Palhaço lendo jornal
Ilustração de autoria desconhecida
óleo sobre tela
Se o Carnaval é de louco,
como quer o puritano,
três dias é muito pouco
para as loucuras de um ano.
(Manuel Pinheiro de Sousa)
Retrato de mulher lendo
Hirezaki Eiho (Japão, 1888-1968)
A primeira vez que vi uma longa lista de nomes de mortos foi em visita ao Monumento aos Soldados Mortos na Segunda Guerra Mundial, aqui no Rio de Janeiro, no Aterro do Flamengo. Eu era pequena. Mão na mão de papai, percorri com ele o comprimento das tumbas gravadas, com nomes de pessoas que jamais conheceria. Uma só monotonia de pedras planas e nomes vazios. Meu pai tinha uma voz grave, melodiosa e sua explicação e eventual leitura de algumas lápides, me marcou profundamente, pois esse tom murmurante lembrava-me das muitas vezes que dormi em seu colo enquanto ele conversava, à noite, em prolongadas reuniões familiares, que iam muito além da minha hora de dormir. O monumento do Rio de Janeiro, traz na sua própria estrutura a eloquência do silêncio, nas pedras lisas das tumbas o dessabor do árido ambiente. A lembrança dos soldados tombados foi meu primeiro encontro com a morte em massa. Anos mais tarde, em 2001, depois do ataque às Torres Gêmeas, em Nova York, houve um momento em que o nome de todos os mortos naquele ato terrorista foi recitado, um a um, solenemente, hora após hora, televisionado sem anúncios, em honra aos mortos do ataque terrorista. Foram dias de recitação contínua, solene, fúnebre, que lembraram as vozes nas orações em conjunto das novenas em igrejas católicas de minha infância. Havia naquela repetição de nomes, na litania sem entonação, na listagem de desconhecidos, um após o outro, um som encantatório, mesmerizante, que abraçava almas enfermas, pelo simples e contínuo circular de vozes, em canto sem começo ou fim, eterno. Em poucos segundos em que se dava voz a quem se foi, seu nome, seu significado era repercutido através da atmosfera, irradiado para o infinito das galáxias distantes. Essas listagens não são incomuns nos momentos de luto coletivo. Todas são eloquentes. Não pude deixar de lado essa imagem da recitação, do som encantatório do pronunciar dos nomes quando me deparei com a narrativa de Julie Otsuka, no marcante livro O Buda no sótão, tradução de Lilian Jenkino.
Por que tive essa reação? Pela escolha feita na maneira de narrar. Este, que me lembre, foi o primeiro livro que li onde a narrativa é do coletivo. É a história de um número enorme de pessoas, que deixa sua terra natal em busca de vida melhor no Novo Mundo. A narrativa da coletividade não permite nomes, ou melhor individualidades. Todos são anônimos, tais como os soldados caídos no front que jamais foram ou serão identificados. Não há personagens específicos, nem heróis ou heroínas. É a generalidade das experiências que nos dá a dimensão do todo, a enormidade das expectativas, dos sonhos frustrados, da regularidade das barbáries, das injustiças feitas com um grupo inteiro de humanos. Não é prosa poética. No entanto, a leveza com que Julie Otsuke cobre assuntos indignos ou desonrosos que afetam este grupo de imigrantes japoneses nos Estados Unidos no início do século XX é quase poética. Sua maneira delicada e sensível, terna, afável nos ajuda a testemunhar o dia a dia dos recém-chegados, os sucessos, dos pequenos negócios às pequenas fortunas, nos guiando depois até a inexplicável vontade de seus filhos se entrosarem na cultura do novo país que era, de fato, sua terra natal. Até o medo, o pavor, a humilhação sofrida por esses imigrantes ao serem colocados em campos de concentração durante a Segunda Guerra, por terem nascido no Japão e portanto, intrinsecamente suspeitos de apoiarem o governo de sua terra natal, todo esse terror emocional, é tratado com sutileza e finura.
Já era mais que tempo dessa história ser revisitada. Há sempre o medo daqueles cujos hábitos desconhecemos, cujas línguas não entendemos, cujas religiões não seguimos. O ser humano é tribal. Sua primeira reação será sempre a desconfiança. E em época de guerra, essa desconfiança é exacerbada. Isso não justifica o tratamento que os japoneses tiveram nos Estados Unidos. Não é um momento de orgulho da história americana. Tampouco foi escondido. Quem viveu no país certamente já ouviu falar desses campos de concentração. Mas é importante que o assunto seja recontado, a cada geração, principalmente em época em que o medo de imigrantes parece contaminar todos os países do mundo ocidental. Só essa já seria uma boa razão para ler O Buda no sótão. Mas a prosa, a delicadeza da narrativa é singular e perfeita para o tema. Este é um livro que se movimenta na alma do leitor e deixa lastro. Não é a toa que ganhou o prêmio Pen/Faulkner para Ficção e se tornou um best-seller desde 2011 quando foi publicado. Recomendo sem qualquer restrição.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.
Natureza Morta, 1976
Aldo Cardarelli (Brasil,1915 -1986)
óleo sobre tela, 70 x 90 cm
Natureza Morta
Carlos Gomes (Brasil, 1934- 1990)
[Carlos Pinto Gomes]
óleo sobre tela, 27 X 40 cm
Para que um carnaval
com três dias de folia,
pois se a vida é afinal,
grande baile à fantasia?
(Renato Vieira da Silva)
Paisagem com Ponte sobre Rio na Avenida Köeller, Petrópolis, década de 1960
Sérgio Telles (Brasil, 1936-2022)
óleo madeira, 50 X 34 cm
Cabeça de E.O.W., 1959-60
Frank Auerbach (Inglaterra, 1931)
Carvão sobre papel
TATE, Londres
Abre agora, dia nove de fevereiro e permanece até o final de maio uma exposição dos grandes desenhos a carvão de Frank Auerbach no Courtauld Institute em Londres (melhor reservar suas entradas agora). Esta é uma exposição que vale a pena ver, já que seus desenhos a carvão, expressionistas, por falta de melhor descrição, são verdadeiramente poderosos.
Cabeça de Helen Gillespie II, 1962
Frank Auerbach (Inglaterra, 1931)
Carvão e giz sobre papel
Coleção Particular
Os desenhos expostos foram produzidos nas décadas de 1950 e 60. Essa era outra Inglaterra. O país tentava se recuperar da Segunda Guerra Mundial. Hoje quando visitamos Londres, por exemplo, é fácil esquecer que nesse período os ingleses estavam ainda em recuperação. Havia falta de tudo até mesmo de comida.
Autorretrato, 1958
Frank Auerbach (Inglaterra, 1931)
Carvão e giz sobre papel, 77 x 56 cm
Apesar da Segunda Grande Guerra ter acabado, soldados britânicos ainda estavam sendo mandados para as trincheiras, desta vez na Coreia em apoio às tropas americanas. Ao viajar pela Londres de hoje podemos ser levados ao engano de que tudo são flores, de que o país sempre viveu assim, com abundância e segurança. Mas é necessário lembrar que até 1954, por exemplo, havia racionamento de alimentos, e que carne foi o último item a ser liberado para a população.
Retrato de Leon Kossoff, 1957
Frank Auerbach (Inglaterra, 1931)
carvão e giz sobre papel, 65 x 52 cm
O que faz esses desenhos a carvão tão excepcionais? A profundidade das camadas. Auerbach trabalhava com camada em cima de camada de carvão e giz, apagava e voltava a trabalhar de novo. E mais uma vez. E ainda mais uma. Apagou em alguns casos tantas vezes, que chegou a furar o papel e ser forçado a remendar por trás.
Retrato de Gerda Boehm, 1961
Frank Auerbach (Inglaterra, 1931)
carvão e giz sobre papel
Coleção Particular
O produto final mostra a intensidade dos traços, a procura pela imagem que traria a energia de quem é retratado. À maneira do expressionismo de pós-guerra, aquele que dá mais espaço para o gesto do artista, Auerbach impregna o papel com o fervor da criação, a pujança do traço. Estes desenhos, estes retratos são chamados “As Cabeças de Carvão”, um título apropriado, porque ultrapassam as limitações das duas dimensões do papel, eles trazem o ser humano complexo sentado frente ao artista. Nesses papéis estão cravadas a profundidade emotiva, a intensidade das personalidades. Vislumbra-se também a paixão de Auerbach por sua arte, no traço, nos rabiscos, na dúvida do apagar, nas manchas borradas, nas formas geométricas super-impostas. São cabeças, só faltam nos dizer no que pensam; não são retratos.
Paisagem, 1951
João José Rescala (Brasil, 1910-1986)
óleo sobre tela, 50 x 65 cm
Paisagem
Luiz Pinto (Brasil, 1939)
óleo sobre tela, 25 x 35 cm

Paisagem, 1951
Tomoo Handa (Japão-Brasil, 1906-1996)
óleo sobre tela
Museu Rodin Bahia, Salvador