Ilustração Jodi Pratt
Foste embora e por maldade
deixaste a troco de nada,
rastros da tua saudade
em cada curva da estrada!…
(Marilúcia Resende)
Foste embora e por maldade
deixaste a troco de nada,
rastros da tua saudade
em cada curva da estrada!…
(Marilúcia Resende)
Primeira fila orquestra, 1951
Edward Hopper (EUA, 1882-1965)
óleo sobre tela, 79 x 101 cm
Hirshhorn Museum and Sculpture Garden,
Washington DC
O escritor russo Boris Pasternak, autor do livro Doutor Zhivago, foi o primeiro escritor a recusar o Prêmio Nobel para Literatura. Ele ganhou o prêmio em 1958 por conseguir, em linguagem poética contemporânea, dar continuidade à tradição épica da literatura russa. A princípio, ele aceitou o prêmio, mas, pressionado pelo governo soviético, acabou recusando-o com medo que prendessem a ele e sua família. Foi só trinta e um anos mais tarde, em 1989 que o filho de Pasternak foi à Suécia receber o prêmio por seu pai.
Sou inveterada leitora de autores que registraram suas viagens, memórias de exploradores de terras desconhecidas, matas virgens, ilhas perdidas nos oceanos mais distantes. Desde as aventuras de Marco Polo, até Rota da Seda por diversos autores, de Freya Stark à Amelia Earhart, leio regularmente livros de viagens. Depois de casada, tive incentivo ainda maior: meu sogro também era apaixonado por esses livros. Mr. West era um viajante de poltrona, fascinado pela vida de seu filho e nora que a cada oportunidade iam de um canto a outro do mundo. Viagens foi um dos pouquíssimos assuntos que eu e meu sogro tínhamos em comum, por isso mesmo o cultivamos através dos anos. Tenho ou li, não li todos os que tenho, algumas dezenas de livros de viagens, alguns me impactaram mais, e esses nem sempre são os livros mais conhecidos. Mulheres viajantes sempre me atraem.
Esta semana tive o prazer de ler as divertidas crônicas de viagem de minha amiga pessoal, Izabel da Rosa, Viagens e Emoções, que acabou de ser lançado pela editora Motres. Foi o perfeito acompanhante para um fim de semana de temperaturas amenas, nos convidando a permanecer num cantinho aconchegante para ler. Izabel da Rosa tem um grande senso de humor e não se acanha de mostrar algumas das gafes ou situações inesperadas por que passou nas inúmeras viagens que fez através do Brasil e do mundo. Desde dificuldades linguísticas com o italiano, com o espanhol e assim por diante, quanto dificuldades culturais encontradas em países muito diferentes como o Marrocos. Um momento de emoção foi registrado quando fotografa a certidão de casamento de seus antepassados, os Lourenço D’Ávila, de 1741, na Ilha Terceira, no Açores. Ocasião que se equilibra com a própria descoberta da pluralidade brasileira em Itapiranga, no extremo oeste de Santa Catarina. De aventura em aventura, vamos juntos com Izabel através do mundo da Índia à América do Sul. Foi delicioso!
Livros de viagem nos dão muitas informações: sobre o local visitado, o viajante, a época em que essas aventuras acontecem e também sobre o que a imaginação cultural denota. Por exemplo as descrições encontradas em Marco Polo sobre animais fantásticos são um exemplo do que o viés cultural pode criar. No entanto, para entender a visão do viajante é preciso nos colocarmos em seus sapatos, época, habilidade de observação, valores. Acabamos viajando para fora e para dentro de nós mesmos. É sempre uma leitura interessante.
Ricardo Kubrusly
há uma lua em são paulo outra no rio
duas iguais, mesma substância
uma no mar, outra entre rios
refletida na lama das marginais
uma se espreita nos arcos, se alonga
devora o passeio, se atira
nas águas. duas iguais criaturas
escalam o horizonte, eu: voo entreluas
Em: Acordanoite, Ricardo Kubrusly, Rio de Janeiro, Editora Seis: 1993, p.48
Quando criança, eu ficava
olhando o céu a cismar:
– quem, tão alto, a luz ligava
para acender o luar!
(Lisete Johnson)
Delicioso livro de ensaios, crônicas, uma ou outra poesia, páginas que como um leque se abrem aos nossos olhos e encantam. Não há assunto que não possa ser abordado e a variedade é grande. Vamos abrindo esse leque de considerações sobre a adolescência, por exemplo, engatilhada pela visão da ativista Greta Thunberg em Nova York; vamos do prazer de um bom banho ao quadro As Banhistas de Paul Cézanne e aos de Monet. De ciganos e uma breve estadia no hospital por um fêmur quebrado, somos guiados a considerações sobre enfermagem, Ana Néri ou ao livro Morro dos Ventos Uivantes de Emily Brontë, não sem antes, ela nos levar à ópera Carmen de Bizet. Cada uma de suas divagações e considerações enriquece o leitor. Verdadeiro presente, flanar com Raquel Naveira pelos labirintos da cultura; um passeio que liga o que somos ao mundo exterior e ao imaginário.
Até ler este livro, só conhecia Raquel Naveira por suas poesias. Casa e Castelo foi o primeiro de seus livros que li, e me encantou, depois veio Casa de Tecla e mais tarde Abadia. Raquel tem voz própria na poesia e um encantamento adicional para mim: é amante das artes plásticas. Muitos de seus poemas e outros escritos mencionam obras de arte que a impactaram. Sua escrita é acessível e rica. Seus temas variados seduzem o leitor. Recomendo a leitura sem restrições.
Figura feminina, 1971
Augusto Rodrigues (Brasil, 1903-1993)
técnica mista sobre papel, 29 x 25 cm
P/ Teresinha
A menina dos meus sonhos
é assim, como um poema:
às vezes leveza clara,
às vezes pureza gema.
Está presente em meus sonhos,
sem saber nada de mim.
às vezes fura meu peito
com esporas de cetim.
A menina dos meus sonhos
me acorda nas madrugadas,
para acender seus caprichos
mantendo a luz apagada.
Mas quando o dia amanhece
a luz invade a retina,
o despertador faz preces
afugentando a menina.
Em: As miudezas da velha, Luís Pimentel, 2ª edição, Rio de Janeiro, Myrrha, 2003, p. 57
Inverno… as horas vazias…
As árvores tristes…nuas…
E as minhas mãos estão frias
sentindo falta das tuas…
(Luiz Otávio)

Depois que publiquei meu primeiro livro de poesias, todo mundo quer saber que poetas eu li, de quem eu gosto. A lista é grande. Mas aos poucos vou contando…. Obrigada pelo interesse.