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Ilustração de Maurício de Sousa.
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Quando a noite vai embora,
a aurora vem, de mansinho,
despertando fauna e flora
na mata e no ribeirinho.
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(Marcos Medeiros)
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Ilustração de Maurício de Sousa.–
Quando a noite vai embora,
a aurora vem, de mansinho,
despertando fauna e flora
na mata e no ribeirinho.
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(Marcos Medeiros)
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Desconheço a autoria da ilustração, acredito que seja capa de um número de verão da revista americana Modern Priscilla, que deixou de existir por volta de 1930 depois de algumas décadas de existência. Já procurei mas ainda não achei a autoria, qualquer dica será bem-vinda.–
As nuvens já vão chegando,
voltam barcos, devagar;
as aves surgem flanando…
e você não vai voltar?…
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(Luiz Pereira de Faro)
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Leitora
Elaine G. Coffee ( EUA, 1941)
óleo sobre tela
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Hoje posto, uma pequeníssima passagem do livro Branca Bela de Geraldo França de Lima. Li esse livro na semana em que completei quatorze anos. E ele me marcou muito e para sempre. Adorei a personagem principal, que é uma jovem, com quem pude me identificar na época e compartilhei de seus questionamentos. Seu impacto foi tão grande que tive receio de reler esse volume, ainda que tenha lido quase toda a obra de Geraldo França de Lima. O receio era de que a magia que me influenciara, principalmente quanto ao papel feminino, pudesse ser desencantada durante uma segunda leitura. Mas isso não está acontecendo. À medida que leio Branca Bela, nessas férias de Natal e Ano Novo, tenho uma nova apreciação. Sinal de que o romance é mesmo muito bom e que a leitura de hoje, mais madura, ainda consegue tirar outros significados do texto. Fica aqui a recomendação:
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“Nem sempre são flores a livraria: há instantes em que o ambiente se torna empestado e tenho de meter-me dentro de mim mesma, para não ouvir o que, alto, de propósito, conversam. Explosões de sensualismo naqueles homens incapazes, que tentam afirmar-se pela palavra, pelos gestos… Embora eu me mantenha de cabeça baixa, sinto fixados em mim seus olhares insatisfeitos. O juiz é mestre, e se está na terra o coronel Anfilóquio, deliram… Às vezes fico arrepiada. E tais, os tipos que dirigem a sociedade, que falam em moral e que condenam!
Meu pai com suas manias cíclicas, com aquela irreverência, jamais proferiu uma palavra feia. Nem me lembro de o ter visto ser estar barbeado, camisa clarinha, de gravata, paletó abotoado, sapatos limpos e impecáveis os frisos da calça.
Falar mal dos outros é o assunto da livraria. O que dizem! Excetuados os negócios serão incapazes de uma palavra séria.
Acompanha-me, de Seu Artur, sacristão e pai de Nora, a impressão da infância: jeitos e trejeitos do demônio, língua impiedosa, o primeiro comentário sobre Luisita Veras veio dele.
Seu Antero é fantasma, fugindo à luz e ao sol, esqueleto em movimento: olhos morbidamente apagados, encravados nas órbitas.
Dr. Orestes é o menos mal-educado: desagradáveis as risadas regozijando-se com a desdita alheia. Por entre o intervalo de cada gargalhada, sentencia doutrinariamente:
— Mundo perdido! A licenciosidade, a promiscuidade!
— A causa é a mulher. Lugar dela é trancada em casa. Mas vive solta, tentando os homens – acrescenta Seu Artur porejando despeito.
— E você está certo, Artur, — concorda Seu Antero – a mulher é o mal. Ainda ontem vi uma, na rua, sem meia! Que se pode esperar de uma mulher sem meia!
Fervo e protesto por dentro: reduzir o conceito de mulher a um par de meias! Moral terá sexo?
Por que existem uma moral masculina e outra feminina?
Infelizmente a mulher permanece propriedade e sua conduta depende das concessões ou do tacanhismo do senhor”.
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Em: Branca Bela, Geraldo França de Lima, Rio de Janeiro, São José: 1974, 2ª edição, p.49
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Ilustração Maurício de Sousa.–
Vovó, teu nome é ternura,
canção de amor e amizade.
Quem te possui, que ventura!
Quem te perdeu, que saudade!
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(Nair Starling dos Santos Almeida)
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Amuada, s/d
Belmiro de Almeida (Brasil, 1858-1935)
óleo sobre madeira, 33 x 41
Museu Mariano Procópio, MG
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“23 de junho [1939]
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Meu primeiro contato com Machado de Assis data do mês que passei com Mimi e Florzinha, quando Roberto, ainda em colo de ama, não fora entregue aos cuidados das tias. Depois de vários adiamentos, papai resolvera limpar a casa, fazer alguns retoques no telhado e no forro, reformar o banheiro — estava bastante maltratada.
Pintada a óleo, a óleo devia ser repintada, mas como cheiro de óleo envenena, durante a pintura não poderia continuar habitada. Houve uma distribuição de domicílios. Papai e mamãe foram para a casa de Ataliba, Mariquinhas carregou Emanuel para Magé, eu e Madalena ficamos na casa das primas, que era na Boca do Mato. A novidade foi excitante. Navegadores de primeira viagem, sentíamo-nos à deriva – e o casarão suburbano, com comida, hábitos, móveis, decoração, conversas e linguagem diferentes, com outra paisagem, outra luz, outro cheiro e calor, era um cosmos que se abria em mil e mil descobrimentos fascinantes.
Mimi era leitora inveterada e, de pouco dormir, chegava a romper madrugadas com livros na mão, livros dos quais, por não ignorar os meus pendores livrescos, contava-me depois os enredos com o mais lato seguimento e minudência. Se eu gostava, lia o livro, o que resultava em longas e posteriores conversações nas quais a boa prima não se dava conta, em absoluto, da nossa diferença de idade e com suma sisudez, manejando pincenê como uma batuta, aceitava ou rebatia os meus balbuciantes argumentos literários, o que de resto me envaidecia.
E foi assim que travei conhecimento com o mestre. Ela havia devorado Helena numa noite e no outro dia estava com a sensibilidade em polvorosa – é o melhor livro dele, dizia, e narrou-me todo o entrecho depois do almoço, na fresca e ensombrada varanda, que ladeava a casa em toda a sua longitude e que até o meio tinha uma tecedura de guaco, cujas virtudes expectorantes, sob a forma de chá ou de balas, eram amplamente recomendadas e exploradas.
Solicitei o romance, mas a verdade é que achei decepcionante, transmiti minha impressão, Mimi repisou o seu entusiasmo, e não pensei mais no autor.
Um ou dois anos mais tarde, passava eu para aquilo que no colégio se chamava o curso adiantado de português, isto é, o curso ao termo do qual era tirado o exame final dessa matéria. Para leitura e análise tínhamos uma grossa antologia de pífio papel, mas se houve livro que eu amasse, foi este. As amostras que trazia davam logo para gostar ou detestar. Foi nele que li “O Plesbicito”, de Artur de Azevedo, incorporando-o imediatamente à minha perene simpatia. Foi nele que amei Maupassant, por causa do “Adereço de esmeraldas”, amor que foi diminuindo como tempo até se mudar em desinteresse, desinteresse de que escaparam as curtas páginas de “Ao luar”, sim de que escaparam as curtas páginas de “Ao luar”. Foi nele que Schiller me arrepiou com o episódio da luva e Coppée me emocionou como os vícios daquele capitão reformado, a primeira ficção francesa em que eu encontrava uma referência ao Brasil. Foi nele também que li um trecho de Dickens, “O jantar de Toby”, jantar de tripas numa noite glacial, jantar de pobre, trazido pela filhinha, maravilhosa revelação, pois a alegria de Toby me impressionou tanto que eu quis sem demora conhecer o romance por inteiro. Foi nele que aprendi a detestar Garcia Redondo, Pedro Rabelo, Coelho Neto, Alcides Maia, Macedo e tantos outros. Foi nele que, afinal, encontrei o meu Machado. Vinha em pedaços como fatias de um grande bolo, grande e saboroso. Fui comendo deliciado: aquele admirável trecho do fanático por brigas de galo, o do pesadelo em que o diabo tira libras de um saco para por em outro, o episódio da ponta do nariz, a célebre volta aos tempos, cavalgada às avessas, imorredouro retrocesso, e, principalmente, o famoso jantar da família Brás Cubas, ágape a que iria assistir, coberto de vergonha, numerosos similares. E o que não pude acreditar mui prontamente foi que houvesse relação entre o padeiro desses nacos surpreendentes e o confeiteiro de Helena de tão chocha e açucarada memória. E atirei-me ao manjar inteiro, começando pelas Memórias Póstumas de Brás Cubas. Daí para Quincas Borba, depois para Dom Casmurro, quando fiquei para toda a vida apaixonado por Capitu, paixão que só se igualaria com a provocada por Vidinha, a gargalhante mulatinha dos lundus. Quando cheguei aos contos – “Conto de escola”, “Uns braços”, “O diplomático”, “Uma senhora”, “Missa do galo”, “Capítulo de chapéus”, “Ideias de canário” – quando cheguei aos contos alumbramento de que Antônio Ramos compartilhava, senti que formavam um trilho ideal, caminho único encimado por uma estrela, estrela guiadora, bem diversa daquelas, indiferentes às lagrimas e aos risos, que o mal-aventurado Rubião pedia à bela Sofia que fitasse”.
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Em: A mudança, Marques Rebelo, 2º volume de O Espelho Partido, São Paulo, Martins: 1962
Ilustração de John Newton Howitt, para a capa da Revista Holland’s de maio de 1929.–
Eu fico pasmo, por certo,
vendo Deus, perfeito assim,
esquecer o cofre aberto
do perfume do jasmim…
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(Lacy José Raymundi)
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Menina ao telefone, ilustração de Meredith Johnson.
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José Elias
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Mal tocava o telefone,
Lili corria pra atender.
Só sabia falar: – Alô! Alô!
Qual é o seu nome?
E ficava naquele alô alô danado,
sem chamar quem foi chamado.
Um dia, foi atender,
como sempre apressadinha,
e saiu daquele alô, alô:
— Aqui é Lili. Aí, quem fala?
A fala falou grosso,
do outro lado da linha:
– Quem fala é o fantasminha!
Hahahahá, é o fantasminha!
Agora , se o telefone toca,
Lili nem se toca
ou fica meio encolhidinha.
Tem vontade de atender, mas…
e se for o fantasminha?!
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Em: Caixa mágica de surpresa, José Elias, São Paulo: Paulus, 1984.
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–Brincadeira de roda, c. 1885
Frederick Morgan (Inglaterra, 1847-1927)
Óleo sobre tela, 81 x 104 cm
Towneley Hall Art Gallery and Museum
Burnley, Lancashire, Inglaterra
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O amor eterniza as vidas
e, a vida, vem nos lembrar:
– Correntes de mãos unidas
ninguém consegue quebrar!…
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(José Maria Machado de Araújo)
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Ilustração Walt Disney.–
Mato as tristezas cantando.
Curti-las não vale a pena.
Cantando vou me livrando
da mágoa que me envenena.
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(Thalma Tavares)
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Bolinha explica sua sapiência… Ilustração Marjorie Henderson Buell.–
Eu penso, portanto existo!
René Descartes escreveu.
Mas não creia, amigo, nisto,
pois pensando ele morreu…
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(Renato Goulart da Silveira)