A leitora, texto de Fernando Paixão

14 11 2024

A estola, 2018

Laurence Bost (França, 1975)

óleo sobre tela, 92 x 73 cm

 

 

A leitora

 

Fernando Paixão

 

É possível vê-la apenas de costas, cabelos e pescoço bem curtos, alongando-se na altura dos ombros para um corpo que excede o encosto da cadeira. Encontra-se bem acomodada, convicta de que é a sua hora de esquecer os outros compromissos, para afinal entregar-se a uma escapada sentenciosa. Enfim está com o livro aberto nas mãos, suspenso perto dos olhos.
Uma das pernas apoia-se furtivamente na cadeira ao lado, mantendo-a numa posição oblíqua o suficiente para dar repouso a todo o corpo. É no interior dessa moldura que
se opera uma atenção voluntariamente levada a outro lugar, conduzida pela trama do texto.
Há ainda o copo de vinho que por vezes a mão leva aos lábios ocultos. Repete devagar o gesto, ao intervalo de duas ou três páginas, maneira furtiva de interromper o fluxo das palavras por um gosto equivalente a lhe correr na boca. Vista de costas, mantém-se como um enigma mascarado, e isso torna mais evidente o quanto esquece de si para seguir o caminho imaginoso.

 

Em: Rosa dos Tempos, Fernando Paixão, São Paulo. Edições Pau Brasil: 1980. 





Palavras para lembrar: Italo Calvino

13 11 2024

Leitura

James MacKeown (Inglaterra, 1961)

óleo sobre tela

 

 

“Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer.”

 

Ítalo Calvino

 





Hoje é dia de feira? frutas e legumes frescos!

13 11 2024

Natureza morta

Colette Pujol (Brasil, 1913-1999)

óleo sobre tela, 50  x 70 cm

 

 

 

Moranga

Virgílio Della Monica (Brasil, 1889-1957)

óleo sobre papel,  27 X 36 cm





Poema “Moreninha” de Casimiro de Abreu

13 11 2024

A florista

Clodoaldo Martins (Brasil, 1985)

óleo sobre tela, 64 x 76 cm

 

 

Moreninha

 

Casimiro de Abreu

 

Moreninha, Moreninha,
Tu és do campo a rainha,
Tu és senhora de mim;
Tu matas todos d’amores,
Faceira, vendendo as flores
Que colhes no teu jardim.

Quando tu passas n’aldeia
Diz o povo à boca cheia:
– “Mulher mais linda não há
“Ai! vejam como é bonita
“Co’as tranças presas na fita,
“Co’as flores no samburá! –

Tu és meiga, és inocente
Como a rola que contente
Voa e folga no rosal;
Envolta nas simples galas,
Na voz, no riso, nas falas,
Morena – não tens rival!

Tu, ontem, vinhas do monte
E paraste ao pé da fonte
À fresca sombra do til;
Regando as flores, sozinha,
Nem tu sabes, Moreninha,
O quanto achei-te gentil!

Depois segui-te calado
Como o pássaro esfaimado
Vai seguindo a juriti;
Mas tão pura ias brincando,
Pelas pedrinhas saltando,
Que eu tive pena de ti!

E disse então: – Moreninha,
Se um dia tu fores minha,
Que amor, que amor não terás!
Eu dou-te noites de rosas
Cantando canções formosas
Ao som dos meus ternos ais.

Morena, minha sereia,
Tu és a rosa da aldeia,
Mulher mais linda não há;
Ninguém t’iguala ou t’imita
Co’as tranças presas na fita,
Co’as flores no samburá!

Tu és a deusa da praça,
E todo o homem que passa
Apenas viu-te… parou!
Segue depois seu caminho
Mas vai calado e sozinho
Porque sua alma ficou!

Tu és bela, Moreninha,
Sentada em tua banquinha
Cercada de todos nós;
Rufando alegre o pandeiro,
Como a ave no espinheiro
Tu soltas também a voz:

– “Oh quem me compra estas flores?
“São lindas como os amores,
“Tão belas não há assim;
“Foram banhadas de orvalho,
“São flores do meu serralho,
“Colhi-as no meu jardim.” –

Morena, minha Morena,
És bela, mas não tens pena
De quem morre de paixão!
– Tu vendes flores singelas
E guardas as flores belas,
As rosas do coração?!…

Moreninha, Moreninha,
Tu és das belas rainha,
Mas nos amores és má
– Como tu ficas bonita
Co’as tranças presas na fita,
Co’as flores no samburá!

Eu disse então: – “Meus amores,
“Deixa mirar tuas flores,
“Deixa perfumes sentir!”
Mas naquele doce enleio,
Em vez das flores, no seio,
No seio te fui bulir!

Como nuvem desmaiada
Se tinge de madrugada
Ao doce albor da manhã
Assim ficaste, querida,
A face em pejo acendida,
Vermelha como a romã!

Tu fugiste, feiticeira,
E decerto mais ligeira
Qualquer gazela não é;
Tu ias de saia curta…
Saltando a moita de murta
Mostraste, mostraste o pé!

Ai! Morena, ai! meus amores,
Eu quero comprar-te as flores,
Mas dá-me um beijo também;
Que importam rosas do prado
Sem o sorriso engraçado
Que a tua boquinha tem?…

Apenas vi-te, sereia,
Chamei-te – rosa da aldeia –
Como mais linda não há.
– Jesus! Como eras bonita
Co’as tranças presas na fita,
Co’as flores no samburá!

 

 

Indaiassú – 1857





Nossas cidades: Mariana

12 11 2024

Tempo chuvoso em Mariana, 2009

Aguiar (Brasil, contemporâneo)

óleo sobre madeira, 50 x 61 cm





Imagem de leitura: Maria Bashkirtseva

11 11 2024

Jovem lendo próxima à uma cascata, 1882

Maria Bashkirtseva (Ucrânia 1858-1884)

aquarela, 31 x 21 cm





Paisagens brasileiras…

11 11 2024

Paisagem, 2002

Newton Mesquita (Brasil, 1949)

acrílica sobre tela, 100 x 180 cm

 

 

Paisagem da tarde, 1974

Jenner Augusto (Brasil,1924 – 2003)

óleo sobre tela, 37 x 61 cm

 

 

 

Paisagem,1979

Claudio Tozzi (Brasil, 1944)

acrílica sobre tela colada em placa, 80 x 120 cm





“Dona Santa” poesia de Olavo Nunes

11 11 2024
Ilustração de Frederick Richardson, 1975

 

 

Dona Santa

 

Olavo Nunes   (1871-1942)

 

Quando ela passa, risonha e pura,

De arzinho honesto, cheia de graça…

Todos murmuram: Que formosura!…

Quando ela passa…

 

Flores rebentam pelo caminho

Sob os pezinhos que a bota enlaça;

Beijos se escutam de ninho a ninho,

Quando ela passa…

 

Seguem-na olhares cheios de gula

Como os da fera fitando a caça,

Olhares meigos que amor açula,

Quando ela passa…

 

Boca vermelha que o riso enflora

Cintura fina que um dedo abraça,

Parece ver-se Nossa Senhora,

Quando ela passa…

 

À luz dos olhos dessa menina

Deserta o pranto, foge a desgraça;

Com grande afeto tudo se inclina,

Quando ela passa…

 

Sombrero alegre, cheio de fita,

Vestido leve de fina cassa,

Gosto de vê-la assim tão bonita,

Quando ela passa…

 

Trinulam aves pelas umbrosas

Ramas que o vento no alto entrelaça,

E abelhas d’oiro desfolham rosas,

Quando ela passa…

 

Quando ela passa, risonha e pura,

De arzinho honesto, cheia de graça…

Todos murmuram: Que formosura!…

Quando ela passa…

 

Em: Coelho Netto e a Mina Literária, Imprensa de Alfredo Silva, Pará: 1899, pp 34-36





Em casa: Rupert Bunny

10 11 2024

A sesta, 1907

Rupert Bunny (Austrália, 1867-1947)

óleo sobre placa, 51 x 73 cm





Na boca do povo: escolha de provérbios populares

9 11 2024
Tio Patinhas considera novos investimentos, ilustração, Walt Disney.

“Quem na despesa é frugal, logo aumenta o capital.”