
Vinho branco ou vinho tinto
depende do que acompanha;
em bodas sempre é distinto
o espumante ou champanha.
(Paulo Pereira Lima)

Vinho branco ou vinho tinto
depende do que acompanha;
em bodas sempre é distinto
o espumante ou champanha.
(Paulo Pereira Lima)
Menina com libélula
Nato Gomes (Brasil, contemporâneo)
acrílica, 20 x 28 cm
Gustavo Teixeira (1881-1927)
Entre os juncos das bordas da lagoa
Onde bebem a fera e a pomba mansa,
Voa a leve libélula, revoa,
E sutilmente sobre as águas dança.
Sem rumo, sobe e desce, gira à toa,
Fixa-se no ar e – alada flecha – avança.
Só quando a terra de astros se coroa,
A dançarina alígera descansa.
Num flexível caniço que a aura entorta
E oscila ao choque de uma folha morta,
Dorme, a sonhar com o lago, que se estrela.
Assim que a noite o lábaro desfralda,
O pirilampo acende em torno dela
Pequeninas auroras de esmeralda…
EM: Poesias completas, Gustavo Teixeira, Eme: 2018
O cavalo e o burro, 1912
Franz Marc (Alemanha, 1880-1916)
guache sobre papel, 38 x 31 cm
Cecília Meireles
O menino quer um burrinho
para passear.
Um burrinho manso,
que não corra nem pule,
mas que saiba conversar.
O menino quer um burrinho
que saiba dizer
o nome dos rios,
das montanhas, das flores,
– de tudo o que aparecer.
O menino quer um burrinho
que saiba inventar histórias bonitas
com pessoas e bichos
e com barquinhos no mar.
E os dois sairão pelo mundo
que é como um jardim
apenas mais largo
e talvez mais comprido
e que não tenha fim.
(Quem souber de um burrinho desses,
pode escrever
para a Ruas das Casas,
Número das Portas,
ao Menino Azul que não sabe ler.)
Antônio Callado [ou Calado], jornalista, dramaturgo e romancista brasileiro.
Algumas obras:
Romances: A madona de cedro (1957), Quarup (19670, Bar Don Juan (1971)
Teatro: A cidade assassinada (1954), Pedro Mico (1957), Uma rede para Iemanjá (1961),
Como riqueza do lar,
o bebê, que a mãe segura,
lembra a pérola do mar,
numa concha de ternura!
(Hegel Pontes)
Um filósofo de peso
é desta sentença o autor:
o beijo é fósforo aceso
na palha seca do amor.
(Bastos Tigre, 1882-1957)
Na rotunda
Francine van Hove (França, 1942)
óleo sobre tela, 50 x 65 cm
XXVII
Tite de Lemos
Nem tomes por virtude o que é defeito,
floreios de poetas amestrados,
nem tenhas por humano o que é perfeito,
coisa de heróis e deuses aplicados.
Deve ser que não levo muito jeito
ou quando pense certo faça errado
e ande torto julgando andar direito,
sujeito cego atrás do objeto amado.
Persigo a brevidade de um instante
que toda eternidade contivesse:
nisso me acho e nisso estou perdido
com desvelo tão quieto e tão constante
que vivê-lo, mais nada, me envaidece
e até nem cuido ser correspondido.
Em: Caderno de sonetos, Tite de Lemos, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1988. p. 63
Moça de vestido branco, 2007
Johan Patricny, (Suécia, 1976)
óleo sobre tela
Carlos de Laet
“De que inúmeros sois a mente humana
a existência falaz não me doirava!”
(Bocage)
Atirei-me sedento de verdade
à ciência do exato e do infinito;
escravo fui do imperioso grito
que minha alma soltou na escuridade.
Desengano cruel! Fatalidade!
No tremendo areal, solo maldito,
passei a vida de errante e de proscrito
e o perfume perdi da mocidade!
Pedi a luz — e dão-me um labirinto
onde exausto se embrenha o entendimento
e reina a sombra que envolver-me sinto.
Deus, responde, socorre ao desalento;
se a verdade aqui está, se acaso minto,
tira-me, então, pra vê-la, o sentimento.
(1870)
Em: Poesias de Pimenta de Laet. 1878
Paulo Mendes Campos
O gato pensa um bocado!
Pensa de frente e de lado!
Esticado ou enrolado!
Satisfeito ou chateado!
Brincalhão ou preocupado!
Sem jantar ou já jantado!
Com saúde ou constipado!
O gato pensa um bocado!
Pensa no império chinês!…
Pensa no irmão siamês!…
Mas um gato sem talento
só tem um pensamento:
CAMUNDONGO! CAMUNDONGO!
Se te pego, te viro assim: OGANODNUMAC!…

O castelo de cartas, 1869
Théodore Gérard (Bélgica, 1829-1895)
óleo sobre tela, 59 x 74 cm
“Junto à mesa, onde ardia o candelabro, Lúcio estava muito aplicado em levantar castelos de cartas para entreter Adélia.
Feliz idade em que a imaginação entre risos de prazer edifica palácios com essas figuras coloridas! Mais tarde, em vez de castelos de carta, são os castelos de vento, edificados com as ilusões e as esperanças de nossa alma. Vem um sopro de criança e arrasa o suntuoso palácio. O menino reúne as cartas e levanta novo castelo. O homem debalde tenta coligir as ilusões que tombaram: não encontra nem o pó; desfizeram-se em fumo.”
José de Alencar, O tronco do Ipê
Publicado pela primeira vez em 1871, foi o segundo romance regionalista de Alencar. Foi também o primeiro romance “de gente grande”, como minha mãe anunciou, quando me deu para ler nas férias de julho depois de eu completar dez anos no mês anterior. Nem sei quantas vezes o reli. Muitas. Já soube algumas partes de cor. Ainda sei nomear todos os personagens. Aliás foi o início de um bom relacionamento meu com o autor. A história se passa numa fazenda em Teresópolis, cidade com que eu estava familiarizada por passar férias lá. Há menções do rio Paquequer, assim como também acontece em O Guarani. Depois de O tronco do ipê, ainda jovem adolescente, cheia de histórias românticas na cabeça, li todos os outros “perfis de mulher’ dele, ou os chamados romances urbanos: Cinco minutos, A viuvinha, Lucíola (de que não gostei muito), A pata da gazela, Til. Mais tarde, não sei exatamente quando, provavelmente quando tinha quatorze anos, li Senhora, que se tornou um de meus livros favoritos de toda a minha juventude. Qual não foi minha boa surpresa saber, muitos anos depois, que Senhora havia sido traduzido para o inglês e fazia parte de muitos currículos de literatura sobre empoderamento feminino, em universidades nos Estados Unidos. Li também, algumas vezes, Iracema, de que gosto mais do que O Guarani, mas não cheguei a ler, Minas de Prata, nem O Gaúcho. Tínhamos a coleção toda lá em casa, mas esses, nunca chegaram a me interessar. Talvez seja a hora de voltar a Alencar, quem sabe?
Parti direto dos romances urbanos de Alencar para A mão e a luva e Helena de Machado de Assis. Essa foi a minha apresentação, pelas mãos de minha mãe a Machado. Funcionou porque apesar de ler Don Casmurro, depois aos quinze-dezesseis anos, ele não me interessou tanto quanto Memórias Póstumas de Brás Cubaslido em seguida, que foi por um bom tempo meu livro de cabeceira.