Sublinhando…

16 06 2022

Moça reclinada lendo, 1911

Arthur Bowen Davies (EUA, 1862-1928)

pastel e giz sobre papel

“É só o presente que minha mãe detesta; basta o presente virar passado que ela imediatamente começa a amá-lo.”

Em: Afetos ferozes, Vivian Gorick, tradução de Heloísa Jahn, apresentação de Jonathan Lethem, São Paulo, Todavia: 2019, pp: 14 e 15.





A enxadinha, poesia infantil de Faria Neto

24 05 2022
Ilustração de Rudolf Koivu (Finlândia, 1890–1946)



A enxadinha

Faria Neto

Minha enxadinha

trabalha bem;

corta matinhos

num vai-e-vem.

Minha enxadinha

vai descansar

para amanhã

recomeçar.

Adeus, rocinha!

Adeus, trabalho!

A vós, plantinhas

o doce orvalho.





Trova da dúvida

21 04 2022
Ilustração de Maurício de Sousa.

Não sei se vá ou se fique,

Não sei se fique ou se vá,

Indo lá não fico aqui,

Ficando aqui não vou lá.  

(Clevane Pessoa de Araújo Lopes)





W. H.Auden, Funeral Blues, em inglês e duas traduções

19 04 2022

Composição, 1957

Antônio Bandeira (Brasil, 1922 – 1967)

óleo sobre tela, 90 x 90 cm

 

Funeral Blues

 

W. H. Auden

 

Stop all the clocks, cut off the telephone,

prevent the dog from barking with a juicy bone,

silence the pianos and, with muffled drums,

bring out the coffin, let the mourners come.

 

Let airplanes circle moaning overhead

scribbling on the sky the message: he’s dead.

Put crepe-bows round the white necks of the public doves,

let the traffic policemen wear black cotton gloves.

 

He was my North, my South, my East and West,

my working week, my Sunday rest,

my noon, my midnight, my talk, my song.

I thought that love would last forever; I was wrong.

 

The stars are not wanted now, put out every one.

Pack up the moon, dismantle the sun.

Pull away the ocean and sweep up the wood.

For nothing now can ever come to any good.             

 

 

Em: Tell me the truth about love: ten poems, W. H. Auden, Vintage: 1994

 

 

TRADUÇÂO I

 

Parem já os relógios, corte-se o telefone,

dê-se um bom osso ao cão para que ele não rosne,

emudeçam pianos, com rufos abafados

transportem o caixão, venham enlutados.

 

Descrevam aviões em círculos no céu

a garatuja de um lamento: Ele Morreu.

no alvo colo das pombas ponham crepes de viúvas,

polícias-sinaleiros tinjam de preto as luvas.

 

Era-me Norte e Sul, Leste e Oeste, o emprego

dos dias da semana, Domingo de sossego,

meio-dia, meia-noite, era-me voz, canção;

julguei o amor pra sempre: mas não tinha razão.

 

Não quero agora estrelas: vão todos lá para fora;

enevoe-se a lua e vá-se o sol agora;

esvaziem-se os mares e varra-se a floresta.

Nada mais vale a pena agora do que resta.

 

tradução de Vasco Graça Moura

 

 

TRADUÇÂO II

 

Parem todos os relógios, que os telefones emudeçam.

Para calar o cachorro, um bom osso lhe ofereçam.

Silenciem os pianos, e em surdina os tambores

Acompanhem o féretro. Venham os pranteadores.

 

Que aviões a sobrevoar em círculos lamurientos

Rabisquem no céu o Anúncio de Seu Falecimento.

Que nas praças as pombas usem coleiras de crepe, em luto,

E os guardas de trânsito calcem luvas negras em tributo.

 

Ele foi meu norte, meu sul, meu nascente, meu poente.

Foi o labor da minha semana, meu domingo indolente.

Foi meu dia, minha noite, meu falar e meu cantar.

Julguei ser o amor infindo. Como pude assim errar?

 

Já não me importam as estrelas: fique o céu todo apagado.

Empacotem e embrulhem a lua; seja o sol desmantelado.

Esvaziem os oceanos, do mundo sejam as florestas varridas.

Porque agora, para mim, nada resta de bom nesta vida.

 

tradução de Humberto Kawai

 

 

 

 





Curiosidade

28 03 2022
Ilustração de Pierre Brissaud.

No século X, o vizir Abdul Kassem Ismael tinha uma grande biblioteca.  Quando o vizir viajava, levava consigo todos os livros carregados nas lombadas de mais de trezentos camelos, que caminhavam em longa fila indiana, com os volumes organizados em ordem alfabética!





Trova do juízo

3 03 2022

Vendo num retrato antigo

meu rosto arteiro e bem liso, 

concluo: rugas, amigo,

é quanto custa o juízo.

 

(Maurício Cardoso Faria)





Trova da estrada

25 02 2022
Ilustração Marco de Gastryne

Foste embora e por maldade

deixaste a troco de nada,                

rastros da tua saudade

em cada curva da estrada!…

(Marilúcia Resende)

 





Trova das visitas

17 02 2022
Ilustração, Walt Disney

Visitas, meu camarada,

sempre dão prazer à vida:

não sendo quando à chegada,

será, por certo, à saída…

 

(Pedro Uzzo)





Palavras para lembrar: Umberto Eco

8 02 2022

Retrato de Mimi Gross Grooms, 1966

Benny Andrews (EUA, 1930-2006)

óleo sobre papel colado em placa, 37 x 29 cm

 

 

“Todos os grandes escritores são grandes leitores de dicionários: eles nadam através das palavras.”

 

Umberto Eco





O cotidiano, Sayaka Murata

5 02 2022

À beira d’água, 1929

Lucien Jonas (França,1880-1947)

óleo sobre tela , 50 x 65 cm

 

 

 

“Eu, porém, continuo repetindo aquela mesma cena. Desde então, já vi a mesma manhã 6.607 vezes.

Coloquei os ovos delicadamente dentro da sacola. São os mesmos ovos que vendi ontem, mas diferentes. A Senhora Cliente insere os mesmos hashis dentro da mesma sacola de ontem, recebe as mesmas moedas e sorri para a mesma manhã,”

 

Em: Querida Konbini, Sayaka Murata, tradução de Ruth Kohl, São Paulo, Estação Liberdade: 2018, p. 74.