Uma antologia de textos sobre os anos 1980. Já na Amazon em e-book.
Tive o prazer de ter sido convidada para participar desta antologia de textos variados sobre os anos 80. Minha contribuição é de um conto, chamado MAR10, que se passa nos dias de hoje durante uma competição entre jogadores do campeonato do e-game Super Mario Brothers.
Mas há diversos autores e portanto muitas maneiras de se comemorar essa década que marcou tanto a cultura popular.
Espero que vocês gostem.
Edição eletrônica gratuita se você faz parte do Kindle Unlimited. Se não faz parte, o custo é R$16,00 para edição eletrônica. Em papel: sob demanda, 7 a 10 dias. Veja preço na Amazon.
Edição, organização e produção de Monique Machado.
Em junho, o livro do mês de meu grupo de leituras foi Olhai os lírios do campo de Érico Veríssimo. Algumas de nós já haviam lido a obra na adolescência, mas agora a história de Eugênio, Olívia e Eunice foi mais impactante porque amadurecemos. Todos gostaram da leitura, ainda que a parte final do enredo tivesse se prolongado mais do que é esperado na literatura contemporânea e o tom moralista da trama tenha deixado alguns um tanto desapontados. Aliás o próprio Érico Veríssimo na apresentação desta edição diz:
“Há em Olhai os lírios do campo uma filosofia salvacionista barata que me faz perguntar a mim mesmo como pude escrever tais coisas, mesmo levando-se em conta o fato de haver atribuído essa filosofia a personagens do livro.”
Hoje temos um Brasil diferente do retratado neste romance de 1938. Provavelmente escrito pouco tempo antes do lançamento. Uma época controversa na Europa e no Brasil com o crescimento do Nazismo e o estabelecimento da ditadura de Vargas. Há uma passagem que me levou a ponderar sobre nosso mundo, hoje. Veríssimo narra uma pequena reunião numa residência particular, onde um pintor, convidado de honra, expõe sua visão sobre a Europa. Presentes, três ou quatro personagens, inclusive Eugênio que se mantém calado, que recitam suas posições políticas defendendo esta ou aquela opinião. Esta é uma conversa marcante no livro, praticamente a meio caminho de seu desfecho. Momento onde Veríssimo exemplifica pontos de vista políticos em existência no país, sem defender opiniões. Marquei páginas, parágrafos e parágrafos. Este foi um dos meios ele usou para trazer ao leitor uma visão das correntes existentes naquele momento. Interessante perceber que este instrumento da escrita foi aos poucos abandonado por escritores contemporâneos. Nossos diálogos hoje, são menores, e menos didáticos. Não obstante, fiquei curiosa de ver como nosso pequeno grupo de leitores iria se aproximar desse momento do livro, já que atualmente estamos cautelosos para explicitar qualquer opinião política, quer sobre o Brasil ou guerras europeias, oriente médio ou qualquer outro lugar que tome cinco minutos do noticiário local. Aqui estão alguns parágrafos de Olhai os lírios do campo.
“…nossa sociedade vai sendo aos poucos solapada pelo bolchevismo. O plano é diabólico. Não é só a literatura que prepara terreno para o amor livre, para o ateísmo, para a imoralidade e para a revolução comunista. É o cinema também, é o amoralismo dos filmes: divórcios, histórias escabrosas, músicas sensuais, danças lúbricas, nudismo, anedotas canalhas, bebedeiras, crimes, suicídios… O cinema explora tudo isso. O público vai ficando impregnado”
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“Não entendo essas histórias de Platão. Comigo é no fascismo. Mussolini disciplinou a Itália. Hitler reergueu a Alemanha. Disciplina! Construir uma nação é quase o mesmo que construir um grande edifício. É preciso primeiro um plano, uma ideia. Depois, bom material de resistência, bases sólidas, equilíbrio… — E beleza de linhas — acrescentou Eunice. — O fascismo é belo e vertiginoso. “Vivere pericolosamente.”
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“No meio da chatice da Europa decadente — falou Filipe — ergueu-se o grande arranha-céu do fascismo.” “Resta saber — disse ele — se as bases desse edifício são sólidas. Tenho graves dúvidas.…” … “O fascismo é um castelo pomposo edificado sobre areia movediça.”
É difícil imaginar alguma conversa semelhante a essa nos dias de hoje. Vivemos num mundo de censura. Se as ideias de alguém não coincidem com aquelas de seu interlocutor, será sempre melhor não pronunciá-las, pois não haverá qualquer escuta. As pessoas preferem se afastar a ouvir o que não condiz com sua preferência. Como consequência todos se calam. Foi isso exatamente o que aconteceu no meu grupo de leitura. A fala sobre o posicionamento político não aconteceu. Nenhum dos membros trouxe para consideração este ou outro diálogo sobre a política da época. E foram algumas páginas. Triste constatação.
Esta é uma hora penosa. Vergonhosa para quem está acostumado a lidar com ideias. Tenho muita pena que tenhamos tanto medo de nos expressar.
É gratificante quando sou apresentada a uma nova escritora, em seu primeiro romance, e saio da leitura entusiasmada, imaginando como será bom me encontrar no futuro, com a autora em outra obra de ficção. Tana Moreano presenteia o leitor com prosa direta, sem grandes rebuscados, contando uma história eletrizante, perfeitamente ritmada, sem cenas repetitivas, sem causar um único um momento de tédio. Sua escrita me pegou logo no primeiro capítulo de Cora do Cerrado, [Maringá, Editora: A. R. Publisher Editora: 2024]. Eu já vinha seguindo a escritora no Instagram, em razão dos vídeos em que explicava palavras encontradas no português falado no interior do país, que muitas vezes eu desconhecia. Foi assim que me familiarizei com a escritora e quando o livro apareceu em pré-venda, decidi imediatamente comprá-lo. De fato, o livro será lançado neste fim de semana, no sábado, dia 6 de julho no Centro de Ação Cultural, à Avenida XV de Novembro, Zona 01 em Maringá-PR às 19h. Se puder, vá lá prestigiar o nascimento de uma boa escritora. Porque Tana Moreano é uma engenheira agrônoma, carioca de nascimento e mineira de coração, que por seu trabalho acabou “assimilando vivências e costumes” de diversos locais do Brasil. Esse conhecimento adquirido in loco, essa vivência íntima com a vida recôndita do país, aparece na firmeza da prosa com que relata as aventuras de Cora.
Fui puxada para a história da personagem principal desse pequeno romance, pelo relato da primeira cena do livro, quando somos apresentados ao que irá acontecer em algum ponto da narrativa. Sabemos de antemão que presenciamos as consequências de algo com sintomas de catástrofe acontecida a essa personagem à qual ainda não fomos formalmente apresentados. Contudo, por isso mesmo, desde as primeiras vinte linhas, começamos a torcer por ela. Sabemos que está correndo perigo. Nossa simpatia é imediatamente seduzida por suas ações e a tensão é tanta, que não dá vontade de parar de ler até sabermos como foi que chegamos àquele ponto. Fui fisgada como um peixe com a boca presa no anzol e não resisti.
Ainda que ao descrever esse início eu possa ter passado a ideia de se tratar de um suspense, isso está longe da verdade, pelo menos pelos parâmetros mais comuns dos contos de suspense. Há sim, uma busca tenaz do leitor por resolver o mistério que justificará a cena inicial. Porém, esta é a história de uma mulher que, tendo nascido na cidade grande, conhece um homem do interior e acaba indo morar na fazenda da família dele no cerrado. Jovem, com um filho pequeno de um relacionamento anterior, cujo namorado desapareceu, ela se encontra no início de uma gravidez, desta vez do rapaz que a leva à vida no campo. Sua adaptação a esse novo mundo é repleta de desafios. Mas ela precisa, também, superar limitações interiores para ser bem sucedida na empreitada do viver. Não há como não torcer por Cora.
Tana Moreano
Além de se tratar de uma trama irresistível, Cora do Cerrado cumpre um papel importante, ao mostrar aos leitores, um exemplo de perseverança e de rigoroso desejo de sobrevivência. Com olhos ‘estrangeiros’, de alguém que não pertence ao local onde vive, ela observa o comportamento daqueles à sua volta. Aprende com as mulheres com quem se relaciona a prática do próprio sustento em ambiente inóspito. Ela se familiariza com o mínimo para superar os obstáculos que lhe são impostos tanto pela natureza, quanto pelos costumes locais e ganha, graças à imensa vontade de se ajustar a esse novo mundo, coragem para superar limitações físicas e emocionais. Cora é uma heroína exemplar.
Ao final do livro me peguei recordando que na minha juventude e até mesmo nas leituras que fiz como jovem adulta, raramente encontrei, na literatura brasileira, exemplos tão atraentes de mulheres vencedoras como Cora. Encontrei sim, sacrifícios semelhantes, mas no geral, lembro-me mais de mulheres que se submetiam com ou sem resignação aos modelos impostos pelos tempos. E considerei quanto ocasionalmente teria sido importante para mim, poder recorrer em hora de dúvida, a um personagem como Cora. Ainda bem que esta veio ´para preencher esse vazio no nosso mundo.
Recomendo sem restrições. Violência atenuada por exemplar discrição. E não é gratuita. Vale a leitura, espero que se transforme em livro de grande sucesso.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.