Quando, poema de Sophia de Mello Breyner

25 03 2024

Citando a fada, 2015

Emma Ersek (Romênia, 1979)

Quando

 

Sophia de Mello Breyner

 

 

Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta

Continuará o jardim, o céu e o mar,

E como hoje igualmente hão-de bailar

As quatro estações à minha porta.

Outros em Abril passarão no pomar

Em que eu tantas vezes passei,

Haverá longos poentes sobre o mar,

Outros amarão as coisas que eu amei.

Será o mesmo brilho, a mesma festa,

Será o mesmo jardim à minha porta,

E os cabelos doirados da floresta,

Como se eu não estivesse morta.





Trova do beijo

19 03 2024
Rolo recebe um beijo, ilustração de Maurício de Sousa

Somente agora é que vejo
que tens razão, meu amor…
Quem paga beijo com beijo
tem sempre saldo a favor.

 


(Narciso Nery)





Trova da balada

11 03 2024
Tio Patinhas de kilt, Walt Disnery Estúdios.

 

Já bêbado na balada,

viu uma saia xadrez,

e, ao persistir na “cantada”,

quase apanhou do escocês”!

 

(José Ouverney)





Sempre aos domingos, poesia de Ira Etz

4 03 2024

Paulo Cesar ‘nariz de feijão, 2020

Augusto Herkenhoff (Brasil,1965)

acrílica sobre tela, 48 x 36cm

Sempre aos domingos

 

Ira Etz

 

Atendo o telefone

Ela fala alto,

Minha velha amiga

Está surda.

Foi logo dizendo:

Ando muito sozinha.

Ninguém para conversar

Falo com os cachorros

Sigo relendo livros antigos

Jornal, só aos domingos.

Estou velha e sem dinheiro.

Eu disse que também estava velha

Como se isso servisse de consolo.

De repente ela mudou o tom

Da conversa

Você viu o jogo ontem?

Que jogaço!

Amante de futebol

Assiste a todos os campeonatos,

Discute com a TV, vibra

Torcedora do Botafogo.

Time da Estrela Solitária.

 

Em: Ainda, Ira Etz, Rio de Janeiro, Sete Letras: 2022, p.65





Trova do jardim florido

28 02 2024

Querendo colher no outono,

semeei na primavera…

Tu deixaste no abandono

um jardim à tua espera…

 

(Marília Fairbanks Maciel)





A lei do destino, soneto de Osório Dutra

19 02 2024

Luar com barcos

Inos Corradin (Itália, 1929, radicado no Brasil)

óleo sobre tela, 80 x 60 cm

 

 

A lei do destino

 

Osório Dutra

 

Quisera ser piloto a bordo de um cargueiro

E passar minha vida a partir e a chegar!

Partir para a ilusão de um sonho alvissareiro,

Chegar de Tanganica ou de Madagascar!

 

Partir como quem foge a um duro cativeiro

E chegar de um país estranho e milenar!

Partir levando n’alma a luz do meu Cruzeiro,

Chegar pelo prazer que há na ânsia de voltar!

 

Partir hoje, amanhã, depois, continuamente!

Transportar o café ao comércio do Oriente!

E das Índias trazer a pérola e o coral!

 

Partir para cumprir a lei do meu destino!

Chegar para sentir que um perfume divino

Faz de ti minha terra, o mais lindo rosal!





As máscaras, poema de Menotti del Picchia

13 02 2024
Pierrô, Colombina e Arlequim, 1928, George Barbier.

 

 

As Máscaras

 

Menotti del Picchia



O teu beijo é tão doce, Arlequim…
O teu sonho é tão manso, Pierrô…

Pudesse eu repartir-me
encontrar minha calma
dando a Arlequim meu corpo…
e a Pierrô, minha alma!

Quando tenho Arlequim,
quero Pierrô tristonho,
pois um dá-me prazer,
o outro dá-me o sonho!

Nessa duplicidade o amor todo se encerra:
Um me fala do céu…outro fala da terra!

Eu amo, porque amar é variar
e, em verdade, toda razão do amor
está na variedade…

Penso que morreria o desejo da gente
se Arlequim e Pierrô fossem um ser somente.

Porque a história do amor
só pode se escrever assim:
Um sonho de Pierrô
E um beijo de Arlequim!

 




Soneto principalmente do Carnaval, Carlos Pena Filho

10 02 2024

Mascarados

Raimundo de Madrazo y Garreta (Espanha, 1841-1920)

óleo sobre tela

 

 

Soneto principalmente do Carnaval

 

Carlos Pena Filho

 

Do fogo à cinza fui por três escadas

e chegando aos limites dos desertos,

entre furnas e leões marquei incertos

encontros com mulheres mascaradas.

 

De pirata da Espanha disfarçado

adormeci panteras e medusas.

Mas, quando me lembrei das andaluzas,

pulei do azul, sentei-me no encarnado.

 

Respirei as ciganas inconstantes

e as profundas ausências do passado,

porém, retido fui pelos infantes

 

que me trouxeram vidros do estrangeiro

e me deixaram só, dependurado

nos cabelos azuis de fevereiro.





Trova do Carnaval

9 02 2024
Capa da Revista Fonfon, ilustração de J. Carlos.

 

 

Se o Carnaval é de louco,

como quer o puritano,

três dias é muito pouco

para as loucuras de um ano.

 

(Manuel Pinheiro de Sousa)





Trova do Carnaval

6 02 2024
Ilustração: O baile de máscaras, Georges Jules Victor Clairin (França, 1843-1919)

 

 

 

 

Para que um carnaval

com três dias de folia,

pois se a vida é afinal,

grande baile à fantasia?

 

(Renato Vieira da Silva)