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Mulher lendo, s/d
Brenda Ginsberg (EUA, contemporânea)
acrílica sobre tela, 39 x 48 cm
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Mulher lendo, s/d
Brenda Ginsberg (EUA, contemporânea)
acrílica sobre tela, 39 x 48 cm
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Decalcomania, 1966
René Magritte (Bélgica, )
óleo sobre tela
Coleção Particular, Dr. Noémi Perelman Mattis e Dr. Daniel C. Mattis
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Pedroso Rodrigues
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Que sombra vacilante e receosa,
De pedra em pedra, ao longo do caminho,
Vem seguindo os meus passos de mansinho,
E para, quando eu paro, cautelosa?
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Vê-me partir da terra e corre, ansiosa,
Morre e renasce, à luz do luar de arminho;
Sobre as ondas do mar, como um golfinho,
Corta do meu navio a proa airosa.
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Vai onde eu vou, onde eu existo existe;
Afasta-se sutil se a luz da esperança
Afaga o meu olhar; se me vê triste
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Vem logo a mim guardar-me noite e dia…
Sombra fiel, quem és, que não te cansa
Ser a sombra da luz que me alumia?
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Em: Poemas em sonetos, Pedroso Rodrigues, Rio de Janeiro, Editora do autor: 1933.
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Pedroso Rodrigues (Portugal? — Brasil?)
Obras:
Auto Pastoril, teatro, 1903
Bodas de Lia, teatro, 1906
A Cilada, teatro, 1912
Poemas em Sonetos, poesia, 1933
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Boiadeiro, s/d
Zélio Andrezzo (Brasil, 1948)
Óleo sobre tela
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Ariosto Espinheira
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Nos campos de criação de nossa terra vivem homens simples e bons, que cuidam de nossos rebanhos. São os campeiros e os vaqueiros, que moram em cabanas de madeira ou de barro, cobertas de palmas de coqueiros, ou de sapé.
De perneiras, calças largas, guarda-peito, gibão (espécie de casaco curto) e chapéu de couro curtido; cinto de couro donde pende a faca comprida; uma longa vara com ponta de ferro; montados em cavalos pequenos e fortes; pernas descansadas nas pontas dos pés, presos aos estribos de ferro batido; guampa (chifre trabalhado a canivete, preso por uma tira de couro, que serve de copo) e laço, pendurados na sela, os campeiros e os vaqueiros passam os dias, e às vezes as noites, vigiando os animais que pastam.
Se algum animal foge ou se a boiada debanda, os vaqueiros correm velozes, sem ver os perigos, vencendo todos os obstáculos, até cercar e reunir todos os animais.
Viajam, às vezes, dias e dias, conduzindo o gado para os matadouros, onde é morto para fornecer carne e outros produtos às cidades.
Nas horas de descanso, os vaqueiros tocam a viola e a flauta, cantando e fazendo desafios. São homens destemidos, que vivem sem o conforto das cidades, debaixo de sol escaldante, com poucos recursos, trabalhando pela nossa terra.
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Em: Criança Brasileira, admissão e 5ª série, Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Editora Agir: 1949.
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Tyler e o pai, hora da leitura, 1990
Stephen Arthur Gjertson (EUA, 1949)
óleo sobre tela
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Fortune Magazine
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Recordo o velho sobrado…
meus pais… a infância inocente…
e as essências do passado
vão perfumando o presente!…
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(Arlindo Tadeu Hagen)
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Soldadinhos
Clóvis Graciano (Brasil, 1907-1988)
Gravura: serigrafia, 70 x 50 cm
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Afrânio Peixoto
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O que nos cumpre é preparar, hoje, o Brasil de amanhã. Educar o brasileiro de agora para lhe dar consciência de si e, portanto, dar a todos uma consciência nacional. Mostrar-lhe suas origens de espírito e civilização para que as preze e as saiba honrar; as suas origens mesológicas e etnográficas para que as saiba conhecer e aperfeiçoar. Contar-lhe a sua história, para que do passado algum bem possa colher e aplicar, com proveito, no presente e, por prevenção, no futuro. Moderar-lhes a ênfase, desiludir-lhes as utopias, corrigir-lhes o desdém das realidades práticas, para que não sejam discursadores vãos, poetas e escrevinhadores visionários, parasitas das classes improdutivas que vivem do orçamento e tornam difícil a vida dos que trabalham. Adquirir a soma de conhecimento próprio e conhecimento dos outros que nos permita preparar o nosso destino e não vivermos ao Deus dará, a cada dia o seu cuidado, como acontece até agora, à nossa incapacidade de prever: o Brasil é, por isso, uma imensa carta, sem endereço: chegará assim, se chegar, aonde não deve querer.
As democracias não se compreendem sem a educação do povo, que para exercer o seu direito, precisa conhecer-se e aos seus deveres. Só assim saberá escolher um governo idôneo, que lhe prepare o destino adequado e sobre o qual possa sempre exercer uma influência salutar. Os povos ignorantes e, por isso, imprevidentes, abdicam de si nos outros e votam-se à servidão e ao desaparecimento.
Um Brasil próspero e eterno, que honre a cultura greco-latina, as tradições lusitanas, as sua própria história, das quais deve ter legítimo orgulho, que propague e cultive a língua portuguesa, da qual é o depositário, e já hoje o maior responsável, deve ser, para começar um povo instruído e educado. Só há um caminho para a conquista da natureza, dos homens e de si mesmo: saber. Não há outro meio de o conseguir: querer.
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Em: Criança Brasileira, admissão e 5ª série, Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Editora Agir: 1949.
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Impressionante como mais de sessenta anos depois da publicação desse texto ainda estamos a discutir a mesma coisa sem que o avanço na educação pudesse ter sido sentido mais profundamente. Em 60 anos poderíamos e deveríamos ter feito muito mais do que foi feito.
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Qual é a chance, 2008
Trish Biddle (EUA, contemporânea)
gravura
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Trish Biddle é uma artista nascida nos Estados Unidos. Reside e trabalha no seu país de origem. Mais informações no site da artista.
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Leitora na praia, ilustração de Giselle Potter (EUA). www.gisellepotter.com
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Victor Hugo
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Ilustração, autoria desconhecida.–
O dia em que eu ficar homem,
Como o Papai quero ser:
Trabalhador e honesto,
Cumpridor do meu dever.
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(Walter Nieble de Freitas)
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Catedral de São Paulo, vista da Ponte de Waterloo, s/d
A. R. Quinton (Inglaterra, 1853-1934)
Gravura
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Se eu ganhasse na loteria, compraria uma quitinete em Londres. Fora o Rio de Janeiro é a minha cidade favorita. Este lugar na minha preferência não foi atingido por uma idealização de adolescente. Na minha primeira maturidade, lá pelos meus vinte anos, eu teria escolhido Paris. Mas mudei. Prazer e trabalho já me levaram muitas vezes a Londres e ao interior da Inglaterra. Este é um dos poucos países que já visitei absolutamente sozinha, mais de uma vez. E não foi para ficar no conforto de um hotel, participando de alguma conferência para depois voltar ao aeroporto e retornar ao aconchego de casa. Não. Já rodei estrada no país da Rainha Elizabeth II. E vim a realmente gostar do interior da Inglaterra e sobretudo de Londres, talvez a mais internacional de todas as cidades europeias que conheço. Hoje, não chego a ser uma anglófila, mas admiro muito da cultura inglesa, de sua literatura ao seu sistema judicial. Foi pensando no final das Olimpíadas de 2012, quando os holofotes se apagarão sobre essa cidade, que voltei a ler Ponte-Rio Londres, de Elsie Lessa, e passo para vocês aqui, hoje, essa homenagem. Elsie Lessa também amou essa cidade. Talvez sua descrição pareça antiga, afinal é dos anos 80 do século passado, mas o que mudou não é suficientemente relevante para que não tenhamos uma boa visão do que é viver na capital inglesa.
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“—Está na moda, a começar pelos próprios ingleses, falar mal dela, desta cidade maternal e poderosa que, ao envelhecer, é meio abandonada pelos filhos o que, afinal, acontece um pouco a todas as mães. E ao ser abandonada, ainda acha jeito de melhorar por isso, fica mais tranquila e digna, menos rumorosa e poluída. Dizem que está suja e desleixada, vai ver que está, para quem anda pelas ruas sujas, decerto as há. Suja comparada com que, ainda me pergunto. Pois o que mais conheço dela são os seus parques e praças de árvores centenárias, em que daqui a pouco vai começar a mansa e lenta canção do cair das folhas. São os mais belos e bem tratados parques do mundo e, decerto, quem toma conta deles são gnomos e fadas, pois raramente se vê alguém podando a grama de veludo verde ou varrendo as aleias, fora o vento e as pombas.
Sim, Londres hoje é mais uma cidade de gente que não nasceu nela, como eu, e aqui veio para morar e estudar, trabalhar ou usufruir, turistas à procura do teatro e da televisão melhores do mundo, dessa riqueza parada à nossa espera de museus e galerias de arte, conferências e concertos.
Para quem mora, num dia-a-dia que nos engole, com as diferentes tarefas que é impossível deixar de fazer, bom mesmo é saber que ela está ali, prenhe de todas as possibilidades, exposições se renovando (os Picassos de Picasso, no momento, estão com filas à porta, como em Paris de onde veio). A cinema quase não vou, se tenho um leque farto de filme à escolha, só de girar o botão da televisão.
Minha Londres é vitoriana, até nos móveis que procuro, essa dos velhos casarões de alto pé-direito, com um palmo de jardim e quintal atrás. Meus bairros, desde que aqui cheguei, são South Kensington e Chelsea, dia que vou a Bond Street e me dou ao luxo turístico de um chá no Ritz me sinto desembarcada, viandante e passageira aqui, com todo o “excitement” de quem viaja. Onde estão seus quase oito milhões de habitantes, que não me perturbam com a sua presença, afinal? Em quatro anos, nunca vi um engarrafamento de tráfego digno desse nome, dia em que ouço buzina é um acontecimento, esbarrão na rua nunca levei. É uma gente que fala baixo e não gosta de ouvir falar alto, numa terra em que barulho é palavrão. É escapar entre as nuvens um raio de sol, correm todos para os parques, sem fazer barulho. Espicham-se na grama, fazem piqueniques, aproveitam o que pensam que é verão.
Às vezes, de puro masoquismo, fico pensando nas saudades que terei, quando não estiver mais aqui e me for roubado este simples cotidiano, sem acontecimentos, de sacola na mão para as compras, numa rotina meio estafante, em que só saber que esta cidade está em roda me faz bem. Com todas as suas possibilidades, de que não irei desfrutar, mas que me fazem mais rica, como cidadã de passagem”.
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Em: Ponte Rio-Londres, Elsie Lessa, Rio de Janeiro, Record: 1984