Leituras de 2022: “Sobretudo de Proust”, de Lorenza Foschini, resenha

10 09 2022

Retrato de Lindy Guiness, 1965

Duncan Grant (Grã-Bretanha, 1885-1978)

óleo sobre madeira, 60 x 50 cm

Não foram só perdas, tive ganhos durante a pandemia.  Um deles foi ler cinco volumes seguidos de Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, não acabei, mas progredi bastante. Até então, havia lido duas vezes o primeiro volume dos sete: No caminho de Swan.  Primeiro, há muito tempo, quando estudava para o doutoramento em história da arte.  Centralizando meus estudos na arte moderna, entre 1863 e 1945, Proust era leitura obrigatória, pelo menos o primeiro volume, para melhor entender a sociedade da virada do século.  Muito mais tarde, reli o mesmo volume na preparação de um curso sobre Proust e a cultura da virada do século, tendo como eixo essa obra.  Foi um sucesso. Mesmo assim, a continuação do curso, cobrindo outros volumes nunca passou de projeto. Os anos seguiram.  A pandemia chegou.  No primeiro ano, tive tempo e paz para me dedicar de novo à leitura de Proust e voltar a me apaixonar pela escrita, assim como milhares e milhares de pessoas o fizeram através do século XX.

Sobretudo de Proust

Não vou aqui tratar dos encantos da narrativa proustiana, todos já sabem. Prosa minuciosa,  que merece ser lida com cuidado, pausadamente, saboreada.  Sentimos a necessidade de absorver cada vinheta e memorizá-las,como se pudessem agora fazer parte das nossas próprias memórias. Mas há mais.  Proust fascina também por aspectos misteriosos de sua existência, doente, escrevendo na cama; sofrendo dores e observando o mundo à sua volta.  Uma vida enigmática.  Não é de surpreender, portanto, que haja leitores atraídos pela intimidade de  sua vida; pessoas arrebatadas que gostariam de absorver cada detalhe sobre o intrigante escritor.  Esse é o fenômeno retratado em Sobretudo de Proust, ocorrência que toma conta do conhecido industrial e perfumista francês Jacques Guérin,  que move montanhas para conseguir documentos, textos, mobiliário, tudo que se imagine sobre Marcel Proust. Que fique claro, no entanto, Guérin foi capaz de agregar uma respeitadíssima coleção de livros raros e manuscritos de outros escritores como Lautréamont [Isidore Lucien Ducasse] um dos queridinhos dos surrealistas.  Ele foi também figura importante junto aos movimentos artísticos, literários e musicais da primeiras décadas do século XX.

A caminho do Brasil | Portal Anna Ramalho

Lorenza Foschini

 

Sobretudo de Proust: história de uma obsessão literária, de Lorenza Foschini, tradução de Mário Fondelli, mostra a procura, a caça, podemos dizer, do que restou do espólio de Proust.  Jacques Guérin consegue contato com herdeiros de escritor francês, que para sua surpresa, estão paulatinamente se desfazendo, queimando, os manuscritos que receberam com a morte de Proust.  É a cunhada de Proust, Marthe Dubois-Amiot, o personagem mais estarrecedor desta aventura.  Mas a tenacidade de Guérin na procura e retenção dessa papelada dá certo.  Hoje os manuscritos de Marcel Proust sob sua tutela são conhecidos como Cahiers Guérin.

O livro que nos conta essa história é delicioso.  Pequenino, com aproximadamente cem e poucas páginas, é um deleite para quem gosta de mistérios, de livros, manuscritos e papelada em geral.  É também um retrato acurado do colecionador sério, do sentimento que envolve aqueles que se entregam a uma paixão, a um amor, que procuram e retêm objetos de valor, que muitas vezes só eles, colecionadores veem sua importância no momento, esforço pelos qual gerações futuras agradecem. Este não é o primeiro livro da autora sobre Proust.  Talvez sua admiração pelo escritor tenha embalado a narrativa delicada e sedutora que encontramos no volume. Recomendo a leitura, sem restrições.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Flores para um sábado perfeito!

10 09 2022

Flores e livros

Marie Nivouliès de Pierrefort (França, 1879 -Brasil, 1968)

óleo sobre madeira, 73 x 90 cm





Rio de Janeiro, RJ, Brasil

9 09 2022

Praia do Pontal, 2012

Virgílio Dias (1956)

óleo sobre tela, 70 x 100 cm





Meus favoritos: Peder Severin Krøyer

8 09 2022

Noite de verão, na praia de Skagen. O artista e sua esposa, 1899

Peder Severin Krøyer (Noruega-Dinamarca,1855-1909)

óleo sobre tela, 131 x 187cm

Coleção Hirschsprung, Dinamarca

 

 

A pedidos, vou começar a postar as razões de escolher algumas telas como favoritas. 


Uma das coisas que me atrai nesta tela é a penumbra. Há mínimas diferenças de azul com mais ou menos cinza ou branco por toda a superfície, que só pela maior ou menor tonalidade dão profundidade à cena. Há também o contraste eloquente mas suave do amarelo da roupa masculina. Complemento perfeito para todo o azul e branco azulado do crepúsculo que se instala nesta praia deserta.  É a sutileza da tinta que me emociona. E o silêncio adivinhado pelo espaço percebido e o silêncio sentido pela tranquilidade da água sem ondas.  Nem o cachorro  parece interessado em latir.  É um momento íntimo entre os personagens na tela e também entre os espectadores e a cena, mesmo que seja uma obra de grandes dimensões. 





200 anos de independência!

7 09 2022

Cosendo a bandeira, 1939

Theodoro De Bona (Brasil, 1904-1990)

óleo sobre tela, 98 x 78 cm 

Acervo do Clube Curitibano





Nossas cidades: Santa Cruz de Cabrália

6 09 2022

Santa Cruz de Cabrália, 1989

Vitório de Freitas (Brasil, ?)

óleo sobre tela, 46 x 55cm





Curiosidade literária

5 09 2022

Tesouro

Sarah Mac (Austrália, contemporânea)

aquarela, lápis e nanquim sobre papel, 30 x 25cm

 

 

O vigésimo sexto  presidente dos Estados Unidos, Theodore  Roosevelt (1858 -1919) era leitor assíduo, conhecido por ler pelo menos  um livro por dia e às vezes dois ou três se tivesse uma noite livre.  A maior influência literária que teve foi do escritor e almirante Alfred Thayer Mahan.  Tudo indica que o livro The Influence of Sea Power Upon History  [A influência do poder naval sobre a história] foi  de importância para a política imperialista de seu governo.  Roosevelt também gostava de ler sobre a natureza, obras de autores como Audubon e Spencer Fullerton Baird, influenciaram  o presidente a ter como prioridade a proteção dos grandes espaços de beleza natural no país, quando durante seu governo (1901-1909) aumentou o número parques nacionais de proteção à natureza.  Os primeiros parques foram Yellowstone National Park, criado em 1892, seguido de Sequoia National Park, 1890, Yosemite National Park, 1890, Mount Renier National Park, 1899. Roosevelt adicionou: Crater Lake no Oregon; Wind Cave em  South Dakota; Sullys Hill, North Dakota; Mesa Verde, Colorado; e Platt, Oklahoma, hoje parte  Chickasaw National Recreation Area.

 





Leituras de 2022: “Vozes de Batalha” de Marina Colasanti, resenha

4 09 2022

Sem título

Emmanuel Garant (Canadá, 1953)

óleo

 

Durante minha infância e adolescência passei centenas de vezes em frente à propriedade que hoje chamamos de Parque Lage aqui no Rio de Janeiro, na ida e volta das escolas que frequentei. Naquela época era uma casa abandonada, circundada por um gigantesco terreno, coberto por mata tropical de tal forma densa, que não se conseguia ver a mansão que lá se escondia.  A propriedade, diziam na época, estava presa em litígio que não se resolvia por anos. Uma das razões desse terreno ser inesquecível, para quem passava pela rua Jardim Botânico naquela época, era que a mata era tão densa, tão densa, que a temperatura ambiente baixava significantemente à sua frente. Numa cidade calorenta como o Rio de Janeiro, a mudança de temperatura, em segundos, porque passamos em frente à uma residência com mata fechada que abaixa a temperatura ambiente é algo notório.  Mais tarde, a propriedade passou para o governo local por falta de pagamento de diversas dívidas da família e transformou-se  no que hoje conhecemos como  Parque Lage, local de acolhimento de diversas atividades inclusive uma escola de artes plásticas.

Essa mansão, que já fora uma das mais conhecidas da cidade, hoje ponto alternativo de turismo, leva o nome de seu antigo proprietário, Henrique Lage, um dos grandes empreendedores e uma das grandes fortunas do país no período entre guerras.  A mansão dos Lage é foco central da escritora Marina Colasanti, que passou a infância usufruindo das delícias deste palacete, descendente que foi de Gabriela Besanzoni Lage, sua tia, casada com Henrique Lage em 1925. Vozes de Batalha, da autora, publicado este ano pela Tusquets, atraiu a atenção de dois grupos de leitura a que pertenço.  Interessante notar que as avaliações dessas leituras foram bastante divergentes. 

 

Vozes de batalha

 

Trata-se das memórias de infância de Marina Colasanti, das aventuras dela e de seu irmão Arduíno, que exploraram o quanto quiseram a propriedade.  Filhos de Lisetta e Manfredo, chegam ao Brasil depois da Segunda Guerra Mundial, imigrantes, sem grandes perspectivas financeiras, que se estabelecem em 1948 na casa de Gabriela Besanzoni.  São os parentes pobres, da famosa cantora de ópera que havia arrebatado o coração de um dos maiores “partidos” para casamento do Rio de Janeiro no início do século XX.

Vemos a casa e a época através dos olhos dessa menina, hoje escritora.  Estas são memórias afetivas. Elas aparecem com muitos lapsos, e bastante ingenuidade quanto à realidade política e financeira dos tios.  Foi exatamente este ponto que fomentou a divergência de opinião sobre o livro entre os dois grupos de leitura. Um deles julgou ser uma excelente e divertida leitura [Encontros na Praça], outro grupo [Papalivros] esperava maior inserção da época, quer política, quer social, já que tão poucos de nossos escritores parecem se ater ao período.  Esperavam substância histórica mais densa, digamos assim, do Rio de Janeiro nos anos de brilho vividos pelo casal Lage. É importante lembrar que a cidade era a capital do país e, por isso, quase impossível separar os encontros políticos dos sociais.  Ainda que haja menções ao governo de Vargas, em diversas ocasiões, falta  ênfase na importância financeira da família e na interação das finanças com a política, claramente insinuada .  Essa foi a principal razão dos senões apontados pelos leitores, ainda que todos tenham entendido este não ser o principal objetivo de Colasanti.

 

Marina Colasanti - Biografia - Grupo Editorial GlobalMarina Colasanti

 

Com a conhecida prosa fluida de Marina Colasanti estas memórias de criança são encantadoras. Além disso o livro abre o apetite para sabermos mais sobre os Lage, sobre a época entre guerras no Rio de Janeiro. É leitura boa e leve, ideal para um fim de semana prolongado.  Sou, no entanto, uma daquelas que apreciaria maior inserção histórica na obra.  Mas não me arrependo dos  momentos que passei acompanhada pelo livro.  Três estrelas, tendo cinco como máximo.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Imagem de leitura — Ilia Répine

4 09 2022

Retrato da esposa do pintor, Vera Répine, 1878

Ilia Répine (Ucrânia, 1844-1930)

Óleo sobre tela, 101 x 82 cm

Coleção Particular





Em casa: Burton Silverman

4 09 2022

Costurando colcha de retalhos, 1979

Burton Silverman (EUA, 1928)

óleo sobre madeira, 40 x 32 cm