Moça lendo na cama à luz de um abajur com pilha de livros na mesa
Bertha Wegmann (Dinamarca, 1847-1926)
óleo sobre madeira, 38 x 32 cm
Nota pessoal: hoje estou como essa moça e pretendo poder ler. Mas, do nada, acordei gripada e só consegui sair da cama às 15:30. Envio minhas desculpas por não fazer outras postagens. Nenhuma paisagem, nada mais. No momento, tudo isso parece um esforço enorme… rs… rs.. sei que é o corpo pedindo descanso. Mas queria vir aqui e dar uma abraço a todos vocês que aparecem regularmente, e que já considero amigos. Afinal são dezessete anos de blog. Aprecio a amizade de todos, o carinho, a constância das visitas. E até amanhã, quando com tanto resguardo, acredito que já estarei com mais energia. O que tenho na verdade é uma prostração enorme. Praticamente só isso.
Línguas, de Domenico Starnone, com tradução de Maurício Santana Dias, foi o terceiro livro do autor que li. Posso dizer que gostei de sua escrita desde que o encontrei em Assombrações(2018) e Laços(2017). Gosto imensamente de sua voz narrativa: calma, nostálgica, reflexiva. Sua escrita é de nuances. Ele não precisa abrir o jogo, contar tudo, tintim por tintim. Ele nos deixa espaço para imaginar e sonhar; ar para respirar e tempo para absorver o lugar, os sons, as memórias do autor que se imiscuem com as nossas.
Línguasé um pouco diferente dos outros que li. Menos fluido. Tem breque. É uma obra em dois tempos. Primeiro vemos o delicioso despertar do primeiro amor de um menino de oito ou nove anos, em Nápoles. Ele se apaixona por uma menina do edifício em frente ao dele. Ela é bem mais arrojada que ele, flerta com a morte, dançando no peitoril da varanda. Ela é diferente. Diferente de tudo que ele conhece. Ela não é como ele, do sul da Itália. Vem do norte e por isso, para surpresa do apaixonado garoto, ela fala com outro sotaque, usa vocabulário diverso, demonstra maneira de se expressar inesperada. A paixão dele, só aumenta. É o fascínio do outro, do desconhecido. Mas, para atrapalhar, no horizonte, há Lello, um amigo, que também se apaixona pela milanesa. Com o triângulo amoroso formado, a briga pela atenção da menina se desenvolve. Irão às vias de fato? Deixo isso para descoberta do leitor… Depois… temos a segunda parte dessa história. Os dois, que em criança haviam sido apaixonados por Emanuela, se encontram, são jovens adultos. Continuam a não se gostar e nesse encontro, e só então, Lello, o rapaz que sabe tudo de tudo, revela o verdadeiro destino da jovem bailarina de Milão.
Além da fascinante arte narrativa de Starnone, aprecio as diversas referências à literatura clássica em suas obras. Da mera alusão à mitologia greco-romana, aos contos medievais, vamos nos informando, circundando assuntos cujas menções ecoam e enriquecem o texto. Em Línguas, a própria abertura, o primeiro parágrafo ele já se refere ao trágico mito grego de Orfeu e Eurídice. A leitura atenta, já vislumbra, nas primeiras frases que abrem o texto, por causa dessa referência, um desfecho trágico, uma morte, quem sabe?
“Entre os oito e os nove anos de idade, decidi encontrar a fossa dos mortos. Tinha acabado de aprender nas aulas de italiano da escola a fábula de Orfeu e Eurídice debaixo da terra, onde ela havia ido parar por causa de uma picada de cobra. Eu planejava fazer o mesmo com uma menina que infelizmente não era minha namorada, mas que poderia vir a ser caso eu conseguisse tirá-la das profundezas da terra, enfeitiçando baratas, gambás, ratos e musaranhos.” [7]
Domenico Starnone
Línguas apresenta reflexões sobre dois temas constantemente ligados na literatura e no nosso emocional: amor e morte. Desde da Grécia antiga, e até antes disso, a relação entre essas duas profundas experiências fascinou poetas, escritores e filósofos. Por isso, não é surpresa que Starnone os considere, mesmo ao falar do primeiro amor — aquela paixão emocional que nasce na infância dos personagens, vista pelos olhos de quando eram crianças. Mas o texto é mais rico ainda, como complemento há contrastes entre juventude e velhice, línguas faladas tão próximas umas das outras e ainda assim estranhas. A riqueza do texto encanta e seduz.
Esse é um livro que aflora a sensibilidade do leitor. Não é repleto de fortes emoções ou de diálogos arrebatadores. Starnone é mais fino, dedica-se a tênues paralelos. As observações desse menino de nove anos são curiosas, engraçadas, trazem um leve humor para o texto, mas nem por isso deixam de ser perspicazes, deixam de elaborar complexos argumentos. Boa leitura. Dessas que adicionam. Recomendo sem restrições.
Robert Delaunay foi um dos maiores artistas franceses a se dedicar ao movimento batizado pelo poeta e crítico de arte Guillaume Appolinaire: Orfismo. Esse movimento foi um dos muitos nascidos como consequência do Cubismo. A liberdade de retratar diversos ângulos de um só tema em uma única imagem imperou nesse pequeno grupo de pintores. A premissa era que as artes plásticas evocassem vibrações musicais. O nome Orfismo veio justamente de Orfeu e sua relevância para a música e poesia. O movimento foi pequeno e teve em Delaunay a figura mais relevante. Ele se dedicou a retratar temas específicos em que cores ou formas pudessem transmitir a sensação das vibrações musicais e com essas transmitir espiritualidade a quem contemplasse as obras. Delaunay produziu muito. Entre seus temas além das formas abstratas circulares, vemos longas sequências, quem sabe até inspiradas pelas sequências de Claude Monet do Parlamento Inglês, como exemplo, ou até mesmo a sequência de Mont Saint Victoire por Cézanne. Para Delaunay a Igreja Gótica de Saint Séverin [São Severino], e a Torre Eiffel se tornaram elementos estruturais para seu experimento orfista. Hoje nós nos concentraremos nas obras retratando a Torre Eiffel em homenagem ao 14 de julho. Façam bom proveito!
Tecnicamente essas telas não são paisagens. Seriam colocadas na categoria de marinhas. Mas já há anos coloco marinhas na mesma classificação de paisagens. É uma escolha minha, para simplificar.
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Dois artistas contemporâneos que exploram as formas geométricas da natureza e daquilo que veem. A tela de Alice Brill mostra menos barcos a vela, mas as montanhas ao fundo replicam a forma triangular. Arcangelo Ianelli por outro lado, cobre toda a superfície da tela com os triângulos das velas e suas montanhas ao fundo, arredondadas, dão um respiro ao espaço, trazem um equilíbrio entre a rigidez dos triângulos e a repetição suave das montanhas ao fundo. Ambos têm outra maneira de se expressar: Alice era fotógrafa também e Arcangelo era escultor. Talvez tenha sido mais fácil para ambos enfatizar a geometria das formas, por causa desses enfoques. Mas também o geometrismo já havia se instalado na pintura desde Cézanne. Gosto de ambos, ainda que haja falta de espaço visual e com isso um ar asfixiante em ambas as obras.