Como escrever um romance, texto de Katherine Pancol

16 02 2013

François Fressineir, Belles_Heures

Ponto alto, s/d

François Fressinier (França, 1968)

Técnica mista com pintura a óleo

www.françoisfressinier.com

“Olhou para o computador, um lindo laptop branco que esperava por ela de goela aberta sobre a mesa da cozinha, cheia de livros, faturas, canetas hidrocor, Bics, folhas de papel, migalhas do café da manhã. Seu olhar deslizou sobre o círculo amarelado deixado pelo bule de chá, a tampa do pote de geléia de damasco, um guardanapo enrolado como uma serpente branca…Precisava abrir espaço para poder escrever e deixar sua tese de habilitação de lado. Precisava de tanta coisa, tanta coisa, suspirou, repentinamente cansada diante da idéia de todo o esforço que teria de fazer. Como escolher o tema de um livro? Como criar os personagens? A história? As reviravoltas? Elas se originam nos acontecimentos exteriores ou na revolução dos personagens? Como começar um capítulo? Como organizá-lo? Devia reler seus trabalhos e pesquisas para evocar as façanhas de Rolland, Guilherme, o Conquistador, Ricardo Coração de Leão, Henrique II, pedir ao espírito de Chrétien de Troyes que baixasse sobre ela? Ou se inspirar em Shirley, Hortense, Iris, Philippe, Antoine e Mylène, vesti-los com um hennin medieval, um par de polainas ou tamancos, instalá-los no campo ou no castelo? O cenário muda, as oscilações do coração perduram. O coração bate, idêntico, em Leonor, Scarlett ou Madonna. As pregas de um vestido, as cotas e malha de ferro se desfazem em poeira, mas os sentimentos permanecem. Por onde começar?, repetia Josephine consigo mesma, observando a intensidade da luz daquele mês de janeiro baixar suavemente sobre a cozinha, iluminar com luz pálida aborda da pia e morrer no escorredor. Existe alguns livro de receitas para escrever? Quinhentos gramas de amor, 350gr de referências históricas, um quilo de suor… deixe cozinhar em fogo brando, em forno quente, mexa para evitar que grude ou forme caroços, deixe repousar três meses, seis meses, um ano. Stendhal, segundo dizem, escreveu o Cartouche de Parma em três semanas, Simenon finalizava seus romances em dez dias. Mas durante quanto tempo eles carregaram essas obras consigo e lhes deram alimento ao levantar de manhã, vestir as calças, beber seu café, recolher correspondência, observar a luz da manhã se espalhando sobre a mesa do café da manhã ou contar os grãos de poeira num raio de sol? Deixar o tempo agir. Encontrar seu modo de usar. Beber café como Balzac. Escrever em pé como Hemingway. Encerrada como Colette, quando Willy a trancafiava. Fazer pesquisa como Zola. Usar ópio, um bom tinto, hachiche. Vociferar como Flaubert. Correr, devagar, dormir. Ou não dormir como Proust. E eu? O tecido encerado da toalha da mesa da cozinha, o face a face com a pia, o bule de chá, o tique-taque do relógio, as migalhas do café da manhã e as prestações a pagar! Léautaud dizia: “escreva como quem escreve uma carta, não  releia; não aprecio a grande literatura só gosto da conversação escrita.” A quem posso enviar uma carta? Não tenho nenhum amante me esperando no parque. Não tenho mais marido. Minha melhor amiga mora no mesmo andar que eu.”

Em: Os olhos amarelos dos crocodilos, Katherine Pancol, Rio de Janeiro, Suma das Letras:2012, p.198-199.





Katherine Pancol e a ficção encantada para adultos

14 02 2013

family-ties-ruben-ubiera, acrilica sobre madeira, caixas de charutos, tampas.

Laços de família, s/d

Ruben Ubiera (República Dominicana, 1975)

acrílica sobre madeira

[tampas de caixas de charutos]

www.urbanpopsoul.com

Um milhão de franceses compraram e leram, presume-se, Os olhos amarelos dos crocodilos de Katherine Pancol. Quando soube desses números pensei estarmos falando de um livro para adolescentes.  Tamanha popularidade nos dias de hoje atribui-se com frequência a esses novos leitores. Mas nesse Carnaval arrisquei sua leitura, já que me veio recomendado por uma boa amiga.  Que prazer!

Trata-se de um romance sobre gente comum, fazendo coisas comuns, tomando decisões nem sempre sábias, chegando a resultados surpreendentes.  Essas páginas retratam uma família: uma família e seus correlatos. No centro da narrativa estão duas irmãs – Joséphine e Iris —  que não poderiam ser mais opostas em temperamento,  aparência física, posição social e interesses. Conhecemos seus filhos, seus pais, seus maridos, o padrasto e outros personagens que compõem esse cosmos urbano: amigos, amantes, namorados.   É uma história contemporânea, com personagens que, se não conhecemos, poderíamos vir a conhecer, entre nossos amigos e familiares.  São professores, advogados, comerciantes, adolescentes, cabeleireiros, vendedores, todos de maior ou menor sucesso profissional e, certamente, todos à procura do bem estar, da felicidade.  Katherine Pancol consegue gerenciar um bom leque de personalidades, mostrando como se víssemos numa lâmina de microscópio, um retrato das fragilidades e solidez dos valores da classe média.  Aqui, da classe média francesa, mas cujos objetivos, preocupações e limitações são típicas de qualquer lugar do mundo.

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Mas não é só um retrato da classe média.  Não.  Nessa receita de sucesso há também alguns ingredientes quase fantásticos que nos lembram que uma boa história precisa de mocinhos e vilões, de traição e de amor.  Se analisarmos alguns segmentos poderíamos traçar paralelos com muitos contos de fadas que povoaram nossa infância e que são apreciados até hoje por todos – veja-se o exemplo dos parques de diversões, onde Cinderela e Branca de Neve são sucesso absoluto.  Não que Katherine Pancol esteja contando uma história da carochinha para adultos. Não, não é isso.  Mas nesse romance há cobiça, afronta, roubo, más intenções, injúria tudo na dosagem certa para ser eventualmente corrigido e de extrema satisfação para o leitor.

No centro da história está Joséphine, a anti-heroína por excelência. Um patinho feio.  Um rato de biblioteca. Explorada por todos.  Reticente, compreensiva demais, apagada. Indecisa, altruísta, meditativa. Mas, por quem torcemos do início ao fim.  Nossa Gata Borralheira tem uma paixão: a Idade Média, o século XII.  Sonha com as heroínas da época, com as aventuras dos cavaleiros, com as Cruzadas, com os vilarejos do reino de Aquitânia.  Sua paixão, sua fascinação intelectual, é desprezada por todos à sua volta. Incompreendida, ela quase passa a vida em brancas nuvens, soçobrando de porto em porto, das filhas ao marido, à mãe, à irmã. E no entanto, sabemos que, se há justiça nesse mundo, ela será vingada, assim como acontece com todas as heroínas dos contos clássicos do folclore europeu de onde vieram os contos de Grimm e Andersen.

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Katherine Pancol

A história de Joséphine também dá grande satisfação ao leitor – e acredito que a maioria dos leitores desse romance sejam mulheres – porque é uma história, em que diferentemente dos contos de fadas, o poder transformador, o elemento que eventualmente altera a imagem que Joséphine tem de si mesma, não lhe vem através de fadas madrinhas, mas através de seu crescimento interno, crescimento emocional e descobertas sobre sua própria habilidade de controlar as vicissitudes, os obstáculos imprevisíveis que aparecem em seu caminho. À semelhança de muitos pequenos heróis, de muitos desportistas, políticos, pessoas que chegam a um lugar de prestígio, Joséphine terá que vencer seus próprios medos, seus próprios monstros, para se tornar a mulher cujo potencial antevemos, mas que seus pares não lhe creditam. Uma ótima narrativa, deliciosa mesmo, com um ritmo maravilhoso e algumas lições de vida.  Não se pode esperar mais de um bom entretenimento; afinal um milhão de franceses não poderiam estar errados.





Ansiedade, texto de Katherine Pancol

9 02 2013

ernst29 O roubo da noiva, 1940

Max Ernst ( Alemanha 1891-1976)

óleo sobre tela, 130 x 96 cm

Peggy Guggenheim Collection, Veneza, Itália

“O mais duro era não se deixar levar pelo pânico. O pânico chegava sempre à noite. Podia ouvir o medo crescer dentro dela e não podia fugir. Virava e revirava no colchão sem conseguir dormir. Pagar as prestações do apartamento, as taxas do imóvel, os impostos, as lindas roupas de Hortense, a manutenção do carro, os seguros, as contas de telefone, a mensalidade da piscina, as férias, as entradas para o cinema, os sapatos, os aparelhos de dente… Enumerava as despesas e, com os olhos arregalados, aterrorizada, se enrolava nas cobertas para não pensar mais. Às vezes, acordava de vez, sentava na cama, fazia e refazia as contas em todos os sentidos para constatar que não, não ia conseguir, embora durante o dia os números tivessem dito sim! Acendia a luz, em pânico, e ia procurar o pedacinho de papel onde tinha rabiscado suas contas. Refazia tudo em todos os sentidos até reencontrar… seu bom-senso e apagar a luz, exausta.

Tinha medo das noites.”

Em: Os olhos amarelos dos crocodilos, Katherine Pancol, Rio de Janeiro, Suma das Letras:2012, p.82





O intocável, de John Banville: retrato do homem, do espião e de uma era.

3 02 2013

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O espião que sabia demais [Tinker Taylor Soldier Spy]

Nop Briex (Holanda, 1965)

óleo sobre tela

www.briex.eu

Há muito eu tinha curiosidade sobre o duplo espião britânico, Anthony Blunt.  Conheci-o como historiador da arte especializado na pintura européia do século XVIII; diretor de um dos mais sérios centros de pesquisa da arte, Courtauld Institute of Art.  Mas antes mesmo de eu me formar em história da arte, o escândalo no qual ele  foi figura central — agente duplo do serviço secreto britânico MI5  para a Inglaterra e agente para a União Soviética dos anos 30 ao início dos anos 50, membro do chamado  Cinco de Cambridge [Cambridge Five]  ainda era debatido e questionado.  Nada poderia ter surpreendido mais o mundo dos museus e da pesquisa acadêmica do que a descoberta de que o pacato mundo das bibliotecas e dos porões de museus poderiam ter servido de disfarce para tal profissão.  A partir de 1979 Anthony Blunt passou a ter uma nuvem de mistério a sua volta.  Como?  Porque?   Não que a vida particular de qualquer historiador de arte seja de interesse público mas espionagem era algo completamente fora da norma. E vez por outra, na atividade comum de perda de tempo à volta de uma mesa de bar, nós, estudantes de pós-graduação tentávamos  imaginar como uma pessoa de tamanho porte acadêmico,  tão chegada à Rainha da Inglaterra, poderia ter se imiscuído na espionagem e contra-espionagem?

John Banville responde a todas essas questões e a muitas outras nesse romance biográfico  baseado na vida de Anthony Blunt, retratado sob o pseudônimo de Victor Maskell.   Fazem parte do enredo também  Guy Burgess e Donald Maclean, (todos com pseudônimos) do grupo ‘Espiões de Cambridge’.   Banville preenche lacunas e satisfaz nossas dúvidas.  Este é o estudo profundo de uma personalidade.  Talvez um dos personagens mais tridimensionais  da literatura atual.  É  vívido. Parece real.  A história é sedutora  e Banville nunca deixa de entreter e acima de tudo de mostrar a pessoa complexa e coerente do homem e do espião,  dentro dos parâmetros sociais e de época.

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Mas, parafraseando Tom Jobim, “A Inglaterra não é para principiantes”.  Para uma compreensão mais apurada do texto,  um bom conhecimento das nuances da sociedade inglesa certamente ajudará na leitura; uma boa dose da história do enlace das classes altas inglesas com a política nazista, também.  Por fim, um conhecimento superficial, mas coerente do estoicismo e da posição ética de Sêneca podem ajudar a entender a percepção que Banville tem de Blunt.  Será interessante lembrar também os preconceitos da sociedade, numa época anterior à Segunda Guerra Mundial –  homossexualismo, conflito de classes, a questão irlandesa — tudo isso  adicionará uma pitada de interesse.   E o mundo da década de 30 estava enamorado do socialismo,  ato que justificou ditaduras de direita e de esquerda do período:  Itália (Mussolini), Espanha (Franco),Portugal ( Salazar),  Nicarágua (Somoza), Brasil (Vargas), Grécia (Metaxas), Cuba (Batista), Rússia (Stalin), sem mencionar a Alemanha de Hitler. Fica evidente através do texto que  Anthony Blunt não se sentia parte nem da sociedade inglesa, nem de nenhuma outra.  Era um verdadeiro estranho no ninho: irlandês, pobre mas com nome de família – primo distante da rainha — , homossexual, com acesso ilimitado à corte – não é de surpreender, portanto, seu solipsismo, sua visão única do mundo como uma projeção de suas próprias fantasias.  A tendência seria desgostar dessa personalidade dúbia, inconseqüente, com uma atitude tão blasé em  relação à vida, como Anthony Blunt é retratado.  Mas, pelo contrário, talvez porque a narrativa seja na primeira pessoa, talvez porque estamos rodeados dos detalhes que fazem o personagem crível,  ficamos com a justa dimensão de um homem de grande conhecimento. John Banville não o retrata menor do que era.

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No entanto, há sempre, e aí está parte do charme deste romance de suspense, a dúvida: será que Victor Maskell está nos dizendo tudo o que sabe?  Há algum motivo para acreditarmos na realidade que ele nos descreve?  Espião, agente duplamente inconfiável, Victor Maskell [será que o nome vem de Mask, máscara?] é o anti-herói por excelência, figura trágica, cuja vida é passada em pequenos compartimentos e se equilibra, desde os primeiros dias da juventude entre mostrar e viver o que não é: da vida de espionagem à vida sexual.

Como um mestre John Banville também brinca com o leitor ao desenvolver como tema o amor que Maskell tem por um quadro de Poussin:  A Morte de Sêneca [fictício]. E dúvidas quanto  à  sua autenticação só intensificam o eco das perguntas que fazemos sobre a narrativa, é verdadeira ou falsa?  O pintor francês do século XVII Nicolas Poussin foi de fato objeto de estudo de Anthony Blunt como historiador da arte. Mas, a presença de um quadro inexistente, cuja autenticação depende de Maskell é um paralelo magistral ao jogo de espelhos que a vida do espião reflete. Victor Maskell assim como Anthony Blunt, têm o fim que merecem: são traídos.  Um pouco de justiça poética arrematando uma vida de fantasias.





Sobre o Ano Novo: Charles Lamb

1 01 2013

Ano NOVO com jornalCartão postal, EUA.

“Ninguém nunca olhou para o dia primeiro de janeiro com indiferença. É  a partir dali que todos nós contamos o tempo, e contamos o tempo futuro.  É a natividade do Adão comum.”

 Charles Lamb





Sobre o Ano Novo: Brooks Atkinson

31 12 2012

ANO NOVO CORNETA FUTURO JORNALCartão postal, EUA, sem data.

“Deixe o ano que passou cair no silencioso esquecimento do passado.  Abra mão dele, porque foi imperfeito, e agradeça a Deus porque ele se vai”.  

Brooks Atkinson





Sobre o Ano Novo: G.K. Chesterton

30 12 2012

ANJOS E CORAÇÔESCartão postal francês, 1909.

“O objetivo do ano novo não é que tenhamos um novo ano. É que  tenhamos uma nova alma”.

G.K. Chesterton





Sobre o Ano Novo: Benjamin Franklin

29 12 2012

ANJO DA GUARRDA ANO NOVO

Cartão Postal francês, início do século XX, desejando que o anjo da guarda acompanhe seu protegido.
“Esteja sempre em guerra contra seus vícios, em paz com seus vizinhos e permita que cada ano novo o encontre uma melhor pessoa”.

Benjamin Franklin





Sobre o Ano Novo: Bill Vaughn

28 12 2012

cegonha traz o ano novo 1900Cegonha traz o ano novo, cartão postal c. 1900

“Um otimista fica acordado até a meia-noite para ver o Ano Novo chegar. Um pessimista fica acordado para ter certeza de que o ano velho passou”.

Bill Vaughn





Sobre o Ano Novo: Alfred Tennyson

27 12 2012

ANO NOVO, menina na porta.Cartão postal, c. 1920.

“A esperança

Sorri  do limiar do ano que chega,

Sussurrando ‘será mais feliz’…”

Alfred Tennyson