Vaso com flores
Francisco Manna (Itália, Brasil, 1879- 1943)
óleo sobre madeira, 33 x 40 cm
Morena de olhos castanhos,
teu encanto é a minha pena;
quem dera que olhos estranhos
te achassem feia, morena!
(Bastos Tigre)
À luz de lampião, 1890
Harriet Backler (Noruega 1845-1932)
óleo sobre tela, 55 x 66 cm
Maria Braga Horta
Não levarei comigo nada meu
nem de ninguém.
Devolvo a todos o quinhão da vida
que viveram comigo e por mim
e os liberto
do ritual das flores no jazigo
que nada mais (depois) contém
que os vestígios de um corpo
que em verdade jamais me pertenceu.
Simples sombra (invisível) chegarei
diante do espelho
em que foi o meu tempo refletido
e inserido em gradações de forma e cores.
Do que era teu em mim –
separados os lados –
sepultarás o morto.
O vivo ficará perdido
nos teus olhos
procurando o infinito.
Em: Caminho de Estrelas, Maria Braga Horta, São Paulo, Massao Ohno Editor: 1996, p. 122
Mulher com chapéu de flores, 1963
Roy Lichtenstein (EUA, 1923 -1997)
Magna* sobre tela, 127 x 101 cm
Coleção Particular
Oscar Wilde é autor da frase, “A imitação é a forma mais sincera de adulação que a mediocridade pode render à excelência” [“Imitation is the sincerest form of flattery that mediocrity can pay to greatness.”]. A cópia, e com ela a reinterpretação de uma obra de arte, é tradição nas escolas de belas artes, modo de se aprender técnica, uso de cores, composição, resolução do espaço observando os grandes mestres. Para pintores, por exemplo, há também a possibilidade de verem-se encaixados na tradição de um mestre. Desde os tempos nas guildas que aprende-se a pintar, a fazer a mistura de pigmentos, a usar diferentes pinceis ou técnicas. Ninguém poderia exercer a profissão de pintor se não tivesse passado alguns anos como aprendiz de algum mestre, reconhecido pela guilda.
Para nós apreciadores das artes plásticas é sempre interessante ver que obras de arte foram escolhidas por um artista para serem copiadas. Às vezes é surpreendente as conexões entre artistas de diferentes gerações.
Dora Maar com gato, 1941
Pablo Picasso (Espanha, 1881-1973)
óleo sobre tela, 128 x 95 cm
Roy Litchenstein, artista americano trabalhando na segunda metade do século passado, escolheu algumas obras de Pablo Picasso. Mulher com chapéu de flores, 1963, é baseado no retrato Dora Maar com gato, 1941, por Pablo Picasso como vemos acima e abaixo:
Outra tela de Lichenstein baseada em Picasso é Reflexões no Interior com moça desenhando, 1990, que reconfigura a tela de Picasso de 1935, Interior com moça desenhando.
Reflexões no Interior com moça lendo, 1990
Roy Lichtenstein (EUA, 1923 -1997)
Magna* sobre tela, 191 x 274 cm
The Broad, Los Angeles
Interior com moça desenhando, 1935
Pablo Picasso (Espanha, 1881 – 1973)
óleo sobre tela, 130 x 195 cm
MOMA, Nova York
São as Reflexões, dele, Lichenstein sobre a tela de Picasso? Ou estaria ele assumindo que a moça desenhando está na verdade fazendo um autorretrato olhando para sua imagem num espelho, na tela de Picasso? A interpretação está aberta ao espectador.
Mais curioso ainda, é ver Mulher da Argel, 1963 momento em que Roy Lichenstein fez uma releitura da obra de Picasso, Mulher da Argel, 1954, obra (uma série de quinze telas) que já era releitura do quadro de Delacroix Mulheres da Argel em seu apartamento, 1834.
Mulher da Argélia, 1963
Roy Lichtenstein (EUA, 1923 -1997)
óleo sobre tela, 203 x 172 cm
The Broad, Los Angeles
Mulheres da Argélia, 1954
Pablo Picasso (Espanha, 1881 – 1973)
óleo sobre tela, 114 x 196 cm
Mulheres da Argel em seu apartamento, 1834
Eugène Delacroix (França, 1798 – 1963)
óleo sobre tela, 180 x 229 cm
Louvre

Wilson W. Rodrigues
Das três tristezas que tenho
uma foi lágrima só,
a outra foi leve gemido
e a última desfez-se em pó.
Das três alegrias que tenho
uma foi sorriso vão,
a outra foi manso gorjeio
e a última foi ilusão.
Das três saudades que tenho
uma bem cedo murchou,
a outra durou muito pouco
e a última foi que ficou.
Em: Bahia Flor: poemas, Wilson W. Rodrigues, Rio de Janeiro, Editora Publicitan: 1949, p. 113
Interior com moça desenhando, 1935
Pablo Picasso (Espanha, 1881 – 1973)
óleo sobre tela, 130 x 195 cm
MOMA, Nova York
“Quem lê livros de biblioteca pública toma gosto por encadernações gastas e páginas com orelhas, o que dá aos volumes uma natureza meio humana. As campanhas de proteção dos livros de empréstimo nunca me seduziram, porque acho natural que a cada leitura o volume sofra um desgaste e que chegue a um ponto tal de esfacelamento que mereça a aposentadoria. Lendo estes exemplares já completamente remendados, eu olhava a ficha de empréstimo e via quanto eles tinham sido úteis, em quantas vidas se faziam presentes. Talvez fossem emprestados apenas mais duas ou três vezes, eu então os lia com prazer.”
Em: Herdando uma biblioteca, Miguel Sanches Neto, Cotia, SP, Ateliê Editorial: 2020, 2ª edição, revisada e ampliada, p.114.