças, propiciando que eu tire algumas conclusões sobre as raízes de certos interesses meus.  Foi uma boa tarde de domingo.  Que seja a premonição de uma ótima semana para mim e para todos nós!

 

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 18 de janeiro de 2026.