Trova de Carnaval

18 02 2023
Crianças fantasiadas, ilustração J. Bernard Long

 

Para que um carnaval

com três dias de folia,

pois se a vida é afinal,

grande baile à fantasia?

 

(Renato Vieira da Silva)

 





Carnaval, texto de Marques Rebêlo

6 02 2023

Claudio Faciolli - Carnaval no Rio de Janeiro - o.s.e - ass. c.i.e - datado de 2010 med 46x61 cmCarnaval no Rio de Janeiro, 2010

Claudio Faciolli (Brasil, 1955)

óleo sobre eucatex, 46, x, 61 cm

[25 de fevereiro de 1938]

“A minha estreia nos salões do High-life foi com Clotilde, de odalisca, (Zuza ficara de serviço),  e Tatá nos acompanhava sem companheira, meio chateado — tivera uma rusga com Dulce Sampaio, que aceitara por despique um convite para o Clube Naval. Mas desacompanhado não entrou. Nas imediações da bilheteria e da porta de entrada, aglomerava-se uma pequena legião de mulheres se oferecendo, com maior ou menor agressividade, para completar o ingresso que dava direito a uma dama — mascaradas, todas, na maioria gordas, de pijama, de dominó de surradas roupas masculinas, com luvas para esconder a denunciadora evidência das mãos, e ventarola abanando o rosto sufocado pela máscara de pano, de papelão, de tela metálica. Tatá, com o ingresso na mão, rodou uma perfunctória e despreciativa olhada e escolheu o desbotado dominó carmezim:

— Vamos, vovó!

A escolhida fez que não entendeu, tomou-lhe o braço numa forçada mesura, e entramos, as luzes profusas, a ornamentação oriental, faixas e correntes de papel de seda cruzando o teto de estuque das três salas térreas, que mais tarde, numa abolição gradativa das paredes de pau a pique, se transformaram num único salão, e logo nos perdemos, só nos encontrando de espaço em espaço, ora no capricho das danças, ora nos breves intervalos da música, à beira do bufê, entornando a sua cerveja “gelada como rabo de foca”, ou sentado, descansando, na incômoda borda de cimento dos canteiros. No penúltimo encontro, diante do repuxo que irradiava rumor de esguincho e frescura, já se descartara do dominó carmezim. Aderira à cigana sem máscara, e soprou-me:

— Bofe por bofe, este não é antediluviano…

Realmente era jovem, mas feia e maltratada, o nariz de cavalete, os pés de lancha com sujos coscorções, um descomunal dente de ouro. E com ela é que saiu, depois do furioso galope final, com destino ao seu quartinho da Rua Taylor, cercado de prostíbulos, como ele dizia, por todos os lados, exíguo como um ovo, mas onde conseguira prodigiosamente encaixar uma mesa redonda, na qual domingueiramente pegava uns pacas no pôquer, acolitado por Miguel, sem que isto, honra lhe seja prestada, implicasse em combinação e trapaça — era um viciado bafejado por uma sorte invulgar.

Os corpos se colavam na promiscuidade, a poeira cegava os olhos, o calor sufocava, a música estrondava, os gestos de incontida lubricidade tomavam as mãos, as brigas se sucediam. O éter era cheirado à solta. Contra as paredes formava-se um lambrim de gente de lenço no nariz, alguns desequilibrando-se iam cair no meio dos dançarinos, que continuavam, tendo o cuidado apenas de contornar o corpo estendido como se recortassem uma figura no chão. De vez em quando, o estouro duma lança-perfume e o grito:

— Oh, que pena!

Clotilde era imitativa:

— Deixe eu cheirar um pouco.

— Para quê?  Bobagem!

— Que bobagem! É gostoso… friozinho… danado de bom!

— Não cheira não.

— Uma prise só…

Acabou cheirando. Acabei cheirando também, curioso e foi uma sensação angustiante, como se tivesse bolas girando dentro de mim, bolas frias, dum perfume enjoado de jasmim, se entrechocando. Parei na experiência:

— Não convence não.

Clotilde prosseguiu, esvaziou o tubo, quis outro sem que eu o desse, os olhos ficaram injetados, custou a se recompor. Quando chegamos no quarto da Rua Barroso, o sol já nascera e ela estava indócil, excitadíssima.

— E se o Zuza chegar duma hora para outra? Olha que o serviço termina às seis horas…

— Dane-se!”

Em: O trapicheiro, Marques Rebelo, 1º volume de O Espelho Partido, São Paulo, Martins: 1959, 1ª edição, numerada,  p. 347-348.





Mardi-Gras, Terça-feira Gorda!

5 03 2019

 

 

J. CARLOS (1884 - 1950) - Tempo de Carnaval, rara aquarela sobre cartão, capa da revista Fon-Fon, med. 35 x 22,5cm, assinada e localizada Rio.Tempo de Carnaval

J. Carlos (Brasil, 1884 – 1950)

aquarela sobre cartão (capa da revista Fon-Fon),  35 x 22 cm

 

 

 

Muitos já esqueceram que o Carnaval marcava originalmente um único dia.  A palavra Carnaval, de acordo com Antonio Houaiss,  é originária no latim clássico CARNEM LEVÁRE, ( “abstenção de carne”).  Essa expressão está presente em diversos dialetos italianos,  aparecendo na língua falada em Milão em 1130,  CARNELEVALE, aparecendo no italiano do século XIV como CARNEVALE.  Foi para o francês em 1552 como CARNEVAL e 130 anos mais tarde, em 1680 como CARNAVAL.  Nessa forma é adotada pelas outras línguas europeias, no século XVII.

Abstenção de carne?  Sim, porque é nesta terça-feira (e o Carnaval propriamente dito é terça-feira) que se encerra o período que antecede a Quaresma, compreendendo os 40 dias antes da Semana Santa e Páscoa. Ela se inicia na Quarta-feira de Cinzas e termina no Domingo de Ramos.  É observada por um grande número de cristãos: católicos, anglicanos, luteranos, metodistas.  Para seguidores dessas religiões cristãs  este período é de reflexão, abstinência e penitência e reflete os 40 dias que Jesus Cristo passou no deserto.  Inicialmente a celebração desse ritual data de meados do século IV (ano 350).

É por causa do início do período de abstenção, de penitência, de  sacrifícios que o Carnaval tomou este nome, afinal é o último dia permitido para exageros. Na quarta feira começa o tempo de reflexão e de despedida da carne.

Mardi-Gras é a expressão francesa para este dia: Terça-feira Gorda. Mardi em francês significa terça-feira, enquanto gras quer dizer gordura.   Mardi Gras é o último dia de se comer carne, comer alimentos gordos, mesmo que em muitos países europeus ainda se esteja no inverno, estação que requer alimentação mais rica.

—  —  —  —

Há uma famosa representação da Luta entre o Carnaval e a Quaresma, de 1559, na fascinante obra do pintor holandês do século XVI, Pieter Brueghel, o velho, (grafia também pode ser Bruegel).

 

Öèôðîâàÿ ðåïðîäóêöèÿ íàõîäèòñÿ â èíòåðíåò-ìóçåå Gallerix.ruO embate entre Carnaval e Quaresma, 1559

Pieter Brueghel, o Velho (Flandres [Bélgica], c. 1525- 30 — 1569)

óleo sobre painel de madeira, 118 x 164 cm

Museu de História da Arte de Viena, Áustria

 

DETALHE

 

Pieter_Bruegel_the_Elder-_The_Fight_between_Carnival_and_Lent_detail_3

Vejam que a batalha está travada entre o Gordo Carnaval, segurando um espeto cheio de carnes e a magra Quaresma, num carrinho puxado por religiosos.

 

Öèôðîâàÿ ðåïðîäóêöèÿ íàõîäèòñÿ â èíòåðíåò-ìóçåå Gallerix.ru

Senhor Carnaval, gordinho e montado num barril de vinho, segura espeto com carne de javali e outras carnes.  É seguido por serventes com copos e bandeja com comidas. Tudo à sua volta reflete abundância.

 

Öèôðîâàÿ ðåïðîäóêöèÿ íàõîäèòñÿ â èíòåðíåò-ìóçåå Gallerix.ru

Dona Quaresma, do outro lado, esquálida, vem num carrinho de madeira, com alguns pães a seus pés e segura uma chapa com peixes grelhados.  Seu carro é puxado por religiosos e seguido por pessoas com matracas, objetos usados na Sexta-feira Santa no lugar de sinos.

 





Carnaval por Carlos Drummond de Andrade

13 02 2018

 

 

 

Rosina Becker do Valle,Carnaval,ost,1956, 63 x 96 cmCarnaval, 1956

Rosina Becker do Valle (Brasil, 1914-2000)

óleo sobre tela, 63 x 96 cm

 

 

“O povo toma pileques de ilusão com futebol e carnaval. São estas as suas duas fontes de sonho.”

 

Carlos Drummond de Andrade

 

 

drummond.cdaCarlos Drummond de Andrade (1902 – 1987)




Carnaval por Vinícius de Moraes

12 02 2018

 

 

 

Mario Gruber, fantasiado- 2001, ast, 55x55Fantasiado,  2001

Mário Gruber (Brasil, 1927 – 2011)

acrílica sobre tela, 55 x 55 cm

 

 

“O carnaval. A festa onde os tabus perdem força e as permissões tornam-se hiperbólicas.”

 

 

Vinícius de Moraes

 

 

vinicius-de-moraesVinícius de Moraes (1913 -1980)

 

 





Carnaval por Graciliano Ramos

11 02 2018

 

 

EDESIO ESTEVES (1916-). Bloco de Carnaval, óleo s tela, 60 X 73Bloco de Carnaval

Edésio Esteves (Brasil, 1916)

óleo sobre tela, 60 x 73 cm

 

 

“Se a única coisa que de o homem terá certeza é a morte; a única certeza do brasileiro é o carnaval no próximo ano.”

 

Graciliano Ramos

 

graciramosGraciliano Ramos (1892-1953)




Carnaval por Vergílio Ferreira

9 02 2018

 

 

 

Adilson Santos, (Brasil, 1944) Menina com a máscaraMenina com a máscara

Adilson Santos, (Brasil, 1944)

óleo sobre tela

 

 

 

“Que ideia a de que no Carnaval as pessoas se mascaram. No Carnaval desmascaram-se.”

 

 

 

Vergilio_Ferreira

Vergílio Ferreira (1916-1996)




Carnaval lendo!

21 02 2017

 

 

 

pascual-carlos-esteban-argentina-1938a-leitora2001-acrilica-sobre-tela55x46cmA leitora, 2001

Pascual Carlos Estebán (Argentina, 1938)

acrílica sobre tela, 55 x 46 cm

 

 

Pensa em passar o Carnaval em casa lendo?  Aqui vão algumas sugestões de leitura.  Uns livro são mais grossos do que outros.  Você terá que ver quantos dias de folga irá dedicar à leitura. Procure pelas sinopses on line.

Todos os livros aparecem em catálogos online de grandes livrarias, mesmo não tendo sido publicados em 2017.

 

Pequena joia da literatura japonesa:

O fuzil de caça, Yasushi Inoue, São Paulo, Estação Liberdade: 2010, 112 páginas

 

Livro leve e romântico, quase um conto de fadas francês:

A caderneta vermelha, Antoine Laurain, Rio de Janeiro, Alfaguara: 2016, 134 páginas

 

Livro com pegada histórica, sobre adaptação a um novo ambiente, bom astral:

A garota de Boston, Anita Diamant, São Paulo, Nversos: 2016, 240 páginas

 

Livro não ficção que faz pensar, aprender e é de fácil leitura:

Sapiens, uma breve história da humanidade, Yuval Noah Harari, Porto Alegre: 2015, 462 páginas

 

Livro que virou filme:

Um homem chamado Ove, Fredrik Backman, Rio de Janeiro, Alfaguara: 2015, 352 páginas

 

Livro brasileiro histórico/suspense/ação:

O romance inacabado de Sofia Stern, Ronaldo Wrobel, Rio de Janeiro, Record: 2015, 256 páginas

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Imagem de leitura — Margaret Pappas

15 02 2015

 

Palhaço lendo Wall street journal, margaret-pappas,(EUA, contemp)ost, 90 x 60 cmPalhaço lendo Wall Street Journal

Margaret Pappas (EUA, contemporânea)

óleo sobre tela,  90 x 60 cm





Trova do Carnaval

14 02 2015

 

 

REYNALDO Fonseca (1925) Figura com máscara, o.s.t. - 46 x 38 cm. Ass. e dat. 2006Figura com máscara, 2006

Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)

óleo sobre tela, 46 x 38 cm

 

 

Neste carnaval sem fim

do mundo que Deus nos deu,

fantasiei-me de mim

e ninguém me conheceu.

 

 

(Maria Helena Vaquinhas de Carvalho)*

 

*Como apareceu na Coluna Falando de Trova, de José Ouverney.