Curiosidade literária

15 05 2023

Leitura

[parte da série dos Cinco Sentidos]

Lucien Mandosse (França, 1933-2004)

óleo sobre tela

 

A escritora francesa, Anaïs Nin (1903- 1977) escreveu diversos contos publicados após sua morte.  Fizeram parte da coleção Delta de Vênus: para “uso pessoal de um colecionador particular”.  A encomenda estipulava o pagamento de um dólar por página.  Mas veio com instruções bem rígidas: as histórias precisavam ser completamente pornográficas, sem análise, sem filosofias.





A estrela pequenina, soneto de Olegário Mariano

27 04 2023
Ilustração de Jimmy Liao.

 

 

A estrela pequenina

 

Olegário  Mariano

 

Quando à noite olho o céu desta larga janela,

Vejo através da talagarça da neblina,

Uma estrela infantil, inquieta e pequenina,

Que, por ser infantil, me parece mais bela.

 

Ora se esconde, ora ressurge, ora se inclina,

Aumentando o esplendor da sua cidadela.

Devo a Deus que me pôs em contato com ela,

O espírito do céu nessa graça divina.

 

E pergunto a mim mesmo, extasiado de vê-la:

Quem viverá no corpo ideal daquela estrela?

Quem nela se encarnou? Que destino era o seu?

 

Será o Amor que aquele ponto de ouro encerra?

Ou a Saudade que põe os olhos sobre a terra,

Por não  poder voltar à terra onde nasceu?

 

 

Em: Toda uma vida de poesia — poesias completas, Olegário Mariano, Rio de Janeiro, José Olympio: 1957, volume 2 (1932-1955), p. 450.

 

 





Um presente para o Dia das Mães!

22 04 2023

Livro À meia voz, de Ladyce West, em todas as livrarias e na Amazon, papel e digital.





Escritora no museu: Adalgisa Nery

22 04 2023

Adalgisa Nery, 1930

Ismael Nery (Brasil, 1900-1934)

[Marido da escritora]

óleo sobre tela





Curiosidade literária

10 04 2023

Leitura silenciosa à sombra

George Goodwin Kilburne (GB, 1839-1924)

aquarela

 

 

 

 

O escritor brasileiro Nelson Rodrigues, arrancou todos os dentes aos vinte e um anos.  Sofrendo de um febre insistente sem apresentar outros problemas, foi diagnosticado, erroneamente, que seus dentes lhe causavam essa condição febril que não cessava.  Estavam errados.  Depois de remover todos os dentes, descobriu-se com tuberculose.  Nelson Rodrigues usou dentadura por toda vida.

 

 





Passa uma borboleta, poesia de Alberto Caeiro

23 02 2023
Ilustração Hilda T. Miller

 

Passa uma Borboleta

 

 

Alberto Caeiro

 

 

 

Passa uma borboleta por diante de mim

E pela primeira vez no Universo eu reparo

Que as borboletas não têm cor nem movimento,

Assim como as flores não têm perfume nem cor.

A cor é que tem cor nas asas da borboleta,

No movimento da borboleta o movimento é que se move,

O perfume é que tem perfume no perfume da flor.

A borboleta é apenas borboleta

E a flor é apenas flor.

 

 

 

 

Em: O Guardador de Rebanhos, Fernando Pessoa, [Poemas de Alberto Caeiro], 10ª edição, Lisboa, Ática:1993, p. 64





Trova de Carnaval

18 02 2023
Crianças fantasiadas, ilustração J. Bernard Long

 

Para que um carnaval

com três dias de folia,

pois se a vida é afinal,

grande baile à fantasia?

 

(Renato Vieira da Silva)

 





O escritor no museu: Henry Adams

26 04 2022

Henry [Brooks] Adams (EUA, 1838-1918), retrato de 1868

Samuel Lawrence (GB, 1812-1884)

desenho





A cozinha do escritor, Patrick Modiano

29 01 2022

Homem lendo jornal, 1992

Bruno Vekemans (Bélgica, 1952-2019)

serigrafia

 

 

A cozinha do escritor

 

Aquilo que eu mais amo na escrita é o devaneio que a precede. A escrita em si, não, não é muito agradável. Deve-se materializar o sonho na página, assim que se saia do devaneio. Às vezes penso, como é que os outros fazem? Como esses outros autores que, como Flaubert o fazia no século XIX, escrevem e reescrevem, reformulam, reconstroem, e vão condensando a partir da primeira versão até que não reste finalmente quase nada na versão final do livro? Isso soa-me muito assustador. Pessoalmente, contento-me em fazer as correções num primeiro esboço que se assemelha a um desenho que foi feito de uma vez só. Estas correções são numerosas e ligeiras, como uma acumulação de atos de microcirurgia. Sim, é preciso medidas drásticas como faz um cirurgião, ser frio o suficiente com o seu próprio texto de uma ponta à outra, corrigindo, suprimindo, enfatizando. Às vezes basta riscar algumas palavras numa página para que tudo mude. Mas é essa a cozinha do escritor, que é suficientemente chato para os outros.

 

Patrick Modiano, in ‘Entrevista (2014)





Férias, texto Tahar Ben Jelloun

14 12 2021
Tintin vai viajar, ilustração de Hergé.

“Não gosto de férias. Devo dizer que não sinto necessidade delas, já que não trabalho com as mãos. Nem mesmo sei o que é tirar férias. Parece que é descansar, mudar de ritmo e de hábitos. Não tenho vontade disso. Meu ritmo é o que é. Lento e sem surpresas. Maus hábitos estão mais para manias, e tenho medo de perdê-los se, como todo mundo, sair de férias no mês de agosto. Meus hábitos me suportam e me ajudam a me suportar. Eles são simples e eu só peço uma coisa: que não os perturbem, que me deixem com eles do jeito como são.

Todos os que partem pelas estradas ao mesmo dia e na mesma hora têm também suas manias: ser como todo mundo, agir como os outros, não perder nada da empolgação coletiva, um modo de se tranquilizarem, de garantir que não vão morrer sozinhos ou idiotas. Não é o meu caso. Morrer idiota ou inteligente tanto faz!

Não gosto de férias porque não gosto de viajar. Correr para uma estação carregando uma mala pesada numa das mãos, uma bolsa na outra, as passagens entre os dentes, fazer fila num aeroporto para despachar a bagagem, suportar o nervosismo dos veranistas que têm medo de avião ou que se sentem obrigados a levar consigo a avó, que está perdendo a memória e adoraria ficar em casa com suas pequenas manias, ser acotovelado por um grupo de desportistas descuidados, partir atrasado, chegar exausto numa hora impossível, procurar um táxi… tudo isso eu deixo para vocês e prefiro me recolher num canto da casa, para escutar o silêncio e sonhar com os amores cruéis…”

 

Em: O primeiro amor é sempre o último — contos, Tahar Ben Jelloum, tradução de Joana Angélica d’Ávila Melo, Rio de Janeiro, Editora Vieira Lent: 2002, pp 60-1