Saudades do passado – Praça XV, 1987
Ney Tecídio (Brasil, 1929-1988)
óleo sobre eucatex, 38 x 46 cm
Retrato de Graciliano Ramos, 1937
Cândido Portinari (Brasil, 1903-1962)
desenho, carvão sobre papel, 33 x 28 cm
Mlle De Lespinasse
Julie de Lespinasse
Mlle de Lespinasse
(1732-1778)
Peixes, 1961
Newton Rezende (Brasil, 1912-1994)
óleo sobre madeira, 30 x 35 cm
Natureza morta, 1960
Emiliano Di Cavalcanti (Brasil, 1897- 1976)
óleo sobre tela, 48 x 64 cm
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Naturezas mortas com peixes, crustáceos, frutos do mar não são comuns na arte brasileira do século XX. Nem são comuns, tampouco, telas em que apareçam animais de caça tais como perdizes, coelhos, ou qualquer outro animal que possa fazer parte da próxima ceia. Esses já foram mais comuns no final do século XIX e início do século XX.
Pintores brasileiros que sistematicamente apresentam frutos do mar e peixes em suas naturezas mortas são poucos e parecem ser, de fato, aqueles que moram ou passaram algum tempo em cidades praianas.
Grande parte dos pintores franceses do século XIX, até mesmo os impressionistas conhecidos pela leveza de seus temas pintaram naturezas mortas com animais. E é claro nos séculos anteriores, principalmente no século XVII no norte da Europa o tema da comida, da caça, da pesca, das frutas e pães era orgulhosamente mostrado nas casas de famílias de posse. A abundância da comida nos dias de hoje, deve ser em parte responsável pelo declínio de temas como caça e pesca nas naturezas mortas. Pois até o século XIX, aqui no Brasil também víamos telas representando a possibilidade de uma bela refeição. Há além disso as sensibilidades aguçadas dos dias de hoje. Como poucos passam fome e certamente quem compra uma tela não passa fome, podem dar-se ao luxo de serem incapazes de imaginar um animal morto que será devorada em algumas horas depois de cozido, como um tema próprio para o embelezamento de uma sala de jantar. Tradição que vem, ao que se saiba no mundo ocidental, desde os afrescos romanos, e quem sabe na Grécia antiga. Os tempos mudam, os hábitos mudam. E vemos através da arte nossa evolução na Terra.
Por sobre as ondas serenas,
a gaivota, em seu compasso,
é uma tesoura de penas,
cortando o pano do espaço.
(Onildo Campos)
Igreja Nossa Senhora do Carmo, Ouro Preto, 2006
Yasuichi Kojima (Japão, 1934, no Brasil a partir de 1953)
óleo sobre tela,100 x 80 cm
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Há duas cidades que batem o recorde de inspiração para arte brasileira: Ouro Preto e Paraty. Tenho centenas de reproduções dos mais diversos artistas dessas duas joias da arquitetura barroca do país. Torna-se muito difícil escolher alguma tela representativa e muitas vezes desisto postando alguma outra cidade.
Há, no entanto, uma curiosidade: Paraty só aparece em telas brasileiras a partir da década de 1970, quando a estrada Rio-Santos, construída e inaugurada. em 1974, durante o governo de Ernesto Geisel, foi aberta ao público. Até então, acesso à essa joia arquitetônica, fundada em 1665, havia sido difícil restringindo o turismo e a visita de pintores.
Um ourives em sua loja, 1449
Petrus Christus (Flandres, ? – 1475)
óleo sobre placa de carvalho, 98 x 85 cm
Sou neta, por lado de pai, de joalheiro. Meu avô, que não cheguei a conhecer, tinha uma joalheria na rua dos Ourives, centro do Rio de Janeiro. A joalheria fechou; foi desapropriada para a abertura da Avenida Presidente Vargas. Pouco tempo depois meu avô morreu. Papai dizia que foi por desgosto. Ele perdera a razão de ser. Havia comprado a ourivesaria em 1910, ano em que se casou. Por algum tempo, depois que faleceu, não sei quanto tempo, meu pai e seu irmão (únicos filhos do casal) administraram o estoque da joalheria, que eles chamavam de loja. Era uma joalheria à moda antiga, onde se comprava também esculturas de bronze e marfim, grandes espelhos franceses bisotados, relógios de bronze, muitos itens Art Nouveau, alguns Art Déco, ou de períodos anteriores, objetos decorativos de luxo.
Algumas dessas peças vieram parar nas nossas casas. Cresci com elas, aqui e ali, decorando um canto da sala. em cima de um aparador: uma ou outra escultura em bronze, um ou outro relógio fora do comum; lembro-me de um relógio de bolso para cegos, por exemplo. Papai, o eterno professor, sempre nos ensinava: a diferença entre bronze e petit-bronze, os nomes das pedras semi preciosas e suas colorações, as marcas na prata, o que é banho de prata; o que era cristal da Boêmia, e assim por diante. A gente ouvia com meia atenção como qualquer criança ou adolescente, mas alguma coisa sempre fica. Acredito que esta foi uma bela semente para minha preferência por obras de arte, por perceber, nos dias de hoje, instintivamente objetos de qualidade. E há, também, a influência de minha mãe que, apesar de professora de línguas neo latinas, se dedicava à pintura. Seu sonho tinha sido ser pintora, mas o pai não achou boa ideia. Mais tarde, chegou a fazer curso de Belas Artes no Parque Lage na década de 1970. Eu, no entanto, sou uma negação para pintura ou desenho.
Na Universidade de Maryland, para me formar em história da arte, fui obrigada a fazer dois anos de desenho e pintura, o objetivo era sabermos o processo das diversas facetas da arte. No último semestre, o projeto na cadeira de desenho foi: 12 ilustrações de um livro de nossa escolha. Escolhi Cem anos de solidão de Gabriel Garcia Marques que, àquela altura, eu já lera três vezes: em português (aqui no Brasil), espanhol e inglês nos EUA. Quando recebi a nota final do curso, meu professor de desenho, chamou-me de lado e disse: Ladyce, você está se formando em História da Arte, não é mesmo?, concordei; ele, então, continuou: ótimo, você ganha, então, a nota máxima, pelo esforço. Mas nunca espere ganhar a vida como artista plástica. Prometi a ele não entrar naquele engodo e ficamos os dois satisfeitos. Mas essa inabilidade nunca me impediu de apreciar e me tornar conhecedora da arte. O interesse por objetos belos, por qualidade, não esmoreceu e eventualmente abri minha própria galeria-antiquário, enquanto morava nos EUA, especializado em mobiliário de fazenda, americano, do século XVIII e XIX e arte contemporânea, uma combinação esdrúxula que teve sucesso.
Boa memória visual é um dos requisitos para o historiador da arte. É uma habilidade desenvolvida. Não precisa ser nata, como bem demonstra Malcolm Gladwell no livro Blink: depois de exposto a dez mil horas a um assunto, você sabe instintivamente, da qualidade daquilo que analisa, sem imediatamente saber a razão. Sobre objetos de arte, quer queira ou não, você desenvolve maneiras de reconhecer qualidade, temas ou a mão de um artista. Tudo vai depender dos seus interesses e dedicação.
Levei dois dias para achar, na internet, a joia feita por Paloma Picasso que se assemelha ao desenho da fita preta no vestido da atual primeira dama dos Estados Unidos. Não sou especialista em moda. Mas achei o vestido belíssimo. Ainda que algo na memória me dissesse, já vi esse design em algo de moda. Paulatinamente fui aprimorando a memória e finalmente cheguei à joia de Paloma Picasso.
Um dos primeiros cursos particulares que dei, aqui no Rio de Janeiro, depois de voltar dos EUA, quando meu marido se aposentou, foi para dois casais brasileiros, que iam à Nova York, pela segunda vez e queriam se certificar do que era imprescindível ver naquela cidade: que museus visitar, que obras arquitetônicas não deixar de ver. Lá pelas tantas, as duas senhoras do grupo me perguntaram sobre a joalheria Tiffany & Co. Tinham memórias românticas do encantador filme com Audrey Hepburn, Breafast at Tiffany´s de 1961, baseado na novela de mesmo nome, publicada em 1958 de Truman Capote. No Brasil, o filme foi titulado Bonequinha de luxo.
Um dos aspectos mais interessantes da história da arte é que sempre se acaba falando da história cultural de um país ou de uma época. Preparei aula extra para elas, com detalhes sobre o histórico da companhia desde sua fundação em 1837, mostrando joias dos catálogos, do passado ao presente. Entre elas estava o broche retratado acima, conhecido como Scribble [Rabisco], de 1983, desenhado por Paloma Picasso, filha do pintor Pablo Picasso, nascida na França em 1949. O broche, manufaturado pela Tiffany, tornou-se emblemático dos anos 80 do século passado e da própria joalheria. Em ouro, 18 quilates, podia ser vendido separadamente ou como parte de conjunto com pendente e anel.
Se o costureiro Hervé Pierre [Hervé Pierre Braillard] designer francês, naturalizado americano, se inspirou na joia de Paloma Picasso, não tenho ideia. É possível. De acordo com blogs e escritores da moda, atuais, os anos 80 do século passado andam servindo de inspiração para estilistas. Visitando o Instagram de sua companhia, encontrei o sketch do vestido de Melania Trump assim como o rabisco de seu próprio punho que o inspirou.
Se for o caso, as linhas sinuosas do design do vestido de Melania Trump, já estavam com ele há algum tempo. Pelo menos uma variante do mesmo padrão apareceu no vestido de noite que ele projetou para o Liberty Ball, parte das festas de inauguração do governo Trump em 2017, como podemos ver na fotografia abaixo.
Como o título dessa crônica revela, uma coisa puxa a outra. Memórias vêm e vão, muitas vezes inconscientes da origem de nossas ideias criativas. Elas aparecem aqui e ali, pontuando nossa vida, ressurgindo quando menos esperamos, às vezes vindas dos mais inacreditáveis recantos para nos lembrar daquilo que passamos e fomos capazes de reter ao longo dos anos.
©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2025
““O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que se não sente bem onde está, que tem saudades… sei lá de quê! ”
Florbela Espanca
Em: Cartas a Guido Barteli