Resenha: ” O quarto azul” de Georges Simenon

24 02 2020

 

 

Carole Rabe, (EUA, contemporânea) O quarto azul, ost, 60 x 45 cmO quarto azul

Carole Rabe, (EUA, contemporânea)

óleo sobre tela,  60 x 45 cm

 

 

Georges Simenon escreveu mais de quatrocentas obras tanto em seu nome quanto sob dezoito pseudônimos. Mais de cem pertencem ao que se denomina romances duros.  Diferente dos livros em que figura o inspetor chefe da polícia francesa, Maigret, os romances duros, publicados através da vida do autor, tratam com cuidado do drama psicológico de seus personagens. O quarto azul é um deles.

Conheci os livros de Simenon ainda na adolescência, nas longas férias de verão, com mistérios e resolução de crimes.  Só recentemente dei atenção aos romances duros, através da publicação de mais de um título pela Cia das Letras. [Em francês há a publicação da obra completa dos romances duros,compilados por décadas de publicação, diversos volumes]. E me apaixonei por essa faceta de Simenon que considerava sua produção subdividida: romances policiais, como os que têm Maigret como chefe de polícia; e as obras que considerava não serem comerciais, os romances duros, onde não precisava ter um fundo moral ou atender ao gosto do público.

 

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O quarto azul trata da aventura amorosa fora do casamento de dois personagens que se encontram regularmente — oito vezes em onze meses — no quarto azul de um hotel, na pequena Triant, aldeia francesa nas redondezas de Paris.   Enquanto para Tony, naturalmente lacônico em seu diálogo com a amante, essa aventura parecia não criar raízes profundas, para Andrée as poucas palavras enunciadas pelo homem com quem acabara de ter um encontro fogoso vinham carregadas de potente significado.  Essa diferença de interpretação de uma situação fora dos parâmetros morais, acaba com surpreendente desfecho de mortes e problemas para Tony.  É  no questionamento policial de Tony que então entendemos a complexidade dos personagens envolvidos.

 

1498698218_b745cc0ad3Georges Simenon

 

Um romance com meras cento e trinta e seis páginas não deveria ser capaz de detalhar fortes emoções criando empatia pelos personagens, nem fornecer ao leitor detalhes da vida pregressa de cada elemento da trama fazendo-os tridimensionais de maneira sucinta. Aí está a arte de Georges Simenon, que não acreditava na narrativa longa, nem em frases bonitas.  Sabe-se que sua maneira de editar era retirar tudo que fosse bonito, deixando apenas o essencial.  Esta narrativa dá impacto a uma trama simples, esparsamente descrita com palavras carregadas de significado.  Gostei imensamente do livro e recomendo.  Mas não espere um mistério do gênero do Inspetor Maigret.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Domingo, um passeio no campo!

23 02 2020

 

 

 

M. VASCONCELLOS (BRASIL-1900). Paisagem Serrana com Cabras, óleo s tela, 51 X 67. Assinado no c.i.e. c. 1951.Paisagem serrana com cabras, 1951

M. Vasconcellos (Brasil, 1900 — ?)

óleo sobre tela, 51x 67 cm





Flores para um sábado perfeito!

22 02 2020

 

 

 

Lorice Ganut,(Brasil, 1932)Papoulas, Óleo sobre tela, 46 alt X 33 larg (cm), acid e verso, 1985Papoulas, 1988

Lorice Ganut (Brasil, 1932)

óleo sobre tela, 46 X 33 cm





Imagem de leitura — Kristian Zahrtmann

22 02 2020

 

 

 

Kristian Zahrtmann, Interior with Young Man Reading, 1912. Oil on canvas, 70 x 63 cm. Bornholm Art Museum, inv. no. 375x58.Interior com jovem lendo, 1912

Kristian Zahrtmann (Dinamarca, 1843 – 1917)

óleo sobre tela, 70 x 63 cm

Bornholm Museu de Arte





Rio de Janeiro, um parque à beira-mar!

21 02 2020

 

 

Marie Nivouliés de Pierrefort, Casas na Glória, ost, 1950s, 58 x 65Casas na Glória, década de 1950

Marie Nivouliés de Pierrefort (França/Brasil, 1879 – 1968)

óleo sobre tela, 58 x 65 cm





História de um casamento, texto de Pedro Mairal

21 02 2020

 

 

 

Couple Talking by Simon Glücklich (c.1898). Austrian painter.Casal conversando, 1898

Simon Glücklich (Áustria, 1863-1943)

óleo sobre tela, 77 x 92 cm

 

“Preciso te dar os parabéns por não comer uma mulher?, você dizia, preciso te agradecer? Você belicosa, zangada. E não se deu por vencida. Você é boa em discussão. Me diga o que você quer, você insistia. E eu sem dizer mais nada. Não quis continuar. Em que momento o monstro que nós dois éramos foi ficando paralítico? Antes a gente trepava em pé, lembra? No terraço do seu apartamento em Agüero, encostados no armário que pintamos juntos, no chuveiro, uma vez em cima da mesa da copa. Éramos incríveis assim, nos procurando. Tínhamos  fome um do outro. De frente com uma perna apoiada na parede, de quatro na poltrona, derrubando os enfeites da mesa, você por cima, envergando o corpo de repente como se fosse abduzir uma nave extraterrestre. Se nos ocorria alguma coisa, éramos versáteis, dinâmicos, girávamos pegando fogo.  Pouco a pouco nossa fera de duas costas foi ficando abatida, deitou-se, não levantou mais. Surgia só com a vizinhança da cama, com o contato, horizontal, a fera indolente, trepadas de uma só posição,  missionários previsíveis, ou então você de barriga para baixo, quase ausente. Sós e juntos. Ou nas noites em que você estava tão cansada que não chegava a se enfiar direito debaixo das cobertas, ficava entre o edredon e o lençol e não conseguia nem dormir de conchinha com você, nem envolver sua cintura com a mão, nem agarrar seus peitos, nem te dar um beijo no pescoço, separados por um pano esticado, lado a lado, mas inatingíveis, como se estivéssemos em duas dimensões diferentes da realidade.”

 

Em: A uruguaia, Pedro Mairal, tradução de Heloísa Jahn, São Paulo, Todavia: 2019, pp. 10-11.





Resenha: “A Uruguaia” de Pedro Mairal

20 02 2020

 

 

 

Joaquin_Torres_Garcia_-_PinturaTabac, 1928

Joaquin Torres Garcia (Uruguai, 1874 –  1949)

óleo sobre  cartão,  52 x 73 cm

Museu de Artes Visuais do Uruguai

 

 

Há algum tempo coleciono pequenos romances, de preferência  de cento e cinquenta a duzentas páginas, cuja brevidade narrativa não esvazia a densidade literária.  A uruguaia, romance do argentino Pedro Mairal, preenche esses requisitos e depois  de lido achou um lugar especial entre outras obras do gênero:  O fuzil de caça  de Yasushi Inoue  e  A vida peculiar de um a carteiro solitário, de Denis Thériault.

Talvez seja uma das narrativas mais masculinas que li nos últimos tempos. O que isso quer dizer?  O ponto de vista e a maneira de contar são explicitamente masculinos.  Trata-se da história de um homem, num casamento que perdeu a paixão, frustrado profissionalmente, mantido pela mulher, que usa um pagamento antecipado de editoras sobre dois de seus livros  — ele é escritor — para sair de Buenos Aires, ir a Montevidéu, fazer uma operação de câmbio que só faz sentido na América Latina e  mais ainda na volúvel economia argentina.  Ele sai de manhã em direção a Montevidéu para efetuar a  transação bancária programada, enquanto secretamente nutre o desejo de se encontrar com Magali, “Maga”, jovem que o encantara meses antes, num evento literário no Uruguai e que desde então tem preenchido suas fantasias românticas.

 

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Volta para casa dezessete horas depois.  Neste meio tempo, enquanto viaja, nós também somos levados por ele através do tempo, aprendendo sobre seu casamento, filho, profissão, Magali,  o cotidiano em Buenos Aires e ausência de criatividade que o assola.  Também ficamos cientes de suas fantasias sexuais e do que planeja fazer ao encontrar a jovem uruguaia que o enfeitiçara. Nem por isso  deixamos de nos surpreender com os eventos.  Há um pequeno gosto de mistério nesta história.

Pedro Mairal desenvolve uma narrativa densa, clara, direta que encanta o leitor, levado pela mão a acompanhá-lo.  Repleto de referências à livros, escritores,  à  cena literária e cultural,  à música, com fino humor e destro gerenciamento, ele enriquece em muito o que em mãos menos hábeis não passaria de uma pequena aventura, de uma malandrice literária. Apesar de trabalhar seu texto incessantemente para chegar à clareza apesar da complexa linha narrativa, a leitura de A uruguaia é rápida, agradável e insinuante.

 

Pedro-MairalPedro Mairal

Por suas  constantes referências aos escritores argentinos e de outros lugares, Pedro Mairal posiciona sua escrita dentro do panorama literário atual da América Latina e percebemos que é junto a Borges,  Cortazar e outros de semelhante calibre que um dia pretende se encontrar.  Muito justo se continuar assim.

Entendo este ser seu segundo romance.  O primeiro Uma noite com Sabrina Love, que comprei depois de ler este livro, está na pilha para leitura próxima.  Já foi transformado em filme.  Sou fã do cinema argentino.  Filmes argentinos, quase sempre, são maravilhosos com perspectivas únicas sobre casos corriqueiros.  É justamente esse tom que permeia A uruguaia.  Parece roteiro de filme argentino.  E que roteiro!  Excelente leitura.    Recomendo.

 

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Hoje é dia de feira: frutas e legumes frescos!

19 02 2020

 

 

 

ARMANDO P DANTAS - OST - NATUREZA MORTA COM LEGUMES, 2002 - 55 X 46 cmNatureza morta com legumes,  2002

Armando  P. Dantas (Brasil, contemporâneo)

óleo sobre tela, 55 X 46 cm





Nossas cidades: Cuiabá

18 02 2020

 

 

 

Pintura de Beato Ten Prenafeta Óleo sobre tela Cuiaba Igreja de São BeneditoIgreja de São Benedito, Cuiabá

Beato Ten Prenafeta (Brasil, contemporâneo)

Óleo sobre tela





Resenha: “Vasto mundo” de Maria Valéria Rezende

17 02 2020

 

 

Carlos Prado (1908 - 1992),Paisagem com Igreja,Óleo sobre madeira,48 x 69 cmPaisagem com Igreja

Carlos Prado (Brasil, 1908 – 1992),

Óleo sobre madeira, 48 x 69 cm

 

 

Vasto mundo foi uma agradável surpresa. Um livro de contos entremeados, passados em Farinhada, vilarejo ficcional da Paraíba, que ao final fecha as história como num romance.  Com a mão leve e a habilidade de contar o essencial, de maneira bucólica quase poética, Maria Valéria Rezende presenteia os leitores com o mundo fantástico das pequenas comunidades brasileiras esquecidas nos confins interioranos do país.

Quem está familiarizado e aprecia a literatura brasileira de meados do século XX, com a ficção de Mário Palmério, José Condé, José Lins do Rego, Geraldo França de Lima, entre os que retrataram a vida das pequenas comunidades do interior brasileiro, certamente acolherá bem,  a escritora e freira Maria Valéria Rezende.   Porque ela trabalha dentro dos parâmetros desta tradição brasileira, em que a vidinha das cidades interioranas é caracterizada com leveza e carinho, demonstra a inocência ou ingenuidade do caipira, o ardil de que usa para sobreviver, a aceitação do sobrenatural e a certeza do destino, de que pouco mudará em sua vida do nascimento à morte.

 

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Maria Valéria Rezende adiciona à narrativa descrição clara, por palavras ou ações, do ser humano com falhas e qualidades.  E do específico, as histórias se tornam universais.  Apesar da linguagem leve, de se ater ao essencial, a autora consegue trazer à tona um travo causado pelos pequenos desapontamentos, esperanças modificadas pelo acaso, que cinzelam o comportamento dos personagens.  Cada sonho, ilusão, anseio encontra eco no leitor que se frustra e simultaneamente se encanta com a solução achada pela simplória maneira de ser.

 

mariavaleria2Maria Valéria Rezende

 

Profundamente humana a narrativa de Maria Valeria Rezende proporciona grande prazer até quando sofremos junto aos personagens que retrata.  Recomendo sem restrições a leitura deste livro.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.