Primeiras horas, 1919
Harold Harvey (Inglaterra, 1874-1941)
óleo sobre madeira, 35 x 28 cm
Escritório de advogados, 1545
Marinus van Reymerswaele (Flandres, 1490-1546)
óleo sobre madeira, 102 x 124 cm
“Quantas coisas aprendi no exercício da minha função! Vi um pai morrer num celeiro, sem um tostão, abandonado por duas filhas a quem havia doado quarenta mil libras de renda! Vi testamentos serem queimados; vi mães despojarem seus filhos, maridos roubarem suas mulheres, mulheres matarem seus maridos valendo-se do amor que lhes inspiravam para torná-los loucos ou imbecis, a fim de viver em paz com um amante. Vi mulheres darem ao filho de um primeiro leito gotas que acarretariam sua morte, a fim de enriquecer o filho do amor. Não posso lhe contar tudo o que vi, porque vi crimes contra os quais a Justiça é impotente. Enfim, todos os horrores que os romancistas creem inventar ficam sempre aquém da verdade. O senhor vai conhecer todas essas belas coisas, deixo-as ao senhor; quanto a mim, vou viver no campo com minha mulher, Paris me horroriza.“
(Trecho, que se refere à novela de Honoré de Balzac, titulada Coronel Chabert)
Em: Os enamoramentos, Javier Marías, Rio de Janeiro, Cia das Letras: 2012
Hortênsias
C. Attilio (Itália-Brasil, 1901-1973)
óleo sobre tela, 107 x 81 cm
Hortênsias, 1945
Leopoldo Gotuzzo (Brasil, 1887 – 1983)
óleo sobre madeira, 52 x 70 cm
Vinícius de Morais
Para que vieste
na minha janela
meter o nariz?
Se foi por um verso
não sou mais poeta
ando tão feliz!
Se é para uma prosa
não sou Anchieta
nem venho de Assis.
Deixa-te de histórias
some-te daqui.
Em: Obra Poética, Rio de Janeiro, José Aguilar: 1968, p.270
Leitora
Nicolas Odinet (França, 1953)
óleo sobre tela, 100 x 100 cm
Sacha Guitry (1885-1957)
Natureza morta, 1990
Marília Fairbanks Maciel (Brasil, 1924-2012)
óleo sobre tela, 40 x 60 cm
Natureza morta
Carlos Lacek (Brasil, 1942)
óleo sobre tela, 50 x 60 cm
Companheiros de casa, 2003
Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925-2019)
óleo sobre tela
Monteiro Lobato
Moravam na mesma casa dois bichanos, iguais no pelo mas desiguais na sorte. Um, pela dona, dormia em almofadões. Outro, no borralho. Um passava a leite e comia no colo pela mão da senhora. O outro por feliz se dava com espinhas de peixe colhidas no lixo.
Certa vez cruzaram-se no telhado e o bichano de luxo arrepiou-se todo dizendo:
— Passa de largo, vagabundo! Não vês que és pobre e eu rico? Que és gato de cozinha e eu, de salão? Respeita-me, pois, e passa de largo…
— Alto lá, senhor orgulhoso! Lembra-te que somos irmãos, criados no mesmo ninho.
— Sou nobre! Sou mais que tu!
— Em quê? Não mias como eu?
— Mio.
— Não caças rato como eu?
— Caço.
— Não comes rato como eu?
— Como.
— Logo, não passas de um simples gato igual a mim. Abaixa, pois, a crista desse orgulho idiota e lembra-te que mais nobreza do que eu não tens — o que tens é aoenas um bocado mais de sorte…
Quantos homens não transformam em nobreza o que não passa de um bocado mais de sorte na vida!
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Em: Fábulas, São Paulo, Brasiliense: 1956, p. 155