Eu, pintor: Giorgio de Chirico

19 11 2020

Autorretrato, 1935

Giorgio de Chirico (Itália, 1888 — 1978)

óleo sobre tela

Coleção Particular





Branca Bela, alma mineira, amor universal

18 11 2020

Leitura

Joel Oliveira (Brasil, contemporâneo)

óleo sobre tela, 20 x 30 cm

Raramente releio livros que marcaram minha juventude.  Medo de ser desapontada, talvez.  Já não sou a garota de dezesseis anos que se identificou com um personagem. A pessoa em formação tornou-se adulta e continuou lendo com a mesma intensidade da adolescência. Hoje, sou mais exigente.  

Nesta pandemia dei uma grande limpeza nas minhas estantes.  Temos livros demais. Somos dois leitores aqui em casa.  Dois professores, nas humanidades.  Pessoas que leem promiscuamente da história à filosofia, da literatura aos ensaios científicos.  Livros são nosso instrumento de trabalho, hoje, em parte, substituídos por textos eletrônicos, mesmo assim, ainda mantemos muito papel nas nossas paredes.  Nessa reorganização voltei a ver um livro que me marcou na adolescência, que um dia, num passado recente, encontrei numa banca de livros novos e usados do Largo da Carioca no Rio de Janeiro.  Comprei-o imediatamente, trouxe para casa e esqueci que ele existia.   Eu precisava, parece, ter de volta um pedaço da minha adolescência, um troféu do passado.  Surpreendi-me ao ver, que o livro ainda apresentava páginas sem corte.  Era um usado, que nunca foi lido, para perda de quem dele se desfez. Reli-o há sete anos, e agora, precisava decidir se o mandava embora ou o mantinha em casa.  Ficará comigo por mais um tempo.

Branca Bela me foi apresentado por uma amiga.  Como eu, ela adorava ler.  Como eu, ela também vinha de uma família de professores e vivia numa casa rodeada por livros. Tínhamos muito em comum, mas nem sempre gostávamos dos mesmos livros. Lucia era mais atirada, mais curiosa sobre amores e sexo, enquanto eu preferia a escrita mais distante das emoções, autores mais filosóficos, talvez.  Lembro-me do dia em que ela trouxe o exemplar. Levara para a escola e, no ônibus de volta para casa, me entregou o empréstimo. Saltava uns dois quilômetros antes de mim.  Sentada à janela, abri o livro de Geraldo  França de Lima e mergulhei nele de imediato, quase perdendo o caminho de casa.  Anos mais tarde ainda me lembrava de algumas cenas do livro, de alguns personagens como Padre Saulo  e de uma coruja que piava e era ouvida por Branca Bela.

Geraldo França de Lima

Reli em partes primeiro, depois o texto completo, e voltei a me encantar, me enamorar. É o romance de uma paixão duplamente impossível, que se desenrola no interior, certamente numa cidade mineira, como era o autor. Simples e fino.  Retrata o amor entre uma jovem que, portadora de uma doença incurável, espera pacientemente pela resolução final, e de um padre. Não sou uma pessoa religiosa.  Essa não era a pegada em minha família.  Mas a delicadeza dos sentimentos retratados, fez com que o esparso discurso religioso, tivesse a dose perfeita para o esclarecimento das motivações dos personagens presos nesse amor impossível.  Este Romeu e Julieta brasileiro é essencialmente poíesis.  Não é à toa que Geraldo França de Lima foi membro da Academia Brasileira de Letras.  É um grande mestre da arte literária. Seus livros que precedem Branca Bela foram Serras Azuis  e Brejo Alegre.  É claro, que os li, assim como outras de suas obras, posteriores.  Essa geração de autores que publicados nas décadas de meados do século passado, dos anos 40 aos 60 inclusive precisa ser revisitada.  Fica aqui o meu convite para que façamos isso juntos, de vez em quando.





Nossas cidades: Ouro Preto

17 11 2020

Ouro Preto, 1970

Manfredo de Souzanetto (Brasil, 1947)

naquim aquarelado, 15 cm diâmetro





O ovo do coelho, Paulo Leminski

16 11 2020

Ilustração Pauli Ebner.

Ovo do coelho

 

Paulo Leminski

 

Coelho não bota ovo,

quem bota ovo é galinha.

Mas eu conheço um coelho

que é mesmo uma maravilha.

 

Os ovos que ele bota,

você nem imagina.

São ovos de chocolate

ou ovos de baunilha.

 

Por isso, nosso coelho

foi expulso da família.

O pai dele disse: – Meu filho,

isso é coisa de galinha.

 

O coelho respondeu rapidamente:

– Meu pai eu não tenho culpa,

botar ovo é meu destino.

Se não posso botar ovos em casa,

prefiro botar sozinho.

 

E foi assim que o coelho

saiu de casa para a rua,

botando ovo na Páscoa,

no sonho de todo mundo.





Em casa: Dod Procter

15 11 2020

Hora de quietude, 1935

Dod Procter (GB, 1892-1972)

óleo sobre tela, 76 x 63 cm

The New Art Gallery Walsall

 





Flores para um sábado perfeito!

14 11 2020

Vaso com flores

José Maria da Silva Neves (Brasil, 1896 – 1978)

óleo sobre eucatex, 52 x 23 cm





Rio de Janeiro, um parque à beira-mar

13 11 2020

Estação do Rocha, 1946

Casemiro Ramos Filho (Brasil, 1905-1976)

óleo sobre tela,  38  x 55 cm





Meus favoritos: Charles Sprague Pearce

12 11 2020

O retorno do rebanho, 1893

Charles Sprague Pearce (EUA, 1851-1914)

óleo sobre tela

Museu Franco-americano do Castelo de Blérancourt





Hoje é dia de feira: frutas e legumes frescos!

11 11 2020

Natureza morta

Sansão Pereira (Brasil, 1919 – 2014)

óleo sobre tela, 80 X 100 cm





Um amor de Carnaval… Maria Helena Cardoso

10 11 2020

 

 

Haydea Santiago,Carnaval na rua das laranjeiras, OST 80 x 64,1938Carnaval na rua das Laranjeiras, 1938

Haydéa Santiago (Brasil, 1896 – 1980)

óleo sobre tela, 80 x 64 cm

 

“A primeira vez que o vi foi numa batalha de confetes. O dia tinha sido chuvoso. De vez em quando uma bátega d’água caía, prenunciando uma tarde com aguaceiro. A todo instante chegava {a janela para olhar o tempo. Logo naquela tarde em que pretendia estrear meu vestido novo, a chuva queria estragar os meus planos.

De cada vez que sondava o céu com os olhos, mamãe, que no meio de seus afazeres me observava, dizia:

— Não adianta olhar para o céu, hoje não tem batalha alguma. À tarde vamos ter temporal.

Nos entreolhávamos, eu e minha prima e respondia, mal-humorada:

— A senhora tá agourando pra gente não brincar. Bem que no seu tempo gostava de aproveitar.

Lá pela tardinha o tempo melhorou, o céu tingiu-se de uns laivos rosa.

“Graças a Deus”, pensei.

Ao escurecer, saímos. Vestia o famoso vestido novo. DE seda bois-de-rose, saia plissada, gola de pelerina, uma gravata de laço, estampada. A praia se achava repleta. Os passeios cheios de gente que ia e vinha, blocos de toda espécie, que passavam cantando, interrompendo o trânsito. Os carros circulavam vagarosamente, conduzindo foliões de outros bairros, famílias, moças e rapazes que lançavam serpentinas e confetes sobre a multidão que estacionava no passeio. Em frente ao posto 4 se achava o palanque para os membros do concurso de samba. Parou um carro e dele desceram os juízes que iriam julgar qual o melhor do carnaval daquele ano. O povo se comprimia mais ainda naquele ponto, paralisando completamente a circulação. Junto a um banco, eu olhava a multidão que se divertia. A orquestra começou a tocar o Olha, escuta meu bem …, que foi acompanhado pelo vozerio da multidão alegre. As luzes se acenderam, o burburinho era cada vez maior. Milhares de rolos de serpentinas coloridas eram atiradas dos carros, entrelaçando-se por sobre os fios, caindo na calçada em blocos ou não, se espalhavam em toda extensão da avenida, alguns cantando ao som de pequenas orquestras populares. Bandos de mulatas fantasiadas, se requebrando, em blocos ou não, se espalhavam em toda extensão da avenida, alguns cantando ao som de pequenas orquestras populares. Um frio nas pernas e, instintivamente, levei a mão às meias. Olhei em torno e não vi ninguém que me pudesse ter atirado lança-perfume. “Provavelmente, algum esguicho extraviado”, pensei, continuando a olhar os carros que passavam. A banda do palanque atacava agora uma marchinha do meu agrado, muito em voga na época.

Foi quando senti de novo o frio nas pernas. Evidentemente, desta vez era comigo. Procurei com os olhos entre a multidão que se encontrava próximo de mim e não vi ninguém conhecido. Um vozerio acompanhado de palmas fez-se ouvir por minutos. Acabava de subir ao palanque, sendo reconhecida pela multidão, que a aplaudia freneticamente, uma conhecida cantora popular. Às palmas e ao vozerio vieram juntar-se as buzinas dos vários carros parados ao longo da praia. Tentava abrir caminho entre o povo, sufocada pelo aperto que se fizera ao redor, quando o mesmo esguicho frio nas pernas me fez lançar um olhar rápido à minha frente: à distância de um metro mais ou menos, o vi pela primeira vez, que sorria para mim. Siegfried ou outro herói de Wagner, pois só podia ser um herói de lenda alemã. Correspondi-lhe ao sorriso e a partir de então começou o tempo do amor, o tempo do sofrimento, o tempo pelo qual esperava, o mais belo momento da minha vida.”

 

Em: Por onde andou meu coração: memórias, Maria Helena Cardoso, Rio de Janeiro, José Olympio: 1968, 2ª edição, Coleção Sagarana, volume 70, pp: 120-1