25 de dezembro!

25 12 2024

Patinadores no Natal, 1946

Djanira da Motta e Silva (Brasil, 1914 -1979)

colagem e guache sobre papel, situado Nova York, 31 x 23 cm

 

 

Paz na terra aos homens de boa vontade!

 





Natal!

24 12 2024

Natividade, 1968

Djanira da Motta e Silva (Brasil, 1914 -1979)

óleo sobre tela





Flores para um sábado perfeito!

21 12 2024

Natureza morta com bico de papagaio, 1990

Evilásio Lopes (Brasil, 1917 – 2013)

óleo sobre tela, 54 cm por 45 cm

 

 

 

Vaso com bicos de papagaio sobre a mesa, 1958

Domingos Gemelli (Brasil, 1915-1985)

óleo sobre tela, 55 X 80 cm

 

Aqui estão duas telas com representações da planta Bico de Papagaio associada à época do Natal.  Essa associação é um costume importado principalmente dos Estados Unidos.  A planta (e essas partes vermelhas não são uma flor, mas folhas modificadas com flores minúsculas aparecendo no centro destas modificações) é natural do México.  A modificação das cores das folhas ocorre com um menor número de horas de exposição ao sol.  Portanto quando o Bico de Papagaio é utilizado no planejamento de um jardim, o paisagista leva em conta que suas atraentes folhas vermelhas aparecerão no inverno.   No hemisfério norte isso acontece na época do fim do ano, daí sua aparição como planta decorativa do Natal. Poucos artistas se dedicaram a representações do Bico de Papagaio, que eu conheça.





Rio de sol, de céu, de mar…

20 12 2024

Árvore da Lagoa, 2010

Lúcia de Lima (Brasil, contemporânea)

acrílica sobre tela





Hoje é dia de feira: frutos e legumes frescos!

18 12 2024

Natureza morta

Estevão Silva (Brasil, 1845-1891)

óleo sobre tela

Coleção Particular

 

 

Abóbora, 1956

Oswaldo Teixeira (Brasil, 1905 – 1974) 

óleo sobre tela, 54 x 73 cm

 

Está claro que escolhi o tema abóbora.  Não é um tema muito comum entre os pintores figurativos  brasileiros mais modernos.  Acho curioso.  Mas há moda na escolha das frutas, dos legumes e das flores.  Talvez não deva dizer moda.  mas há preferências em diferentes épocas pelas flores ou frutos representados. Há certas flores, por exemplo, que desaparecem das naturezas mortas ao longo do século XX.  Um bom estudo provavelmente revelaria as razões.  Poderiam não estar mais à venda nas feiras livres.  Uma observação rápida, superficial, mostra que não vemos nos dias de hoje ervilhas-de-cheiro à venda nos mercados ao ar livre, assim como não vemos mais mimosas, com suas flores-bolinhas amarelas.  Por volta dos anos 60 elas desaparecem.  Teria a ver com a produção de flores para exportação?   Quem passa os olhos  rapidamente sobre as naturezas mortas não percebe como alguns desses detalhes revelam muito não só sobre a época ou a cultura que as produziu, como sobre o artista que a elas se dedicou.  Aos poucos colocarei aqui algumas observações.





Nossas cidades: Mangaratiba

17 12 2024

Toca da velha, Mangaratiba, 1946

José Pancetti (Brasil, 1902-1958)

óleo sobre tela, 39 x 46 cm

 

Gosto muito desta tela.  Gosto da composição dela.  Há uma linha diagonal  invisível que separa a conturbada, cheia de ângulos, cena da mulher no tanque no canto esquerdo inferior, e  o que vemos no canto superior direito onde  águas plácidas apoiam canoas sonolentas descansando sem seus remadores. Essa dualidade perfeitamente balanceada é atraente.  Pancetti já estava aqui em sua fase madura, podemos ver que a partir da década de 40 ele vai abstraindo as formas do que representa chegando quase a imagens totalmente abstratas, salvo pelos títulos das praias que pintou.  De fato, grande parte das obras que tenho fotografadas das cidades costeiras do estado do Rio de Janeiro são de sua autoria.  Ele perambulou por toda a costa do estado trabalhando incessantemente.





Rio de sol, de céu, de mar…

13 12 2024

Ribeira, Ilha do Governador, 1964

Luzia Chiarelli (Brasil, contemporânea)

óleo sobre tela, 36 x 53 cm.





Hoje é dia de feira: frutas e legumes frescos!

11 12 2024

Natureza morta

Roberto Burle Marx (Brasil,1909 -1994)

óleo sobre tela 43 x 50 cm

Natureza morta,1969

Aldo Bonadei (Brasil, 1906-1974)

aquarela sobre papel, 33 x 25 cm.

 
 
Nota

Ocasionalmente recebo um email com pedidos para descrições dos quadros que coloco aqui.  Vou ver se consigo, de vez em quando, colocar uma notinha.  Nem sempre tenho tempo.  Essas coisas requerem muita atenção.  Comecei a fazer pares das Naturezas Mortas, (duas obras por dia) tanto de flores quanto de legumes e frutos, porque tenho uma enorme quantidade de fotografias dessas obras e por mais que eu me dedicasse ao blog eu jamais conseguiria usar tudo que tenho.

Minhas escolhas são do momento.  Como me sinto naquele dia, naquela hora. Mas quando coloco duas obras juntas como essas de hoje, tenho alguns parâmetros para a escolha. 

O primeiro parâmetro é meu gosto.  Sou fã incondicional desses dois pintores brasileiros: Aldo Bonadei e Roberto Burle Marx.  Herdeiros diretos do cubismo sincrético, tiveram tempo, coragem e habilidade de usar a multi perspectiva do cubismo para desenvolverem um estilo próprio, único, reconhecível a dez quilômetros de distância.  Às vezes a gente encontra uma obra do início de carreira que ainda não chegou ao que mais tarde associamos ao estilo de cada um, mas invariavelmente há algo que já os destaca do resto.

Por vezes escolho as telas pelos tons usados, pelos objetos retratados. 

Minha ideia original neste blog foi dar mais abertura à arte brasileira;  não sou contra a arte abstrata como muitos imaginam, não sou não.  Mas há dezesseis anos quando comecei este blog, sempre postando arte brasileira, a intenção era de trazer ao conhecimento de quem aqui entrasse da tradição em que mesmo uma obra abstrata se apoia.  Eu ia a galerias de arte e só encontrava arte abstrata.  As obras figurativas eram pobres e repetitivas.  Muita ênfase no naïf. Fiquei, verdadeiramente abismada, de saber, lá há vinte anos atrás,  que a arte figurativa não era nem ensinada em algumas escolas de belas artes.  Como assim? 

Enfim, por causa de minhas preferências, e todos nós temos nossas preferências, tenho que ter muito cuidado em não repetir sempre os mesmos artistas.  Hoje aqui ficam dois dos meu favoritos do século XX;





Nossas cidades: Caravelas, BA

10 12 2024

Caravelas, BA

João Baptista Cavalcante (Brasil, contemporâneo)

óleo sobre tela, 33 X 46 cm





Missa do Galo, conto de Machado de Assis, texto integral, em domínio público

9 12 2024

Jardim lateral de igreja

Yoshiya Takaoka (Japão-Brasil, 1909- 1978)

óleo sobre tela, 40 X 50 cm

 

Missa do galo

(texto integral)

 

Machado de Assis

 

 

Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos à missa do galo, preferi não dormir; combinei que eu iria acordá-lo à meia-noite.

A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão Meneses, que fora casado, em primeiras núpcias, com uma de minhas primas. A segunda mulher, Conceição, e a mãe desta acolheram-me bem, quando vim de Mangaratiba para o Rio de Janeiro, meses antes, a estudar preparatórios. Vivia tranqüilo, naquela casa assobradada da rua do Senado, com os meus livros, poucas relações, alguns passeios. A família era pequena, o escrivão, a mulher, a sogra e duas escravas. Costumes velhos. Às dez horas da noite toda a gente estava nos quartos; às dez e meia a casa dormia. Nunca tinha ido ao teatro, e mais de uma vez, ouvindo dizer ao Meneses que ia ao teatro, pedi-lhe que me levasse consigo. Nessas ocasiões, a sogra fazia uma careta, e as escravas riam à socapa; ele não respondia, vestia-se, saía e só tornava na manhã seguinte. Mais tarde é que eu soube que o teatro era um eufemismo em ação. Meneses trazia amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por semana. Conceição padecera, a princípio, com a existência da comborça; mas, afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito direito.

Boa Conceição! Chamavam-lhe “a santa”, e fazia jus ao título, tão facilmente suportava os esquecimentos do marido. Em verdade, era um temperamento moderado, sem extremos, nem grandes lágrimas, nem grandes risos. No capítulo de que trato, dava para maometana; aceitaria um harém, com as aparências salvas. Deus me perdoe, se a julgo mal. Tudo nela era atenuado e passivo. O próprio rosto era mediano, nem bonito nem feio. Era o que chamamos uma pessoa simpática. Não dizia mal de ninguém, perdoava tudo. Não sabia odiar; pode ser até que não soubesse amar.

Naquela noite de Natal foi o escrivão ao teatro. Era pelos anos de 1861 ou 1862. Eu já devia estar em Mangaratiba, em férias; mas fiquei até o Natal para ver “a missa do galo na Corte”. A família recolheu-se à hora do costume; eu meti-me na sala da frente, vestido e pronto. Dali passaria ao corredor da entrada e sairia sem acordar ninguém. Tinha três chaves a porta; uma estava com o escrivão, eu levaria outra, a terceira ficava em casa.

– Mas, Sr. Nogueira, que fará você todo esse tempo? perguntou-me a mãe de Conceição.

– Leio, D. Inácia.

Tinha comigo um romance, os Três Mosqueteiros, velha tradução creio do Jornal do Comércio. Sentei-me à mesa que havia no centro da sala, e à luz de um candeeiro de querosene, enquanto a casa dormia, trepei ainda uma vez ao cavalo magro de D’Artagnan e fui-me às aventuras. Dentro em pouco estava completamente ébrio de Dumas. Os minutos voavam, ao contrário do que costumam fazer, quando são de espera; ouvi bater onze horas, mas quase sem dar por elas, um acaso. Entretanto, um pequeno rumor que ouvi dentro veio acordar-me da leitura. Eram uns passos no corredor que ia da sala de visitas à de jantar; levantei a cabeça; logo depois vi assomar à porta da sala o vulto de Conceição.

– Ainda não foi? Perguntou ela.

– Não fui; parece que ainda não é meia-noite.

– Que paciência!

Conceição entrou na sala, arrastando as chinelinhas da a1cova. Vestia um roupão branco, mal apanhado na cintura. Sendo magra, tinha um ar de visão romântica, não disparatada com o meu livro de aventuras. Fechei o livro; ela foi sentar-se na cadeira que ficava defronte de mim, perto do canapé. Como eu lhe perguntasse se a havia acordado, sem querer, fazendo barulho, respondeu com presteza:

– Não! qual! Acordei por acordar.

Fitei-a um pouco e duvidei da afirmativa. Os olhos não eram de pessoa que acabasse de dormir; pareciam não ter ainda pegado no sono. Essa observação, porém, que valeria alguma coisa em outro espírito, depressa a botei fora, sem advertir que talvez não dormisse justamente por minha causa, e mentisse para me não afligir ou aborrecer. Já disse que ela era boa, muito boa.

– Mas a hora já há de estar próxima, disse eu.

– Que paciência a sua de esperar acordado, enquanto o vizinho dorme! E esperar sozinho! Não tem medo de almas do outro mundo? Eu cuidei que se assustasse quando me viu.

– Quando ouvi os passos estranhei; mas a senhora apareceu logo.

– Que é que estava lendo? Não diga, já sei, é o romance dos Mosqueteiros.

– Justamente: é muito bonito.

– Gosta de romances?

– Gosto.

– Já leu a Moreninha?

– Do Dr. Macedo? Tenho lá em Mangaratiba.

– Eu gosto muito de romances, mas leio pouco, por falta de tempo. Que romances é que você tem lido?

Comecei a dizer-lhe os nomes de alguns. Conceição ouvia-me com a cabeça reclinada no espaldar, enfiando os olhos por entre as pálpebras meio-cerradas, sem os tirar de mim. De vez em quando passava a língua pelos beiços, para umedecê-los. Quando acabei de falar, não me disse nada; ficamos assim alguns segundos. Em seguida, vi-a endireitar a cabeça, cruzar os dedos e sobre eles pousar o queixo, tendo os cotovelos nos braços da cadeira, tudo sem desviar de mim os grandes olhos espertos.

– Talvez esteja aborrecida, pensei eu.

E logo alto:

– D. Conceição, creio que vão sendo horas, e eu…

– Não, não, ainda é cedo. Vi agora mesmo o relógio; são onze e meia. Tem tempo. Você, perdendo a noite, é capaz de não dormir de dia?

– Já tenho feito isso.

– Eu, não; perdendo uma noite, no outro dia estou que não posso, e, meia hora que seja, hei de passar pelo sono. Mas também estou ficando velha.

– Que velha o quê, D. Conceição?

Tal foi o calor da minha palavra que a fez sorrir. De costume tinha os gestos demorados e as atitudes tranquilas; agora, porém, ergueu-se rapidamente, passou para o outro lado da sala e deu alguns passos, entre a janela da rua e a porta do gabinete do marido. Assim, com o desalinho honesto que trazia, dava-me uma impressão singular. Magra embora, tinha não sei que balanço no andar, como quem lhe custa levar o corpo; essa feição nunca me pareceu tão distinta como naquela noite. Parava algumas vezes, examinando um trecho de cortina ou consertando a posição de algum objeto no aparador; afinal deteve-se, ante mim, com a mesa de permeio. Estreito era o círculo das suas ideias; tornou ao espanto de me ver esperar acordado; eu repeti-lhe o que ela sabia, isto é, que nunca ouvira missa do galo na Corte, e não queria perdê-la.

– É a mesma missa da roça; todas as missas se parecem.

– Acredito; mas aqui há de haver mais luxo e mais gente também. Olhe, a semana santa na Corte é mais bonita que na roça. São João não digo, nem Santo Antônio…

Pouco a pouco, tinha-se inclinado; fincara os cotovelos no mármore da mesa e metera o rosto entre as mãos espalmadas. Não estando abotoadas, as mangas, caíram naturalmente, e eu vi-lhe metade dos braços, muitos claros, e menos magros do que se poderiam supor. A vista não era nova para mim, posto também não fosse comum; naquele momento, porém, a impressão que tive foi grande. As veias eram tão azuis, que apesar da pouca claridade, podia contá-las do meu lugar. A presença de Conceição espertara-me ainda mais que o livro. Continuei a dizer o que pensava das festas da roça e da cidade, e de outras coisas que me iam vindo à boca. Falava emendando os assuntos, sem saber por quê, variando deles ou tornando aos primeiros, e rindo para fazê-la sorrir e ver-lhe os dentes que luziam de brancos, todos iguaizinhos. Os olhos dela não eram bem negros, mas escuros; o nariz, seco e longo, um tantinho curvo, dava-lhe ao rosto um ar interrogativo. Quando eu alteava um pouco a voz, ela reprimia-me:

– Mais baixo! Mamãe pode acordar.

E não saía daquela posição, que me enchia de gosto, tão perto ficavam as nossas caras. Realmente, não era preciso falar alto para ser ouvido; cochichávamos os dois, eu mais que ela, porque falava mais; ela, às vezes, ficava séria, muito séria, com a testa um pouco franzida. Afinal, cansou; trocou de atitude e de lugar. Deu volta à mesa e veio sentar-se do meu lado, no canapé. Voltei-me, e pude ver, a furto, o bico das chinelas; mas foi só o tempo que ela gastou em sentar-se, o roupão era comprido e cobriu-as logo. Recordo-me que eram pretas. Conceição disse baixinho:

– Mamãe está longe, mas tem o sono muito leve; se acordasse agora, coitada, tão cedo não pegava no sono.

– Eu também sou assim.

– O quê? Perguntou ela inclinando o corpo para ouvir melhor.

Fui sentar-me na cadeira que ficava ao lado do canapé e repeti a palavra. Riu-se da coincidência; também ela tinha o sono leve; éramos três sonos leves.

– Há ocasiões em que sou como mamãe: acordando, custa-me dormir outra vez, rolo na cama, à toa, levanto-me, acendo vela, passeio, torno a deitar-me, e nada.

– Foi o que lhe aconteceu hoje.

– Não, não, atalhou ela.

Não entendi a negativa; ela pode ser que também não a entendesse. Pegou das pontas do cinto e bateu com elas sobre os joelhos, isto é, o joelho direito, porque acabava de cruzar as pernas. Depois referiu uma história de sonhos, e afirmou-me que só tivera um pesadelo, em criança. Quis saber se eu os tinha. A conversa reatou-se assim lentamente, longamente, sem que eu desse pela hora nem pela missa. Quando eu acabava uma narração ou uma explicação, ela inventava outra pergunta ou outra matéria, e eu pegava novamente na palavra. De quando em quando, reprimia-me:

– Mais baixo, mais baixo…

Havia também umas pausas. Duas outras vezes, pareceu-me que a via dormir; mas os olhos, cerrados por um instante, abriam-se logo sem sono nem fadiga, como se ela os houvesse fechado para ver melhor. Uma dessas vezes creio que deu por mim embebido na sua pessoa, e lembra-me que os tornou a fechar, não sei se apressada ou vagarosamente. Há impressões dessa noite, que me aparecem truncadas ou confusas. Contradigo-me, atrapalho-me. Uma das que ainda tenho frescas é que, em certa ocasião, ela, que era apenas simpática, ficou linda, ficou lindíssima. Estava de pé, os braços cruzados; eu, em respeito a ela, quis levantar-me; não consentiu, pôs uma das mãos no meu ombro, e obrigou-me a estar sentado. Cuidei que ia dizer alguma coisa; mas estremeceu, como se tivesse um arrepio de frio, voltou as costas e foi sentar-se na cadeira, onde me achara lendo. Dali relanceou a vista pelo espelho, que ficava por cima do canapé, falou de duas gravuras que pendiam da parede.

– Estes quadros estão ficando velhos. Já pedi a Chiquinho para comprar outros.

Chiquinho era o marido. Os quadros falavam do principal negócio deste homem. Um representava “Cleópatra”; não me recordo o assunto do outro, mas eram mulheres. Vulgares ambos; naquele tempo não me pareciam feios.

– São bonitos, disse eu.

– Bonitos são; mas estão manchados. E depois francamente, eu preferia duas imagens, duas santas. Estas são mais próprias para sala de rapaz ou de barbeiro.

– De barbeiro? A senhora nunca foi a casa de barbeiro.

– Mas imagino que os fregueses, enquanto esperam, falam de moças e namoros, e naturalmente o dono da casa alegra a vista deles com figuras bonitas. Em casa de família é que não acho próprio. É o que eu penso; mas eu penso muita coisa assim esquisita. Seja o que for, não gosto dos quadros. Eu tenho uma Nossa Senhora da Conceição, minha madrinha, muito bonita; mas é de escultura, não se pode pôr na parede, nem eu quero. Está no meu oratório.

A ideia do oratório trouxe-me a da missa, lembrou-me que podia ser tarde e quis dizê-lo. Penso que cheguei a abrir a boca, mas logo a fechei para ouvir o que ela contava, com doçura, com graça, com tal moleza que trazia preguiça à minha alma e fazia esquecer a missa e a igreja. Falava das suas devoções de menina e moça. Em seguida referia umas anedotas de baile, uns casos de passeio, reminiscências de Paquetá, tudo de mistura, quase sem interrupção. Quando cansou do passado, falou do presente, dos negócios da casa, das canseiras de família, que lhe diziam ser muitas, antes de casar, mas não eram nada. Não me contou, mas eu sabia que casara aos vinte e sete anos.

Já agora não trocava de lugar, como a princípio, e quase não saíra da mesma atitude. Não tinha os grandes olhos compridos, e entrou a olhar à toa para as paredes.

– Precisamos mudar o papel da sala, disse daí a pouco, como se falasse consigo.

Concordei, para dizer alguma coisa, para sair da espécie de sono magnético, ou o que quer que era que me tolhia a língua e os sentidos. Queria e não queria acabar a conversação; fazia esforço para arredar os olhos dela, e arredava-os por um sentimento de respeito; mas a idéia de parecer que era aborrecimento, quando não era, levava-me os olhos outra vez para Conceição. A conversa ia morrendo. Na rua, o silêncio era completo.

Chegamos a ficar por algum tempo, – não posso dizer quanto, – inteiramente calados. O rumor único e escasso, era um roer de camundongo no gabinete, que me acordou daquela espécie de sonolência; quis falar dele, mas não achei modo. Conceição parecia estar devaneando. Subitamente, ouvi uma pancada na janela, do lado de fora, e uma voz que bradava: “Missa do galo! missa do galo!”

– Aí está o companheiro, disse ela levantando-se. Tem graça; você é que ficou de ir acordá-lo, ele é que vem acordar você. Vá, que hão de ser horas; adeus.

– Já serão horas? perguntei.

– Naturalmente.

– Missa do galo! repetiram de fora, batendo.

-Vá, vá, não se faça esperar. A culpa foi minha. Adeus; até amanhã.

E com o mesmo balanço do corpo, Conceição enfiou pelo corredor dentro, pisando mansinho. Saí à rua e achei o vizinho que esperava. Guiamos dali para a igreja. Durante a missa, a figura de Conceição interpôs-se mais de uma vez, entre mim e o padre; fique isto à conta dos meus dezessete anos. Na manhã seguinte, ao almoço, falei da missa do galo e da gente que estava na igreja sem excitar a curiosidade de Conceição. Durante o dia, achei-a como sempre, natural, benigna, sem nada que fizesse lembrar a conversação da véspera. Pelo Ano-Bom fui para Mangaratiba. Quando tornei ao Rio de Janeiro, em março, o escrivão tinha morrido de apoplexia. Conceição morava no Engenho Novo, mas nem a visitei nem a encontrei. Ouvi mais tarde que casara com o escrevente juramentado do marido.

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