Patinadores no Natal, 1946
Djanira da Motta e Silva (Brasil, 1914 -1979)
colagem e guache sobre papel, situado Nova York, 31 x 23 cm
Paz na terra aos homens de boa vontade!
Patinadores no Natal, 1946
Djanira da Motta e Silva (Brasil, 1914 -1979)
colagem e guache sobre papel, situado Nova York, 31 x 23 cm
Flavio Machado
Lembro da primeira vez que vi o natal acontecer. Na madrugada acordei e vi deslumbrado ao lado da árvore de natal, o velocípede pedido a papai noel. Como era bonito o meu velocípede de metal.
A árvore era um capitulo a parte em nossa casa, naqueles dias era simplesmente a nossa árvore de natal, ficava incógnita no quintal durante o ano, plantada em lata de 20 de litros, quando aproximava – se o dia 25 de dezembro, ela ganhava destaque, a lata enferrujada ganhava papel alumínio para lhe cobrir as feridas do tempo, a árvore enfeitava-se de bolas coloridas, e no alto a estrela guia, simbolizando a estrela que apontou caminho para a manjedoura. E para um toque europeu, enchíamos de algodão, para dar ares europeus, um costume daquele tempo nas casas suburbanas.
E na nossa casa tinha um pequeno presépio que minha mãe desembalava de cima do armário, a representação da cena do nascimento de Jesus em Belém, eu lembro que aquela cena tinha uma ar de grande importância, aos meus olhos de menino
No subúrbio era uma festa, o dia seguinte, desfile de presentes entre a garotada. Tudo muito especial para o menino que descobria o natal, A nossa casa era simples, um quarto e sala em uma rua ainda sem calçamento do Engenho da Rainha, mas aos olhos do menino era um palacete, um castelo como daquelas intermináveis histórias que minha avó contava.
E simplicidade era a palavra-chave, o ar ingênuo daqueles anos, qualquer coisa era motivo de comemoração, por mais singelo que parecesse. Na minha casa não se falava tanto de religião, mas eu sabia por escutar que comemorávamos o nascimento de Jesus. E aquele presépio tão pequeno hoje, mas que era gigantesco na época, tão pobrezinho e tão rico.
Agora depois de passados tantos anos, a lembrança daquele natal, emociona de verdade o coração envelhecido, mas não imune a essa nostálgica madrugada, quando o velocípede de metal surgiu na sala. E o menino resiste, e de repente surge pedalando com o presente sonhado. Como gostaria que todos pudéssemos recuperar as primeiras emoções de alegria, seja numa noite distante de natal, seja mais recente, e que Jesus esteja conosco, assim como aquele menino parecia entender vendo a cena retratada do nascimento de nosso Senhor, nosso Salvador, num pequeno presépio montado na memória.
05 de Novembro de 2024.
Cabo Frio, RJ
Natureza morta com bico de papagaio, 1990
Evilásio Lopes (Brasil, 1917 – 2013)
óleo sobre tela, 54 cm por 45 cm
Vaso com bicos de papagaio sobre a mesa, 1958
Domingos Gemelli (Brasil, 1915-1985)
óleo sobre tela, 55 X 80 cm
Aqui estão duas telas com representações da planta Bico de Papagaio associada à época do Natal. Essa associação é um costume importado principalmente dos Estados Unidos. A planta (e essas partes vermelhas não são uma flor, mas folhas modificadas com flores minúsculas aparecendo no centro destas modificações) é natural do México. A modificação das cores das folhas ocorre com um menor número de horas de exposição ao sol. Portanto quando o Bico de Papagaio é utilizado no planejamento de um jardim, o paisagista leva em conta que suas atraentes folhas vermelhas aparecerão no inverno. No hemisfério norte isso acontece na época do fim do ano, daí sua aparição como planta decorativa do Natal. Poucos artistas se dedicaram a representações do Bico de Papagaio, que eu conheça.
Natureza morta
Estevão Silva (Brasil, 1845-1891)
óleo sobre tela
Coleção Particular
Abóbora, 1956
Oswaldo Teixeira (Brasil, 1905 – 1974)
óleo sobre tela, 54 x 73 cm
Está claro que escolhi o tema abóbora. Não é um tema muito comum entre os pintores figurativos brasileiros mais modernos. Acho curioso. Mas há moda na escolha das frutas, dos legumes e das flores. Talvez não deva dizer moda. mas há preferências em diferentes épocas pelas flores ou frutos representados. Há certas flores, por exemplo, que desaparecem das naturezas mortas ao longo do século XX. Um bom estudo provavelmente revelaria as razões. Poderiam não estar mais à venda nas feiras livres. Uma observação rápida, superficial, mostra que não vemos nos dias de hoje ervilhas-de-cheiro à venda nos mercados ao ar livre, assim como não vemos mais mimosas, com suas flores-bolinhas amarelas. Por volta dos anos 60 elas desaparecem. Teria a ver com a produção de flores para exportação? Quem passa os olhos rapidamente sobre as naturezas mortas não percebe como alguns desses detalhes revelam muito não só sobre a época ou a cultura que as produziu, como sobre o artista que a elas se dedicou. Aos poucos colocarei aqui algumas observações.
Almir Correa
Fiz um poema
e não sei se vale a pena
poemar.
É um poema com pena
pena do céu
pena da terra
pena do mar.
Não tem mais pena de índio
Porque índio já não se acha em nenhum lugar.
Mas ainda tem
pena de arara azul
pena de galinha sem cabeça
pena de pato pateta.
Tem tanta pena
pena até de travesseiro.
Só não tem pena nenhuma do burro
porque burro não tem pena.
Em: Poemas Malandrinhos, Almir Correa, São Paulo, Atual:1992
Toca da velha, Mangaratiba, 1946
José Pancetti (Brasil, 1902-1958)
óleo sobre tela, 39 x 46 cm
Gosto muito desta tela. Gosto da composição dela. Há uma linha diagonal invisível que separa a conturbada, cheia de ângulos, cena da mulher no tanque no canto esquerdo inferior, e o que vemos no canto superior direito onde águas plácidas apoiam canoas sonolentas descansando sem seus remadores. Essa dualidade perfeitamente balanceada é atraente. Pancetti já estava aqui em sua fase madura, podemos ver que a partir da década de 40 ele vai abstraindo as formas do que representa chegando quase a imagens totalmente abstratas, salvo pelos títulos das praias que pintou. De fato, grande parte das obras que tenho fotografadas das cidades costeiras do estado do Rio de Janeiro são de sua autoria. Ele perambulou por toda a costa do estado trabalhando incessantemente.

Não sei se as pessoas andam com pouco tempo, mas algumas chegaram a me contatar, lá por volta de setembro, para que eu desse algumas dicas de bons livros que fossem curtos. Inicialmente pensei em livros com 250 ou menos páginas. Fiz um pequeno apanhado. Mas isso levou a mais pedidos de livros de menores tamanhos, quase contos.
Selecionei alguns que tinha aqui em casa. Como essas conversas haviam sido através do meu Instagram, [@escritora.ladycewest] fiz alguns sete vídeos. Tive sucesso. Na verdade mais sucesso do que imaginei. Mas foram poucos os vídeos. Depois de uma vasta pesquisa, agora tenho aproximadamente uma série de uns setenta livros. Esses colocarei no Instagram e aqui no blog a partir de 2025. E colocarei minhas opiniões sobre eles.
Mas hoje, aproveitando que o Natal se aproxima, resolvi colocar aqui aqueles livros que já mencionei que são pequenos e de excelente qualidade. Não cheguei a colocar todos os vídeos no blog. Francamente sou muito sem experiência digital e isso tudo, que as pessoas parecem fazer brincando, para mim, leva muito tempo.
Já tenho uma poesia por dia no meu Instagram. Se vocês quiserem ver é o mesmo Insta daí de cima. Mas essa exposição ainda não faz parte de mim. Ainda não gosto. Sei que tenho que mudar. Nós todos temos. Mas não é fácil. Aqui vai então a lista dos livros de que já falei anteriormente.

1 – O papel de parede amarelo, Charlotte Perkins Gilman, Editora José Olympio, 112 páginas
O papel de parede amarelo é um clássico da literatura feminista publicado pela primeira vez no Brasil.
Para tratar a esposa fragilizada, um médico aluga uma fazenda histórica, na tentativa de criar ali um retiro de recuperação emocional. O lugar é encantador, com uma bela mansão colonial e jardins amplos e sombreados. Tudo parece compor o cenário perfeito. Mas algo de muito estranho se passa naquela casa… especialmente no quarto em que o casal se instala, com o sombrio papel de parede amarelo.
Desde sua publicação, em 1892, o drama narrado por Charlotte Perkins Gilman tem sido categorizado como uma narrativa de aberração mental, uma história de terror ao estilo de Edgar Allan Poe ― não só pela temática, mas pela qualidade textual. Os críticos contemporâneos observam, no entanto, que O papel de parede amarelo apresenta elementos que vão além da fantasia ou do delírio, fazendo com que este livro, como afirma Elaine R. Hedges, no posfácio à presente edição, seja “um dos raros textos literários de uma autora do século XIX que confrontam diretamente a política sexual das relações homem–mulher, marido–esposa”. Talvez seja esse o motivo pelo qual o texto original tenha sido rejeitado por alguns editores até sua publicação na New England Magazine .
O fato é que a autora, grande intelectual feminista e professora, que atinge seu ápice literário neste conto, foi responsável por uma produção extremamente relevante de textos não ficcionais sobre a condição da mulher em seu tempo. Por ter vivido sob depressão durante um período e haver recebido tratamento psicológico duvidoso, é possível perceber elementos autobiográficos na história que temos em mãos. Quando nos aproximamos da personagem feminina de O papel de parede amarelo , uma mulher deprimida e submetida a um tratamento impositivo e infantilizador, percebemos que a incômoda estranheza sentida por ela tem suas causas em algo além da casa e das aberrantes visões despertadas pelo papel de parede amarelo. E o estranho, como observou Freud, é aquilo que nos é mais familiar.
2 – A casa de papel, Carlos Maria Dominguez, Editora Francis, 104 páginas
Na primavera de 1998, Bluma Lennon, uma professora de Cambridge, está lendo um livro de poemas de Emily Dickinson quando é atropelada. Após a sua morte, um colega e ex-amante recebe um exemplar de A linha da sombra, de Joseph Conrad, em que Bluma escrevera uma misteriosa dedicatória e que lhe era agora devolvido. Intrigado, ele parte numa busca que o leva a Buenos Aires com o objetivo de procurar pistas sobre a identidade e o destino de um obscuro, mas dedicado bibliófilo e a sua intrigante ligação com Bluma. A casa de papel é uma fábula sedutora sobre o amor desmesurado pelas bibliotecas e pela literatura. Uma envolvente intriga policial e metafísica que envolve o leitor numa viagem de descoberta e deslumbramento perante os estranhos vínculos entre a realidade e a ficção.
3 – O fuzil de caça, Yasushi Inoue, Editora Estação Liberdade, 112 páginas
No Japão, o período do pós-guerra trouxe definitivamente à tona toda sorte de questões que mantiveram caráter de tabu durante tanto tempo, numa tradição secular de silêncio e discrição. Isso faz com que o enredo de O fuzil de caça, cujos personagens estão enleados em um caso de amor extraconjugal, não constitua por si só uma novidade ou um fator de estranhamento. É também na forma, e não apenas em sua temática, que a obra se consolida como fundamental no panorama da literatura japonesa contemporânea.
Lançando mão da tradição do romance epistolar, convida o leitor à posição de voyeur de uma comunicação unilateral e inusitada entre um caçador, Josuke Misugi, e um escritor. Três cartas, endereçadas a um mesmo homem por três mulheres diferentes, imprimem uma textura trágica à trama.
O jogo de narradores; as cartas como único veículo para a torrente de alta tensão emocional que se revela ao leitor; o exercício constante da concisão e o lirismo que transpira de uma prosa que se mantém sempre vizinha do território poético: a estética e o conteúdo se entrelaçam, e o entrecho se apresenta belo como uma trilha na neve. Ao mesmo tempo, o equilíbrio entre o que é dito e o que é velado mantém o mundo da solidão presente em cada linha e constante em todos os personagens. Permeiam estas páginas o isolamento e a carência de franqueza nas relações humanas, que as cartas reveladas por Misugi tentam romper e atravessar.
4 – Não é um rio, Selva Almada, Editora Todavia, 96 páginas
Com sua prosa precisa e econômica, a argentina Selva Almada é uma das vozes mais originais da literatura de língua espanhola contemporânea. Seu universo também é peculiar: a autora não fala da cosmopolita Buenos Aires. Seu ambiente é o mundo interiorano, onde vilarejos quase esquecidos no mapa abundam em histórias em que a violência, os laços familiares e velhos costumes ainda são decisivos. É o caso deste novo romance, um livro que trata da amizade e seus segredos. Durante uma pescaria entre três homens, a complexidade com que se forjam os afetos é revelada como o próprio curso de um rio. Enero Rey e Negro levam Tilo, o filho adolescente de Eusébio (o amigo morto dos dois), para pescar. Enquanto bebem vinho, cozinham, falam e dançam, eles lutam com os fantasmas do passado e do presente. Esse momento íntimo e peculiar que conecta a trajetória desses três homens também os liga à vida dos habitantes locais nesse ambiente cercado de água e regido por suas próprias leis. Há perdas e mortes prematuras. Mas há também a teimosa vitalidade da natureza: um matagal coberto de árvores centenárias, animais, pássaros; o rio trazendo vida nas suas entranhas; as gentes nascidas e criadas nessa paisagem que a protegem com unhas e dentes contra os intrusos. Humano, mas ao mesmo tempo animal e vegetal, este romance flui como uma conversa entre seres que se amam.
5 – Todas as manhãs do mundo, Pascal Quignard, Editora Zain, 96 páginas
Século XVII, à época do rei Luís XIV, um aclamado mestre da viola da gamba, o senhor de Sainte Colombe, vive para a música. Homem de poucas palavras, de constantes ataques de cólera, dedica-se incansavelmente ao seu instrumento, isolado em sua cabana. Desde a morte da esposa, para quem compusera em homenagem o Túmulo dos lamentos, vivia sozinho com as duas filhas, a quem ensinara a música desde muito cedo. Recebe, certo dia, a visita de um jovem músico de dezessete anos, o senhor Marin Marais, que deseja estudar com o mestre e aprender os segredos da viola da gamba. Estes dois músicos com visões opostas de mundo refletem sobre a vida e a arte em uma trama brilhante na qual ficção e realidade se misturam neste que é um dos mais conhecidos livros de Pascal Quignard.
6 – O último amigo, Tahar Ben Jelloun, Editora Bertrand, 128 páginas
Escrito em estilo direto e claro, O Último Amigo é também um retrato cruel do Marrocos dos anos de repressão e das desilusões que se seguiram. Além dessa paisagem humana e política, e até a reviravolta final, O Último Amigo deixa entrever uma sociedade complexa e contraditória, arcaica e moderna. Mesmo quando se é exilado do Marrocos, volta-se lá para morrer.
7 – O Carrasco que era santo, Josué Montello, Editora Nova Fronteira, 102 páginas
Com a morte do carrasco, o rei ordena que Ludgero assuma o cargo. Inconformado com a pena de morte, ele e seu amigo Libório armam um plano de fuga para os condenados. Lenda medieval narrada por uma contadora de histórias, que diverte e ao mesmo tempo provoca sérias reflexões.
Já estou me preparando para postagens o ano inteiro sobre livros pequenos. Aguardem.
Natureza morta
Roberto Burle Marx (Brasil,1909 -1994)
óleo sobre tela 43 x 50 cm
Natureza morta,1969
Aldo Bonadei (Brasil, 1906-1974)
aquarela sobre papel, 33 x 25 cm.
Ocasionalmente recebo um email com pedidos para descrições dos quadros que coloco aqui. Vou ver se consigo, de vez em quando, colocar uma notinha. Nem sempre tenho tempo. Essas coisas requerem muita atenção. Comecei a fazer pares das Naturezas Mortas, (duas obras por dia) tanto de flores quanto de legumes e frutos, porque tenho uma enorme quantidade de fotografias dessas obras e por mais que eu me dedicasse ao blog eu jamais conseguiria usar tudo que tenho.
Minhas escolhas são do momento. Como me sinto naquele dia, naquela hora. Mas quando coloco duas obras juntas como essas de hoje, tenho alguns parâmetros para a escolha.
O primeiro parâmetro é meu gosto. Sou fã incondicional desses dois pintores brasileiros: Aldo Bonadei e Roberto Burle Marx. Herdeiros diretos do cubismo sincrético, tiveram tempo, coragem e habilidade de usar a multi perspectiva do cubismo para desenvolverem um estilo próprio, único, reconhecível a dez quilômetros de distância. Às vezes a gente encontra uma obra do início de carreira que ainda não chegou ao que mais tarde associamos ao estilo de cada um, mas invariavelmente há algo que já os destaca do resto.
Por vezes escolho as telas pelos tons usados, pelos objetos retratados.
Minha ideia original neste blog foi dar mais abertura à arte brasileira; não sou contra a arte abstrata como muitos imaginam, não sou não. Mas há dezesseis anos quando comecei este blog, sempre postando arte brasileira, a intenção era de trazer ao conhecimento de quem aqui entrasse da tradição em que mesmo uma obra abstrata se apoia. Eu ia a galerias de arte e só encontrava arte abstrata. As obras figurativas eram pobres e repetitivas. Muita ênfase no naïf. Fiquei, verdadeiramente abismada, de saber, lá há vinte anos atrás, que a arte figurativa não era nem ensinada em algumas escolas de belas artes. Como assim?
Enfim, por causa de minhas preferências, e todos nós temos nossas preferências, tenho que ter muito cuidado em não repetir sempre os mesmos artistas. Hoje aqui ficam dois dos meu favoritos do século XX;