“A característica essencial do que chamamos de loucura é a solidão, mas uma solidão monumental. Uma solidão tão grande que não cabe na palavra solidão e que não podemos nem imaginar se não estivemos lá. É sentir que você se desconectou do mundo, que não vão conseguir te entender, que você não tem #palavras para se expressar. É como falar uma língua que ninguém mais conhece. É ser um astronauta flutuando à deriva na vastidão negra e vazia do espaço sideral. É desse tamanho de solidão que estou falando. E parece que na dor verdadeira, na dor-avalanche, acontece algo parecido. Embora a sensação de desconexão não seja tão extrema, você tampouco consegue dividir nem explicar seu sofrimento.”
Em: A ridícula ideia de nunca mais te ver, Rosa Montero, tradução de Mariana Sanchez, Todavia: 2019
Línguas, de Domenico Starnone, com tradução de Maurício Santana Dias, foi o terceiro livro do autor que li. Posso dizer que gostei de sua escrita desde que o encontrei em Assombrações(2018) e Laços(2017). Gosto imensamente de sua voz narrativa: calma, nostálgica, reflexiva. Sua escrita é de nuances. Ele não precisa abrir o jogo, contar tudo, tintim por tintim. Ele nos deixa espaço para imaginar e sonhar; ar para respirar e tempo para absorver o lugar, os sons, as memórias do autor que se imiscuem com as nossas.
Línguasé um pouco diferente dos outros que li. Menos fluido. Tem breque. É uma obra em dois tempos. Primeiro vemos o delicioso despertar do primeiro amor de um menino de oito ou nove anos, em Nápoles. Ele se apaixona por uma menina do edifício em frente ao dele. Ela é bem mais arrojada que ele, flerta com a morte, dançando no peitoril da varanda. Ela é diferente. Diferente de tudo que ele conhece. Ela não é como ele, do sul da Itália. Vem do norte e por isso, para surpresa do apaixonado garoto, ela fala com outro sotaque, usa vocabulário diverso, demonstra maneira de se expressar inesperada. A paixão dele, só aumenta. É o fascínio do outro, do desconhecido. Mas, para atrapalhar, no horizonte, há Lello, um amigo, que também se apaixona pela milanesa. Com o triângulo amoroso formado, a briga pela atenção da menina se desenvolve. Irão às vias de fato? Deixo isso para descoberta do leitor… Depois… temos a segunda parte dessa história. Os dois, que em criança haviam sido apaixonados por Emanuela, se encontram, são jovens adultos. Continuam a não se gostar e nesse encontro, e só então, Lello, o rapaz que sabe tudo de tudo, revela o verdadeiro destino da jovem bailarina de Milão.
Além da fascinante arte narrativa de Starnone, aprecio as diversas referências à literatura clássica em suas obras. Da mera alusão à mitologia greco-romana, aos contos medievais, vamos nos informando, circundando assuntos cujas menções ecoam e enriquecem o texto. Em Línguas, a própria abertura, o primeiro parágrafo ele já se refere ao trágico mito grego de Orfeu e Eurídice. A leitura atenta, já vislumbra, nas primeiras frases que abrem o texto, por causa dessa referência, um desfecho trágico, uma morte, quem sabe?
“Entre os oito e os nove anos de idade, decidi encontrar a fossa dos mortos. Tinha acabado de aprender nas aulas de italiano da escola a fábula de Orfeu e Eurídice debaixo da terra, onde ela havia ido parar por causa de uma picada de cobra. Eu planejava fazer o mesmo com uma menina que infelizmente não era minha namorada, mas que poderia vir a ser caso eu conseguisse tirá-la das profundezas da terra, enfeitiçando baratas, gambás, ratos e musaranhos.” [7]
Domenico Starnone
Línguas apresenta reflexões sobre dois temas constantemente ligados na literatura e no nosso emocional: amor e morte. Desde da Grécia antiga, e até antes disso, a relação entre essas duas profundas experiências fascinou poetas, escritores e filósofos. Por isso, não é surpresa que Starnone os considere, mesmo ao falar do primeiro amor — aquela paixão emocional que nasce na infância dos personagens, vista pelos olhos de quando eram crianças. Mas o texto é mais rico ainda, como complemento há contrastes entre juventude e velhice, línguas faladas tão próximas umas das outras e ainda assim estranhas. A riqueza do texto encanta e seduz.
Esse é um livro que aflora a sensibilidade do leitor. Não é repleto de fortes emoções ou de diálogos arrebatadores. Starnone é mais fino, dedica-se a tênues paralelos. As observações desse menino de nove anos são curiosas, engraçadas, trazem um leve humor para o texto, mas nem por isso deixam de ser perspicazes, deixam de elaborar complexos argumentos. Boa leitura. Dessas que adicionam. Recomendo sem restrições.
Casa do escritor Edmond de Rostand, chamada La Villa Arnaga. Nicolas Thibaut / Photononstop
Hoje caiu nas minhas mãos, sabe-se lá porque um artigo da Vogue francesa, com casas de escritores famosos. Todas as casas mencionadas podem ser visitadas por turistas. Você que vai à França e está interessado na escrita, pode também visitar. Esse artigo da Vogue é titulado: Les maisons d’écrivains a voir en France. [Casas de escritores a ver na França]; encontre lá horários, etc.
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A Vila Arnaga se encontra Cambo-les-Bains, uma cidade de águas termais no País Basco. Hoje essa casa é um museu dedicado Edmond Rostand. Suas obras mais conhecidas são Cyrano de Bergerac(1898) e Chantecler(1910), ambas peças de teatro ainda que ele tenha sido poeta.
Casa de Victor Hugo Photo12/Gilles Targat
Localizada em Paris, na Praça Voges, no bairro de Marais, em Paris. Fechada para reparos desde a última primavera essa construção, onde Victor Hugo ocupou o segundo pavimento de 1832-1848, foi onde ele escreveu grande parte do livro Os miseráveis (1862), que no século XX se tornou grande sucesso do cinema, além de O corcunda de Nôtre-Dame (1831). Conferir horários.
O castelo de Monte-Cristo d’Alexandre Dumas, JP.Baudin/Monte-Cristo
Abraçada pela colina de Port-Marly, próxima ao rio Sena, essa construção é o resultado de obra encomendada por Alexandre Dumas ao arquiteto Hippolyte Durand. Dumas queria um castelo ao estilo renascentista com um jardim à moda inglesa. O Castelo de Monte-Cristo ficou pronto e habitado por Dumas em julho de 1847. Alexandre Dumas é o autor de muito livros famosos: O conde de Monte-Cristo, (1846) Os três mosqueteiros,(1844).
Casa de Stéphane Mallarmé, Foto Yvan Bourhis
Virada para o rio Sena, em Valvins, aqui foi a casa de Stéphane Mallarmé, onde escreveu, tratou do jardim, fez canoagem e recebeu amigos nos feriados de Páscoa ou féria de verão. Hoje é um museu dedicado ao escritor, considerado Principe dos Poetas. Expressa bem o espírito do século XIX. O poeta Mallarmé é conhecido por: Um lance de dados (1897), A tarde de um fauno (1876).
O castelo de Médan
O castelo de Médan também se encontra próximo ao rio Sena. Era um antigo pavilhão de caça, em 1527 pertencendo a Jean Brinon que foi o mecenas de Ronsard e que aí reunia poetas diversos para tardes culturais. Quase quatrocentos anos depois o local se tornou a residência do escritor belga Maurice Maeterlinck, autor de Peleás e Melisanda (1892) e O pássaro azul (1908) e ganhador do Prêmio Nobel em Literatura em 1911. Visita precisam ser marcadas com antecedência.
A casa de ‘Émile Zola, Wojtek BUSS /Gamma-Rapho via Getty Images
Também é em Médan que se encontra a casa de Émile Zola, que aí morou entre 1878-1902. Foi aqui que escreveu Nana (1879), Germinal (1885) e A besta humana (1890). No momento fechada para o público para conservação, mas deve reabrir no final deste ano.
La Maison de George Sand, Philippe Roy / Aurimages
Na pequena aldeia do vale do rio Creuse, encontra-se a Vila Manceaum como George Sans a chamava em homenagem a seu companheiro e amante (Alexandre Manceaum, que foi seu amante de 1849 a 1865), e que a comprou de presente para ela,
Um comodista sofrendo de gota: a dor é representada por um diabinho queimando o pé da vítima. Caricatura de G. Cruikshank, 1818. Litografia colorida.
“Não tenho visto meu amigo João Brandão nas livrarias nem nos teatros nem nos comícios nem nas maratonas. Que se passa com ele? Fui visitá-lo e encontrei-o de perna esticada, curtindo modesta variedade de gota — a gota dos pobres, disse-me ele.
— E como é a gota dos pobres?
— É a gota dos que não comeram nem beberam em excesso, não chafurdaram nos prazeres da mesa, e no entanto…
Não me pareceu deprimido, mas conformado. Tinha ao alcance da mão dois livros, e contou-me:
— O Álvaro esteve aqui com esses santos remédios. Recomendou que eu trocasse a colchicina por La goute et l’humour e Les goutteux célèbres. Tenho lido um pouco de cada um, e já posso mover com o dedão do pé direito, nesse lance simpático de separá-lo do dedo vizinho. Restabelecer a mobilidade dos dedos do pé, mesmo que não seja para andar, constitui um prazer de que a gente não se dá conta quando a máquina está em perfeito funcionamento, você sabia?
Eu não tinha reparado nisso, nos pequenos prazeres de pequenas partes do corpo desempenhando sem alarde suas funções rotineiras. E João continuou:
— A gente só lê coisas a respeito de uma doença quando ela nos pega pelo pé literalmente ou não. Aí começa a ler coisas desalentadoras que acabam tornando a doença mais pesada. O Álvarus teve a gentileza de me convidar a rir da minha gotinha, ou pelo menos a sorrir.
E folheando os volumes:
— Todo mundo diz que gota é doença de nobre, por ser de nobre e até de reis, como Carlos V, e Lupis XVI, mas eu posso orgulhar-me da companhia de nobrezas de outro tipo, a meu ver mais estimulantes e honrosas. Veja aqui: Chateaubriand e Lamartine eram gotosos. Montaigne também. E Leibnitz. E Cellini. E Rubens. A confraria é tão numerosa e brilhante que dá vontade de perguntar. E Dante também não era? Não está faltando Shakespeare nessa lista? Vai ver que se esqueceram de Homero… Me sinto muito reconfortado, palavra.
Antes que ele fizesse o elogio da gota, disse-lhe que não precisava exagerar….”
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Para o final da crônica, Gota, com humor, veja abaixo.
Em: Moça deitada na grama, Carlos Drummond de Andrade, Rio de Janeiro, Record, 1987, pp: 131-132
O leão sentado em seu trono e tendo a seu lado seu ministro urso, um dia dava audiência a seu povo. A ovelha veio chorando reclamar que seu pequeno cordeirinho havia sido raptado na noite anterior. O leão examinou com cuidado a fisionomia de todos que o rodeavam, porque o crime em geral se revela na face do culpado.
— Não fui eu o autor do crime, logo gritou o lobo. Não, senhor, já há muitos dias estou indisposto o que me obrigou a uma dieta; digo a verdade, não fui eu!
— Foi você! respondeu o leão. Por se defender quando ninguém ainda havia lhe acusado, você se acusou a você mesmo; você devorou o carneirinho e o urso vai lhe dar a mesma sina.
Sem demora, o lobo foi castigado com pela ferocidade do urso. Alguns dias depois testemunhas oculares declararam que o lobo realmente havia sido o culpado.
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Traduzido do francês e adaptado por Ladyce West. Publicação de 1911, em domínio público. Ilustração original
“Domingo é dia de pescaria – mas, evidentemente, só para quem sabe pescar. E nem sempre o pescador, armado de anzol, e tendo ao lado uma latinha com iscas, pode desempenhar seu ofício em isolamento semelhante ao daquele colega que, sentado a uma mesa, se dedica a capturar, no improfundável rio da vida, os fugidios peixes do espírito.
O curioso aproxima-se do pescador acomodado sobre as pedras, procura inteirar-se do seu sucesso, faz-lhe perguntas sobre o mar que, cativo de uma enseada, é apenas prateado pedaço de si mesmo, como uma pétala é flor. O homem que se desfatigara no silêncio e na espera sente-se, por sua vez, como um peixe que no fundo das águas, resiste à investida de um anzol dotado de imperdoável engodo. Desejaria não ser agarrado, naquele momento, por voz nenhuma, não beber esse elixir de curiosidade, tédio e convivência que as criaturas servem umas às outras, quando conversam. Diz que o mar está parco, e mostra-lhe o que angariou: uma cocoroca, alguma finas piabinhas cor-de-chumbo, dois gordos peixes-porcos que agonizam estatelados dentro do vasilhame.
E, gratuitamente, ou porque se sentisse na obrigação de dar um esclarecimento suplementar, ou porque não desejasse que o interlocutor o comesse por estreante ou desafortunado, ajuntou:
— Domingo passado, o mar estava melhor.”
Em: Lêdo Ivo, seleção do autor, prefácio de Gilberto Mendonça Teles, São Paulo, Global: 2004, (Coleção Melhores Crônicas- direção de Edla van Steen, “Viagem em torno de uma cocoroca“, p. 133
NOTA: Lêdo Ivo (1924-2012) foi não só um grande poeta, mas um excelente cronista, e também romancista. Precisa ser mais lembrado. Uma das coisas que me encanta sobremaneira na sua prosa é a inteligente criação de palavras que eu imediatamente adiciono ao meu dicionário digital. Além disso aprecio a expansão dos significados que ele consegue dar a palavras já existentes, Nesses três parágrafos que introduzem a crônica “Viagem em torno de uma cocoroca“, vejamos as palavra inventadas: improfundável, desfatigara; a expansão do verbo comer [que o interlocutor o comesse por estreante], parco [Diz que o mar está parco], fora as maravilhosas figuras de linguagem [se dedica a capturar, no improfundável rio da vida, os fugidios peixes do espírito.]; [um anzol dotado de imperdoável engodo] engodo no lugar de isca. Seus textos são assim, riquíssimos de viradas de significados, inesperadamente poéticos. Vale lê-lo.
“Devemos abster-nos, na conversação, de observações críticas, mesmo que sejam as mais bem intencionadas, pois magoar as pessoas é fácil; difícil, se não impossível, é melhorá-las.”
Ilustração, Brian Wambi do livro The Kando Forest Disaster.
“Estavam voltando de uma tarefa que tinham ido fazer na casa da tia Yaaye quando Binta disse para Kadiatou: “Vamos subir nesta árvore”. “Mas meninas não sobem em árvores. E se alguém contar?” “Ninguém vai contar.” “A gente vai cair”, falou Kadiatou. “E vamos levantar”, disse Binta. Era um pé de acácia bem firme, com galhos espalhados como membros, prontos para receber um abraço. O dia estava ofuscante de sol, e Kadiatou prendeu a saia na mão e subiu atrás de Binta, seu coração batendo depressa, receosa de não estar seguindo suas linhas cuidadosas. Ela parou num galho bifurcado, mas Binta subiu mais. Dava para ver os telhados inclinados da aldeia lá embaixo e o vale majestoso banhado numa bruma melancólica ao longe. Ela tinha mesmo subido numa árvore, estava em cima de uma árvore, bem lá no alto. Que estimulante descobrir que conseguia ultrapassar os limites que tinha imposto para si mesma.Mais tarde, ao descer, Kadiatou sentiu-se feliz por ter subido, mas tinha certeza de que nunca mais faria aquilo de novo. Elas não souberam ao certo quem contou a Bappa Moussa. Ele ralhou com elas e disse que trariam vergonha para a família se comportando daquele jeito, como meninas sem modos. Kadiatou pediu desculpas, enquanto Binta apenas o encarou, carrancuda e em silêncio. E então Kadiatou pediu desculpas várias vezes, para compensar o silêncio de Binta. Aquilo fez Kadiatou se lembrar de que, quando o chefe da aldeia passava, ela o cumprimentava com olhar baixo e respeitoso, enquanto Binta o encarava, levando a irmã a fazer uma mesura ainda mais profunda, como se quisesse compensá-la. Kadiatou sabia se encolher na presença de seus superiores, mas Binta nem sequer sabia que tinha superiores. Mais tarde, Binta disse para Mama: “Eu consigo subir mais alto até do que Bhoye”, e Mama, espalhando pétalas de hibisco num tapete, riu com um brilho nos olhos e disse: “Binta!”. Kadiatou sabia que a mãe a amava por cumprir seus deveres e ser confiável, mas às vezes, secretamente, queria que a mãe a amasse como amava Binta, por ser livre.”
Em: A contagem dos sonhos, Chimamanda Ngozi Adichie, tradução de Julia Romeu, Rio de Janeiro, Cia das Letras: 2025