Antônio Maia (Brasil, 1928 – 2008)
óleo sobre tela, 78 x 59 cm
[Retrato de Moema Soares aos seis anos]
Alice Soares (Brasil, 1917-2005)
Óleo sobre tela, 103 x 94 cm
Tomás Santa Rosa (Brasil, 1909-1956)
óleo sobre madeira, 33 x 41 cm
Antônio Paim Vieira (Brasil, 1895-1988)
Pintura em azulejos
John Graz (Suíça/Brasil, 1891-1980)
óleo sobre tela, 34 x 26 cm
Roberto Souza (Brasil, 1943)
acrílica sobre tela, 87 x 70 cm
Artur Timótheo da Costa (Brasil, 1882-1923)
óleo sobre tela, 47 x 37 cm
Aurélio d’Alincourt (Brasil, 1919-1990)
óleo sobre tela, 24 x 19 cm
Joaquim Tenreiro (Portugal/Brasil,1906 – 1992)
óleo s madeira, 35 cm x 46 cm
Ricardo Dias Ramos (Brasil, 1952)
acrílica sobre tela, 120 x 100 cm
Rui de Paula (Brasil, 1961)
óleo sobre tela, 70 x 50 cm
Nathalia com palhacinhos, 1999
Marysia Portinari (Brasil, 1937)
óleo sobre tela, 100 x 80 cm
Djanira da Motta e Silva (Brasil, 1915-1979)
óleo sobre tela, 100 x 81 cm
Homenagem ao ano internacional da criança, 1977
Gabriela Dantes (Uruguai/Brasil, 1914)
óleo sobre tela, 43 x 53 cm
Georgina de Albuquerque (Brasil, 1885-1962)
óleo sobre eucatex, 32 x 27 cm
Tomás Santa Rosa ( Brasil, 1909-1956)
óleo sobre madeira, 33 x 41 cm
Gino Bruno (Itália/Brasil, 1899-1977)
óleo sobre tela, 60 x 80 cm
João Machado (Brasil, contemporâneo)
serigrafia, 50 x 70 cm
Márcio Pita (Brasil, 1958)
óleo sobre tela, 50 x 70 cm
Cláudio Dantas (Brasil, 1959)
óleo sobre tela, 90 x 120 cm
Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)
óleo sobre tela, 100 x 130 cm
Cândido Portinari (Brasil, 1903-1962)
óleo sobre tela, 60 x 72 cm
Waldomiro Sant’Anna (Brasil, 1952)
óleo sobre placa, 40 x 50 cm
Darcy Penteado (Brasil, 1926-1987)
óleo sobre tela, 50 x 40 cm
Yom Kippur, o dia do perdão, 1919
Jacob Kramer (GB, 1892-1962)
óleo sobre tela
Leeds Art Gallery , Grã Bretanha
Aquarela
“O chefe da aldeia, homem de seus cinquenta anos, sentado no chão bem no meio do cômodo, perto do carvão que ardia num buraco escavado na terra, revistava meu violino. Na bagagem dos dois “rapazes da cidade” — pois assim eu e Luo fomos considerados — aquele era o único objeto do qual emanava um sabor estranho, um cheiro de civilização capaz de provocar suspeita nos aldeões.
Um camponês aproximou um candeeiro para facilitar a identificação do objeto. O chefe suspendeu verticalmente o violino e sondou o orifício negro da caixa, como um aduaneiro minucioso à procura de drogas. Observei que em seu olho esquerdo havia três gotas de sangue, uma grande e duas pequenas, todas do mesmo rubi.
Levantando o violino à altura dos olhos, sacudiu-o, como se esperasse que alguma coisa caísse do fundo negro da caixa sonora. Tive a impressão de que as cordas iam se quebrar com o impacto e as cravelhas partir-se em pedaços.
Quase toda a aldeia estava presente, debaixo daquela casa sobre pilotis, perdida no alto da montanha. Homens, mulheres e crianças fervilhavam lá dentro, agarrando-se às janelas, acotovelando-se diante da porta. Já que não havia nada no instrumento, o chefe enfiou o nariz no buraco para sentir-lhe o cheiro. Os grossos e longos pelos sujos que saíam de suas narinas puseram-se a vibrar.
Ainda não encontrara nenhum indício.
Escorregou os dedos calosos sobre uma ou outra corda… Aquele som desconhecido infundiu tal respeito que a multidão logo se petrificou.
— É um brinquedo — disse o chefe solenemente.
Esse veredicto deixou-nos, a mim e a Luo, sem fala. Trocamos um olhar furtivo, mas inquieto. Queríamos saber como tudo aquilo iria acabar.
Um camponês o “brinquedo” das mãos do chefe, socou as costas da caixa, em seguida entregou-o a outro homem. Durante alguns minutos meu violino passou de mão em mão. Ninguém mais se interessou por nós, rapazes da cidade, frágeis, magros, cansados e ridículos. Tínhamos caminhado o dia todo na montanha, e nossas roupas, rostos e cabelos estavam cobertos de lama. Parecíamos dois soldadinhos reacionários de filme de propaganda, capturados por um bando de camponeses comunistas, depois de uma batalha perdida.
— É um brinquedo idiota — disse uma mulher de voz rouca.
— Não — corrigiu o chefe –, é um brinquedo burguês, da cidade.
Gelei apesar do fogo aceso no meio da sala. Ouvi o chefe acrescentar:
— É preciso queimá-lo!
A ordem provocou de imediato forte reação no grupo. Todos falavam, gritavam, empurravam-se. Queriam agarrar o “brinquedo” só pelo prazer de atirá-lo ao fogo com as próprias mãos.
— Chefe, isso é um instrumento musical — disse Luo com desembaraço. — Meu amigo é um bom músico, sem brincadeira.
O chefe pegou de novo o violino e, mais uma vez, o revistou para em seguida devolvê-lo a mim:
— Lamento, chefe — disse constrangido. — Não toco muito bem.
De repente, percebi que Luo me fazia um sinal. Espantado, peguei o violino e comecei a afiná-lo.
— Vocês vão ouvir uma sonata de Mozart, chefe — anunciou Luo tão tranquilo quanto estivera antes.
Fiquei aturdido. Ele estava doido. Há anos todas as obras de Mozart, assim como a de qualquer outro autor ocidental, estavam proibidas em todo o país. Meus pés úmidos, dentro dos calçados encharcados, estavam gélidos. Mas uma vez o frio me invadiu.
— O que é uma sonata — perguntou o chefe, desconfiado.
— Não sei — respondi gaguejando.
— Um troço ocidental.
— Uma canção?
— Mais ou menos — respondi.
Imediatamente a vigilância de bom comunista reacendeu-se no olhar do chefe, e sua voz se fez hostil.
— Como é que se chama essa canção?
— Parece uma canção mas é uma sonata.
— Estou perguntando o nome dela! — gritou, olhando-me diretamente nos olhos.
E, de novo, as três gotas de sangue no olho esquerdo me deram medo.
— Mozart … — hesitei.
— Mozart o quê?
— Mozart pensa no presidente Mao — completou Luo em meu lugar.
Que audácia! Mas deu resultado. Como se tivesse ouvido algo miraculoso, o rosto ameaçador do chefe, abrandou-se.
Os olhos se comprimiram num sorriso de gozo.
— Mozart ainda pensa no presidente Mao — repetiu.
— Sim, ainda, confirmou Luo.
Quando tensionei as crinas do arco, a sala explodiu em calorosos aplausos que me amedrontaram. Meus dedos entorpecidos começaram a percorrer as cordas, e as frases de Mozart retornaram como amigos fieis. Os rostos dos camponeses até então fechados, foram-se pouco a pouco enternecendo sob a límpida alegria de Mozart, tal como um chão ressecado se umedece com a chuva. Depois sob a luz vacilante do lampião, foram perdendo o contorno.
Toquei durante algum tempo, enquanto Luo acendia um cigarro e fumava como um homem.
Assim, foi nosso primeiro dia de reeducação. Luo tinha dezoito anos e eu, dezessete.”
Em: Balzac e a costureirinha chinesa, Dai Sijie, Rio de Janeiro, Objetiva: 2000, páginas 5-8. Tradução de Vera Lucia dos Reis.
Christian Arnold (Alemanha, 1889-1960)
Aquarela
Niceto Alcalà Zamora
Niceto Alcalà Zamora (1877-1949)
Crisântemos lilás nesta semana de outubro.DA MINHA MESA DE TRABALHO
A obra é que importa. É o quadro, o livro, o poema. É a partitura, a escultura. Muralha da China, Torre Eiffel, Cristo Redentor. Domo de Santa Maria del Fiore. É a cirurgia de sucesso, o remédio que cura, o para-raios. É a lei de Newton, a máquina a vapor. É isso que fica. Se os feitos humanos marcaram a nossa presença, nos deram identidade, facilitaram a vida, prolongaram a vida isso é o que importa. Não interessa saber se Donatello sofria de asma ou se preferia o verão ao inverno. Não é de qualquer importância se Magritte era ou não gago, se Machado preferia as louras. O que restou, aquilo que significa algo para alguém, emocionalmente ou fisicamente, é a obra. Podemos ter curiosidade sobre como certas escolhas foram feitas e a razão que levou cada um daqueles que contribuíram para a cultura humana a decidir dessa ou daquela maneira. Mas não é necessário.
Por isso devemos respeitar o anonimato daqueles que preferem proteger sua privacidade. A autora Elena Ferrante, que parece ter tido sua identidade revelada, sofreu, a meu ver, nessa semana que passou, uma grande agressão, um desrespeito à vontade pessoal de permanecer anônima. Elena Ferrante todos sabiam ser um cognome. Mas o quê dá direito a alguém de invadir a privacidade de uma pessoa que não está sob suspeita da justiça, que não apresenta um perigo para a sociedade? Quem disse que “o público tem o direito de saber”? Quem estipulou isso? Só porque fez sucesso é obrigada a ter sua vida defenestrada? Os meios usados pelo repórter americano, examinando traços de riqueza de alguém que mantinha o perfil modesto, foram de grande falta de respeito e total insensibilidade. Elena Ferrante não foi nem é um caso único. Há muitos escritores de sucesso que sempre trabalharam com pseudônimos. Abaixo uma pequena lista – em negrito o pseudônimo.
Mark Twain – Samuel E. Clemens; Voltaire — François-Marie Arouet; O’Henry – William Sidney Porter; Lewis Caroll — Charles Lutdwidge Dodgson; Italo Svevo – Aron Hector Schmitz; Mary Westmacott — Agatha Christie; Agatha Christie – Agatha Mary Clarissa Miller; François Mauriac — Jean Bruller; George Eliot — Mary Ann Evans; Alberto Moravia – Alberto Pincherle; Robert Galbraith — J.K. Rowling; Stendhal — Marie-Henri Beyle; Pablo Neruda — Ricardo Eliecer Neftalí Reyes Basoalto; Paul French — Isaac Asimov; Gérard de Nerval — Gérard Labrunie; George Sand — Amantine-Lucile-Aurore Dupin, Georges Orwell — Eric Arthur Blair.
Em outros campos, na política, Lenine — Vladimir Ilitch Oulianov; Trotsky — Lev Davidovitch Bronstein; Stalin — Iossi Vissarionovitch Djougachvili. Nas artes plásticas há um grande número de artistas, conhecidos exclusivamente pelo local onde nasceram, nem por isso suas obras são menos apreciadas: Caravaggio – Micheangelo Merisi; Pollaiuolo – Antonio Benci; Nos quadinhos um dos mais famosos foi Hergé – Georges Remi, criador de Tintin.
Há muitos outros. E nem sempre um pseudônimo esconde o nome de uma pessoa. Às vezes esconde o nome de mais de uma pessoa. Lembro-me do caso do autor de romances água com açúcar que consumi às dezenas no inicio da minha adolescência, publicados na série Biblioteca das Moças, M. Delly. Este nome era o pseudônimo de um irmão e uma irmã, escritores franceses, Frédéric Henri Petitjean de la Rosière e Jeanne Marie Henriette Petitjean de la Rosière.
Na França o pseudônimo [nom de plume, uma referência a escritores, “caneta de pena”] é tão respeitado, que é possível tê-lo citado na própria carteira de identidade.
Sinto-me indignada pela invasão de privacidade sofrida pela pessoa (homem ou mulher, ou ambos) que trabalha sob o cognome Elena Ferrante. Não havia necessidade. O respeito a quem escreve deveria ter sido mantido.
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LIVROS SOBRE A MESA — já lidos, à espera de resenhas: Meu nome é Lucy Barton de Elizabeth Strout; A última palavra de Hanif Kureish e Guerra de Gueixas de Nagai Kafu.
Washington Allston (EUA, 1779-1843)
óleo sobre tela, 77 x 64 cm
Smithsonian Museum of American Art
Ilustração de Avelino Guedes.
Nosso amor de adolescente
teve tanta intensidade,
que nem toda a vida à frente
vai matar esta saudade!
(Walter Leme)