Vaso com flores
José Maria da Silva Neves (Brasil, 1896 – 1978)
óleo sobre eucatex, 52 x 23 cm
O retorno do rebanho, 1893
Charles Sprague Pearce (EUA, 1851-1914)
óleo sobre tela
Museu Franco-americano do Castelo de Blérancourt
Carnaval na rua das Laranjeiras, 1938
Haydéa Santiago (Brasil, 1896 – 1980)
óleo sobre tela, 80 x 64 cm
“A primeira vez que o vi foi numa batalha de confetes. O dia tinha sido chuvoso. De vez em quando uma bátega d’água caía, prenunciando uma tarde com aguaceiro. A todo instante chegava {a janela para olhar o tempo. Logo naquela tarde em que pretendia estrear meu vestido novo, a chuva queria estragar os meus planos.
De cada vez que sondava o céu com os olhos, mamãe, que no meio de seus afazeres me observava, dizia:
— Não adianta olhar para o céu, hoje não tem batalha alguma. À tarde vamos ter temporal.
Nos entreolhávamos, eu e minha prima e respondia, mal-humorada:
— A senhora tá agourando pra gente não brincar. Bem que no seu tempo gostava de aproveitar.
Lá pela tardinha o tempo melhorou, o céu tingiu-se de uns laivos rosa.
“Graças a Deus”, pensei.
Ao escurecer, saímos. Vestia o famoso vestido novo. DE seda bois-de-rose, saia plissada, gola de pelerina, uma gravata de laço, estampada. A praia se achava repleta. Os passeios cheios de gente que ia e vinha, blocos de toda espécie, que passavam cantando, interrompendo o trânsito. Os carros circulavam vagarosamente, conduzindo foliões de outros bairros, famílias, moças e rapazes que lançavam serpentinas e confetes sobre a multidão que estacionava no passeio. Em frente ao posto 4 se achava o palanque para os membros do concurso de samba. Parou um carro e dele desceram os juízes que iriam julgar qual o melhor do carnaval daquele ano. O povo se comprimia mais ainda naquele ponto, paralisando completamente a circulação. Junto a um banco, eu olhava a multidão que se divertia. A orquestra começou a tocar o Olha, escuta meu bem …, que foi acompanhado pelo vozerio da multidão alegre. As luzes se acenderam, o burburinho era cada vez maior. Milhares de rolos de serpentinas coloridas eram atiradas dos carros, entrelaçando-se por sobre os fios, caindo na calçada em blocos ou não, se espalhavam em toda extensão da avenida, alguns cantando ao som de pequenas orquestras populares. Bandos de mulatas fantasiadas, se requebrando, em blocos ou não, se espalhavam em toda extensão da avenida, alguns cantando ao som de pequenas orquestras populares. Um frio nas pernas e, instintivamente, levei a mão às meias. Olhei em torno e não vi ninguém que me pudesse ter atirado lança-perfume. “Provavelmente, algum esguicho extraviado”, pensei, continuando a olhar os carros que passavam. A banda do palanque atacava agora uma marchinha do meu agrado, muito em voga na época.
Foi quando senti de novo o frio nas pernas. Evidentemente, desta vez era comigo. Procurei com os olhos entre a multidão que se encontrava próximo de mim e não vi ninguém conhecido. Um vozerio acompanhado de palmas fez-se ouvir por minutos. Acabava de subir ao palanque, sendo reconhecida pela multidão, que a aplaudia freneticamente, uma conhecida cantora popular. Às palmas e ao vozerio vieram juntar-se as buzinas dos vários carros parados ao longo da praia. Tentava abrir caminho entre o povo, sufocada pelo aperto que se fizera ao redor, quando o mesmo esguicho frio nas pernas me fez lançar um olhar rápido à minha frente: à distância de um metro mais ou menos, o vi pela primeira vez, que sorria para mim. Siegfried ou outro herói de Wagner, pois só podia ser um herói de lenda alemã. Correspondi-lhe ao sorriso e a partir de então começou o tempo do amor, o tempo do sofrimento, o tempo pelo qual esperava, o mais belo momento da minha vida.”
Em: Por onde andou meu coração: memórias, Maria Helena Cardoso, Rio de Janeiro, José Olympio: 1968, 2ª edição, Coleção Sagarana, volume 70, pp: 120-1
Galgo, 2010
Aguiar Santana (Brasil, contemporâneo)
óleo sobre tela, 30 x 30 cm
[Sem título]
Vera Lúcia de Oliveira
esse cão que me segue
é minha família, minha vida
ele tem frio mas não late nem pede
ele sabe que o que tenho
divido com ele, o que eu não tenho
também divido com ele
ele é meu irmão
ele é que é meu dono
Em: Cintilações da Sombra 2: antologia poética, coordenação Victor Oliveira Mateus, Fafe, Portugal, Labirinto e Núcleo de Artes e Letras de Fafe: s.d., p. 85

Natureza morta com uvas, 1982
Salvador Pellegrini (Brasil, contemporâneo)
Óleo sobre placa, 40 x 63 cm
Uma viagem fantástica com vovô
Alfredo Rodríguez (México, 1954)
óleo sobre tela, 70 x 66 cm

Os aventureiros, 1933
DETALHE
O descobridor de turmalinas, 1933
Antônio Parreiras (Brasil, 1860-1937)
óleo sobre tela, 154 x 240 cm
Museu Antônio Parreiras, Niterói RJ
“Tinha noite que depois da gente se ajeitar na cama ou na palha do paiol de algum sítio, ou se encarapitar no galho de árvore para o pernoite livre de bichos, ele me falava do país dele. Cantava trovas monótonas, que ia traduzindo. Histórias de uma terra formosa, de cedros-castelos, rios-cantores e de um povo triste porque até a própria linguagem era emprestada. Seus olhos luziam, ele punha-se a tossir voltando o rosto.”
Em: O ídolo de cedro, Dirceu Borges, São Paulo, Columbus Cultural Editora: 1989, 4ª edição, p. 89

Maria Braga Horta
O tempo passa. E passam sol e lua
tantas vezes no céu, que perco a conta
do tempo que, passando, se insinua
na vida que a velhice hoje defronta.
O tempo passa, a história continua.
É uma história de amor que se reconta.
Uma história de amor que perpetua
a vida: ora uma acaba, outra desponta.
Venho outra vez com bruxas e dragões
e princesas e príncipes e anões
para o mundo irreal dos dois netinhos.
Vejo em seus olhos sempre o mesmo brilho
que pairava no olhar de cada filho
…e ainda vão passando os carneirinhos…
Brasília, 28-2-1968
Em: Caminho de Estrelas, Maria Braga Horta, São Paulo, Massao Ohno Editor: 1996, p. 239