“Finos cabelos que de louros na infância se tinham ido de ano em ano tornando castanhos até se avizinharem da cor preta na juventude, belos e suaves olhos pardos e de langor natural e brando, rosto de um longo oval e de branco puríssimo sem a mais leve insinuação rósea nas faces, nariz um pouco aquilino, graciosa curva nos lábios, dentes formosos, orelhas pequenas e transparentes, queixo terminando demasiadamente agudo, pescoço alto e delgado, estatura média, corpo franzino e magro, cintura delicadíssima, braços mal torneados e menos grossos do que podiam ser de harmonia com o talho, mão e pés de mimosa perfeição; mais melancolia do que viveza nos modos, organização franca e exageradamente nervosa, imaginação inflamável, sande fraca, educação desvelada, e alma de anjo, tal era a princesa da casa e rainha da festa.”
Em: Um noivo à duas noivas, Joaquim Manuel de Macedo, Rio de Janeiro, Garnier: 1879, TomoI, pp. 9-10
Oscar Wilde é autor da frase, “A imitação é a forma mais sincera de adulação que a mediocridade pode render à excelência” [“Imitation is the sincerest form of flattery that mediocrity can pay to greatness.”]. A cópia, e com ela a reinterpretação de uma obra de arte, é tradição nas escolas de belas artes, modo de se aprender técnica, uso de cores, composição, resolução do espaço observando os grandes mestres. Para pintores, por exemplo, há também a possibilidade de verem-se encaixados na tradição de um mestre. Desde os tempos nas guildas que aprende-se a pintar, a fazer a mistura de pigmentos, a usar diferentes pinceis ou técnicas. Ninguém poderia exercer a profissão de pintor se não tivesse passado alguns anos como aprendiz de algum mestre, reconhecido pela guilda.
Para nós apreciadores das artes plásticas é sempre interessante ver que obras de arte foram escolhidas por um artista para serem copiadas. Às vezes é surpreendente as conexões entre artistas de diferentes gerações.
Dora Maar com gato, 1941
Pablo Picasso (Espanha, 1881-1973)
óleo sobre tela, 128 x 95 cm
Roy Litchenstein, artista americano trabalhando na segunda metade do século passado, escolheu algumas obras de Pablo Picasso. Mulher com chapéude flores, 1963, é baseado no retrato Dora Maar com gato, 1941, por Pablo Picasso como vemos acima e abaixo:
Outra tela de Lichenstein baseada em Picasso é Reflexões no Interior com moça desenhando, 1990, que reconfigura a tela de Picasso de 1935, Interior com moça desenhando.
Reflexões no Interior com moça lendo, 1990
Roy Lichtenstein (EUA, 1923 -1997)
Magna* sobre tela, 191 x 274 cm
The Broad, Los Angeles
Interior com moça desenhando, 1935
Pablo Picasso (Espanha, 1881 – 1973)
óleo sobre tela, 130 x 195 cm
MOMA, Nova York
São as Reflexões, dele, Lichenstein sobre a tela de Picasso? Ou estaria ele assumindo que a moça desenhando está na verdade fazendo um autorretrato olhando para sua imagem num espelho, na tela de Picasso? A interpretação está aberta ao espectador.
Mais curioso ainda, é ver Mulher da Argel, 1963 momento em que Roy Lichenstein fez uma releitura da obra de Picasso, Mulher daArgel, 1954, obra (uma série de quinze telas) que já era releitura do quadro de Delacroix Mulheres da Argel em seu apartamento, 1834.