Trova do carro velho

16 11 2011

Cartão postal de Margret Boriss, anos 20 do século XX.

Carro velho, meu amor,

dá trabalho: além de feio,

no morro, falta motor;

na ladeira… falta freio!

( José Ouverney)





Imagem de leitura — Angus McBride

15 11 2011

Histórias para a hora de dormir

Angus McBride (Inglaterra, 1931- 2007)

Guache sobre papel

Coleção Particular

[Nota: ilustração usada para a capa da revista Era uma vez [ Once upon a time, nº 13]

Angus McBride nasceu em Londres.  Ficou órfão de mãe aos 5 anos de idade e órfão de pai durante a Segunda Guerra Mundial, aos 12 anos de idade.  Foi educado na Escola do Coro da Catedral de Canterbury.  Depois de fazer o serviço militar, mudou-se para a África do Sul, por causa da má situação economica de pós-guerra na Inglaterra.   Fez bastante sucesso em Cape Town como ilutrador de livros, mas em 1961 voltou à Inglaterra, onde havia um maior mercado para as artes gráficas.  Na década de 1970 volta à Africa do Sul.  Ficou conhecido por suas ilustrações históricas.  Faleceu em 2007.





Imagem de leitura — Ângelo Agostini

14 11 2011

D. Pedro II lendo os jornais do dia, 1888.

Ângelo Agostini ( Brasil, 1843-1910)

Publicado no Diário Popular de 18 de novembro de 1888.

[quase um ano antes da Proclamação da República]

Homenagem ao dia 15 de novembro!




Por que escrevo resenhas de livros?

14 11 2011

Biblioteca, François Schuiten (Bélgica, 1956).

Desde que comecei a escrever resenhas de livros, muito antes de ter um blog, houve a pergunta do por quê?  Recentemente, uma amiga depois de ler uma de minhas resenhas acabou me dando a oportunidade, através de suas perguntas, de esclarecer, até para mim mesma, a preocupação que tenho em escrevê-las.  Há diversas razões, mas é em essência para fechar aquela experiência de leitura.  Como se com ela eu pudesse colocar um ponto final naquela experiência.

Não me lembro de uma vida sem livros. Fui alfabetizada muito cedo, tão cedo que me faltam memórias dessa época. Foi um pouquinho antes dos cinco anos de idade.  A minha alfabetização foi tema, como única criança na família, antes de irmãos e primos nascerem, de um projeto de minha tia, irmã mais moça de mamãe, no último ano da faculdade.  Quando tia Neyde um dia me mostrou o trabalho dela de faculdade, os meus desenhos durante o processo didático no início da minha alfabetização, fiquei pasma.  Não me lembrava.  Para ser precisa, não me lembro de uma época em que eu não estivesse com alguma coisa para ler nas mãos.  Revistinhas e livrinhos foram brinquedos tão queridos quanto o cachorro de pelúcia Tupi, o patinho de madeira com rodas, e mais tarde a minha bicicleta.  Tinha bonecas, mas elas nunca foram o meu forte: “davam muito trabalho”, eu respondia quando interrogada.

Os livros também foram, como o piano, os grandes companheiros de uma adolescência difícil, irritadiça, cheia de altos e baixos emocionais, de gastrite nervosa, calmantes e de muitas brigas familiares.  Receio que, na época, eu não tenha entendido as boas intenções de meus pais, mas eles tampouco não conseguiam entender minha sede de liberdade e minha necessidade de testar limites. Mutuamente desapontados, sobraram-me os livros como os grandes amigos, minha válvula de escape, meu mundo único, inatingível.  Contribuiu para esse cenário meus pais serem, ambos, professores: minha mãe formada em neo-latinas, lia muito, principalmente em espanhol;  papai, químico industrial e professor de química e física também estava sempre às voltas com livros.  Na nossa família livros poderiam ser encontrados em qualquer lugar da casa.

Jovem escrevendo carta, Diane Ursin (EUA, contemp.) acrílica sobre tela.

Aos nove anos de idade, ganhei de minha avó um livro em branco, de capa dura com a palavra Poesias impressa em dourado. Pus-me imediatamente a copiar poemas dados na escola, a copiar, da antologia de leitura em que estudava, as poesias de que mais gostava, e a recolher, desse jeito, um vasto arsenal de versinhos, rimas, poemas, poesias, sonetos variados.  Tenho esse livro até hoje, apesar de ter sido abandonado ao longo do tempo, ainda com páginas em branco a serem preenchidas.  Ao longo dos anos fui aprendendo a pensar sobre aquilo que lia, e um dia comecei dois cadernos diferentes de anotações: ambos com capas duras [que demonstram que durarão para sempre], mas poderiam ter sido qualquer tipo de caderno, a diferença fazia com que eu pensasse que eles eram “mais sérios”.  Em um deles eu copiava um trecho de leitura que tivesse achado importante, sedutor, significativo.  No outro eu anotava o título do que lia, o autor, a editora, e adicionava palavras que me lembrassem do conteúdo e principalmente os motivos da nota que eu dava abaixo, que variava de1 a 5.   Ambos ainda existem, apesar de não serem mais funcionais.  Vem daí, tenho certeza, a idéia de escrever as resenhas.

Ler é uma atividade singular.  Fazemos a leitura sozinhos.  Mas há uma vontade enorme de conversarmos com alguém sobre aquilo que lemos, não é mesmo?  Confirmar que percebemos o que estava lá naquele outro mundo. Dividir essa experiência de leitura faz parte das motivações para que eu escreva uma resenha.  Resenhas me ajudam a pensar sobre o que li.  E, se imagino que há uma audiência, qualquer que ela seja —  para mim é uma coisa mais ou menos abstrata — aí sim, me coloco com a incumbência de fazer a resenha clara, inteligível.  Gosto mais de escrever do que de conversar.  Sempre gostei mais.  A razão é simples: tenho mais controle, não sou interrompida, posso editar, não me distraio, posso escolher o tom, selecionar o vocabulário e com isso me aproximar ou me distanciar do que estou pensando. Tenho que pensar antes de dar uma opinião: é por isso que escrevo.  –

Desconheço a autoria dessa gravura.

Na leitura levei horas, dias, com um autor, com sua história, com sua maneira de pensar.  O autor pede e o leitor se entrega.  Sim, ler é um ato de entrega.  Eu me entrego a uma certa narrativa, a um certo ritmo, ao tema, à escolha das palavras de outrem.  Concordando ou não sigo sua direção, confiando que irá me levar a um desenlace.  A resenha é a minha hora de guiar, de levar avante, de fazer o caldo final.  A relevância da leitura está nas minhas mãos.  Ela é minha, só minha.  Cada texto é  importante para o leitor por diferentes motivos.  Penso então em como e por que razão levei a leitura até o final.  Tenho, afinal, que honrar esse investimento do tempo em que eu e o escritor passamos juntos. Diferente de um filme que pode levar de 90 a 120 minutos,  um livro provoca um relacionamento prolongado, mais íntimo, até mesmo físico: consideremos o peso de um volume, o tamanho de suas páginas.  Às vezes o livro se torna desconfortável para segurar, para abraçar, para  manusear. Seu peso pode ser uma experiência desagradável porque não podemos levá-lo para cama, colocá-lo na bolsa,  lê-lo no ônibus.  Se vou até o fim de um livro tenho que pensar nos motivos que me levaram até fim.  É a minha hora de dizer se a troca entre essas duas pessoas: escritor/leitor foi relevante, se teve valor para mim.  Ah, sim, devo dizer que não tenho pena de abandonar livros no meio.  Às vezes não é a hora de lermos sobre um assunto, e  às vezes não dá mesmo, não conseguimos ter empatia com aquele escritor.  Há muito mais livros a serem lidos em uma vida do que os dias e horas que nos restam.  Este não é um mau presságio. É uma realidade.  Não é possível ler tudo que já foi publicado.  Por que então investir num relacionamento com um autor que sentimos não será significante?

Não faço resenhas de todos os livros que leio.  Não escrevo sobre os livros de que não gosto.  Às vezes faço anotações das razões que me levaram a abandonar um livro: umas poucas frases, para que eu me lembre.  Mas não vou gastar tempo e energia escrevendo um monte de coisas horríveis sobre um livro.  Para quê?  Para quem?  A minha experiência não é a mesma de outras pessoas. É só mais uma.  Anos atrás, quando eu ainda morava fora, fui convidada para fazer resenhas para um jornal americano.  A mim, couberam romances em tradução para o inglês, porque na época eu trabalhava nesse ramo.  Foi gratificante saber que as minhas opiniões eram lidas, aplaudidas, mas também muitas vezes não muito bem acatadas por pessoas que não me conheciam.  Isso me deu uma visão muito diferente do que é a resenha profissional.  Essa experiência, além de me trazer uns trocados, me ensinou a ter disciplina, a escrever só um certo número de palavras, nem mais nem menos [que não é o caso nesse ensaio]. Ela me ensinou também que o que é publicado num jornal tem longo alcance.

Todos esses parágrafos foram para justificar o hábito das resenhas.  Esse hábito é o do simples pensar.  Procuro responder às perguntas: Gostei?  O que me levou a gostar?  E como ou porque isso é relevante na minha experiência?  Quando consigo responder a essas perguntas de maneira que faça sentido para mim, estou pronta para dizer adeus ao companheiro de viagem em que o livro se tornou.  E provavelmente, para dizer um até logo, ao autor que me proporcionou momentos intrigantes. Sim, é com a resenha que concluo o processo de leitura.

©Ladyce West, Rio de Janeiro: 2011





Quadrinha do saci-pererê

14 11 2011

Chico Bento pensa no Saci-pererê, ilustração Maurício de Sousa.

Saltando apenas num pé,

negrinho, maroto e arteiro,

o saci nada mais é

que o capeta brasileiro!

(Carolina Ramos)





Howard Pyle o criador da aparência de Johnny Depp?

13 11 2011

O pirata do Caribe, de Howard Pyle.

Quem não se interessa por ilustrações, ou por ilustrações antigas, digamos do século dezenove, está perdendo a chance de se deliciar com imagens bonitas e interessantes que já puderam ser fonte de inspiração para pintores famosos.  Além disso, esse arsenal visual do passado pode ser de grande utilidade para criações contemporâneas, nas artes gráficas, nas visuais, ou até mesmo na composição de um personagem, para o teatro ou para o cinema, como o artigo de Emma Mustich, publuicado na revista eletrônica Salon deste mês, mostrou.  Na resenha da exposição Howard Pyle: American Master Rediscovered [Howard Pyle: a redescoberta de um mestre americano] mostra que atualmente ocupa o Delaware Art Museum, na cidade de Wilmington, Emma Mustich lembra que um dos mais interessantes personagens vividos por Johnny Depp no cinema, o Capitão John Sparrow, teve como inspiração imagens criadas nas ilustrações de Howard Pyle.

 

 

Howard Pyle, Captain Keith, (1907)

A retrospectiva de Howard Pyle (1853-1911) comemora os cem anos de morte do pintor e também os cem anos do museu de arte do estado de Delaware instituição para a qual pintor foi instrumental: seus amigos decidiram abrir o museu, depois da morte do pintor, na sua cidade natal.   A influência de Howard Pyle na vida artística americana não se limita à criação do museu.  Com suas ilustrações para Simbad on Burrator (1902), The True Captain Kidd (1902),  The Fate of the Treasure Town (1905) [texto de autoria do próprio pintor], Captain Keith, (1907) ele se tornou praticamente o autor da iconografia dos piratas, dos homens do mar; criador da imagem que todos, hoje, associamos aos piratas, no mundo inteiro.  Mais ainda, suas ilustrações para os grandes livros de aventuras e romances históricos, tais como O rei Artur e os cavaleiros da távola redonda,  Joana D’Arc, texto de Mark Twain, entre muitos outros, assim como seus próprios romances, como The Merry Adventures of Robin Hood, [As rocambolescas aventuras de Robin Hood], em que ele combinou diversas lendas e histórias sobre o herói inglês num único volume, e os adaptou para crianças, tornaram-se referência para todo o século XX.  E foram nas suas ilustrações que Hollywood foi procurar inspiração não só para as produções mais recentes mas também no início dos grandes estúdios.  Errol Flynn que ficou famoso na década de 1930 pelos filmes de aventuras tais como: Capitão Blood, A carga da brigada ligeira, O príncipe e o pobre e Robin Hood, entre outros, traz à pauta, com os trajes usados nessas produções, a influência das ilustrações de Howard Pyle nos figurinos de Hollywood.

Howard Pyle, A vinda de Lancaster, 1908

 

Sua contribuição para as artes visuais como pintor, independente de sua dedicação às artes gráficas é enorme. Foi um naturalista, fundador da reserva natural The Brandywine Conservancy a norte do estado de Delaware, que existe até hoje, bem admnistrada, sem problemas financeiros, protegendo a natureza: flora, fauna, fontes de água.  Howard Pyle foi também professor de importantes pintores americanos do século XX: Alice Barber Stevens, N C Wyeth, Elizabeth Shippen Green, Maxfield Parrish, Ethel Franklin Betts, Jessie Willcox Smith, Harvey Dunn, Violet Oakley, Sarah Stilwell Weber, Thornton Oakley, Frank Schoonover entre outros.  E foi ainda bastante apreciado por outros pintores de seu tempo.  Na biografia do pintor ameircano  N.C. Wyeth descobrimos que Vincent van Gogh numa carta a seu irmão Theo escreveu: “Você conhece a revista americana Harper’s Monthy?  Há coisas lá que me deixam bobo de admiração, incluindo os desenhos de um vilarejo Quaker, como nos tempos antigos de Howard Pyle.” 

É mais do que justa a comemoração dos 100 anos do Museu de Arte de Delaware, mas mais importante ainda é a comemoração do legado deixado por este artista plástico, visionário, que, nascido em meados do século XIX, ainda influencia diversos campos da vida de seus compatriotas em pleno século XXI.





Quadrinha infantil sobre a floresta

13 11 2011
Floresta, ilustração de Marcel Marlier, 1953.

A devastação das matas

Constitui um grande mal

Que pode levar ao caos

A nossa Terra Natal.

(Walter Nieble de Freitas)





É a hora de esconder o bico, poesia de Augusto Frederico Schmidt

12 11 2011

É a hora de esconder o bico

Augusto Frederico Schmidt

É a hora de esconder o bico

Entre as penas e adormecer.

É a hora de ficar quieto,

De mergulhar o bico entre as asas

E deixar que sopre

O vento fresco do sono.

É a hora em que as sombras leves

Amadurecem as coisas do mundo,

Em que nos céus desmaiados

Sobem as últimas palpitações

E o fumo da terra.

É a hora da breve doçura.

Quando as árvores, as flores e os pássaros

Principiam a envolver-se na imobilidade

– – –  –  E no silêncio…

Em: Eu te direi as grandes palavras: poemas escolhidos e versos inéditos, Augusto Frederico Schmidt, Rio de Janeiro, José Aguillar:1975.

Augusto Frederico Schmidt  (RJ 1906 – RJ 1965) viveu e estudou na Suíça dos 8 aos 10 anos e, ainda adolescente, começou a trabalhar no comércio do Rio, primeiro como balconista da famosa livraria Garnier e, em seguida, caixeiro viajante. Em 1931, fundou a Editora Schmidt.  Colaborou com os jornais O Globo, Correio da Manhã e A Tarde.





Imagem de leitura — Victor Zhuravlev

11 11 2011

Repouso, 1996

Victor Zhuravlev ( Ucrânia,contemporâneo )

óleo sobre papelão, 80 x 80cm

Victor Zhuravlev





A mulher de vermelho e branco de Contardo Calligaris e a ambiguidade

11 11 2011

O que você vê nesta imagem?

Depois da leitura do excelente romance A mulher de vermelho e branco, de Contardo Calligaris, [ Cia das Letras: 2011] eu gostaria de poder rever meu primeiro professor em teoria da percepção, Antônio Gomes Penna (1917-2010), para dizer, “valeu mestre”, o senhor me preparou para a boa interpretação de texto e das artes visuais.  A  realidade é plural.  É a soma do que vemos e do que não vemos.  Mas, através desses anos, como historiadora da arte, o conhecimento da gestalt raramente se fez óbvio, pelo menos ostensivamente.  A razão é simples: a ênfase tem sido na historiadora e não no teórico das artes visuais.  A  história da cultura ocidental através das artes plásticas e da literatura prevaleceu sobre as teorias da percepção, se isso pode de fato acontecer, porque a  história também está sujeita a interpretações diversas,  não sendo fixa nem sedimentada.  Como tudo mais,  é a soma do que  vemos e do que não vemos.  O romance de Contardo Calligaris é uma fascinante e deliciosa aventura, contagiante e sedutora, no mundo das nossas percepções daquilo que nos rodeia, daquilo que nos afeta e até mesmo da interpretação dos nossos sonhos.

Mas não se enganem, A mulher de vermelho e branco é antes de tudo uma ótima história, contada de maneira simples, direta, sem muitos rodeios literários.  É um quase-thriller.  Digo um quase-thriller porque as aventuras que se desenrolam ao longo do caminho são mais de ordem intelectual.  Até mesmo o perigo é mais potencial do que factual, se bem que tão importante quanto.  Mas há um fio condutor de suspense até a última página, quando temos que reconsiderar tudo o que poderíamos ter imaginado e somá-lo ao que já considerávamos como certo.

A trama se passa em seis meses de 2003 com duas atualizações em 2010 e 2011 e retrata a vida do psicanalista Carlo Antonini, dentro e fora de seu consultório: vida profissional e particular.  São os dois aspectos de sua vida que se entrelaçam: ora o psicanalista, ora o homem comum nos ajudam a construir o enredo.  Seguindo seus passos e suas divagações, considerando os amigos, as conversas e, em particular, uma paciente entramos com ele na difícil arte de interpretar a realidade que se apresenta aos seus olhos.  A mulher de vermelho e branco não deixa de ser um envolvente ensaio prático sobre a ambiguidade, um documento lúdico que demonstra como as condições do observador modificam a importância do que é percebido.  

Nessa narrativa tudo tem muitas faces.  Tudo é a soma de todos os seus componentes tanto os percebidos quanto os que estão distantes do nosso conhecimento: as pessoas têm diferentes nacionalidades, vão e vêm de diferentes países, falam pelo menos duas diferentes línguas com familiaridade.  São famílias com mais de uma identidade, vindas de diversos lugares do mundo.  Duas mulheres, que a princípio parecem diametralmente opostas, ambas com singular dualidade entre seus nomes de batismo e os nomes pelos quais vêm a ser conhecidas, apresentam comportamentos que, por base em um evento, parecem se modificar no inesperado oposto do que haviam sido até então.  Ambas podem ou não ser suspeitas de atos de violência, mas ambas também podem demonstrar fragilidade e doçura. Até mesmo o psicanalista Carlo Antonini que narra o romance, que trafega com familiaridade entre São Paulo, Nova York e Paris, que muda de língua como se muda de roupa, considera a ambivalência do dentro e do fora de seu consultório, de seus motivos e até do que a vida poderia ter sido.  E ainda é confrontado com a ambivalente leitura que faz daqueles que o rodeiam, dos amigos e conhecidos. Não é que a realidade esteja sempre em questionamento na narrativa, é ela que se apresenta camaleonesca, múltipla, facetada e precisa ser ajustada à medida que os personagens dão vazão à fluidez de suas vidas.

Contardo Calligaris

Mais do que um romance, uma aventura ou um thriller,  A mulher de vermelho e branco é um exemplo do trabalho da psicologia cognitiva.  Ele demonstra que a realidade é ambígua, que cada pessoa, fato ou evento pode mudar de acordo com a interpretação que deles fazemos. E, no final, quase somos surpreendidos,  não necessariamente pela trama.  Mas quando consideramos o efeito da ambiguidade em tudo que nos cerca.  Como conseguimos navegar ao longo de nossas vidas sem maiores embates, sem grandes desentendimentos, quando não podemos compreender tudo o que nos cerca?  Parece fantástico, miraculoso até:  se cada um de nós percebe o mundo de maneira tão diferente,  tudo deveria contribuir para um caos ainda maior do que o que enfrentamos, para o oposto da ordem.    Vale a leitura.  Recomendo.