O cacto, poema de Manuel Bandeira

29 07 2024

Mandacaru, 1951

Dimitri Ismailovitch, (Ucrânia-Brasil, 1892-1976)

crayon e pastel sobre papel, 54 x 36 cm

 

 

 

O Cacto

 

Manoel Bandeira

 

Aquele cacto lembrava os gestos desesperados da estatuária:

Laocoonte constrangido pelas serpentes,

Ugolino e os filhos esfaimados.

Evocava também o nosso seco Nordeste, carnaubais, caatingas…

Era enorme, mesmo para esta terra de feracidades excepcionais.

 

Um dia um tufão furibundo abateu-o pela raiz.

O cacto tombou atravessado na rua,

Quebrou os beirais do casario fronteiro,

Impediu o trânsito de bondes, automóveis, carroças,

Arrebentou os cabos elétricos e durante vinte e quatro horas privou a cidade de iluminação e energia:

 

– Era belo, áspero, intratável.

 

Petrópolis, 1925

 

Em: Libertinagem, Manuel Bandeira, Global Editora, São Paulo, 2013





A preguiça, poesia infantil de Martins D’Alvarez

27 07 2024
Ilustração anônima, alegoria da Preguiça.

 

 

A preguiça

 

Martins D’Alvarez

 

A preguiça ficou doente

Com preguiça de comer.

Preguiça não quis remédio

Com preguiça de beber.

 

Preguiça não sai de casa

Preguiça de levantar!

Preguiça não se espreguiça

Preguiça de esticar.

 

Preguiça tem tal preguiça

De sarar e de viver,

Que preguiça só não morre

Com preguiça de morrer.

 

Em: No mundo da lua, Martins D’Alvarez, Editora Casa de José de Alencar, UFC:2000





Já na Amazon, para os amantes dos anos 80!

23 07 2024
Uma antologia de textos sobre os anos 1980. Já na Amazon em e-book.

Tive o prazer de ter sido convidada para participar desta antologia de textos variados sobre os anos 80. Minha contribuição é de um conto, chamado MAR10, que se passa nos dias de hoje durante uma competição entre jogadores do campeonato do e-game Super Mario Brothers.

Mas há diversos autores e portanto muitas maneiras de se comemorar essa década que marcou tanto a cultura popular.

Espero que vocês gostem.

Edição eletrônica gratuita se você faz parte do Kindle Unlimited. Se não faz parte, o custo é R$16,00 para edição eletrônica. Em papel: sob demanda, 7 a 10 dias. Veja preço na Amazon.

Edição, organização e produção de Monique Machado.

Também em: espanhol, francês e inglês.

ESTAREMOS NA BIENAL DO LIVRO EM SÃO PAULO.





Trova do inverno

22 07 2024
Ilustração, para Life Magazine, 1940,  Albert Dorne (EUA, 1904-1965).

 

 

Na lareira, um cobertor;

bule quente com café;

um romance ao bom leitor

neste inverno o prazer é…

 

(Fábio Siqueira do Amaral)





Três idades, poesia de Manuel Bandeira

18 07 2024

Três idades da mulher, 1905

Gustav Klimt (Áustria, 1862-1908)

óleo sobre tela, 180 x 180 cm

Galeria Nacional de Arte Moderna e Contemporânea, Roma

 

 

Três idades

 

Manuel Bandeira

 

A vez primeira que te vi,

Era eu menino e tu menina.

Sorrias tanto… Havia em ti

Graça de instinto, airosa e fina.

Eras pequena, eras franzina…

 

A ver-te, a rir numa gavota,

Meu coração entristeceu

Por que? Relembro, nota a nota,

Essa ária como enterneceu

O meu olhar cheio do teu.

 

Quando te vi segunda vez,

Já eras moça, e com que encanto

A adolescência em ti se fez!

Flor e botão… Sorrias tanto…

E o teu sorriso foi meu pranto…

 

Já eras moça… Eu, um menino…

Como contar-te o que passei?

Seguiste alegre o teu destino…

Em pobres versos te chorei

Teu caro nome abençoei.

 

Vejo-te agora. Oito anos faz,

Oito anos faz que não te via…

Quanta mudança o tempo traz

Em sua atroz monotonia!

Que é do teu riso de alegria?

 

Foi bem cruel o teu desgosto.

Essa tristeza é que diz…

Ele marcou sobre o teu rosto

A imperecível cicatriz:

És triste até quando sorris…

 

Porém teu vulto conservou

A mesma graça ingênua e fina…

A desventura te afeiçoou

À tua imagem de menina.

E estás delgada, estás franzina…

 

 

Em: Estrela da Vida Inteira- poesias reunidas, Manuel Bandeira, Rio de Janeiro, José Olympio: 1979, pp 27-28.





Trova da chuva fina

15 07 2024
Ilustração:  Maria Pia Franzoni (Itália,1907-1978)

A garoa é ouro fino

das arcas celestiais

que desce em fluido divino

na terra dos cafezais …

(Durval Mendonça)





Conversas ontem e hoje

12 07 2024

A discussão, 1890-1895

Louis Moeller (EUA, 1855-1930)

óleo sobre tela, 46 x 61 cm

Metropolitan Museum, NYC

 

 

 

Em junho, o livro do mês de meu grupo de leituras foi Olhai os lírios do campo de Érico Veríssimo.  Algumas de nós já haviam lido a obra na adolescência, mas agora a história de Eugênio, Olívia e Eunice foi mais impactante porque amadurecemos. Todos gostaram da leitura, ainda que a parte final do enredo tivesse se prolongado mais do que é esperado na literatura contemporânea e o tom moralista da trama tenha deixado alguns um tanto desapontados.  Aliás o próprio Érico Veríssimo na apresentação desta edição diz: 

“Há em Olhai os lírios do campo uma filosofia salvacionista barata que me faz perguntar a mim mesmo como pude escrever tais coisas, mesmo levando-se em conta o fato de haver atribuído essa filosofia a personagens do livro.”

Hoje temos um Brasil diferente do retratado neste romance de 1938.  Provavelmente escrito pouco tempo antes do lançamento.  Uma época controversa na Europa e no Brasil com o crescimento do Nazismo e o estabelecimento da ditadura de Vargas. Há uma passagem que me levou a ponderar sobre nosso mundo, hoje.  Veríssimo narra uma pequena reunião numa residência particular, onde um pintor, convidado de honra, expõe sua visão sobre a Europa. Presentes, três ou quatro personagens, inclusive Eugênio que se mantém calado, que recitam suas posições políticas defendendo esta ou aquela opinião. Esta é uma conversa marcante no livro, praticamente a meio caminho de seu desfecho.  Momento onde Veríssimo exemplifica pontos de vista políticos em existência no país, sem defender opiniões.  Marquei páginas, parágrafos e parágrafos.  Este foi um dos meios ele usou para trazer ao leitor uma visão das correntes existentes naquele momento. Interessante perceber que este instrumento da escrita foi aos poucos abandonado por escritores contemporâneos.  Nossos diálogos hoje, são menores, e menos didáticos.  Não obstante, fiquei curiosa de ver como nosso pequeno grupo de leitores iria se aproximar desse momento do livro, já que atualmente estamos cautelosos para explicitar qualquer opinião política, quer sobre o Brasil ou guerras europeias, oriente médio ou qualquer outro lugar que tome cinco minutos do noticiário local. Aqui estão alguns parágrafos de Olhai os lírios do campo.

“…nossa sociedade vai sendo aos poucos solapada pelo bolchevismo. O plano é diabólico. Não é só a literatura que prepara terreno para o amor livre, para o ateísmo, para a imoralidade e para a revolução comunista. É o cinema também, é o amoralismo dos filmes: divórcios, histórias escabrosas, músicas sensuais, danças lúbricas, nudismo, anedotas canalhas, bebedeiras, crimes, suicídios… O cinema explora tudo isso. O público vai ficando impregnado”

………..

“Não entendo essas histórias de Platão. Comigo é no fascismo. Mussolini disciplinou a Itália. Hitler reergueu a Alemanha. Disciplina! Construir uma nação é quase o mesmo que construir um grande edifício. É preciso primeiro um plano, uma ideia. Depois, bom material de resistência, bases sólidas, equilíbrio… — E beleza de linhas — acrescentou Eunice. — O fascismo é belo e vertiginoso. “Vivere pericolosamente.”

………..

No meio da chatice da Europa decadente — falou Filipe — ergueu-se o grande arranha-céu do fascismo.“Resta saber — disse ele — se as bases desse edifício são sólidas. Tenho graves dúvidas.…” … “O fascismo é um castelo pomposo edificado sobre areia movediça.”

 

 

 

 

 

 

É difícil imaginar alguma conversa semelhante a essa nos dias de hoje. Vivemos num mundo de censura.  Se as ideias de alguém não coincidem com aquelas de seu interlocutor, será sempre melhor não pronunciá-las, pois não haverá qualquer escuta. As pessoas preferem se afastar a ouvir o que não condiz com sua preferência. Como consequência todos se calam.  Foi isso exatamente o que aconteceu no meu grupo de leitura. A fala sobre o posicionamento político não aconteceu. Nenhum dos membros trouxe para consideração este ou outro diálogo sobre a política da época. E foram algumas páginas. Triste constatação. 

Esta é uma hora penosa.  Vergonhosa para quem está acostumado a lidar com ideias.  Tenho muita pena que tenhamos tanto medo de nos expressar.





Estação, poema de José do Carmo Francisco

11 07 2024

Ferrovia

Dario Mecatti (Itália-Brasil, 1909-1976)

óleo sobre tela, 49 x 61 cm

 

 

 

Estação

 

José do Carmo Francisco

 

Um comboio que partisse

Sem sair da estação

No lado esquerdo da linha

Transporte dum coração

 

Um comboio que chegasse

Na ânsia de não saber

Qual janela  escolhida

No trânsito desta mulher

 

Afinal sombra, um modelo

Visto apenas de passagem

O comboio não se deteve

Não era minha viagem

 

Afinal pó de um momento

Registrado num poema

Se o comboio esteve aqui

Era o mesmo do cinema

 

Em: As emboscadas do esquecimento, José do Carmo Francisco, Santarém, Ed. O Mirante:1999, p.40





Resenha: Cora do Cerrado, de Tana Moreano

5 07 2024

Menina lendo livro, 1937

Winifred Pattison (Inglaterra, 1920)

[née Winifred Wheeler]

óleo sobre tela

 

 

 

É gratificante quando sou apresentada a uma nova escritora, em seu primeiro romance, e saio da leitura entusiasmada, imaginando como será bom me encontrar no futuro, com a autora em outra obra de ficção.  Tana Moreano  presenteia o leitor com prosa direta, sem grandes rebuscados, contando uma história eletrizante, perfeitamente ritmada, sem cenas repetitivas, sem causar um único um momento de tédio.  Sua escrita me pegou logo no primeiro capítulo de Cora do Cerrado, [Maringá, Editora: A. R. Publisher Editora: 2024]. Eu já vinha seguindo a escritora no Instagram, em razão dos vídeos em que explicava palavras encontradas no português falado no interior do país, que muitas vezes eu desconhecia.  Foi assim que me familiarizei com a escritora e quando o livro apareceu em pré-venda, decidi imediatamente comprá-lo. De fato, o livro será lançado neste fim de semana, no sábado, dia 6 de julho no Centro de Ação Cultural, à Avenida XV de Novembro, Zona 01 em Maringá-PR às 19h.  Se puder, vá lá prestigiar o nascimento de uma boa escritora.  Porque Tana Moreano é uma engenheira agrônoma, carioca de nascimento e mineira de coração, que por seu trabalho acabou “assimilando vivências e costumes” de diversos locais do Brasil. Esse conhecimento adquirido in loco, essa vivência íntima com a vida recôndita do país, aparece na firmeza da prosa com que relata as aventuras de Cora.

Fui puxada para a história da personagem principal desse pequeno romance, pelo relato da primeira cena do livro, quando somos apresentados ao que irá acontecer em algum ponto da narrativa.  Sabemos de antemão que presenciamos as consequências de algo com sintomas de catástrofe acontecida a essa personagem à qual ainda não fomos formalmente apresentados.  Contudo, por isso mesmo, desde as primeiras vinte linhas, começamos a torcer por ela.  Sabemos que está correndo perigo.  Nossa simpatia é imediatamente seduzida por suas ações e a tensão é tanta, que não dá vontade de parar de ler até sabermos como foi que chegamos àquele ponto.  Fui fisgada como um peixe com a boca presa no anzol e não resisti.

 

 

 

 

Ainda que ao descrever esse início eu possa ter passado a ideia de se tratar de um suspense, isso está longe da verdade, pelo menos pelos parâmetros mais comuns dos contos de suspense.  Há sim, uma busca tenaz do leitor por resolver o mistério que justificará a cena inicial.  Porém, esta é a história de uma mulher que, tendo nascido na cidade grande, conhece um homem do interior e acaba indo morar na fazenda da família dele no cerrado.  Jovem, com um filho pequeno de um relacionamento anterior, cujo namorado desapareceu, ela se encontra no início de uma gravidez, desta vez do rapaz que a leva à vida no campo. Sua adaptação a esse novo mundo é repleta de desafios. Mas ela precisa, também, superar limitações interiores para ser bem sucedida na empreitada do viver.  Não há como não torcer por Cora.

 

 

 

Tana Moreano

 

 

 

Além de se tratar de uma trama irresistível, Cora do Cerrado cumpre um papel importante, ao mostrar aos leitores, um exemplo de perseverança e de rigoroso desejo de sobrevivência.  Com olhos ‘estrangeiros’, de alguém que não pertence ao local onde vive, ela observa o comportamento daqueles à sua volta.  Aprende  com as mulheres com quem se relaciona a prática do próprio sustento em ambiente inóspito.  Ela se familiariza  com o mínimo para superar os obstáculos que lhe são impostos tanto pela natureza, quanto pelos costumes locais e ganha, graças à imensa vontade de se ajustar a esse novo mundo, coragem para superar limitações físicas e emocionais.  Cora é uma heroína exemplar.

Ao final do livro me peguei recordando que na minha juventude e até mesmo nas leituras que fiz como jovem adulta, raramente encontrei, na literatura brasileira,  exemplos tão atraentes de mulheres vencedoras como Cora. Encontrei sim, sacrifícios semelhantes, mas no geral, lembro-me mais de mulheres que se submetiam com ou sem resignação aos modelos impostos pelos tempos.  E considerei quanto ocasionalmente teria sido importante para mim, poder recorrer em hora de dúvida, a um personagem como Cora.  Ainda bem que esta veio ´para preencher esse vazio no nosso mundo.

Recomendo sem restrições. Violência atenuada por exemplar discrição. E  não é gratuita.  Vale a leitura, espero que se transforme em livro de grande sucesso.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Carpe Diem, poema de Mário Faustino

4 07 2024

Jovem lendo, 2008

Jose van Gool (Holanda, 1945)

óleo sobre tela

 

 

 

Carpe Diem

 

Mário Faustino

 

 

 

Que faço deste dia, que me adora?

Pegá-lo pela cauda, antes da hora

Vermelha de furtar-se ao meu festim?

Ou colocá-lo em música, em palavra,

Ou gravá-lo na pedra, que o sol lavra?

Força é guardá-lo em mim, que um dia assim

Tremenda noite deixa se ela ao leito

Da noite precedente o leva, feito

Escravo dessa fêmea a quem fugira

Por mim, por minha voz e minha lira.

 

 

(Mas já de sombras vejo que se cobre

Tão surdo ao sonho de ficar — tão nobre.

Já nele a luz da lua — a morte — mora,

De traição foi feito: vai-se embora.)

 

[27/7/1954]

 

 

 

Em: O homem e sua hora e outros poemas, Mário Faustino, org. Maria Eugênia Boaventura, São Paulo, Companhia das Letras: 2009, p.195