Trova do amigo

2 04 2019

 

 

 

0fed4a463c53c41ed00bd5ab351a1a20No campo de golfe, ilustração autor desconhecido.

 

 

Quando te chamo de amigo,

Declaro-te pleno apoio:

Não só no que tens de trigo;

Também no que tens de joio.

 

(Antônio Augusto de Assis)

 





Vou agora sonhar… poesia de Da Costa e Silva

25 03 2019

 

 

 

dreaming_large__0Sonhando grande

Aditya Phadke (Índia, contemporâneo)

Óleo sobre tela,  76 x 91 cm

 

 

Vou agora sonhar…

 

A minha vida, sempre inquieta como o mar,

É de renúncia, sacrifício e desencanto:

Enquanto vão e vêm as ondas do meu pranto,

Estende-se o horizonte, além do meu olhar…

 

Na imensidade azul, fico a cismar, enquanto,

A refletir o céu, vai-se acalmando o mar…

Acalma-se também minha dor, por encanto:

— Já cansei de sofrer! Vou agora sonhar…

 

 

Em: Da Costa e Silva, Poesias Completas, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1985 [edição do centenário] p.295





Memória, texto de Francisco Azevedo

23 03 2019

 

 

 

Joel Oliveira - quadro óleo sobre tela 20x30cm LeituraLeitura

Joel Oliveira (Brasil, contemporâneo)

óleo sobre tela, 20 x 30 cm

 

 

 

“Se me perguntarem, não sei dizer o que comi ontem no almoço. Mas sou capaz de reproduzir diálogos inteiros da minha juventude. Gozado, isso. Vai entender. Memórias antigas? Nítidas, perfeitas, cheias de mínimos detalhes, cheiros e sons até. Fatos recentes? Coitados. Vão se segurando em mim, como podem. Parecem aqueles personagens de cinema, caras de terror, agarrados no alto do edifício só pelas pontinhas dos dedos. Quase todos despencam. E pior: diante do olhar de alguém que os vê de cima sem um pingo de misericórdia. Uma coisa ou outra fica, é verdade. Meio desbotada, imprecisa, extremamente grata à mão do cérebro que a resgata. Nenhum critério de seleção. A bobagem, o cérebro retém. O notável, ele descarta. O recado é direto: chega de colecionar lembrancinhas da viagem terrena. Fazer o que com toda tralha? Além do mais, com o correr ou o arrastar dos anos, não há fortuna que pague tal excesso de bagagem. Entendo perfeitamente os argumentos. Aceito sem queixumes. Só levo comigo o que a alfândega da mente deixa passar.”

 

Em: Eusoueles [fragmentos], Francisco Azevedo, Rio de Janeiro, Editora Record: 2018, p. 127.





Trova do outono

21 03 2019

 

 

 

 

f2d8d97ee0d76cb800459768ac09a7a7Desconheço a autoria dessa bela ilustração, capa da revista House Beautiful, de Outubro de 1929.

 

 

Querendo colher no outono,

semeei na primavera…

Tu deixaste no abandono

um jardim à tua espera…

 

(Marília Fairbanks Maciel)

 

 





Que insônia, poesia de Corina [Coryna] Ferreira Rebuá

16 03 2019

 

 

 

faa0ec6253aa1d9268dbccd55d5af63cLuz da manhã

James H. Crank (EUA, ?)

óleo sobre tela, 91 x 66 cm

 

 

Que insônia

 

Coryna Ferreira Rebuá

 

Como faz frio neste quarto agora!

A chuva bate em cheio na vidraça

E o relógio da igreja, de hora em hora,

Soa. Há passos na rua… E a ronda passa…

 

Não consigo dormir. Como demora

Essa vigília que me torna lassa!

Se abro um livro, não leio. E lá fora

Chove.  Há passos na rua… E a ronda passa…

 

Dormes? Não creio. Eu sei que estás velando,

Porque eu pressinto que, de quando em quando,

Vem o teu corpo fluídico e me enlaça.

 

O relógio da igreja está batendo.

São quatro horas. Que insônia! Está chovendo.

Ouço passos na rua… E a ronda passa.

 

 

Em: Poetas cariocas em 400 anos, ed. Frederico Trotta, Rio de Janeiro, Editora Vecchi: 1965, p. 318

 

 

Bibliografia:

Felicidade, 1930

Alma Sedenta, 1932

Vida, 1940

Meu Romance de Amor, 1942

 

 

 





Trova da cigana

13 03 2019

 

 

 

71C2QzjDwUL (2)Ilustração de Mucha.

 

 

Em amor eu sou cigana,

não divido com ninguém…

E sendo, dele, tirana,

sou dele escrava também…

 
(Aída Rodrigues Frango)

 

 

 

 





Indiferença, poesia de Guilherme de Almeida

21 02 2019

 

 

 

95ebef1a8428ae23f80bdbcb6b241453Ilustração de Coby Whitmore

 

 

Indiferença

 

Guilherme de Almeida

 

Hoje, voltas-me o rosto, se ao teu lado
passo. E eu, baixo os meus olhos se te avisto.
E assim fazemos, como se com isto,
pudéssemos varrer nosso passado.

Passo esquecido de te olhar, coitado!
Vais, coitada, esquecida de que existo.
Como se nunca me tivesses visto,
como se eu sempre não te houvesse amado

Mas, se às vezes, sem querer nos entrevemos,
se quando passo, teu olhar me alcança
se meus olhos te alcançam quando vais.

Ah! Só Deus sabe! Só nós dois sabemos.
Volta-nos sempre a pálida lembrança.
Daqueles tempos que não voltam mais!





Poesia infantil: Casamento Perfumado, de Antônio Gedeão

11 02 2019

 

 

 

Primavera Better Homes and Gardens 1929-07Primavera, capa da Revista Better Homes & Gardens, julho 1929.

 

 

 

Casamento Perfumado

 

Antônio Gedeão

 

Queria certa donzela

de olfato bem apurado

que o seu casamento fosse

de sempre o mais perfumado.

Seu nome era Rosa Branca

Cravo Vermelho seu noivo

madrinha, D. Açucena,

padrinho, o senhor D. Goivo.

Sua grinalda enfeitou

com flores de laranjeira

e na sua mão levou

um ramo de erva cidreira.

Seus pajens, os Manjericos;

Violetas, suas aias,

seu pai, o senhor Junquilho

Madressilva em lindas saias.

Veio dizer a cozinheira

que ía tudo perfumar:

“trago salsa e hortelã

para pôr no seu jantar.

Que belo aroma que dão

a canela e o coco

para perfumar os bolos

vou juntar vinho do Porto.

A bela Erva-Luísa

veio para servir o chá

como é toda perfumada

que belo jeito me dá.

Diga-me lá D. Rosa,

se mais perfumes deseja.”

Haverá um casamento

que mais perfumado seja?

 

Em: Obra Poética, António Gedeão, Edições JSC, Lisboa: 2001





Trova do sorriso

14 01 2019

 

 

 

chapéu de palha, bradshaw crandellMoça com chapéu de palha, Ilustração de Bradshaw Crandell

 

 

 

Conheço muito sorriso

de mulher, meigo, simplório,

que promete o paraíso

e nos manda ao purgatório.

 
(Alves Júnior)





Quem diria… — poesia infantil de Alzira Chagas Carpigiani

28 12 2018

 

 

 

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Quem diria…

 

Alzira Chagas Carpigiani

 

O gambá agora
anda elegante,
passa até perfume
e desodorante.
Ele pôs um fim
na tal história
do fedor danado.
Quer saber por quê?
Eu conto o segredo:
– O gambá cheiroso
está apaixonado!