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Ilustração Maurício de Sousa.
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A primavera opulenta,
Mostrando tudo que é cor,
Uma palheta aparenta
De algum notável pintor!
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(Ivone Taglialegna Prado)
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Ilustração Maurício de Sousa.–
A primavera opulenta,
Mostrando tudo que é cor,
Uma palheta aparenta
De algum notável pintor!
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(Ivone Taglialegna Prado)
George Braque (França, 1882-1963)
óleo sobre tela, 130 x 175 cm
Coleção Particular
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Há algum tempo lembro que para participarmos do diálogo nas artes visuais é importante termos um conhecimento geral, extenso, das obras de arte do passado, para que certas referências feitas por artistas a seus colegas de gerações passadas possam ser compreendidas. Assim como acontece na literatura, onde não é incomum vermos citações de escritores a escritores de gerações passadas, o mesmo acontece nas artes visuais. Frequentemente o arremedo direto a uma obra de arte específica vem com a expressão em francês “d’ après” ou a inglesa “after“. No Brasil usa-se mais comumente a expressão em francês. As reproduções por fotografias, cartões postais, livros de arte, de quadros ou esculturas, que se tornaram cada vez mais baratas e populares através do século passado, facilitaram em muito essa conversa de uma geração de artistas com seus predecessores.
Hoje, a internet veio facilitar esse conhecimento. O que antes era difícil e dependente de reproduções fotográficas, de visitas a museus, da boa vontade de professores em trazer para a sala de aula slides de obras de arte, de arquitetura e de objetos arqueológicos hoje, está ao alcance de todos, quer do aluno, quer do amante das artes visuais; tanto na cidade grande, onde uma visita a museus é corriqueira, quanto no interior que não tem essa facilidade à disposição de seus habitantes.
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Infanta Margarida Teresa em vestido azul, 1659
Diego Rodriguez de Silva Velazquez (Espanha, 1599-1660)
óleo, 127 x 107cm
Museu de História da Arte, [Kunsthistorisches Museum]
Viena, Áustria
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D’ après Velazquez, 2005
Fernando Botero (Colômbia, 1932)
óleo sobre tela, 198 x 168 cm
Coleção Particular
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Nem sempre a alusão a uma obra de arte é direta. Nem sempre é óbvia ou até mencionada pelo artista. A obra, acima, de Fernando Botero, que reinterpretou diversas vezes os quadros de Velazquez, é uma cópia/interpretação do pintor espanhol ao seu estilo. O próprio título do quadro nos mostra que ele estava olhando para Velazquez. E ele assume que o observador conhecerá a pintura que serviu de fonte de inspiração; que o quadro de Velazquez certamente deveria lhe ser familiar por ser uma obra muito conhecida, por fazer parte da cultura geral do observador.
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Mulher recostada, 1922
Fernand Léger ( França, 1881-1955)
Óleo sobre tela, 65 x 92 cm
The Art Institute, Chicago
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Fernand Léger ( França,1881-1955)
Óleo sobre tela, 65 x 92 cm
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Fernand Léger ( França, 1881-1955)
óleo sobre tela, 114 x 146 cm
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Já as três telas do pintor francês do século XX, Fernand Léger, diferentemente do trabalho de Fernando Botero que se inspira em um único quadro de Velazquez, se encontram entrelaçadas na obra de K. Madison Moore abaixo. Menos óbvia para o observador casual, essa referência, onde três telas juntas se encontram, passa a ser um verdadeiro tributo, noventa anos mais tarde, à obra da década de 1920 do pintor cubista. A menção está no título: Lendo com Fernand.
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Lendo com Fernand, 2011
K. Madison Moore (EUA, contemporânea)
Óleo sobre tela, 36 x 36 cm
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O artista plástico brasileiro Vik Muniz também é constantemente inspirado pelos trabalhos de muitos de seus antecessores. Ele já trabalhava nesse diálogo com o passado, entre gerações e técnica, antes mesmo de aparecer nas telas mundiais com o documentário sobre o lixo. A obra dele, abaixo, vista por alguém menos atento e através da internet poderia até parecer o próprio quadro original de Henri Matisse. Suas diferenças só parecem mais acentuadas quando postas lado a lado.
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Odalisca com cadeira turca, d’après Henri Matisse
Vik Muniz ( Brasil, )
gravura fotográfica, 100 x 120cm
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Odalisca com cadeira turca, 1927
Henri Matisse ( França,
Óleo sobre tela, 60 x 73 cm
Museu de Arte Moderna da Cidade de Paris
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Recentemente conheci o trabalho do pintor americano Fred Calleri que também se inspira nas telas de grandes pintores dos séculos passados. Muitos de seus quadros são citações diretas de outros muito conhecidos, com pequenas distorções, que no caso dele, tornam o trabalho com uma ligeira veia cômica, um leve tom caricatural. Vejam abaixo sua tela e em seguida a musa inspiradora, a tela de Tissot. Até no título as semelhanças são significativas.
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Fred Calleri ( EUA, 1964)
óleo sobre tela, 30 x 47 cm
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James Jacques Tissot ( França, 1836-1902)
óleo sobre tela, 27 x 36 cm
Coleção Particular
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A realização de que fontes de inspiração do passado abundam à nossa volta me atingiu em cheio esta semana, quando o anúncio no jornal O Globo, da exposição Toys art show no Rio de Janeiro a primeira exposição individual do grafiteiro OZI. Ilustrando a exposição estava a obra abaixo do artista paulista.
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De acordo com o jornal OZI é o primeiro a admitir que usa de ilustrações antigas para mandar a mensagem que deseja. Nesse caso, identifiquei a fonte na hora, apesar de não saber o nome do ilustrador, mas eu havia recentemente encontrado a ilustração abaixo que recolhi para uma postagem no blog sobre o Natal. Mudei de idéia, acho que aqui ela serve a uma proposta muito mais interessante, aqui. Pela simples troca de um objeto nas mãos das meninas, o sentido das imagens muda completamente. Enquanto na ilustração antiga as meninas embrulham um presente, no graffiti de OZI elas embrulham dinamite. Semelhantemente abaixo, na ilustração original de Alice no País das Maravilhas, Alice levanta uma cortina e tem uma chave na mão direita. No trabalho de OZI ela levanta o coelho e tem um revolver na mão.
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Ilustração, autor desconhecido, possivelmente Jessie Willcox Smith.–
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Como já comentei anteriormente na postagem sobre Max Ernst, é um passatempo fascinante para quem é treinado em história da arte tentar conhecer as fontes de inspiração de um artista. Deixe-me deixar claro: não se trata de cópia, de plágio, nada disso. Como já venho demonstrando através de diversas postagens é uma tradição de todo sempre nas artes visuais, estas referências constantes ao passado. A tradição vem da maneira como artistas são e eram treinados, copiando os grandes mestres, aprendendo os seus truques visuais na prática.
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Obra de OZI, o grafiteiro, expondo no Rio de Janeiro.–
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Ilustração de Alice no País das Maravilhas, de Sir John Tennion, publicada em 1865.–
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Nem sempre as fontes inspiradoras são tão óbvias quanto as mostradas aqui. E nem sempre podemos nos assegurar que o artista realmente fez uma referência ou se utilizou de um trabalho anterior de outro artista. Às vezes é o espírito de uma obra que lembra o de outra. Às vezes é o espírito de uma época, é um tempo em que certos assuntos são importantes, ou estão sendo ventilados. OZI admite, de acordo com a reportagem, que está sempre olhando para ilustrações antigas. Essa declaração me lembrou que talvez todos os grafiteiros de algum nome, também estejam se instruindo a respeito do trabalho de artistas gráficos que os precederam. O trabalho do grafiteiro, Celso Gitahy, por exemplo, cujo graffiti, Stop the Cars, mostrado abaixo, e apareceu em 2009, quando o jornal A Folha Online, anunciou a 1ª Bienal Internacional de Arte de Rua de São Paulo (BIAR), me lembrou, pela junção fora do comum de parte de um carro usada como cabeça de um homem, de uma outra imagem, dessa vez, vinda das histórias em quadrinhos. Vejam logo abaixo. A idéia pode e deve ter surgido por si só, sem referência precisa às imagens dos quadrinhos, mas elas servem para mostrar o trabalho de garimpagem que iconógrafos fazem para entender o espírito de uma época.
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Stop the cars, graffiti de Celso Gitahy.–
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Quadrinho, Cowboy Henks, final.–
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A historinha completa.
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©Ladyce West, Rio de Janeiro: 2011
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Ilustração: autor desconhecido.–
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Muita gente que tem casa
rica e de bela aparência,
muitas vezes não tem lar,
mas apenas residência.
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(Heribaldo B. Barroso)
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Lesser Ury (Alemanha 1861-1931)
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Lesser Ury nasceu em Birnbaum, na Alemanha em 1861. Mudou-se para Berlim, após a morte do pai e aos 17 anos, entrou para a Academia de Arte de Düsseldorf para estudar pintura. Viajou extensivamente pela Europa antes de retornar a Berlim em 1887. Depois de um início artístico tempestuoso Ury eventualmente construiu uma sólida carreira entre os anos de 1915 e 1922. Pintor de gênero, paisagens urbanas, cenas de interior, desenvolveu um estilo próximo ao impressionista, mas de tons mais escuros do que os usados por seus colegas franceses. Seus trabalhos tornaram-se imensamente populares, principalmente as cenas noturnas em bares. Morreu em Berlim em 1931.
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Cascão coleciona revistas em quadrinhos, ilustração Maurício de Sousa.–
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Reproduzo aqui, a sexta parte de uma coletânea de seis textos de Gilberto Freyre, escritos entre 1948 e 1951 para a revista O Cruzeiro, em que o sociólogo esclarece alguns pontos sobre a censura.
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(parte VI) – Gilberto Freyre
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Deste mesmo recanto modesto de página 10 de O Cruzeiro já tive ocasião de referir-me à chamada “história em quadrinhos” como forma moderna de literatura ou arte: uma literatura ou arte cujo mal – o de conteúdo ou substância – não deve ser confundido levianamente com a forma.
A forma tanto pode se prestar a fins educativos como deseducativos. Correspondendo a um gosto moderno de síntese, tanto da parte de um público infantil como do adulto, deve ser aproveitada pelos educadores e moralistas e não apenas abandonada aos exploradores da vulgaridade ou da sensação.
Em vez de assim procederem, que fazem alguns educadores e moralistas? Investem contra a história de quadrinhos como os caturras de outrora investiram contra os principais cinemas, os primeiros rádios. Até que ficou evidente que jornal, cinema, rádio, tanto se podiam prestar a fins educativos como deseducativos. Que os próprios padres ou sacerdotes podiam utilizar-se do jornal, do cinema, do rádio para a propaganda da fé e da moral cristã. Que jornal ou imprensa não queria necessariamente dizer perigo para a ordem estabelecida ou a ortodoxia dominante, mas, ao contrário, podia ser posta a seu serviço. Que cinema não queria necessariamente dizer a moça quase nua fazendo pecar os adolescentes, homem beijando escandalosamente mulher, ladrão arrombando cofre, mas, ao contrário, podia ser posto ao serviço da ciência, da história clássica e da própria religião. Que o rádio não queria necessariamente dizer maior divulgação de samba, de anedota picante, de canção obscena, mas também de música clássica e da própria música de igreja.
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Ilustração Walt Disney.–
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A “história em quadrinhos” está na mesma situação. Também ela pode tornar-se instrumento de divulgação de vidas de heróis, de santos, de sábios, de façanhas de vaqueiros do Nordeste e de gaúchos do Rio Grande do Sul e não apenas as aventuras de gangsters e de cowboys.
Também ela pode tornar-se, para os brasileiros, fonte de conservação de tradições nacionais, em vez de superação dessas tradições por mitos de povos imperiais sem que, entretanto, o justo zelo degenere em “nossismo” intolerante. “Nossismo” doentio que não admita história com Papai Noel, mas só com Vovô Índio; nem biografia que exalte Marconi, mas que só glorifique Santos Dumont; nem canto onde apareça lobo ou olmo, mas só onde brilhe a ramagem do cajueiro ou arreganhe a dentuça da suçuarana.
Compreende-se a campanha de nacionalização da história de quadrinhos inciada vigorosamente pelo jornalista Homero Homem. Mas seria uma lástima que a mística da nacionalização nos levasse aqueles exageros. E nos fechasse, nas nossas revistas e jornais, às histórias de quadrinhos que não falassem em índio, cajueiro, vaqueiro do Nordeste, suçuarana, pitanga, Caxias, Santos Dumont.
Atualmente, o extremo que domina nas histórias de quadrinhos publicadas nos nossos jornais é o de quase exclusiva americanidade de motivos, símbolos e personagens. Devemos reagir contra essa exclusividade lamentável. Mas não ao ponto de nos fecharmos dentro de motivos, símbolos e personagens exclusivamente brasileiros. Apenas escolhendo para publicação, histórias, tanto brasileiras quanto estrangeiras, mais capazes de deleitar o público, sem corromper-lhe o gosto. Pois não nos esqueçamos de que vivemos num mundo que é, cada dia mais, um mundo só, dentro do qual o Brasil deve ser o Brasil sem deixar de ser fraternalmente humano e cordialmente americano.
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Em: Pessoas, coisas e animais, de Gilberto Freyre, — ensaios e artigos reunidos e apresentados por Edson Nery da Fonseca, São Paulo, edição especial MPM Casablanca-Propaganda: 1979.
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Ilustração: Rosas, por Len Steckler, década de 1970.–
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Walter Waeny Júnior
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Floriu, um dia, uma rosa
Sobre o rio; e vendo-a, rara,
Ele, de alma ambiciosa,
Refletiu-a na água clara.
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E tanto ele refletiu
Sua efígie encantadora,
Que a rosa não resistiu
E o rio a levou embora.
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Porém, adiante, encontrei-a,
Não mais perfumada e bela:
O rio a lançou na areia
E foi embora sem ela.
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Em: 232 poetas paulistanos – antologia — Pedro de Alcântara Worms, Rio de Janeiro, Conquista:1968
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Walter Weany Júnior nasceu em São Vicente em 1924. Usou psudôniomo : Guilherme Guimarães. Contador, funcionário do Banco do Brasil, escritor, poeta e trovador de renome.
Obras:
Ao todo tem 89 obras publicadas, entre elas:
Sonetos esparsos, poesia, 1947
Rei Destronado, poesias, 1950
A Juventude, poesias, 1950
Nascer do Sol, poesias, 1950
O Walthalla, poesias, 1951
Aforismo, 1955
Pensamentos, 1957
Walkyria, poesias, 1950
O Condor, poesia, 1975
Mulher, trovas, sextilhas e traduções, 1990
Ouro e Azul, poesias, 1992
Trovas Escolhidas, 1995
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O astronauta que flutua
muito tem a lamentar:
quanto mais perto da lua
mais distante do luar.
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(Nei Garcez)
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Frank Duveneck (EUA, 1848-1919)
óleo sobre tela
Museu de Belas Artes de Boston
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Frank Duveneck nasceu em Kentucky em 1848. Começou a estudar arte aos 15 anos com um artista local. Em 1859 foi à Europa, estudar na Academia Real de Munique, na Alemanha, onde foi aprendendo a arte do realismo na pintura. Mais tarde junto a outros artistas americanos revoltou-se contra os preceitos do realismo a que se dedicara, preferindo um estilo mais livre. Abriu uma academia de pintura em Munique em 1878. Depois de ficar viúvo em 1890 ele retorna aos EUA e morou em Covington até sua morte em 1919.
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Reproduzo aqui, a quinta parte de uma coletânea de seis textos de Gilberto Freyre, escritos entre 1948 e 1951 para a revista O Cruzeiro, em que o sociólogo esclarece alguns pontos sobre a censura.
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(parte V) – Gilberto Freyre
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Ainda as histórias em quadrinhos. Também na Inglaterra houve quem se levantasse contra elas considerando-as ianquismo ou americanismo da pior espécie. Engano. É apenas um modernismo que corresponde à época que atravessamos. E que tanto pode ser utilizado no bom como no mau sentido.
O Reverendo Morris – segundo a revista brasileira que acaba de divulgar suas opiniões publicadas em “The Manchester Guardian” — é o que inteligentemente acentua: “Os pais deveriam deixar de insistir numa censura negativa; ao invés disso, deveriam demonstrar um interesse positivo pelo que lêem seus filhos. Deveriam escolher histórias em quadrinhos, nas quais os temas das narrativas são elevados, além disso, onde nem todos os vilões são estrangeiros…”
Exatamente o critério que defendi há três ou quatro anos na Comissão de Educação e Cultura da Câmara e neste meu recanto de “O Cruzeiro”. Recebi, então, cartas terríveis. Uma delas insinuava que eu estaria a serviço de alguma empresa ianque de histórias em quadrinhos. Serviço encapuçado, mas serviço.
Outra coincidência de opinião do Rev. Morris com as idéias que esbocei em 1949: “A violência e a aventura existem na Bíblia. Em Shakespeare, em Sir Walter Scott e em Stevenson, em não menor grau do que nas histórias em quadrinhos americanas e nas historias Vitorianas de demônios e vampiros”. O que é fácil, facílimo verificar.
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Também a revista brasileira, que divulga as palavras sensatamente britânicas do Rev. Morris, reproduz sobre o assunto a opinião de uma Professora de Psiquiatria de Universidade norte-americana: a Dra. Bender. “Do ponto de vista psicológico” – diz ela – “as histórias em quadrinhos constituem uma grande experiência de atividade. Seus heróis vencem o espaço e o tempo, o que dá às crianças senso de libertação, ao contrário de angústia e de medo”. E ainda: “o uso de símbolos utilizados nas histórias em quadrinhos ajuda até mesmo os adultos a ajustar sua personalidade às duras provas do mundo contemporâneo”.
O que é preciso é que não se abandone um modernismo das possibilidades da história em quadrinhos aos maus exploradores desse e de outros modernismos. E no Brasil, felizmente, começa a haver uma boa, não sei se diga, literatura, desse gênero.
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Em: Pessoas, coisas e animais, de Gilberto Freyre, — ensaios e artigos reunidos e apresentados por Edson Nery da Fonseca, São Paulo, edição especial MPM Casablanca-Propaganda: 1979.
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Mulher com turbante, 1930
Oscar Pereira da Silva (Brasil,1867-1939)
óleo sobre tela, 41 x 33 cm
PESP — Pinacoteca do Estado de São Paulo
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Este é um romance leve, encantador, que retrata um Brasil de surpreendente inocência. Prima Belinha foi o primeiro romance de Ribeiro Couto, escrito “quase todo em 1926” — como o autor explica na apresentação — mas só publicado em 1940, depois que o autor já havia se tornado membro da Academia Brasileira de Letras.
O romance segue a vida de um jovem mineiro que, praticamente deixado à porta do altar por sua prima de quem se considerava noivo desde sempre, vem para o Rio de Janeiro. Na capital do país ele encontra uma situação política diferente daquela a que estava acostumado em S. Antonio do Mutum, onde seu pai era chefe político. Sem rumo, sem ambição definida, José Viegas, que não tinha aptidão para coisa alguma além do bem e quieto viver no interior do país, não consegue, como esperava um bom emprego. A influência política de seu pai, forte no interior, não tem a importância que ele ou o pai imaginavam. Na falta de melhor oportunidade, Viegas permanece na capital.
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A simplicidade do movimento político retratado reflete a inocência de José Viegas. Recém-chegado à capital, o jovem, por vingança de amor, se envolve numa trama para derrubar o governo que desde o início o leitor desconfia não ter respaldo. Fadada ao insucesso, a aventura do mineiro em terras cariocas lembra o despreparo político do cidadão comum, e a inocência da sociedade brasileira da década de 1920.
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Ribeiro Couto–
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A deliciosa prosa do autor com um estilo leve, mas preciso, esconde habilmente qualquer crítica social. Isso ele deixa ao leitor, que nos dias de hoje, acha difícil acreditar em um mundo tão inocente quanto o representado, quer em Minas quer no Rio de Janeiro. Vamos e venhamos, fica difícil, nos dias de hoje, imaginar, um grupo de revolucionários encontrando-se nos fundos de uma padaria do subúrbio, aonde chegam através de prosaicas viagens de bonde. Talvez, mesmo em 1926, quando o romance foi escrito, essa realidade parecesse propositadamente inocente. Mas com os olhos da segunda década do século XXI ela parece imensamente anacrônica. Seria surpreendente então dizer que Prima Belinha é uma boa leitura? Não, não é surpresa. A prosa de Ribeiro Couto encanta.
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Você encontra neste blog um poema de Ribeiro Couto: INSÔNIA