Leituras de 2022: “A velha senhora”, de Simenon, resenha

26 06 2022

Café Reflexões

Adrian Deckbar (EUA, contemporânea)

 

Frequentemente me perguntam como consigo ler mais de quarenta livros por ano quando ainda tenho outras vidas para cuidar, como minhas aulas, escrever, fazer compras, cozinhar, ter amigos, ver séries, ir ao cinema.  É fácil.  Leio em qualquer lugar.  Nesses últimos dias fiquei presa ao telefone ouvindo música de espera por muitos minutos.  Tempo suficiente para ler A velha senhora de Simenon, com tradução de Raul de Sá Barbosa.  Este livro, que na edição  de bolso que tenho, compreende cento e oitenta e oito páginas, foi inteiramente consumido à espera de que alguém do outro lado da linha me atendesse.

Gosto de Simenon. Gosto principalmente de seus romances “duros”. Mas isso não quer dizer que não goste de sua escrita policial.  Aliás gosto muito dela.  Nesta história temos o Inspetor Maigret resolvendo um assassinato fora de Paris.  O que me atrai nas obras em que Maigret investiga um crime, é que sempre no final acreditamos ter tido todos os elementos necessários para fazer as mesmas deduções que ele faz. Porque é assim a narrativa.  Tudo importa, mas vem em ordem caótica.

 

Simenon é um dos escritores com maior número de obras publicadas e um dos mais traduzidos no mundo. Na introdução a este livro, soube que das mais de quatrocentas e cinquenta obras do autor, setenta e cinco tem o Inspetor Maigret como principal personagem.  Não é só um jogo de palavras que intriga o leitor, aqui e ali há encanto nas descrições de lugares, na atmosfera local das pequenas cidades ou dos bairros em que a história se desenvolve, assim  como nas memórias que alguns detalhes trazem  ao melancólico policial. Aqui está, por exemplo sua primeira impressão da casa que visita pela primeira vez.

“O portão não estava fechado, e ele o empurrou; depois, não achando a campainha, entrou no jardim. Jamais vira tal profusão de plantas numa área tão pequena. Os arbustos em flor eram tão espessos que pareciam uma pequena selva, e no menor espaço livre havia dálias, lobélias, crisântemos e outras flores que Maigret só vira reproduzidas em cores vivas nos pacotes de sementes nas vitrines. Parecia que a velha senhora se dispusera a usar todos eles.” [31]

 

Georges Simenon

 

Uma das características de Simenon é que seus personagens são tridimensionais e sempre caracterizados com alguma ternura, mesmo os mais  infames.  Há uma compreensão do ser humano, quase empatia, mesmo pelos elementos mais desprezíveis, como se Maigret, Simenon, compreendesse as razões dos maus comportamentos mesmo que ele não concorde com eles.

Pode parar para ler esse inteligente romance policial.  Vale um fim de semana em casa, neste inverno gélido, numa poltrona, manta no colo, alguma bebida quente ao lado.  Só não recomendo o cachimbo que Maigret e Simenon têm em comum.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Em casa: William McGregor Paxton

26 06 2022

Luz da manhã, 1907

William McGregor Paxton (EUA, 1869-1941)

óleo sobre tela, 53 x 43 cm

Coleção  Particular





Flores para um sábado perfeito!

25 06 2022

Natureza morta, 2007

Marcos Garcia (Brasil, contemporâneo)

técnica mista, 29 x 21 cm





Rio de Janeiro, RJ, Brasil

24 06 2022

Cena urbana no Rio de Janeiro com praça e igreja, década de 1950

David Correa Saavedra (Brasil, 1901-1968)

óleo sobre placa, 38 x 46 cm





Palavras para lembrar: Santa Teresa de Jesus

24 06 2022

Leitura, 1891

Juan Llimona (Espanha, 1860-1926)

óleo sobre tela,  100 x 67cm

Museu Nacional d’Art de Catalunya.

 

 

“Leia e liderarás; não leia e serás liderado.”

 

Santa Teresa de Jesus





Imagem de leitura — Paul Signac

23 06 2022

No tempo da harmonia, a idade de ouro não está no passado, está no futuro, 1892

Paul Signac (França, 1863-1935)

óleo sobre tela, 310 x 410 cm

Prefeitura de Montreuil, França





Mulher e pintora: Jeanna Maria Charlotta Bauck

23 06 2022

Flores do campo

Jeanna Maria Charlotta Bauck (Suécia, 1840-1926)

óleo sobre tela, 79 x 64 cm





Ricardo Coração de Leão na Áustria

22 06 2022

Ricardo Coração de Leão

Iluminura, MS Royal 14 C VII f.9

Data do manuscrito !250-1259

Biblioteca Britânica

 

 

 

“…Mas, depois de sua partida, o senhor de Zara enviou um emissário secretamente a seu irmão avisando-lhe que detivesse o rei quando ele chegasse às suas terras. Quando o rei chegou e entrou na cidade onde morava o irmão daquele senhor, este imediatamente convocou um homem em quem tinha toda confiança, Rogério, um normando de Argenton, que estava junto dele havia vinte anos e a quem dera sua sobrinha em casamento; ordenou-lhe que inspecionasse atentamente todas as casas onde houvesse visitantes alojados, e que tentasse identificar o rei por sua maneira de falar ou por qualquer outro detalhe. Prometeu dar-lhe a metade da cidade se conseguisse capturar o rei.

O homem localizou e examinou todas as casas onde havia viajantes; Ricardo ocultou por bastante tempo  sua identidade, depois, vencido pelas súplicas e pelas lágrimas do leal investigador, confessou sua identidade. Imediatamente o outro exortou-o , chorando, a fugir às escondidas, e ofereceu-lhe um cavalo excelente. Pouco depois, voltando para junto de seu senhor, disse que aquilo que se contava  a respeito da chegada do rei não tinha fundamento, mas que se tratava de Balduíno de Béthune e de seus companheiros, voltando da peregrinação. O senhor, furioso, mandou prender todos eles.

O rei deixou a cidade às escondidas com Guilherme de Etang e um jovem servidor que falava o alemão; viajou três dias e três noites sem se alimentar. Depois, compungido pela fome, foi até uma cidade chamada Viena, na Áustria, às margens do Danúbio, onde, por cúmulo de infelicidade, naquele momento  encontrava-se o duque da Áustria. O jovem servidor do rei foi trocar dinheiro; tirou muitos besantes , mostrando-se arrogante e pretensioso. Então os habitantes da cidade apoderaram-se dele imediatamente e lhe perguntaram quem era; respondeu que estava a serviço de um mercador muito rico que chegaria à cidade três dias depois. Foi libertado e voltou discretamente para junto do rei, em seu refúgio, exortando-o a fugir o mais depressa possível e contando-lhe o que acontecera. Mas o rei, ainda sob o efeito da fatiga causada por sua dura navegação, desejava descansar alguns dias naquela cidade. O servidor ia com frequência ao mercado para comprar o necessário, e certa vez, no dia de São Tomé Apóstolo, enfiara inadvertidamente sob seu cinto as luvas do patrão.Vendo-as, os magistrados da cidade voltaram a deter o servidor, maltrataram-no rudemente, infligiram-lhe muitas torturas, feriram-no e ameaçaram arrancar-lhe a língua se não se apressasse em dizer a verdade. O servidor, vencido por um sofrimento insuportável, contou-lhes tudo. E eles informaram o duque imediatamente, cercaram o alojamento do rei e instaram-no a entregar-se voluntariamente.

O rei permaneceu marmóreo em meio ao alarde de todas aquelas pessoas que palravam; deu-se conta de que sua bravura não poderia defendê-lo contra tantos bárbaros, e exigiu a presença do duque, garantindo que só se entregaria a ele. O duque chegou imediatamente e o rei deu alguns passos em sua direção, depois colocou sua espada e sua pessoa  em suas mãos.  O duque,muito satisfeito, levou o rei com ele, com grandes honras. Depois entregou-o à guarda de bravos cavaleiros que, noite e dia, vigiaram-no estreitamente em todos os lugares, de espada na mão.” *

 

* Narrativa baseada em diversos relatos da época de Ricardo I, de Inglaterra, conhecido como Ricardo Coração de Leão. 

 

Em: Ricardo Coração de Leão; história e lenda, Michele Brossard-Dandré e Gisèle Besson, tradução de Monica Stahel, São Paulo, Martins Fontes: 1993, pp: 224-6





Hoje é dia de feira: frutas e legumes frescos!

22 06 2022

Natureza morta, 2018

Victor Wichter (Brasil, contemporâneo)

óleo sobre tela, 38 x 46 cm





“Paisagens de minha terra”, poesia de Brasil Pinheiro Machado

21 06 2022

O retorno, 2002

Giovanni Santarelli (Brasil, 1971)

óleo sobre tela, 60 x 80 cm

 

 

 

 

Paisagem de minha terra

 

Brasil Pinheiro Machado

 

Manhã de domingo de sol reto.

A grande igreja sem estilo

Decorada por dentro por um batismo de Cristo

Feito por um pintor ingênuo

Que quis ser clássico e foi primitivista.

 

Missa internacional

Com gentes de todas as raças

Ouvindo o padre alemão rezar em latim.

 

A gente nem tem vontade de olhar o crucifixo desolado

Nem de rezar

Porque tem lá dentro tanta menina bonita

Que não reza também

E fica sapeando a gente com meiguice…

 

Só os polacos de camisa nova por ser domingo

Que vieram com as famílias de carroça lá das colônias

Rezam fervorosamente

Enquanto nos seus quintais

Os chupins malvados e alegres

Comem todo o centeio

Cantando glórias pro sol de domingo.

 

 

Em: 101 Poetas Paranaenses: V.1 (1844 -1959) –  antologia de escritas poéticas do século XIX ao século XXI, seleção e apresentação de Ademir Demarchi, Curitiba, Biblioteca Pública do Paraná: 2014, p.94