Véspera de Reis — texto escolar de Theobaldo Miranda Santos

5 01 2012

Bumba-meu-boi, 1969

Enrico Bianco (Itállia/Brasil, 1918)

óleo sobre cartão colado em madeira, 59 x 95 cm

Coleção Particular

Véspera de Reis

Theobaldo Miranda Santos

Chamam-se reisados as festas populares que se realizam na véspera de Reis.  Tiveram início na Bahia, passando-se, depois, para outros estados do Brasil, inclusive São Paulo.  Essas festividades tradicionais tomaram aspectos diferentes nas diversas regiões do nosso país.

Assim, em certos lugares, os reisados assumem a forma de ternos, isto é, de grupos de pessoas, fantasiadas de pastores, acompanhadas de tocadores de flautas, violões e pandeiros.  Depois de visitarem o presépio da igreja local, dirigem-se às casas previamente avisadas, que se conservam inteiramente fechadas. Chegando a essas casas, cantam:

Vinde abrir a vossa porta,

Se quereis ouvir cantar;

Acordai, se estais dormindo,

Que nó viemos festejar!

Os três reis de longes terras

Vieram ver o Messias,

Desejado há tanto tempo

De todas as profecias.

Abrem-se as portas e janelas.  O cortejo entre na casa e começa a adoração do Deus Menino no presépio armado na sala.  Cada pessoa prosta-se, reverente, diante do presépio e entoa uma quadrinha.

Em todos os lugares, o reisado tem a forma de rancho da burrinha ou de rancho do boi, também chamado bumba-meu-boi.  No rancho da burrinha, um dos membros do cortejo ata à cintura uma armação com cara de burro, simulando estar montado.

No bumba-meu-boi, mais usado entre os sertanejos paulistas, a figura central do cortejo é um boi, grosseiramente imitado, na pele do qual se oculta um rapaz, que executa uma dança característica. Em certas localidades de São Paulo, os reisados se compõem apenas de grupos de músicos e cantores que visitam as casas onde há presépios armados e onde são recebidos com doces e bebidas.

Em: Terra Bandeirante, 4º ano — pequena antologia sobre a terra, o homem e a cultura do estado de São Paulo, Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Agir:1954





Canção, poema de Onestaldo de Pennafort

4 01 2012

Mulher e flores, s/d

Antonio Rocco ( Itália, 1880- Brasil, 1944)

óleo sobre tela, 76 x 50 cm

Canção

Onestaldo de Pennafort

Quando murmuro teu nome,
a minha voz se consome
em ternura e adoração.


Quando teus olhos me olham,
parece eu se desfolham
as rosas de algum jardim

Ó meu amor, se é preciso
eu direi que o teu sorriso
é doce como um olhar.

Mas é preciso que eu diga,
ó minha suave amiga,
isso que sinto e tu vês,

mas é preciso que eu diga?

Onestaldo de Pennafort Caldas (RJ-1902- 1987) jornalista, ensaísta, tradutor e funcionário público. Escreveu para diversos periódicos brasileiros, tais como Fon-Fon, Careta, Autores e Livros, Para Todos e O Malho.  Faleceu no Rio de Janeiro, sua cidade natal, em 1987.

Obras

Escombros Floridos, 1921, poesia

Perfume e outros poemas, 1924, poesia

Interior e outros poemas, 1927, poesia

Espelho d’ Água: Jogos da Noite, 1931, poesia

Nuvens da tarde, 1954, poesia

Um rei da valsa, 1958, música

O festim, a dança e a degolação, 1960, crítica literária

Romanceiro, 1981, poesia

Além de traduções do inglês e do francês.





Azul, soneto de Orlando Martins Teixeira

2 01 2012

Chapéu Azul, 1922

Tarsila do Amaral (Brasil, 1886-1973)

óleo sobre tela, 92 x 75 cm

Azul

Orlando Martins Teixeira

Chapéu azul, vestido azul, de azul bordado,

Azuis o parassol e as luvas, senhorita,

Como um lótus azul por um deus animado,

Passa toda de azul, por mil bocas bendita.

Há um bálsamo azul nesse azul que palpita,

Misticismos de um mundo, há muito em vão sonhado,

Azul que a alma da gente a idolatrá-la incita,

Azul claro, azul suave, azul de céu lavado.

Deixa na rua um rastro azul que cega e prende,

Não sei quê de anormal, de fantasma ou de duende,

Que prende os pés ao solo e ao mundo os olhos cerra;

Vendo-a, não se vê mais nada que o azul, tonteia…

Como num sonho azul, logo nos vem a ideia

Um pedaço de céu azul passeando a terra.

Em: 232 Poetas Paulistas, de Pedro de Alcântara Worms, Rio de Janeiro, Conquista: 1968

Orlando Martins Teixeira (SP, 1875- MG, 1902) nasceu em São João da Boa Vista, SP em 1875. Poeta, dramaturgo e jornalista. Trabalhou na Gazeta da Tarde.  Seus versos a Venus ficaram famosos quando declamados pelo ator português Dias Braga.  Faleceu em Sítio, MG, em 1902.





Natal, soneto de Gualter Cruz

23 12 2011

Adoração dos pastores, 1500-1510

[Também conhecida como Natividade de Allendale]

Giorgione (Itália, 1477-1510)

Óleo sobre madeira, 91 x 111cm

National Gallery of Art, Washington DC

Natal

Gualter Cruz

Na agitação das ruas da cidade,

De povo fervilhante, e forasteiros,

Ninguém notava os pobres caminheiros,

Dois santos na pureza e na bondade.

Castíssimos esposos, companheiros,

Irmãos na mais perfeita afinidade,

José buscava obter dos hoteleiros

Abrigo à esposa, santa de humildade.

As portas com estrondo se fechavam…

Enquanto a turba infecta gargalhava,

Outro local, nervosos, procuravam.

Para uma gruta, enfim, Deus os conduz…

Orando aos céus, Maria murmurava:

— Nasceu  meu filho, ó Deus!…  Nasceu Jesus!…

Em: Poesias completas, Gualter Cruz, Petrópolis, Editora do autor: 1983.

Gualter Germano Chaves da Cruz (Petrópolis, RJ, 1921, Rio de Janeiro, RJ 1978)





Quadrinha do Natal pobre

22 12 2011

Jogou, perdeu, e hoje sabe,

passando um Natal sombrio,

que a consciência não cabe

num sapatinho vazio.

(Hegel Pontes)





Natal, poema de Jair Amorim

20 12 2011

Fuga para o Egito, s/d

Bartolomé Esteban Murillo (Espanha, 1618-1682)

Óleo sobre tela, 210 x 166 cm

Instituto de Arte de Detroit, EUA

Natal

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Jair Amorim

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E ainda hoje nascerás mais uma vez…

Sobre os reis Magos

a estrela-guia

os deixará ofuscados e perplexos

pela emoção

da santíssima aparição

E Tu nascerás neste e em outros anos

enquanto homens de porre

e mulheres quase nuas, ao sol,

tostadas e maquiladas

esperarão a hora mágica da noite

para exibir seus corpos luzidios

tomando chopes e comendo rabanadas.

E Tu, Senhor, nascerás mais uma vez à meia noite

pequenino e lindo

com Tua mensagem incompreendida

para os inúteis amanhãs

do dia nosso de cada vida.

E em Teu nome, Tuas palavras vãs,

nós nos empanturraremos

de vinhos

tâmaras

e avelãs…

—-

—-

Em: Canto Magro de Jair Amorim,  Vitória, UFES: 1995

Jair Pedrinha de Carvalho Amorim (ES 1915 – SP 1993) poeta, compositor e jornalista.





Natal Antigo — poema de Bastos Tigres

18 12 2011

O Natal só acontece uma vez por ano,  1896

Charles Green

Litogravura

Natal Antigo

Bastos Tigre

Da vasta mesa patriarcal, em torno,

A família reúne-se.  Fumega

O rotundo leitão assado ao forno,

Entre vinhos velhíssimos da adega.

Loiras batatas traçam-lhe o contorno

Finas rodelas de limão carrega;

E, assim, com todo o culinário adorno,

Aguarda, inerte, a sorte iníquia e caga.

É noite de Natal.  Festa!  Alegria!

Em cada boca há um riso iluminado

Pelo amor que das almas irradia.

Mas ninguém nota o riso resignado

De amarga, pungentíssima ironia

Dos meigos olhos do leitão assado…

Antologia Poética, Bastos Tigre, Rio de Janeiro, Francisco Alves:1982, vol. 2





Quadrinha dos Natais da infância

17 12 2011

Natal, ilustração de Roberto Innocenti.

Vencendo o tempo e a distância

num clima de eternidade,

os natais de minha infância

permanecem na saudade.

(Ivo dos Santos Castro)





Quadrinha da catedral

16 12 2011

Natividade

Federico Barocci (Urbino, 1528 – 1612)

óleo

Museu do Prado, Madri

Vejo a imagem de Maria
nas luzes da Catedral,
tendo Jesus entre os braços
numa noite de Natal. 

(Paulo Athayde de Freitas)





Quadrinha de pedido a Papai Noel

14 12 2011
Papai Noel se diverte com o pianinho, ilustração Lello.

Papai Noel, por favor,

do Natal afasta os medos,

e coloca mais amor

no meio dos teus brinquedos!

(Delcy Canalles)