A lei do destino, soneto de Osório Dutra

19 02 2024

Luar com barcos

Inos Corradin (Itália, 1929, radicado no Brasil)

óleo sobre tela, 80 x 60 cm

 

 

A lei do destino

 

Osório Dutra

 

Quisera ser piloto a bordo de um cargueiro

E passar minha vida a partir e a chegar!

Partir para a ilusão de um sonho alvissareiro,

Chegar de Tanganica ou de Madagascar!

 

Partir como quem foge a um duro cativeiro

E chegar de um país estranho e milenar!

Partir levando n’alma a luz do meu Cruzeiro,

Chegar pelo prazer que há na ânsia de voltar!

 

Partir hoje, amanhã, depois, continuamente!

Transportar o café ao comércio do Oriente!

E das Índias trazer a pérola e o coral!

 

Partir para cumprir a lei do meu destino!

Chegar para sentir que um perfume divino

Faz de ti minha terra, o mais lindo rosal!





As máscaras, poema de Menotti del Picchia

13 02 2024
Pierrô, Colombina e Arlequim, 1928, George Barbier.

 

 

As Máscaras

 

Menotti del Picchia



O teu beijo é tão doce, Arlequim…
O teu sonho é tão manso, Pierrô…

Pudesse eu repartir-me
encontrar minha calma
dando a Arlequim meu corpo…
e a Pierrô, minha alma!

Quando tenho Arlequim,
quero Pierrô tristonho,
pois um dá-me prazer,
o outro dá-me o sonho!

Nessa duplicidade o amor todo se encerra:
Um me fala do céu…outro fala da terra!

Eu amo, porque amar é variar
e, em verdade, toda razão do amor
está na variedade…

Penso que morreria o desejo da gente
se Arlequim e Pierrô fossem um ser somente.

Porque a história do amor
só pode se escrever assim:
Um sonho de Pierrô
E um beijo de Arlequim!

 




Cara Paz, de Lisa Ginzburg, resenha

12 02 2024

Vestido de flores

Franco Bresciani (Itália, contemporâneo)

acrílica e colagem sobre tela, 50 x 50 cm

 

 

Cara Paz  de Lisa Ginzburg, tradução de Francesca Criscelli é um romance italiano, finalista do Prêmio Strega de 2021 (Itália). Foi a escolha de um dos meus grupos de leitura para o mês de fevereiro. Trata-se da história de duas irmãs.  São interdependentes, quatorze meses as separam e, no entanto, Madalena e Nina são muito diferentes, e se veem como “irmã sol, irmã lua” [159].  Filhas de um casal divorciado, elas sofrem na infância e na adolescência com a separação dos pais, principalmente porque circunstâncias legais não as deixam morar com nenhum dos progenitores.  Moram sozinhas com uma governanta numa casa grande.  Pouco veem a mãe, Glória, que sai deste casamento infeliz e veem o pai, a cada quinze dias, que, fotógrafo profissional, trabalha,  a maior parte do tempo, a mais de seiscentos quilômetros de distância, em Milão. As referências todas remetem à década de 70 do século passado e a ênfase dada à narrativa da separação traz um gosto passado, de questão social ultrapassada, narrativa estereótipa e banal.  Quantas e quantas histórias já lemos sobre crianças sem pais próximos, e quantas mais precisaremos ler?  Há de haver algum outro tema, outro enfoque ou perspectiva.   O processo do contar da história também me pareceu antigo, sem objetividade e repetitivo.

 

 

 

 

O que me fez achar anacrônica essa narrativa? Primeiro, todos os personagens têm nome, sobrenome, ocasionalmente apelidos, mesmo aqueles que mais tarde vemos serem de menor importância.  Isso taxa e dificulta o leitor atento que imediatamente se põe a memorizar detalhes que se mostrarão irrelevantes para a conclusão da história. Segundo, passeamos por Roma suas ruas, famosas lojas de Gucci a sorveteria e café Giolitti;  sabemos por que rua ou estação do metrô precisamos andar para chegar à Prima Porta ou se pegamos ou não a linha do metrô Leonardo Express.  Marcamos também lagos, praias, ilhas em que as meninas passam férias, visitam, sem falarmos dos bairros em que, mais tarde, já adultas,vivem, uma no Brooklyn, NY outra em Paris. Basta virar algumas páginas e lá estamos com uma sequência de pontos referenciais de Roma, Paris e Nova York, sem sabermos exatamente a razão de sermos apresentados a esses lugares. Não me surpreenderia se alguma promoção de turismo romano não tivesse patrocinando a publicação.  No fundo, no final mesmo da história, fica aquela sensação de que é uma obra direcionada às socialites, àqueles que precisam saber a marca do sorvete que tomam, a marca do carro comprado, a loja de moda em que alguém trabalha.  As mulheres são marcadas por sua beleza, elegância. Não se pode falar de Gloria sem mencionar sua beleza, nem da filha Nina sem mencionar seus olhos verdes. Pouco se sabe da beleza de Maddi, mas ao final um amante casual, nos diz que ela é bela.

As irmãs crescem e vivem vidas mais glamourosas do que seria de se esperar, um marido trabalhando na UNESCO, outro proprietário de mais de uma galeria de arte de sucesso.  É um mundo irreal, que tenta se enraizar no mundo real pela menção de todos os lugares pelos quais os personagens passam.  A atenção de leitor é sempre direcionada à Nina, que tem um temperamento difícil e se comporta com rebeldia;  Madalena passa a juventude contornando os problemas de Nina, mas pouco sabemos do que sente.  Casa-se com um francês, tem filhos, leva a vida de uma mulher mantida pelo marido, sem trabalhar, sem profissão, um papel que de novo me leva a achar o tema obsoleto, com ranço de uma sociedade que já acabou, que já passou. De repente, nos capítulos finais do livro, ela nos surpreende, com um encontro extraconjugal, com rapaz muito mais jovem, desconhecido.  Ficaram confirmadas minhas suspeitas de que estava diante de um conto de fadas para mulheres ociosas.

 

 

Lisa Ginzburg

 

 

Vim a este livro com grande expectativa.  Há tempos li A família Manzoni de Natalia Ginzburg, avó de Lisa, e esposa do conhecido editor, escritor e jornalista Leone Ginzburg.  A família GInzburg está por algumas gerações ligada ao mundo cultural italiano. Infelizmente fiquei decepcionada com o resultado desta leitura. Sei que Lisa Ginzburgo é autora de outras obras.  Infelizmente esta não me cativou.   Muito longa, poderia ter menos umas cinquenta páginas, rasa, repetitiva.  Três características que me levam a não recomendar a leitura.

—-

Uma observação sobre a tradução do título.  Li que o título, Cara Paz, que não faz o menor sentido em português, foi mantido ao pé da letra para honrar o trocadilho que existe em italiano, carapaça e cara paz.  Mas francamente, não há como em português darmos esse salto para o entendimento.  Temos, há muito tempo,  o hábito de trocar nomes de filmes e de livros no Brasil, pensando em como melhor chegar ao leitor ou espectador de um filme.  Porque não fazer isso com esse livro?  Honrou-se o literal em prejuízo da compreensão. Não faz sentido.  Como mostrar ao leitor do que se trata?  E mais, este título não faz o menor sentido no marketing pata o livro.  Má escolha editorial.

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Soneto principalmente do Carnaval, Carlos Pena Filho

10 02 2024

Mascarados

Raimundo de Madrazo y Garreta (Espanha, 1841-1920)

óleo sobre tela

 

 

Soneto principalmente do Carnaval

 

Carlos Pena Filho

 

Do fogo à cinza fui por três escadas

e chegando aos limites dos desertos,

entre furnas e leões marquei incertos

encontros com mulheres mascaradas.

 

De pirata da Espanha disfarçado

adormeci panteras e medusas.

Mas, quando me lembrei das andaluzas,

pulei do azul, sentei-me no encarnado.

 

Respirei as ciganas inconstantes

e as profundas ausências do passado,

porém, retido fui pelos infantes

 

que me trouxeram vidros do estrangeiro

e me deixaram só, dependurado

nos cabelos azuis de fevereiro.





Trova do Carnaval

9 02 2024
Capa da Revista Fonfon, ilustração de J. Carlos.

 

 

Se o Carnaval é de louco,

como quer o puritano,

três dias é muito pouco

para as loucuras de um ano.

 

(Manuel Pinheiro de Sousa)





Trova do Carnaval

6 02 2024
Ilustração: O baile de máscaras, Georges Jules Victor Clairin (França, 1843-1919)

 

 

 

 

Para que um carnaval

com três dias de folia,

pois se a vida é afinal,

grande baile à fantasia?

 

(Renato Vieira da Silva)





Canção do Dia de Sempre, Mário Quintana

1 02 2024

Moça lendo

Georges D’Espagnat ( França,1870-1950)

óleo sobre tela, 53 x 43 cm

 

 

 

Canção do dia de sempre

 

Mario Quintana

 

 

Tão bom viver dia a dia…

A vida assim, jamais cansa…

 

Viver tão só de momentos

Como estas nuvens no céu…

 

E só ganhar, toda a vida,

Inexperiência… esperança…

 

E a rosa louca dos ventos

Presa à copa do chapéu.

 

Nunca dês um nome a um rio:

Sempre é outro rio a passar.

 

Nada jamais continua,

Tudo vai recomeçar!

 

E sem nenhuma lembrança

Das outras vezes perdidas,

Atiro a rosa do sonho

Nas tuas mãos distraídas…





Trova de Carnaval

28 01 2024
Ilustração de Wilson William.

 

 

 

Carnaval. Reina a folia.

Quantos, nessa confusão,

se escondem na fantasia

para mostrar o que são!

 

 

(Paulo Emílio Pinto)





Trova de Carnaval

22 01 2024
Ilustração italiana, Pierrô e Colombina

 

 

 

Triste vida a do Pierrô:

sofrer pela Colombina,

que, nos braços de Arlequim,

ri de sua triste sina!

 

(Paluma Filho)





Livros pequenos para o Carnaval do leitor

19 01 2024

Sem título

Jefffrey T. Batchelor (EUA, 1960)

óleo sobre tela

 

 

Este ano tenho uma lista grande de pequenas obras para podermos ler um ou mais livros nos feriados de Carnaval.   Desta vez, diferente dos anos anteriores, eu os listei em ordem de páginas.  Espero com isso incentivá-los a ler mais de um livro, quem sabe, um livro por dia?  Confirmei que todos eles estão à venda, pelo menos na Amazon, e serão todos entregues antes do Carnaval, mesmo aqueles que foram lançados alguns anos atrás.  Nem todos aparecem em versões eletrônicas, mas isso vou deixar a encargo de vocês.   Todos os livros citados tem menos de 200 páginas.  Na figura temos as capas e abaixo delas o número de páginas oficial, que frequentemente inclui páginas sem texto literário, mas registro de ISBN e demais informações.  Sou uma grande “compradora pela capa”,  sei, é risível.  Mas não resisto a uma boa capa. 

Boa sorte, boas leituras, saiam dessas férias marcados por boas leituras.

 

 

O lugar, Annie Ernaux, Fósforo:2021. 72 páginas

A vergonha, Annie Ernaux, Fósforo: 2022, 88 páginas

Distância de resgate, Samanta Schweblin, Fósforo: 2024, 96 páginas

Vamos comprar um poeta, Afonso Cruz, Dublinense, 2020, 96 páginas

Sangue do céu, Marcello Fois, Record:2005, 110 páginas

Salvatierra,  Pedro Mairal, Todavia: 2021, 110 páginas

Knulp, Hermann Hesse, Todavia: 2020, 112 páginas

Quarto Branco, Gabriela Aguerre, Todavia: 2019, 120 páginas

Sumchi, Amos Oz, Cia das Letras: 2019, 128 páginas

Oeste, Carys Davies, Alfaguara: 2018, 128 páginas

Um álbum para Lady Laet, José Luiz Passos, Alfaguara: 2022, 128 páginas

O buda no sótão, Julie Otsuka, Grua: 2011, 144 páginas

Segredos, Domenico Starnone, Todavia: 2020, 150 páginas

O livro branco, Han Kang, Todavia: 2023, 160 páginas

Bonsai e a vida privada das árvores, Alejandro Zambra, Tusquets: 2018, 160 páginas

A história dos meus dentes, Valeria Luiselli, Cia das Letras: 2016, 166 páginas

Meninas, Liudmila Ulítskaia, Editora 34: 2021. 168 páginas

Kim Jiyoung, nascida em 1982, Cho Nam-Joo, Intrínseca: 2022, 176 páginas

Quando deixamos de entender o mundo, Benjamin Labatut, Todavia: 2022, 176 páginas

Copo Quebrado, Alain Mabanckou, Malê: 2018, 180 páginas

Carta à rainha louca, Maria Valéria Rezende, Alfaguara: 2019, 185 páginas

A importância dos telhados, Vanessa Molnar, Cepe: 2020, 190 páginas

 

Caso não tenha achado nada que lhe agrade, recomendo que veja outras listas para Carnaval neste mesmo blog e se quiser uma leitura mais leve, há sempre as aventuras de Maigret, de Simenon, cujos livros raramente chegam a 200 páginas.

 

 

Bom Carnaval a todos!