Vaso de flores, 1966
Aldo Bonadei (Brasil, 1906 – 1974)
óleo sobre tela colada em placa, 36 x 26 cm

Café e livro
Flora Merleau (França, 1975)
acrílica sobre tela, 80 x65 cm
“O desgosto que me obrigou a truncar o segundo romance, levou-me o pensamento para um terceiro, porém este já de maior fôlego. Foi O Guarani, que escrevi dia pôr dia para o folhetim do Diário, entre os meses de fevereiro e abril de 1857, se bem me recordo.
No meio das labutações do jornalismo, oberado não somente com a redação de uma folha diária, mas com a administração da empresa, desempenhei-me da tarefa que me impusera, e cujo alcance eu não medira ao começar a publicação, apenas com os dois primeiros capítulos escritos.
Meu tempo dividia-se desta forma. Acordava, pôr assim dizer, na mesa do trabalho; e escrevia o resto do capítulo começado no dia antecedente para envia-lo à tipografia. Depois do almoço entrava pôr novo capítulo que deixava em meio. Saía então para fazer algum exercício antes do jantar no “Hotel de Europa”. A tarde, até nove ou dez horas da noite, passava no escritório da redação, onde escrevia o artigo editorial e o mais que era preciso.
O resto do serão era repousar o espírito dessa árdua tarefa jornaleira, em alguma distração, como o teatro e as sociedades.
Nossa casa no Largo do Rocio, nº 73, estava em reparos. Trabalhava eu num quarto do segundo andar, ao estrépito do martelo, sobre uma banquinha de cedro, que apenas chegava para o mister da escrita; e onde a minha velha caseira Ângela servia-me o parco almoço. Não tinha comigo um livro; e socorria-me unicamente a um canhenho, em que havia em notas o fruto de meus estudos sobre a natureza e os indígenas do Brasil.
Disse alguém, e repete-se pôr aí de outiva que O Guarani é um romance ao gosto de Cooper. Se assim fosse, haveria coincidência, e nunca imitação; mas não é. Meus escritos se parecem tanto com os do ilustre romancista americano, como as várzeas do Ceará com as margens do Delaware.”
Em: Como e porque sou escritor, José de Alencar, Campinas, São Paulo,Pontes: 1990

A leitora, 1901
Auguste Frederic Dufaux (Suiça,1852-1943)
óleo sobre tela
Morava no engenho uma mulher por nome Josefa, conhecida como feiticeira. Tinha três filhos homens: João Duda, Antônio Cuíca e Felizardo, o melhor cortador de cana, que voltou da cidade, num dia de feira, em toda carreira, com a polícia no encalço. Chegando,gritou de longe para meu pai dizendo que acabara de cometer um crime e pedindo proteção. Matara Mesquece, um vendedor de cocada, por uma questão de troco.
Meu pai negou-lhe asilo. Não admitia criminoso em sua terra, mas nesse dia não jantou e dormiu tarde.
Veio o comandante do destacamento, tenente Moreirinha, e pediu licença para correr a propriedade. Contrariando a tradição de inviolabilidade dos engenhos, meu pai permitiu.
Além de varejar todas as casas, a polícia surrou a mãe do assassino e sua cunhada, mulher de Antônio Cuíca, o que causou indignação a meu pai.
Diziam os moradores que, com a diligência na ilharga, Felizardo tornara-se invisível por ter virado a camisa pelo avesso. Fugiu e homiziou-se numa usina em Pernambuco, só voltando a Areia depois de prescrito o crime.
Em: Memórias: antes que me esqueça, José Américo de Almeida, Rio de Janeiro, Francisco Alves: 1976, pp. 60-61
Maravilhe-se com os aristogatos frente a Sacre-Coeur, 2021
Martine Alison (França, 1959)
óleo sobre tela, 50 x 50cm
George Eliot
Mr. Gilfils Love Story, em Scenes of a Clerical Life, 1857
Natureza morta: tangerinas, bananas, chuchu, cebola e aipo, 1892
Antônio Rafael Pinto Bandeira (Brasil, 1863-1896)
óleo sobre tela, 54 x 62 cm
Museu Afro Brasil, São Paulo
Mestiça, 1953
[Retrato de Maria Augusta]
Gerson Pompeu Pinheiro (Brasil, 1910 – 1978)
óleo sobre tela, 60 X 49 cm
Luiz Peixoto
Rosinha seguiu viage,
não disse adeus a ninguém.
Levou no peito uma image
do Deus-menino em Belém,
levou cama, levou rede,
levou ferro de engomá,
levou panela de barro,
levou linha de bordá,
levou todos os terém.
Nunca vi tanta bagage!
No meio das catrevage,
meu coração foi também.
Em: Poesia de Luiz Peixoto, Rio de Janeiro, Editora Brasil-América:1964, p.79