Uma leitura silenciosa, 1915
Roderic O’Conor (Irlanda, 1860-1940)
óleo sobre tela
Uma leitura silenciosa, 1915
Roderic O’Conor (Irlanda, 1860-1940)
óleo sobre tela
Monsaraz, 2001
Pedro Buisel (Portugal, contemporâneo)
óleo sobre tela, 53 x 80 cm
Confesso que comecei a leitura de Nenhum Olhar de José Luís Peixoto com certa apreensão. Eu havia gostado tanto, tanto, de seu Livro, que tinha medo de me decepcionar com qualquer outra obra do autor. Dei tempo entre os dois e caí de amores mais uma vez por este autor que surpreende com a habilidade de encantar com a utilização de palavras comuns, que eu, você, nós todos sabemos e aplicamos diariamente. Em sua escrita esses vocábulos comuns tornam-se elementos de uma narrativa lúdica e poética capaz de abordar delicadas e violentas emoções de modo único e sensível. Chega a ser difícil acreditar que temos em comum as mesmas palavras, no número finito das existentes na língua portuguesa, porque José Luís Peixoto não inventa novos vocábulos, mas consegue construir linguagem única, que entendemos pelas ausências, no avesso ou como se lêssemos pelo espelho. Frases curtas trazem à tona reticências eloquentes. Silêncios soturnos envolvem o leitor com um cordão mágico invisível que o amarra ao texto. E imergimos num mundo fantástico e real, plausível, mágico. Enigmático.
José Luís Peixoto canta uma aldeia. Cantar é a palavra que melhor descreve a prosa-poética, ou a poesia em prosa, da narrativa sobre esta aldeia portuguesa, que parece perdida no tempo, solitária no espaço, contida em si mesma, isolada na imensa extensão agreste, bruta, bravia e rústica do Alentejo. Sente-se o lugar. É hostil, habitantes abrutalhados, sem possibilidades de mudança. Vivem sob o pesado manto dos séculos de isolamento e conformismo. Nem todos são gente comum. Há um tanto de mágica local. Mas há falta de perspectiva, seus habitantes não veem o horizonte além. ‘Nenhum olhar’ atravessa a distância, supera a realidade desolada do lugar.

Gosto particularmente da capa desta edição da Dublinense de Samir Machado de Machado. Gosto porque desta janela do aposento de onde a foto foi tirada, não há horizonte visível. Há telhados. E céu. O olhar atravessa a janela e para. Para logo ali adiante. Ali pertinho. Ali, na casa ao lado, no vizinho vigilante, na vereda deserta, no silêncio impenetrável dos vigiados seguidos por trás das cortinas em seus mais corriqueiros movimentos. O olhar para ali, sem qualquer esperança, para no muro e nas telhas. Isso reflete a asfixia da aldeia. A falta de espaço tão bem representada pelos irmãos siameses; a exiguidade a despeito da imensidão algarvia que a rodeia. Esta aridez externa ecoa na população retratada, do gigante à mulher estuprada, do pastor de ovelhas à mulher cega. E como num deserto, onde ocasionalmente vemos uma planta esboçar um alento, aqui também há amor. Silencioso, profundo, dramático. Talvez esses excessos nos levem a aceitar com maior encantamento a virada de perspectivas que ocasionalmente nos obriga a parar e pensar. “Penso: talvez o céu seja um mar grande de água doce e talvez a gente não ande debaixo do céu mas em cima dele; talvez a gente veja as coisas ao contrário e a terra como um céu, e quando a gente morre, quando a gente morre, talvez a gente caia e se afunde no céu.” [123-24]
José Luís Peixoto
Os eventos que compõem a história dessa aldeia podem ser contados repetidamente, de maneira poética ou objetiva. E no entrar e sair do sonho, no abraçar ou abandonar o onírico, temos entendimento mais completo da agonizante e ferrenha determinação de seus habitantes pela sobrevivência física e emocional. Esdrúxulas como a própria paisagem que as gera, essas pessoas parecem habitar o mundo das alegorias. Seus nomes, vindos dos Novo e Velho testamento aparentam ser maiores do que os seres que os carregam e dão aos acontecimentos, junto com os personagens fantasiosos, um ar simbólico que em vão tentamos decifrar.
Essa é a história de uma aldeia. Belíssima narrativa ainda que extremamente triste. Recomendo.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.
Floresta, déc. 1970.
José Claudino Nóbrega (Brasil, 1909 -1995).
acrílica sobre tela, 125 x 145 cm
Auto-retrato com neve, 1986
Angelo de Aquino (Brasil, 1945 – 2007)
liquitex sobre tela, 100 x 80 cm
Vaso de Flores, 1985
Guerino Grosso (Brasil, 1907 – 1988)
óleo sobre tela, 60 alt X 40 cm
Girl From Ipanema, 2000
Renato Meziat (Brasil, 1952)
acrílica sobre tela, 60 x 80 cm
Senhora lendo jornal
Emilio Grau Sala (Espanha, 1911 – 1975)
óleo sobre tela, 60 x 72 cm
“À direita do velho Gabriel, com os olhares paralelos, presos em pontos abstractos e desfocados, estavam os irmãos. Os seu olhares eram iguais, mas não viam o mesmo. Eram o mesmo olhar a ver duas coisas. Durante os meses em que estava parado, era, os irmãos que tomavam conta do lagar. Sempre juntos, sempre um ao lado do outro, envelheceram ao mesmo tempo: tinham a mesma curva nas costas, o mesmo andar pouco ligeiro e, sem que o soubessem, o mesmo número exacto de cabelos brancos na cabeça. Já tinham passado muito mais de setenta anos da manhã de agosto em que, ao mesmo tempo, nasceram, rasgando a mãe por dentro à sua passagem. Contavam os mais velhos, que tinham ouvido dos seus pais, que, assim que lhes cortaram os cordões umbilicais, a mãe os olhou e viu ainda que eram siameses. Morreu alguns minutos depois, sem dizer uma palavra. O seu enterro foi seguido por toda a vila e sentido como uma tragédia entre as maiores. Todas as pessoas da vila davam os pêsames ao pai dos irmãos, pela esposa e pelos filhos, pois todos cuidaram que crianças assim não medravam. Mas, no momento em que a mãe era enterrada, os meninos dormiam sobre três cobertores dobrados, no quarto do pai, ao lado da cama onde a mãe se esvaíra em sangue. De pele muito enrugada, os meninos dormiam , com as mãos que tinham unidas levantadas sobre o lençol que os cobria, como num orgulho inocente de serem irmãos. E, sob o olhar preocupado das pessoas, cresceram como crescem as crianças. Com os anos, muitos lhes quiseram analisar as mãos e todos se arrepiavam com o que viam: a mão direita de um e a mão esquerda do outro estavam unidas pelo dedo mindinho. Tinham as mãos muito elegantes, finas, dedos longos, mas a partir da última norça do mindinho, os seus dedos fundiam-se e terminavam numa só unha. Todos os que viam isto inventavam maneiras de os separar, mas o mais insistente foi o homem de arrancar dentes com o alicate. Inflamado, dizia conhecer homens que tinham cortado muitas pernas e muitos braços na guerra, e que tinha lido muitos livros com desenhos mesmo, e que cortar um dedo a uma criança é mais fácil do que podar uma parreira. E o pai dos irmãos perguntou-lhe e como é que eu decido qual deles é que fica sem dedo? E o homem de arrancar dentes com um alicate, imediato, respondeu já tinha pensado nisso, o mais justo é cortar o dedo aos dois. O pai dos irmãos olhou-o por um instante e não voltou a falar com ele. ”
Em: Nenhum olhar, José Luís Peixoto, Dublinense: 2018, páginas 17 e 18.
Paisagem de Santos
Paulo do Valle Júnior (Brasil, 1889 -1958)
óleo sobre tela, 90 x 68 cm
Moça lendo
Adam Clague ( EUA, contemporâneo)
óleo sobre tela, 59 x 30 cm
Alguns amigos perguntaram porque dei três estrelas de cinco para A vida pela frente, de Émile Ajar, tradução de André Telles, originalmente publicado em 1975, e ganhador do Prix Goncourt. A surpresa vem pelas muitas de resenhas superlativas desta obra. Há também um grande trabalho de marketing, desde seu lançamento em 2019. Aqui no Rio de Janeiro, a maioria das livrarias físicas tem este livro empilhado na primeira bancada, e compras via internet sempre trazem este livro como opção para suas compras, na primeira página.
Há uma incompatibilidade de gênios entre a obra e a leitora. A vida pela frente é sentimental, idealista e parece acreditar num mundo muito mais perfeito do que imagino possível. Parece estranho dizer isso quando se trata da história de um menino árabe, muito pobre, criado por uma cafetina judia, num bairro de prostituição em Paris e trabalhar temas da eutanásia ao aborto, exploração dos seres humanos, discriminação, injustiça social, violência. Incongruente, você poderá achar. Mas não é.

Somos apresentados a esse mundo através de um menino que talvez tenha dez a onze anos, que não sabe ao certo quando nasceu. A voz é de espanto, delicada e tem a intenção de nos seduzir por sua inocência. Infelizmente para a narrativa logo no primeiro capítulo ele pergunta: “– Seu Hamil, é possível viver sem amor?” Congelei. Estava frente à chave de abertura de mundo paralelo. Entrava num texto próprio para um filme de Walt Disney, com a necessidade de explorar escandalosamente meus mais finos sentimentos. Já sabia estar na companhia de um menino carente e agora ele iria me ensinar as coisas importantes da vida. Não, não faz sentido. Não me agrada ser sensibilizada dessa maneira, manipulada, só faltava ouvir os violinos ao fundo tocando uma canção suave.
Mas continuei a leitura. Dois de meus grupos de leitura haviam independentemente escolhido este livro para discussão. Eu tinha que chegar ao fim. O que veio foi previsível. Um texto para nos mostrar valores essenciais para a humanidade. Romance de formação? Não vejo assim. Romance com a intenção de formar, moralizar o leitor. Já saí da escola há tempos, minha formação já está sedimentada. Não preciso disso.
Émile Ajar, pseudônimo de Romain Gary
Não gosto de histórias moralizantes. Histórias que querem abertamente me fazer engolir valores, ensinamentos, frases bonitas, nada mais que revestidos lugares comuns, feitos para sensibilizar o leitor às platitudes insensatamente repetidas na modernidade como se fossem profundas conclusões sobre o ser humano: a necessidade de amarmos uns aos outros, a sobrevivência pela solidariedade; necessária coragem para a vida no âmbito marginalizado. Sinto muito. Isso não é profundidade de texto. Mostre-me. Não me guie.
Textos como este lembram-me do Pequeno Príncipe de Saint-Exupéry, que não passam de uma visão romântica do comportamento que devemos ter com os outros, conosco mesmo, mas a nível superficial. São bonitinhos. Pretendem profundidade. Pretendem posições filosóficas. Pretendem enunciar verdades, “para um mundo moderno que perdeu seus valores”. Não acho isso. Não tenho essa visão. É um livro pretensioso. Não é para mim. Há muito passei da fase de achar que frases bonitas refletem profundidade.
Quanto mais escrevo, mais sinto vontade de diminuir o número de estrelas que dei. Não recomendo.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.
Inverno
Dana Krinsky (Israel, 1969)
óleo sobre tela, 50 x 60cm
Augusto Cury
Augusto Cury