Natureza morta com uvas e abacaxi, 1999
Clóvis Pescio (Brasil, 1951)
óleo sobre tela, 59 x 70 cm
Natureza morta com uvas e abacaxi, 1999
Clóvis Pescio (Brasil, 1951)
óleo sobre tela, 59 x 70 cm
Almofada vermelha
Belinda del pesco (EUA, contemporânea)
aquarela, 20 x 25 cm
Não se trata de ficção. Este é um livro de ensaios sobre escrita, literatura, escolhas e preferências do autor e ainda outros temas surgidos nas entrevistas que Haruki Murakami deu. Não se trata tampouco de um guia para o escritor neófito, nem uma cartilha de como se tornar um escritor de sucesso. Invés disso temos um belo preenchimento do retrato de Murakami como pessoa, intelectual e pensador.

Mesmo assim é um livro que encanta, principalmente àqueles como eu, que apreciam os livros do autor. Saímos dessa leitura com a sensação de quem é Murakami, um cara sóbrio, que tem dúvidas, muitas delas sobre suas criações. Conhecemos o início de sua carreira como escritor e suas ideias sobre a educação nas escolas japonesas. É um livro leve, de fácil leitura, repleto de vinhetas ou histórias ilustrando suas ideias. Nesta obra passeamos pelas memórias do autor, e vislumbramos os processos de sua escrita.
Haruki Murakami
Tudo me pareceu de interesse: seu desprezo pelos prêmios literários; o hábito de sair do Japão para um lugar onde não é conhecido (por exemplo, Paris) e viver lá pelos 6, 8, 10 meses necessários para escrever o romance que tem na cabeça e que surgiu no Japão (ele gosta deste distanciamento físico); o descaso que críticos japoneses têm por sua obra, por acreditarem que é repleta de perspectivas estrangeiras (americanas na maioria); o cuidado detalhado, minucioso, vagaroso necessário para completar uma obra e sobretudo a seriedade com que trata de sua vocação.
Leitura encantadora. Difere de todos os outros Murakamis que li. Com ele começamos a perceber o homem que cria o mundo paralelo em que nos deliciamos. Vale a pena! Muito bom.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.
Leitura
Elena Petrovna Samokish-Sudkovskaya (Rússia, 1863-1924)
Aquarela
Aluísio de Azevedo
Natureza morta
João Simeoni (Brasil, 1907-1969)
óleo sobre tela, 32 x 47 cm
Vaso de flores, 1955
Alberto da Veiga Guignard (Brasil, 1896-1962)
óleo sobre madeira, 75 x 61 cm
Menino lendo
Lúcia Helena Redig de Campos (Brasil, 1945)
pincel seco sobre papel, 50 x 70 cm
José de Alencar
José de Alencar (1829-1877)
Nas Vésperas
Charles Edward Hallé (França, 1846 -1914)
óleo sobre tela, 61 x 46 cm
Romãs e jarro com flores sobre a mesa, 2016
Isabel Magalhães (Brasil, 1961)
óleo sobre tela, 38 x 55 cm
Havana, Cuba, pintura de Anette Power.
De Graham Greene eu só havia lido Viagens com minha tia, [Travels with my aunt], que li em inglês nos primeiros tempos de moradia nos Estados Unidos há anos. Boas recordações associadas a essa leitura — personagens fora do comum, como tia Augusta com uma vida não muito límpida — seu sobrinho, o monótono gerente bancário, aposentado, Henry Pulling, e sobretudo as aventuras europeias fora do esperado, não foram suficientes, no entanto, para que eu retornasse a Graham Greene até agora. Mas meu grupo de leitura votou neste clássico para discussão mensal. E foi, portanto, com prazer que abri as primeiras páginas de Nosso Homem em Havana. No início a narrativa pareceu de difícil engajamento. Passei para o original em inglês considerando que talvez fosse a tradução, neste caso de Brenno Silveira. Mas o início do original em inglês foi lido com tão pouco entusiasmo quanto seu correspondente em português. Até que a história, pequenina, não chegando mesmo a 280 páginas, toma um embalo, lá por um terço e daí por diante fluiu sem obstáculos, tornando-se uma das mais interessantes narrativas que li nos últimos tempos. E devo acrescentar, escrita com grande humor, uma sátira muito bem feita que chega, em ocasiões, a trazer o riso solto ao leitor. Realmente muito engraçado.

Publicado em 1958, o livro tem trama elaborada. Passa-se em Cuba, ainda no governo de Batista, mas já com rebeldes agindo nas montanhas, precursores da revolução cubana liderada por Fidel Castro e seus associados. Interessado no que pode vir a acontecer, o serviço secreto britânico, por falta de melhor solução, contata James Wormold para mandar notícias sobre o que se passava na ilha. Wormold, cidadão inglês radicado em Cuba, vendedor de aspiradores de pó, figura apagada e insossa que nenhum de nós pode imaginar como personagem principal de uma aventura de espionagem, precisava reforçar o conteúdo de seu bolso para dar à filha, manipuladora sem limites, as necessidades de luxo que ela desejava. Aceita o trabalho, desconhecendo como proceder. A necessidade, dizem ser a mãe das invenções. Sabedoria popular que se afirma neste caso. Que mal poderia acontecer, se desta longínqua ilha no Atlântico, mais de 7.000k de Londres, Wormold colorisse a realidade? Nada, ele pensa. Quem vai saber? A situação toma caminhos inimagináveis quando na capital inglesa o serviço secreto leva a sério os relatórios assinados por Wormold.
Graham Greene
Farsa, comédia rasgada são termos comumente associados ao teatro, mas podem descrever a sátira feita por Graham Greene, que baseia seu sucesso — como o melhor do humor inglês — nas pequenas frustrações que seus personagens, verdadeiramente humanos, imperfeitos, ingênuos sofrem, e de como são incapazes de impedir as consequências inevitáveis de suas ações. Paródia, crítica sobre o serviço secreto inglês e métodos da política mundial, do final da década de 1950, não tornam a história datada. Ao contrário, ela é atemporal, clássica no sentido mais largo da palavra, porque é baseada não em circunstâncias de época mas no registro das emoções e do caráter de seus personagens. Sensível, Graham Greene brinca com o que rotulamos importante. E explora com destreza as fraquezas humanas. Sim, é um clássico que pode ser lido e relido inúmeras vezes. Excelente leitura. Leve e curta.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.
Ilustração, Marie Cramer.
Ralph Waldo Emerson