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Pato Donald não faz nada, ilustração de Walt Disney.
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Quem perde seu tempo em vão
com coisa pequena e fútil,
já bem sabe, de antemão,
que nada fará de útil.
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(Haroldo Castro)
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Pato Donald não faz nada, ilustração de Walt Disney.–
Quem perde seu tempo em vão
com coisa pequena e fútil,
já bem sabe, de antemão,
que nada fará de útil.
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(Haroldo Castro)
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Um dia de chuva, ilustração: ignoro a autoria.–
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Lêdo Ivo
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Chove sobre a cidade
e a chuva inunda o asfalto, difunde o desastre e o desencontro
e procura abater as palmeiras que do fim da tarde
queriam apenas — graça plena — as estrelas.
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Os trovões reboam, espantando os pássaros
que vieram refugiar-se no meu quarto.
Os relâmpagos, fotógrafos do absoluto, iluminam as pessoas que passam
— são outros rostos, minha irmã, são as faces
revoltadas porque as divindades impossibilitaram os idílios,
a chegada pontual a uma casa, o já adiado trespasse com o inefável.
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As sarjetas recebem finalmente a Poesia. Como são belos
e nítidos os barcos de papel
que navegam buscando os reinos fantásticos, os inaccessíveis!
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A chuva tem uma canção. Jamais uma elegia
para saudar sua gentileza. Jamais uma ode,
um himeneu, uma écloga deploratória.
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Meu irmão, deixa que a goteira molhe tuas últimas
poesias. Pouco importa que amanhã te reconcilies com os grandes temas poéticos.
O amanhã é inconsumível. A chuva te ensina
a ser invariável sem se repetir.
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Em: Central Poética: poemas escolhidos, Lêdo Ivo, Rio de Janeiro, Aguilar:1976
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Em homenagem ao poeta Lêdo Ivo, falecido hoje, aos 88 anos.
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Natal em Moçambique, ilustração autoria desconhecida.–
Junto do berço que a luz
da fé cristã alumia,
toda criança é Jesus
e toda mãe é Maria.
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(Padre Celso de Carvalho)
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Natividade
Aldemir Martins (Brasil, 1922-2006)
óleo sobre tela
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Fernando Pessoa
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Natal… Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.
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Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade !
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.
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E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei !
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Feliz de quem busca amigos
entre homens bons e singelos.
– Quem aos porcos se mistura,
aprende a comer farelos…
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(Tapajós de Araújo)
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Carta, ilustração de Henry Clive.–
As tuas cartas, querido,
guardadas com muito amor,
de tanto que as tenho lido,
quase mudaram de cor!
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(Téula Athayde)
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Bahia… Voz que se exprime
num canto alegre e encantado,
pelo violão de Cayme
e a pena do Jorge Amado!…
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(Augusto Astério de Campos)
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Pateta quer descansar, ilustração Walt Disney.–
Quando acaso sinto, crede,
vontade de trabalhar,
deito-me logo na rede,
até a vontade passar…
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(Augusto Linhares)
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São Nicolau e o Auto do Natal
Luiz Roberto da Rocha Maia (Brasil, 1947)
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Ubirajara Raffo Constant
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Dos reis magos no céu brilha
A estrela clara e viajeira;
De uma igrejita campeira
Soa ao longe a voz do sino;
Flete ao tranco sem destino,
Na solidão de um corredor,
Abre o canto um pajador
Saludando ao Deus Menino.
E todas as vozes do pago
Cantam salmos na planura
Irmanados na ternura
Do cantar do pajador;
Pedindo à Nosso Senhor,
Na humildade de seus versos,
Que só exista no universo
Fraternidade e amor.
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Ubirajara Raffo Constant nasceu no Rio Grande do Sul em 1938. Poeta de Uruguaiana.
Obras:
Retorno Bravo, poesia, 2003
Pampa em 23, prosa, 2004
Sepé Tiaraju, uma Farsa Em Nossa História, história, 2006
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Natividade, 1467-69
Fra Filippo Lippi ( Florença 1406-1469)
Afresco
Catedral de Santa Maria Assunta em Spoleto, Itália
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Menotti del Picchia
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Já o burrinho ruma para a manjedoura. A estrela – seria, este ano, aquele enigmático cometa com nome japonês? – fulge no céu. Bate um pastor na porta da choça do compadre: “Olá Esdras! Acorda, camarada! Vamos para Belém!” As ovelhas balam. Toda a terra é um advento. Até flores estranhas rebentam nos cálices e as corolas atônitas perscrutam na noite um milagre. Os lírios do vale já devassaram o mistério e murmuram com seus lábios imaculados:
— Vai nascer Deus!
Aí está. Vai nascer Deus. “Fenômeno de rotina” – dirá um político despistando um repórter. “Nada demais, senhor jornalista. Todos os anos nasce Deus”. O repórter, apressado e superficial, registra a declaração numa caderneta e telefona os seus apontamentos para o redator de plantão. “O doutor Chuvisco disse que não há novidade: o nascimento de Deus é fenômeno de rotina”. O redator aceita essa explicação bocejando e gosta da palavra “rotina” aplicada ao mistério do Natal, porque a palavra está na moda. E ninguém dá pela transcendência do prodígio. Meu vizinho, Felisbino de Freitas Trancoso, excelente pai de família, saiu cedo para a fila das castanhas. D. Ordália Lopes, que é sentimental e fidelíssima, mesmo porque pesa perto de seis arrobas, comprou uma gravata de seda italiana e uns suspensórios de matéria plástica para presentear o marido. Tenho uma sensível admiradora que me mandou um cromo – sempre fui louco por cromos! – representando o presepe. Ali tudo é lindo: Jesus, tenro e sorridente, de cabelo cacheadinho e grandes olhos azuis abertos, como se um pimpolho que nasce, geralmente tão cheio de rugas e tão feio, pudesse ter aquele tamanho e aquela cabeleira de ouro… São José é um carpinteiro alinhado de túnica e talvez tenha saído nesse instante de uma arca. Maria Santíssima é um amor.
— No Natal do ano passado – diz-me a D. Celestina – meu marido me deu uma geladeira. Fico pensando dentro da noite mágica: “No Natal do ano passado…” Há perfumes no ar que vêm dos cedrinhos do Jardim América e, por causa das árvores do Natal, a gente liga o cheiro da resina ao oriente místico, à chegada daquela divina mãe grávida, morta de canseira na sua marcha ao lado do velho e santo marido, até a cocheira que serviu de berço à salvação do mundo. A imaginação trabalha. Percebe que nos palácios distantes, acordadas pelo fulgor da estrela, os reis poderosos preparam suas caravanas de mirra, ouro e incenso, para ver a criança estranha que uma vaca aquece com seu hálito e um burrinho manso humaniza com a bondade que irradia dos seus olhos…
— “Jornal da noite!” “Jornal da noite!” – berra um garoto sobraçando os últimos vespertinos. Compro uma folha. Não preciso ler pois a manchete metralha os meus olhos: “Dez mil árabes e cinco mil judeus em luta mortal na Palestina. Milhares de mortos e feridos…”
Os sinos de Natal bimbalham. “Glória a Deus na altura e paz na terra aos homens de boa vontade.”
Nasceu um Deus! Este ano nasceu outra vez um Deus!
E me ocorre, fulmineia a interrogação trágica: — mas por que nasce um Deus todos anos? Um arrepio me percorre o corpo. O calendário salta-me à memória pontilhada de guerras, brigas, roubos, bombas atômicas, crises econômicas, manobras políticas ditadas pela cobiça e ambição. No meio dessas memórias os sinos bimbalham. “Paz!” “Paz!” – brada Cristo, o Cristo que nascendo todos os 25 de dezembro há mil novecentos e quarenta e sete anos!
Então, percebo a razão do Natal! Dada a cruel desmemória dos homens é preciso que todos os anos nasça um Deus!
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Em: Entardecer, Menotti del Picchia, São Paulo, MPM Propaganda: 1978