Tem calma, velhice, aguarda!
Não venhas me ver ainda!…
Que não receies ser tarda,
porque nem tarda és bem-vinda…
(Luna Fernandes)
Tem calma, velhice, aguarda!
Não venhas me ver ainda!…
Que não receies ser tarda,
porque nem tarda és bem-vinda…
(Luna Fernandes)

O pato teve um ataque
quando a casca se partiu;
ansioso, esperava um “Quac!”
e o que escutou foi um – “Piu”!
(Pedro Ornellas)
Mestiça, 1953
[Retrato de Maria Augusta]
Gerson Pompeu Pinheiro (Brasil, 1910 – 1978)
óleo sobre tela, 60 X 49 cm
Luiz Peixoto
Rosinha seguiu viage,
não disse adeus a ninguém.
Levou no peito uma image
do Deus-menino em Belém,
levou cama, levou rede,
levou ferro de engomá,
levou panela de barro,
levou linha de bordá,
levou todos os terém.
Nunca vi tanta bagage!
No meio das catrevage,
meu coração foi também.
Em: Poesia de Luiz Peixoto, Rio de Janeiro, Editora Brasil-América:1964, p.79
Leitura
Louis-Emile Adan (França, 1839-1937)
óleo sobre tela, 34 x 24 cm
“As cozinheiras menos jovens eram sempre tratadas por “senhora”. As outras empregadas deveriam ter nomes apropriados, tais como Jane, Mary, Edith, etc. Nomes como Violet, Muriel, Rosamund não eram considerados próprios, e então dizia-se firmemente a essas jovens: “Enquanto você estiver a meu serviço seu nome será Mary.” As empregadas quando de certa idade eram quase sempre tratadas pelo sobrenome.”
Em: Autobiografia, Agatha Christiie,, tradução de Maria Helena Trigueiros, Rio de Janeiro, Nova Fronteira:1979, p.32
Leitura
Pierre Lohner (França, 1934-2008)
“Tendo sido escolhido para decorar com mosaicos a cúpula de San Giovanni, Andréa Tafi, florentino, executava com proficiência a grande obra. Todas as figuras eram tratadas à maneira grega, em que Tafi se iniciara durante sua estada em Veneza, onde vira os artesãos ocupados na decoração das paredes de San Marco. Chegara a trazer consigo a Florença um grego chamado Apollonius que conhecia preciosos segredos da arte de pintar com pedras. Era esse Apollonius homem de grande indústria e sutileza. Entendia das medidas que se devem dar às diferentes partes partes do corpo humano e dos materiais a empregar para compor o melhor cimento.
Temeroso de que o grego pudesse transmitir o seu saber e habilidades a algum pintor da cidade, Andrea Tafi não o largava nem de dia nem de noite. Levava-o consigo todas as manhãs para San Giovanni, e todas as noites trazia-o de volta à sua própria casa, defronte a San Michele, onde o fazia dormir com dois aprendizes, Bruno e Buffalmacco, num quarto separado por um simples tabique daquele onde ele próprio dormia. E como faltasse um meio pé para que o tabique assentasse nas pranchas do assoalho, podia-se ouvir numa das peças tudo que fosse dito na outra.”
Em: O poço de Santa Clara: contos, Anatole France, tradução de João Guilherme Linke, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira: 1978, pp. 63-4
Retrato de Laila, 1949
Rubens Bustamante Sá (Brasil, 1907-1988)
óleo sobre cartão, 69 x 50 cm
Rembrandt é um dos meus pintores favoritos. Meu segundo interesse, depois da Arte Moderna, é a arte do Século de Ouro da Holanda. Tive o prazer de estudá-la com o curador deste período da National Gallery em Washington DC. Justifica-se portanto meu interesse neste livro que descobri numa lista de obras dedicadas às artes plásticas. A lição de anatomia, de Nina Siegal, com tradução de Waldéa Barcellos, é centrada na obra do mesmo nome, que representa o Dr. Nicolas Tulp, demonstrando a técnica de dissecar um cadáver. Datada de 1632, foi obra que marcou Rembrandt, não só por ser seu primeiro retrato para um grupo de pessoas, foi testemunha da evolução do estilo do pintor, assim como sua elevação dentro da própria guilda de São Lucas, a guilda dos pintores.

Intrigada pela gravura deste quadro que via no escritório do pai, Nina Siegal decidiu pesquisar o quadro e a era em que foi pintado. Em seis anos produziu este romance, com trama de suspense e deu ao seu leitor a oportunidade de saborear o que poderia ter sido a vida nas cidades holandesas do século XVII. A grande habilidade da escritora está em tratar de personagens históricos que detêm preocupações corriqueiras, diárias, emoções variadas da vaidade ao preciosismo, preconceitos religiosos, cheiros desagradáveis, preocupações comerciais, enfim detalhes do dia a dia comum na primeira sociedade totalmente capitalista, estabelecida com maior poder econômico do mundo no século XVII.
A história é contada a seis vozes. Cinco personagens da época e uma curadora de arte holandesa que examina a tela. Cada capítulo pertence a um personagem, eles se intercalam eventualmente chegamos ao ápice da ação. Talvez tenha sido esse intercalar dos capítulos que não tenha me deixado presa ao texto, mesmo em se tratando de um pequeno mistério. Pula-se das preocupações da esposa de uma ladrão que será punido com a morte, às preocupações com modelos de Rembrandt, de um despachante de curiosidades para colecionadores, à vaidade do Dr. Tulp, ora um ora outro. Para mim, foi como algumas composições de jazz: bonitas mas também dispersivas. No final, o clímax da história, acaba deixando a desejar, depois do trabalho que tive de manter todas as pontas em ordem.
Pensei muito, calculei bastante os prós e contras, não consigo dar mais do que três estrelas de cinco. Foi uma leitura que me deu trabalho para manter a atenção apesar de abordar um assunto de grande curiosidade para mim. Recomendo a leitura com restrições.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.