Cidadania de aluguel — cidadania de conveniência

11 08 2008

 

Sábados tivemos o Brasil contra o Brasil no vôlei de praia nas Olimpíadas.  Não que os nossos dois times estivessem lutando pelo 1° e 2° lugares no pódio.  Uma equipe de brasileiras, jogava pelo Brasil enquanto que outra equipe de brasileiras jogava pela Geórgia.  O desejo de participar nas Olimpíadas e a certeza de não serem as melhores para representar um país de estrelas no vôlei de praia fez com que Cristine Santanna e Andrezza Martins convenientemente se tornassem cidadãs da Geórgia para terem direito aos seus 15 minutos de fama olímpica.  Será que vale?  Elas perderam.  Como era previsível já que não poderiam se igualar ao time de brasileiras com nacionalidade brasileira.  

 

As meninas, que se tornaram cidadãs da Geórgia — logo a Geórgia que entrou em guerra no dia da comemoração de abertura das Olimpíadas, não são aqui objeto do meu julgamento.  Cada um sabe o que faz e porque o faz.  Mas reconheço que em questão de cidadania acho estranho que alguém possa jurar fidelidade a uma cultura, a um país, a uma bandeira desconhecida.  Espero que tenha valido a pena para elas, esta cidadania de encomenda.   Elas não são as únicas nesta situação.  Há dois outros jogadores brasileiros, no vôlei de praia, que também envergam as cores vermelho e branco da Geórgia: Renato Gomes e Jorge Terceiro.  Há também dois outros brasileiros, irmãos, defendendo o time de hóquei espanhol: Kiko e Felipe Perrone.  Pode até ser que estes irmãos tenham algum sentimento pela Espanha, já que seus sobrenomes parecem ser de origem espanhola. Mas reconheço que fico pensando sobre as reais  vantagens destes arranjos.

 

Muitos países que não tem atletas em campos específicos, mas que gostariam de mostrar sua “força” perante o mundo, “alugam” suas cidadanias aos que podem em tese lhes trazer maior “reconhecimento mundial”.   Atletas por sua vez, atraídos pela fama, pela possibilidade de financiamento, dinheiro vivo, durante anos de treino, não vêem nada de mais em se deixarem alugar como cidadãos de uma outra terra, de outra cultura, mesmo que esta cultura não tenha nada a ver com eles.  Todos, atletas e países encontram assim uma maneira de “burlar” a mediocridade, é a solução Dorian Gray: só a imagem no espelho é real; a imagem na TV, nos jogos olímpicos, na verdadeira luta diária do esporte, esta continua lustrosa, sem danos, sem impurezas, sem perdas, e mais ainda coma a possibilidade de medalhas que as tornem ainda mais ilusórias.  [Retrato de Dorian Gray, livro do escritor inglês Oscar Wilde, publicado pela primeira vez em 1891].  Na busca de imagem de contos de fadas, países de contos de fadas como alguns do oriente médio usam seus petrodólares para atrair uma elite de desportistas de países pobres, tais como corredores africanos.  Os chineses, que vendem barato suas horas de trabalho também estão defendendo bandeiras de diversos outros países principalmente em tênis de mesa.  Mas isso não é efeito da globalização.  Isto é simplesmente o efeito do olho grande.  

 

Gol!  Ilustração Mauricio de Sousa.

Gol! Ilustração Maurício de Sousa.

 

 

No final de junho, Anne Applebaum,  no artigo [How did a guy who can’t speak Polish end up scoring Poland’s only goal of Euro 2008? 30/6/2008] abordou este assunto enquanto considerava a Euro Copa de futebol.  Na televisão ela viu Lukas Podolski (polonês) jogando pela Alemanha, fazer o único gol que fez a Alemanha vencer sobre a Polônia.  A imprensa o rodeava e perguntava: “Como você se sente tendo marcado o gol contra o seu próprio país”?  É claro que o  jovem jogador não teve nada especial para responder.  Este foi um exemplo.  Esta é uma situação típica, na Europa: muitos times de futebol têm entre seus jogadores pessoas que não tem nada a ver com os países cujas camisas eles usam e cuja pátria eles defendem.

 

Ela nos lembra, muito apropriadamente, que a maioria dos europeus, em geral, não usa o seu nacionalismo na lapela.  Diferente dos Estados Unidos, europeus não hasteiam bandeiras na frente de casa, nem comemoram dias de independência com o ardor nacionalista, com que os americanos o fazem.  Ao invés disso, as batalhas patrióticas acontecem nos campos de futebol, onde pessoas enrolam-se nas bandeiras de seus países e em grupos saem com as caras pintadas, quando não insistem em usarem as mais repulsivas perucas de fios de náilon com as cores das bandeiras de suas pátrias.  Mas com a União Européia há preocupação dos governos de diluírem ao máximo  sentimentos de nacionalismo, eles preferem se mesclar numa única nacionalidade que seja representativa da Comunidade Européia.  Há, então, cada vez mais incentivo à troca de jogadores e à defesa de uma bandeira nacional como se fosse uma bandeira do seu time favorito.  Talvez, realmente, haja esta necessidade dentro da Europa. Mas é difícil imaginar que o mesmo seja aceitável quando um time chinês de tênis de mesa defende a Argentina ou um time brasileiro de vôlei de praia defende a Geórgia.   

 

 

 

 





Prata da casa: Gisele Prata Real, escultora

9 07 2008

 

Passando hoje pela internet a procura de notícias das Olimpíadas na China encontrei algumas fotos da competição de esculturas na areia que precede a abertura dos jogos.  O evento ocupou 20.000 metros quadrados na cidade costeira de Haiyang, na Província de Shandong e se tornou o maior parque temático de esculturas na areia da China.   Esta é a terceira competição mundial de escultura na areia naquele país e este ano, como não podia deixar de ser, o tema foi:  As Olimpíadas de Beijing, 2008.  O festival começou na quinta-feira passada e atraiu famosos artistas da areia de países tais como Rússia, Austrália e Eslovênia.

 

Foi uma pena não estarmos representados pela nossa maior escultora da areia, a cirurgiã-dentista Gisele Prata Real.  Gisele está no momento participando do FIESA 2008.   Esta é a 6ª edição  do FIESA e acontece no Algarve, no sul de Portugal.  O tema escolhido pelos produtores:  HOLYWOOD.  A proposta foi uma homenagem aos fabulosos cenários, à ficção, ao humor e ao inesquecível estilo do cinema americano.  Ao todo são cinqüenta escultores participando.  Eles tiveram um mês para trabalhar em seus projetos e usar as  30.000 toneladas de areia projetadas para o festival numa área abrangendo 15.000 metros quadrados.  Este é o maior festival de esculturas em areia da península ibérica.  A exposição dos trabalhos começou em 22 de maio e vai até 22 de outubro.  Espere ver por lá famosos personagens do cinema de King Kong a Marilyn Monroe.  Gisele Prata Real compôs uma belíssima homenagem ao filme Casablanca.

Homenagem ao filme Casablanca, escultura de Gisele Prata Real

Homenagem ao filme Casablanca, escultura de Gisele Prata Real

 

 

Mas na minha opinião, julgamento feito exclusivamente por fotos, acredito que ela ainda  não tenha sido capaz de bater a si própria.  Seu trabalho no 20° Festival de escultura na areia, da cidade de Minamisatsuma, em Kagoshima no Japão, foi extraordinário.  Esta exposição que terminou no dia 6 de junho deste ano e organizada pelo governo local, teve como tema Mulheres de repercussão mundial.  Gisele Prata Real estava inspirada ao escolher uma homenagem a Madre Tereza de Calcutá, com o trabalho intitulado Vivendo o Amor.   Com uma imaginária muito poética a artista brasileira apresentou detalhes da vida diária da religiosa, com um casebre,  roupas na corda, tina para lavar e a própria Madre Tereza abraçada às crianças de quem ela tanto gostava.

 

Vivendo o amor, Homenagem a Madre Tereza, de Gisele Prata Real

Vivendo o amor, Homenagem a Madre Tereza, de Gisele Prata Real

 

Seria interessante termos mais cobertura da imprensa para os poucos mas muito concorridos festivais de escultura na areia que acontecem no Brasil.  Seria uma excelente maneira de popularizarmos e certamente acharmos novos talentos nesta arte efêmera.