Trova do livro

26 07 2022
Luluzinha, criação de Marjorie Henderson Buell

 

Que seria deste mundo,

não fosse o livro existir?

Seria treva o passado,

um sol sem brilho o porvir.

 

(Elpídio  Reis)





Trova do vento

19 07 2022
Ilustração de Edward Killingworth Johnson.

O vento, com pé macio,

passou pelo meu jardim,

e como guri vadio,

nas minhas rosas deu fim.

(Carlos Ribeiro Rocha)





“Um domingo uma tarde” poesia de Reynaldo Valinho Alvarez

17 07 2022
Manhã, larva que em tarde se transforma,
obedecendo ao tempo e à sua norma.

 

Um domingo uma tarde

 

Reynaldo Valinho Alvarez

 

um domingo uma tarde um menino na rua

e à frente como um sol uma bola de cor

enquanto acima o sol real se espreguiçando

cai sobre o tempo morno e absorto do passado

em lentas gotas rubras num solene rio

 

um domingo uma  tarde uma árvore frondosa

irrompendo na rua como um cone verde

enquanto as aves chamam o parceiro ausente

e os muros alvacentos gritam sob a luz

o prazer de brilhar na mornidão tranquila.

 

como pedir ao tempo

escasso e errante pingo

que fixe para sempre

a tarde de domingo?

 

Em: A faca pelo fio: poemas reunidos, Reynaldo Valinho Alvarez, Rio de Janeiro, Imago: 1999, p.12





Trova do gol da Argentina

14 07 2022
Ilustração Maurício de Sousa

Assisto à copa e me zango

vendo a cena inusitada:

Uma só nota do tango

vence as onze da lambada!

(Pedro Ornellas)





“As vozes da Natureza” soneto de Olegário Mariano

10 07 2022

Luz na mata

Alexandre Reider (Brasil, 1973)

óleo sobre tela

As vozes da Natureza

Olegário Mariano

 

As vozes que nos vêm da natureza

Traduzem sempre um mútuo sentimento.

Cantam as frondes pela voz do vento,

Pelo manancial canta a represa.

 

Pelas estrelas canta o firmamento          

Nas suas grandes noites de beleza.

Cada nota a outra nota vive presa,

É um pensamento de outro pensamento.

 

Pelas folhas murmura a voz da estrada,              

Pelos salgueiros canta a água parada

E o amigo sol, apenas se levanta,

 

Jogando o manto de ouro ao céu deserto,

Chama as cigarras todas para perto,

Que é na voz das cigarras que ele canta.

 

Em: Toda uma vida de poesia — poesias completas, Olegário Mariano, Rio de Janeiro, José Olympio: 1957, volume 1 (1911-1931), p. 158.





Feliz é o macaco, poesia infantil de Albércio Vieira Machado

8 07 2022
Macaquinho pendurado, ilustração MW editora.

 

Feliz é o macaco

 

Albércio Vieira Machado

 

 

Pela cauda preso ao galho,

ele faz o seu trabalho:

com as mãos faz o “diabo!”

Porém, nós, que não o fazemos,

com inveja, então dizemos:

— Quanta falta faz um rabo!

 

 

Em: Poetas do Brasil, organização Aparício Fernandes, 4º volume, Rio de Janeiro, Folha Carioca: 1979, p. 31





Trova das perucas

5 07 2022

As perucas diferentes,

que a vaidade lhe requer,

dão-me adultérios frequentes

com minha própria mulher!

(Antonio Carlos Teixeira Pinto)





Trova da infância

3 07 2022

Desconheço a autoria desta ilustração.

Na infância, festa de cores,

tudo era encanto e magia

e eu via muito mais flores

além das tantas que havia.

 

(Pedro Ornellas)





Lira das penas, poesia de Armando Braga

28 06 2022

Lira das penas

Armando Braga

Numa gaiola, toda azul e ouro,

De raro estilo e singular beleza,

Tinha um canário, a pálida Princesa:

— Seu bem-amado e seu maior tesouro…

Às vezes presa de infundado agouro,

Vivia instantes de mortal tristeza;

E então ficava, debruçada à mesa,

a ouvir cantar o seu Caruso louro…

Mas certo dia de um destino vário,

Chora a Princesa a morte do canário

Que fora a vida de seus sonhos ledos!

Como eu te invejo, ó Príncipe Encantado,

Que mais pudesse com cantar teu fado,

Do que eu com a lira a me gemer nos dedos!

Em: Poetas nas Bandas do Mar: uma antologia, ed. João do Prado Maia e outros marinheiros poetas, ed. José Nazar, Rio de Janeiro, Companhia de Freud: 2007, pp: 75-6.

Armando Braga (1883-1969), engenheiro, geógrafo, poeta, músico, escultor, pianista e compositor, teve suas obras (poesia e prosa) publicadas nas revistas Careta, O Malho, entre outras.





“Paisagens de minha terra”, poesia de Brasil Pinheiro Machado

21 06 2022

O retorno, 2002

Giovanni Santarelli (Brasil, 1971)

óleo sobre tela, 60 x 80 cm

 

 

 

 

Paisagem de minha terra

 

Brasil Pinheiro Machado

 

Manhã de domingo de sol reto.

A grande igreja sem estilo

Decorada por dentro por um batismo de Cristo

Feito por um pintor ingênuo

Que quis ser clássico e foi primitivista.

 

Missa internacional

Com gentes de todas as raças

Ouvindo o padre alemão rezar em latim.

 

A gente nem tem vontade de olhar o crucifixo desolado

Nem de rezar

Porque tem lá dentro tanta menina bonita

Que não reza também

E fica sapeando a gente com meiguice…

 

Só os polacos de camisa nova por ser domingo

Que vieram com as famílias de carroça lá das colônias

Rezam fervorosamente

Enquanto nos seus quintais

Os chupins malvados e alegres

Comem todo o centeio

Cantando glórias pro sol de domingo.

 

 

Em: 101 Poetas Paranaenses: V.1 (1844 -1959) –  antologia de escritas poéticas do século XIX ao século XXI, seleção e apresentação de Ademir Demarchi, Curitiba, Biblioteca Pública do Paraná: 2014, p.94